April 06, 2026

Prudência de Macron - vendeu o ouro que a França tinha nos EUA e comprou ouro na Europa

 


Infográfico - Queda nos resultados da Finlândia no PISA desde 2000 (Leitura, Matemática, Ciências)

 


u/Necessary-Opening694


Infográfico deste dia - evolução dos salários, preço da habitação e comida na Europa



 

u/Geozofija

Durante 4 séculos havia homens que acreditavam serem feitos de vidro - Carlos VI foi um deles


 

Miniature of the bedridden Charles VI, from a 15th century manuscript of Jean Froissart's Chroniques (BnF FR 2646)


What’s wrong? Well everywhere he’s . . . made of glass, you see;
The chairs will be the death of him, he trembles at the bed,
Fearful the one will break his bum, the other smash his head . . .
—Constantijn Huygens, “Costly Folly”, 1642

Inverno de 1393: Paris tem estado fria há semanas. O Sena não está completamente gelado, mas move-se espesso, transportando blocos de gelo que embatem nos pilares das pontes e depois se afastam a girar. No Hôtel Saint-Pol, residência do rei, os corredores estão húmidos apesar das lareiras acesas. E, num quarto perto da parede oriental, um alfaiate real trabalha.

Nesse mês, o rei pediu que se cosesse varetas de ferro no forro das suas roupas. Não armadura — a armadura tem os seus próprios artesãos, a sua própria lógica. Eram peças comuns: o casaco, o gibão. As varetas deveriam percorrer o torso, sustentar a estrutura, manter tudo rígido. O rei, nessa altura, não saía dos seus aposentos há semanas. Carlos VI de França, “o Amado”, tinha então vinte e quatro anos. Durante alguns anos, gerira com sucesso o legado do pai: a corte, as facções, os ingleses, o problema constante do dinheiro.

Depois começou a acreditar que o seu corpo era de vidro. Não como figura de estilo para fragilidade ou para o peso do poder. Pensava que o seu corpo podia literalmente estilhaçar-se, refractar a luz. Como registou o papa Pio II: “Por vezes pensava ser feito de vidro e não permitia que lhe tocassem. Mandou colocar varetas de ferro nas roupas e protegia-se de todas as maneiras para não cair e partir-se.”

Semanas antes da encomenda ao alfaiate, numa sala não muito longe dali, o edifício tinha estado em chamas. O incêndio deflagrou durante um baile de máscaras de inverno: Carlos e cinco nobres estavam vestidos de homens selvagens, com trajes de linho embebidos em pez, negros e pegajosos, e cobertos de linho para parecerem pêlo. Uma faísca, vinda de algum lado. O pez incendiou-se; arderam. Quatro nobres morreram queimados onde estavam. Carlos sobreviveu apenas porque a sua tia, a duquesa de Berry, lançou as saias sobre ele e abafou as chamas. Ficou na sala devastada, com o cheiro a cabelo queimado por todo o lado, a pele intacta, a tremer. A noite ficou conhecida como o Bal des Ardents: o Baile dos Ardentes.

Miniature of the Bal des Ardents, from a manuscript of Jean Froissart's Chroniques (BL Harley 4380), ca. 1770–72 — Source.


Cinco meses antes do incêndio, Carlos tinha saído de Paris à frente de um exército. Um amigo e conselheiro fora atacado — quase morto — e o responsável refugiara-se na Bretanha. Carlos procurava vingança. Ao atravessarem a floresta numa manhã quente de agosto, um leproso descalço e em farrapos saiu das árvores e agarrou as rédeas do rei. “Volta para trás”, gritou. “Estás a ser traído.” Quando a comitiva saiu finalmente da floresta, era meio-dia. Um pajem, entorpecido pelo calor, deixou cair uma lança. Esta bateu num elmo e o som ecoou pela coluna. Carlos estremeceu. Sacou da espada e gritou: os traidores, aqueles de que o homem descalço o avisara, pareciam estar ali, à sua volta. Os cavaleiros dispersaram. Alguns demasiado lentos. Ele matou quatro antes que os outros o arrancassem do cavalo. Quando o puxaram para baixo, estava rígido, olhos abertos, inacessível, ainda a segurar a espada. Quando chegaram a Le Mans, tinha amolecido. Não se lembrava de nada.

