O mito de ER faz parte do último livro, o X da República, uma obra que Platão escreveu a meio da vida e que trata da organização da sociedade, da justiça, da interligação entre a ética individual e social/política, da educação e da vida boa.
A República tem três grandes mitos: a Alegoria da Caverna sobre a educação e o caminho para a verdade e para a sabedoria; o mito do anel de Giges, que é acerca da acção moral: um pastor encontra um anel mágico que o torna invisível. Vai usá-lo para fazer crimes que não faria se fosse visto? E o mito de Er.
O mito de Er vem mesmo no fim do livro X e é sobre como conseguir viver uma vida boa e depois ser recompensado por ela, na morte. Nesta altura os gregos acreditam na imortalidade da alma. Quando se morre, a alma imortal separa-se do corpo onde se encontrava encerrada. O corpo corrompe-se porque é matéria mas a alma sobrevive e vai para o além para ser julgada e, em geral, volta para entrar em outro corpo, que pode ser de pessoa ou de animal.
O mito de Er é antecedido por uma crítica a certo tipo de poesia e de arte como sendo prejudiciais à educação e à sociedade - não, Platão não é contra a poesia e a arte, mas reconhece-lhes um poder de sedução emocional, de influência no extremar de sentimentos, em exacerbar as emoções e abafar a razão. Ora, se queremos educar para a verdade e se queremos ter uma sociedade de seres humanos justos temos de ser guiados pela razão e não pelas emoções.
Como ele diz, ou melhor, põe Sócrates a dizer a Gláucon, quando um pintor ou um poeta ou o nosso olho canta/pinta/vê uma mesa, vê-a de certa perspectiva particular que a faz parecer maior ou mais pequena ou de uma forma que não corresponde à sua realidade mas que nos afecta através da emoção, da sensação. O que não faz mal em si mesmo se tivermos consciência de que os sentimentos não são bons guias para o conhecimento da realidade e desde que não tomemos essa aparência particular como realidade. Para saber a realidade, neste caso da mesa, temos de usar a razão, a matemática: a medida, o peso, a geometria, etc.
Lá está a linguagem da matemática a não se traduzir na linguagem natural mas a ordenar o ruído em estrutura estável. Platão é um grande defensor da matemática como meio de desenvolver a razão e treinar os raciocínios.
Enfim, no mito de Er fica clara a importância de saber ajuizar independentemente das emoções e sentimentos, para saber escolher uma vida boa.
Então o que diz o mito?
Er o Arménio é um soldado que morre no campo de batalha e quando vêm buscar os cadáveres ao campo, todos estão já em putrefacção menos Er. Levam-no para casa e ao fim de doze dias põem-no na pira e ele acorda e conta o que viu naqueles dias enquanto esteve morto no além divino.
Todos os que chegam ao além são julgados pela vida que levaram e os justos são enviados para o céu e os injustos para o submundo, o Hades. Uns e outros ficam no seu sítio mil anos e depois regressam para reencarnar. A cada um são dados os bens ou os males que fizeram em vida, multiplicados por dez, consoante foram para o céu ou para o Hades, como recompensa ou castigo, respectivamente.
Os especialmente maus como os tiranos ou os que cometeram assassínios horríveis e imperdoáveis são atirados para o Tártaro, um abismo escuro que fica muito abaixo e separado do Hades e ficam lá para sempre nesse mundo habitado por monstros, iníquos e deuses e homens caídos em desgraça e castigados.
O além divino e o Hades são um limbo e o que interessa no mito é o que se passa a seguir quando escolhem uma vida para reencarnar. Ao fim de mil anos, os justos e os injustos são postos diante de um grande número de estilos de vidas para escolherem em qual querem reencarnar. Vão escolhendo à vez, por ordem, mas há sempre um número de vidas grande para escolher, mesmo que se seja o último da fila.