Violência, depois fogo, depois vidro — como se o corpo tivesse de ensaiar a sua vulnerabilidade antes de se fixar na metáfora final.

E depois a condição apareceu noutros.

Os pacientes “apareciam sob várias formas”, escreve a historiadora literária Gill Speak, cujo estudo de 1990 continua a ser o relato mais consistente da chamada «ilusão de vidro». “Podia ser um urinol, uma lâmpada de óleo ou outro recipiente de vidro, ou então podia ele próprio estar preso dentro de uma garrafa de vidro.”

Os homens vinham dos Países Baixos, de França, de Espanha — documentados na literatura médica ao longo de quatro séculos, cada um com um auto-diagnóstico preciso e terrível. O médico holandês Levinus Lemnius tratou um paciente perfeitamente racional em tudo menos numa coisa: a convicção absoluta de que as suas nádegas eram feitas do mesmo material que os vidros das janelas. Os médicos André Du Laurens e Alfonso Ponce de Santa Cruz descreveram independentemente um nobre que acreditava ter a forma específica de um jarro de vidro. Não apenas feito de vidro, mas também contido por ele: dormia enterrado em palha, aterrorizado com a ideia de tombar durante a noite e ver-se derramado pelo chão. (Du Laurens registou também um paciente que acreditava que os seus pés eram de vidro e se recusava a andar.)

Em The Optick Glasse of Humors (1607), o clérigo Thomas Walkington recorda um veneziano agorafóbico que temia que as suas “partes traseiras estaladiças” fossem recolhidas por um vidraceiro para fazer vidraças de uma janela. E o polímata renascentista Tommaso Garzoni descreveu um homem que tentou atirar-se para o forno de um vidraceiro e sair de lá como uma inghistara, uma jarra de pescoço longo sem asa. A maioria dos casos dizia respeito a sobreviver como vidro; este era sobre tornar-se vidro.

Nicolas de Larmessin, Habit de vitrier (Glassmaker’s uniform), ca. 1680–1700 — Source.

Os casos acumularam-se na literatura médica — anotados por um médico, citados por outro, surgindo em tratados de Leiden a Paris, de Amesterdão a Lyon. O homem de vidro captou também a imaginação de escritores por toda a Europa; em particular, um romancista espanhol e um filósofo holandês — cada um recorrendo à mesma figura, cada um encontrando nela algo diferente.

Em 1613, no auge da sua fama, Miguel de Cervantes publicou uma coleção de doze novelas curtas, as Novelas Exemplares. A décima primeira era “El licenciado Vidriera”. Contava a história de Tomás Rodaja, estudante de Direito em Salamanca, brilhante e pobre. Uma mulher apaixona-se por ele; ele não corresponde. Ela dá-lhe um filtro amoroso numa marmelada e Tomás come-o. Quando sai da febre, declara: é um homem de vidro, não de carne e osso.

Nas mãos de Cervantes, o delírio torna-se uma espécie de liberdade. Obcecado em proteger o corpo, Tomás deixa de medir palavras. A sua fala torna-se transparente, sem filtros. Critica homens com barbas tingidas; repreende um livreiro por explorar clientes. Um homem pergunta como deixar de invejar os outros. “Vai dormir”, responde Tomás. “Enquanto dormes, és igual àquele que invejas.”

Algumas décadas depois, René Descartes propôs-se duvidar de tudo o que pudesse ser posto em causa. Mas fez questão de distinguir as suas dúvidas — metódicas, filosóficas — das de uma mente perturbada. Para isso, evocou exemplos já correntes: um homem que pensa ser rei sendo pobre; outro que pensa que a sua cabeça é de barro; outro que acredita que o corpo é de vidro. Esses, escreveu, são loucos.

Séculos mais tarde, Michel Foucault argumentaria que Descartes não excluiu o homem de vidro — usou-o para definir o que conta como pensamento válido. E Jacques Derrida responderia que, ao aproximar sonho e loucura, Descartes tinha tornado a própria razão suspeita.