Destas vidas à escolha, só se sabe as circunstâncias, não o conteúdo: sabe se é humano ou animal, rico, alto, baixo, ilustre ou desconhecido, belo ou normal, soldado, actor, se vai perder os filhos, se vai ser um tirano, etc. Portanto, as vidas têm algumas consequências que lhes são inerentes.
Uma das Parcas, as filhas da Necessidade, diz-lhes que nenhuma vida tem senhor (cada um é o senhor de si), cada um é que escolhe a que quer e que a virtude não é dada (não está pré-determinada) nem é responsabilidade dos deuses. Cada um será virtuoso ou iníquo consoante o que fizerem com a vida que escolheram. "O deus é isento de culpa", diz. Portanto, o tipo de carácter que a pessoa terá e o que fará com ele é da sua responsabilidade. É ele que preenche a sua própria vida.
"Mesmo para quem escolher em último lugar, se escolher com inteligência, poderá ter uma vida digna e apetecível", diz a Parca. Porém a vida, uma vez escolhida, é fiada no fuso da deusa da Necessidade e não tem caminho de volta.
Por conseguinte, sabendo que, se escolherem uma vida com condições mais propícias à impiedade e ao vício poderão após a morte dessa vida ir parar mil anos ao Hades a sofrer dez vezes o que fizeram ou até ao Tártaro do qual não se regressa, saber escolher a vida cujas circunstâncias são propícias a uma vida boa, honesta e justa e poder, vida após vida, e ter mil anos de recompensa no além divino, é o ponto principal do mito.
Como ter essa sabedoria? Se todos na República soubessem escolher uma vida boa e justa, a República reflectiria essa escolha, como um todo. Daí também a importância da educação, da República educar para a verdade e para a sabedoria e não para a aparência e desregulação das emoções e sentimentos que levam à injustiça e ao vício.
O que nos é dito no mito é que a maioria das pessoas faz más escolhas e escolhe reactivamente, como reacção à sua vida anterior. Muitos dos heróis de Homero estão ali e Er conta como escolheram reactivamente. Orfeu escolhe ser um cisne porque, devido ao seu ódio às mulheres, não queria nascer de uma; Ajax, farto das lutas com homens, escolheu ser um leão; Agamemnon, cheio de ódio à raça humana por causa dos seus padecimentos, escolhe ser uma águia.
Logo o primeiro a escolher, cheio de cobiça, escolhe a vida de um tirano, porque só vê o poder e a riqueza, sem reparar que nas consequências dessa vida, havia a circunstância de acabar a comer os seus próprios filhos e sofrer muitos males. Quando vê, já depois da escolha feita, põe as mãos à cabeça e chora a desgraça da sua má sorte. Ora, este vinha de uma vida anterior de tirano e tinha ido parar ao céu em vez de ser atirado ao Tártaro. Como é isto possível? Bem, ele tinha tido a sorte de tudo lhe ter corrido bem na vida e, dessa maneira, ter praticado a virtude, não pela convicção da sabedoria, mas pelo hábito e pela limitação de não ter conhecido a injustiça. Não teve circunstâncias em que teve de escolher fazer o mal para conseguir o que sempre tinha tido e desconhecia essas circunstâncias. Lembra a história do anel de Giges. Aquelas pessoas que tendo nascido muito ricas e com muito poder, são generosas e virtuosas, se fossem privadas dessas circunstâncias, o que mostraria o seu carácter? E aquelas que não fazem o mal porque não têm poder? Se o tivessem tornavam-se tiranas?
Portanto, Platão avisa-nos que não devemos confundir impotência ou sorte, com virtude. Por exemplo, sei de muitos estudantes, bons alunos, que vêm de uma cidade relativamente pequena, onde são cuidados e guardados por uma família coesa, que ao entrar na universidade, e isto é mais válido se forem para longe e deixarem de viver com as famílias, se perdem logo no primeiro semestre: festas, bebida, drogas, noitadas. As suas virtudes eram mais devidas ao hábito e à falta de oportunidade que a alguma sabedoria da virtude.