Porquê o vidro? Os estudiosos sugerem duas explicações. A primeira é material: no século XVI, a visão humana estava a ser transformada. Lentes, telescópios, microscópios — todos dependentes do vidro, especialmente o vidro refinado de Murano, quase invisível. A segunda é social: um contágio cultural entre homens letrados que liam os mesmos textos, conheciam os mesmos casos, partilhavam a mesma linguagem para o sofrimento.

Talvez sejam a mesma coisa: o vidro tornou-se simultaneamente omnipresente e estranho — perfeito como metáfora para uma mente sob pressão.

Antes de desaparecer, o fenómeno produziu um último caso notável: pela primeira vez, uma mulher. A princesa Alexandra Amalie da Baviera, nascida em 1826, desenvolveu a convicção de que tinha engolido um piano de cauda feito de vidro. Não que fosse de vidro — mas que o continha. No contexto da corte bávara, o piano era central para o valor social de uma mulher: talento, casamento, reconhecimento. Alexandra viveu o resto da vida a atravessar portas de lado, com extremo cuidado para não “partir” o piano dentro de si.

Replica of Joseph Karl Stieler’s portrait of Princess Alexandra Amalie of Bavaria for the Gallery of Beauties in Nymphenburg Palace, 1845 after 1838 original — Source.


Continuou, no entanto, a escrever: ensaios sobre as pirâmides de Gizé, sobre a dinastia merovíngia.

O delírio do vidro desapareceu da literatura médica em meados do século XIX. Nunca foi comum — mas, durante um período, o vidro tornou-se suficientemente carregado de significado para expressar o que não podia ser dito de outra forma.

O antropólogo médico Mark Nichter, desenvolvendo ideias de Arthur Kleinman, propôs que o sofrimento encontra “idiomas culturais”: formas de expressão que o mundo reconhece. O delírio do vidro era um desses idiomas. Um corpo de vidro não pode ir à guerra, não pode casar, não pode cumprir as exigências da vida cortesã.

Quando o vidro deixou de ser estranho, o idioma perdeu força. Mas o medo não desapareceu — apenas mudou de forma. Veio o telégrafo, os raios invisíveis, a guerra industrial. No pós-guerra, pacientes descritos por Viktor Tausk acreditavam que máquinas invisíveis controlavam os seus pensamentos.

No inverno de 1393, o alfaiate termina o trabalho. O fio atravessa o tecido pesado; as varetas são sólidas, reais nas suas mãos. As costuras resistem. Em breve, o rei vestirá a roupa — e sobreviverá mais um dia dentro de um corpo que nunca foi de vidro, protegido por ferro contra uma fragilidade que existia apenas na sua mente.

Tinha matado homens sem se lembrar. Tinha visto quatro cortesãos arderem vivos numa festa que organizara. Era rei de França desde os onze anos.

Se isso me tivesse acontecido, creio que também acreditaria ser feito de vidro.


Até que enfim que alguém diz publicamente o óbvio

 

Isto pode ser dito da esquerda em geral

 

O Partido Trabalhista encontra-se agora na posição mais ridiculamente paradoxal que se possa imaginar. Depois de passar anos a apresentar-se como os guardiões virtuosos da compaixão, do internacionalismo e da superioridade moral, descobriu de repente que a imigração sem limites, as fronteiras porosas e a virtude de fachada têm consequências. Não são consequências abstratas. Não são consequências teóricas. Consequências reais. Pressão sobre a habitação. Pressão sobre os salários. Pressão sobre as escolas, os serviços e a coesão social. E, tendo finalmente tropeçado nessa verdade ofuscante, tentam agora parecer duros enquanto metade do seu próprio partido grita como se alguém tivesse ateado fogo a um cesto de quinoa.     - Guy Montrose


Não é preciso saber de mecânica para ver que um carro está desgovernado em direcção ao desastre

 

Marta Temido: “Não reconheço ao primeiro-ministro conhecimento setorial para falar de caos na Saúde deixado pelo PS”   -DN
Que o PS deixou a Saúde num caos todos o vemos. Não é preciso saber de mecânica ou até ter carta de condução para ver que um carro está desgovernado em direcção ao desastre e, que uma parte da viagem foi feita com Temido ao volante. Outra coisa diferente é vermos que este governo não sabe consertar o carro e evitar mais desastres porque o problema não é meramente mecânico, o problema é o windigo dos condutores, do fabricante de automóveis e de peças, o dono dos combustíveis, etc. que neste caso são, as farmacêuticas, os accionistas dos hospitais privados, os gestores dos hospitais públicos, os políticos que conduzem a máquina, todos eles estão afectados de windigo: pura ganância de ter mais e mais e mais, para a qual necessitam de explorar outros até ao tutano. O problema não é só português, pois esta forma de capitalismo narcísico onde pessoas que têm 200 biliões despedem milhares de trabalhadores para terem mais biliões e os que trabalham de sol a sol, mesmo assim não têm dinheiro para se sustentarem mais aos filhos, está espalhada pelo mundo. Temido podia estar a contribuir com soluções para o problema mas em vez disso escolhe fazer parte dele.

Blast from the past (06.04.09)


 



Os três da vida airada - o marquês

por beatriz j a, em 06.04.09



F -Que é que tens aí na mão?

C - Tou a fazer um despacho.

R - É para mim, é para mim? Mais um para os professorzecos?

C - Éh pá! Cala-te com isso. Tás obcecada! Essa porcaria dos teus despachos só têm feito barracas. Ainda agora tamos a desembrulhar o caso do outro das fotocópias!

R - Foi o dog que mo indicou.

C - O dog? Que dog?

F - Ela está a falar do melhor amigo do homem...eheh

C - ahhh...pois é esse memo que vai publicar o meu despacho.

F - Mas afinal que despacho é esse?

C - Estou a pensar no futuro. Quero ficar na História como alguém importante e vou mandar pôr o meu nome no Almanaque da Gota!

R - da Gota?

F - Ele quer dizer de Gotha...já sabes que só lê pelo Magalhães!

R - Estou farta da m....do Magalhães. Se nos lixarmos todos a culpa é tua!

C - É tua, mas é.

R - É tua.

F - Parem com isso! Olha lá, isso de vir no Almanaque de Gotha não é assim, por despacho.

C - Não? Porquê? Aqui a R fez um museu e pôs-se lá com um ar importante e vai ficar para a História. Eu também quero.

R - És burro, não sabes fazer as coisas.

C - Burra és tu.

R - És tu.

F - Calem-se! Olha lá, para se estar no Gotha é preciso pertencer à nobreza, ter título.

R - Titular? Titular? Queres ver que determinei uma data de nobres? Sou mesmo importante!

F - És memo memo parva. Título de nobreza, como ser Conde ou Marquês.

C - Marquês? Marquês? Atão tou safo, que sorte a minha!

F - Olha lá ó palerma, desde quando és Marquês?

C - És memo memo burro. Atão não sabes que sou engenheiro de marquises? Ah ah...Sou Marquês. Eu, José, como aquele, que tá com o leão na Rotunda. Ah...e que cabeleira que ele tem. Linda de morrer! Tamém quero uma. Quero uma estátua. Eu, lá em cima, o Magalhães na mão. No Rossio. Tiramos o gajo que lá está - até dizem que é um brasileiro qualquer - e fico eu no Rossio. Praça do Engenheiro Marquês!

F - Tás a sonhar!

C - Tou? Vais ver! Chama lá o dog. Ele vai já publicar o despacho e daqui em diante quero ser tratado por senhor engenheiro marquês. Olarilas! E quem não me chamar assim, vai ter represálias, vai vender cachorros pro Freepor!

April 05, 2026

Livros - "Não há grande génio sem um toque de loucura"


 

«Não há grande génio sem um toque de loucura» é uma frase de Séneca, o Jovem, que a atribuiu a Aristóteles. Na sua obra Problemata, Aristóteles argumentou que todos os indivíduos excepcionais — quer na filosofia, na política, na poesia ou nas artes — eram, de alguma forma, melancólicos. Não no sentido actual de doença mental mas no sentido de natureza intensa, dada à meditação profunda e contemplativa, que permite ver além dos limites convencionais, desafiar as normas e pensar de forma diferente. 