Er vai contando as escolhas, umas surpreendentes, outras ridículas, outras dignas de piedade. Er conta que a maioria das pessoas, sobretudo aquelas que foram para o além divino por mil anos, escolhe sem pensar, com excesso de optimismo, apenas pelo brilho das vidas, atraídos por riqueza, fama e outros factores de facilidade aparentes, sem pensar nas consequências dessas vidas serem propícias ao vício, à injustiça e ao sofrimento. Não têm memória de sofrimento ou de consequências inesperadas negativas porque estiveram por mil anos num Estado bem ordenado onde tudo era bom. Faz lembrar aquelas pessoas que tendo nascido e vivido em Estados democráticos pacíficos onde sempre tiveram acesso a todos os direitos entenderem que todos os outros são igualmente democratas, virtuosos e pacíficos, só por serem também seres humanos.
Já as que estiveram no Hades e muito penaram durante mil anos pela escolha da vida anterior, têm mais cuidado a escolher porque sabem como tudo pode correr mal e o sofrimento que daí advém, mas também escolhem mais a evitar males do que que a perceber as circunstâncias favoráveis a uma boa vida.
O último a escolher é Odisseu (Ulisses). Ainda tem algumas vidas para escolher, mas já não muitas - a questão é que, mesmo com poucas escolhas, ele tira o melhor partido delas. Ulisses, lembrando-se da sua vida anterior, de tantos trabalhos, "procurou demoradamente uma vida tranquila, sem ambição e encontrou-a a um canto, desprezada pelos outros". Diz que, mesmo que tivesse sido o primeiro a escolher, aquela era a vida que escolheria.
Ulisses escolhe, não a vida perfeita, essa não existe porque todas vêm com consequências, mas a melhor possível para a vida numa República imperfeita: uma vida moderada, sem extremos que são circunstâncias que costumam conduzir a uma vida de sofrimento e impiedade.
Ulisses escolheu com sabedoria? Platão não nos diz isso e Ulisses não é conhecido por ser sábio, mas esperto e engenhoso. Platão diz-nos que ele escolheu, lembrando-se dos tormentos que passou na vida anterior. Portanto, também ele escolhe reactivamente. Qual é a diferença entre ele e os outros? Bem, Ulisses viveu muitas vidas na sua vida anterior. Teve tantas aventuras, viu tantas vidas, de deuses e homens poderosos e mendigos e animais que sabe os perigos e os vícios de cada uma delas e daí que seja mais cuidadoso na escolha.
Platão diz-nos que depois de todos terem escolhido as suas vidas, foram até ao rio Lete beber da sua água. Lete é o rio do esquecimento. Alguns imprudentemente, beberam tanta água que esquecem tudo o que tinham aprendido. Desperdiçaram a experiência de vida, não aprenderam nada. Não sujeitaram a sua experiência a uma auditoria, digamos assim, para lhe perceber os erros e evitá-los. Quer dizer que do rio do esquecimento deve beber-se com moderação. Nem beber tão pouco que se fique preso ao passado sempre a agir reactivamente, nem beber tanto que se desperdice os ensinamentos da experiência do passado.
Então, talvez Platão nos queira dizer que a prática da virtude depende das escolhas de vida que fizermos, da moderação, que é mais conducente à justiça e à virtude que o excesso, que as nossas escolhas individuais têm impacto na República, que devemos guiarmos-nos pela razão e não por emocionalismos extremos e que retirar conhecimentos e ensinamentos da experiência de vida, juntamente com uma educação para a verdade e para a prática da sabedoria nos beneficia, vida após vida, com milhares de anos de recompensa no além divino, junto dos justos. Esta parte das recompensas no além passa-me ao lado, mas tudo o resto faz muito sentido quando se considera a questão de construir uma vida boa - com alguns senões que Platão não considera, mas isso não é para agora.
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