Ao contrário de Platão que via o génio criativo como um daímon, uma ligação do humano ao divino, uma espécie de dom atribuído pelos deuses,  Aristóteles via a «loucura» do génio como um temperamento natural, instável — uma melancolia «quente» ou «fria», mas sempre de excesso emocional.

Este livro, escrito por Margot e Rudolf Wittkower, um casal de Berlim que fugiu da Alemanha nos anos 30, primeiro para Inglaterra, depois para os EUA, retoma essa ideia da Melancolia como fonte do génio criativo. 

Daí o título do livro, Nascido sob Saturno - Saturno é o deus da melancolia e dos melancólicos diz-se que têm uma disposição saturnina - e daí, também,  a primeira página trazer uma representação da Melancolia de Jacob Gheyn.

Margot e Rudolf Wittkower são Historiadores de Arte e escreveram este livro, publicado pela primeira vez em 1963 pela Random House, conscientemente contra as interpretações psicanalíticas da arte e dos artistas que vinham sendo cada vez mais a norma.

O livro trata da vida e obra de artistas: quem eram, o que era o seu contexto e o seu tempo, o que os inspirou e o que são as suas obras. O livro é excelente porque junta a informação e o insight a uma escrita muito cativante. O género de livro em que se pega e já não se pousa. Exactamente o que estava a precisar pois, vendo bem, vendo bem, também eu ando a ler menos por causa da internet...

Enfim, aconselho vivamente a todos os que se interessam pelo assunto e a todos os curiosos sobre a natureza da alteridade dos artistas, pessoas que sendo como nós, não o são.

Blast from the Past (05-04-2009)



O que se passava neste dia em 2009? O rescaldo do caso Casa Pia e o início do 'Freeport'

Nó-do-diabo

por beatriz j a, em 05.04.09

Hoje, em Almada, o irmão do moço que tira fotocópias a preços caríssimos - aquele que acusou miúdos vítimas de abusos de serem os maus da fita -, rodeado de senhoras com ar de noelistas, comparou-se mais à sua situação ao Humberto Delgado!


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Os 'simplexes' das democracias

por beatriz j a, em 05.04.09

Hoje, um artigo de opinião de Catalina Pestana, no JN, fez-me adiantar a leitura do 1º volume dos Diários de Victor Klemperer intitulado I Shall Bear Witness.

No artigo diz Catalina que é difícil apercebermo-nos do 'mal' na sua origem, mas que são as pequenas cedências, as pequenas complacências que aos poucos lhe vão dando espaço e poder.

Lembrei-me do Victor Klemperer - um judeu de Dresden, linguista e professor universitário que sobreviveu à guerra sem ser deportado, devido à mulher ser uma alemã ariana e ao facto de ter aproveitado os bombardeamentos da cidade para, no meio do caos, arrancar a estrela amarela e fugir com a mulher passando por alemão.

Os seus diários são únicos. Klemeperer, um indivíduo honesto, culto e inteligente, escreve-os sem intenção nenhuma de os publicar de modo que não os retoca nem melhora com efeitos estéticos. São um documento único do dia-a-dia da Alemanha nazi nos doze anos que durou o Reich (de1933 a 1945) dos mil anos.

Klemperer vai registando, nos acontecimentos diários, a degradação progressiva dos valores e da vida alemães; o modo como o nazismo progride pela ameaça, pela corrupção, pelo medo e pela conivência das cedências que o povo vai fazendo aos seus líderes.

Uma obra extremamente pedagógica no modo como ensina a olhar para os acontecimentos vendo o que se esconde por detrás, nas intenções.

Um pequeno excerto, da entrada de 23 de Março de 1936:

"Será um tremendo triunfo para o governo (refere-se às eleições na sequência da ocupação da Renânia e da dissolução do Reichstag). Vai receber milhões de votos para a 'paz e liberdade'. Não vai necessitar de forjar um único voto. A política interna está completamente esquecida. - Exemplo: Martha Wiechmann, que recentemente nos visitou e que era completamente democrática. Agora diz: nada me impressionou tanto como o rearmamento e a marcha sobre a Renânia.
(...)
Impressiona os poderes estrangeiros e, apesar da condenação da Liga das Nações (...) é uma tremenda vitória para Hitler. Ele voa de um lugar para outro a fazer discursos triunfais. A Ópera Kroll chama-se agora Reichstag. Adequado: os eleitos hão-de ser coros, figurantes, a claque! Hitler disse recentemente: Eu não sou um ditador, eu apenas simplifiquei a democracia.

Também as moedas de Napoleão, de início, traziam as palavras, «República Francesa»."


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Freeport, mafiosos e bandidos? O povo sozinho....

por beatriz j a, em 05.04.09

No DN
"Isto vai ser outro processo Casa Pia"
por CARLOS RODRIGUES LIMA

Lopes da Mota terá comparado o caso ao processo da Casa Pia e às consequências que o primeiro poderia ter no Ministério Público, dizendo a Vítor Magalhães e Paes de Faria que ambos estavam "sozinhos sem apoio". O Procurador-geral omitiu os pormenores dos contactos na reunião do Conselho Superior. O presidente do Eurojust volta a negar qualquer pressão.

"Isto (caso Freeport) vai ser outro processo Casa Pia para o Ministério Público", "vocês estão sozinhos nisto e lixados", foram algumas das expressões, confirmadas pelo DN junto de um procurador que acompanhou todos os contactos.

"Os colegas estão de rastos com toda a situação. Sobretudo o Magalhães para quem Lopes da Mota era um motivo de orgulho pelo facto de ser um português a presidir a uma organismo europeu de cooperação judiciária", disse ao DN a mesma fonte do DCIAP.
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Estas declarações, a serem verdade, são de gravidade institucional.

Não são apenas as ameaças que se fazem aos investigadores sobre as suas pessoas e carreiras, mas é também a referência a interferências num outro caso - o da Casa Pia - e ao modo como o processo foi manipulado - para que não tocasse em certas pessoas e lixasse apenas um ou outro dos que, ou não se calaram ou não conseguiram fugir?

Toda esta conversa que se terá passado, parece tirada dum filme de mafiosos onde uns ameaçam outros para os intimidarem e impedirem de denunciar. A diferença é que, nos filmes de mafiosos, eles subornam algumas peças do poder judicial e executivo, enquanto que aqui, nesta situação real e não fictícia, os mafiosos serão os próprios poderes executivo e judicial...?

Isto é tão grave que não se entende como e porque é que o Presidente da República ainda não fez uma comunicação ao País, pelo menos a dizer que está atento. Isso é o mínimo, acho eu... para que não se instale um clima de impunidade sistemática.

Quem o incomoda são alguns jornalistas e alguns bloguistas: gente com pouco poder.

Fazendo e dizendo nada o Presidente passa a mensagem que não está para ter chatices e que nos deixa a nós, povo, sozinhos a lidar com isto. Então, tornam-se dramaticamente verdadeiras as supostas palavras de Lopes da Mota: «vocês estão sozinhos nisto e lixados.»

April 04, 2026

O mesmo se aplica ao regime de Putin

 




Os ingleses estão chateado com o rei

 

E parece que corre o rumor de que o rei se converteu ao Islão.

Porque é que não fazem legislação para impedir criminosos de usar IA para roubar pessoas?

 

Vamos voltar ao século XIX. Os músicos cantam directamente para um público restrito, nada fica gravado. É uma experiência única e irrepetível. Em alternativa, quem fizer dinheiro com cópias de artistas feitas com IA vai preso.

Todos os dias notícias dos crimes russos

 

Líderes que mostram ser parceiros activos de Putin têm de enfrentar consequências, de uma maneira ou de outra.

"My head is bloody, but unbowed"

 

Henry Thoreau

 



Henry Thoreau

(...)

Dizem que a banheira do rei Tching-thang tinha gravado caracteres que diziam: 'Renova-te completamente todos os dias; fá-lo uma e outra vez e sempre'. Consigo compreender isto.

(...) Devemos aprender a 're-acordar' e a manter-nos acordados, não mecanicamente mas por uma infinita expectativa da manhã que não nos esquece mesmo no nosso sono mais profundo.

Não conheço facto mais encorajador que a inquestionável capacidade que o homem tem de elevar a sua vida através dum esforço consciente.

Uma coisa é pintar uma pintura ou esculpir uma escultura, e fazer assim alguns objectos belos; mas muito mais glorioso é esculpir e pintar a própria atmosfera e meio pelo qual olhamos, o que moralmente podemos fazer. Afectar a qualidade do dia, essa é a maior das artes.

Todo o homem tem a tarefa de fazer a sua vida, até nos pequenos detalhes, merecedora da contemplação da sua hora mais crítica e elevada.


Windigo



Este texto é interessante mas enferma dos mesmos erros que outros antes dele cometeram, que é atribuir ao capitalismo moderno a ganância humana e depois usar o colonialismo, a supremacia branca e a escravatura modernas como provas. Só que não são provas porque sempre houve ganância, sempre houve colonialismo e escravatura e a supremacia nem sempre foi branca.

As civilizações antigas capturavam países inteiros e colonizavam-nos e os testemunhos civilizacionais que ainda existem mostram a dimensão da grandiosidade da sua ganância. Os impérios antigos fizeram-nos, os romanos fizeram-nos, os otomanos (que não eram brancos) fizeram-no e os islamitas ainda o fazem, ainda continuam a colonizar e a chamar os seus povos para o domínio da colonização. No entanto, não são capitalistas.

Antes da escravatura moderna, já havia comércio de escravos no Índico. Os islamitas do Império Otomano mercadejavam escravos, os homens eram castrados e usados em haréns ou em trabalhos forçados, as mulheres como escravas sexuais. O mercado de escravas sexuais brancas (amplamente descrito por vários autores da época e ilustrado por pintores orientalistas) era um dos maiores negócios, tendo por base a supremacia islamita - esse continua.

Portanto, o que diferencia a ganância dos tempos modernos foi o nascimento da ciência moderna vir trazer eficiência a esse fenómeno e organizá-lo de um modo extraordinário, por um lado, pois nunca o ser humano viveu com tanto conforto e esperança de vida, mas catastrófico para a saúde do mundo e para o equilíbrio das sociedades. 

Não se pode ver só o lado negativo do capitalismo pois é o seu lado positivo que o mantém inalterável. As sociedades socialistas são sociedades de miséria e autoritarismo. 

Portanto, não se deve distorcer e esconder o que pertence à natureza humana, em todas as épocas e civilizações, por questões ideológicas. Isso não vai ajudar a resolver os problemas.


A doença da nossa civilização tem um nome: Windigo

A sabedoria indígena oferece um diagnóstico para o que aflige o nosso mundo — e compreendê-lo é o primeiro passo para a cura.

Jeremy Lent in 
jeremylent.substack.com/p/our-civilizations-disease-has-a-name

Algo está a devorar o nosso mundo. As florestas colapsam. As espécies desaparecem. Milhares de milhões vivem numa pobreza esmagadora enquanto algumas centenas de indivíduos acumulam riqueza para além de qualquer imaginação. 

As pessoas atribuem isto a más políticas, políticos corruptos ou à ganância individual. Mas e se o problema for mais profundo — enraizado não em decisões particulares, mas na própria essência da nossa civilização?

Num capítulo do meu novo livro Ecocivilization, exploro esta questão através de um poderoso mito indígena: o Windigo.

Windigo (também conhecido como Wetiko) é o nome dado pelos Ojibwe a um monstro canibal movido por uma fome insaciável. Quanto mais consome, mais voraz se torna. Nunca pode ser saciado, porque o seu apetite não se orienta para o sustento, mas para o próprio devorar em si mesmo. 

Para os Ojibwe, os invasores europeus que chegaram às suas terras pareciam animados por uma força desse tipo. Confrontados com conquistadores que matavam, escravizavam e traíam em busca de ouro, reconheceram uma espécie de desarranjo espiritual, uma fome que transformava tudo o que encontrava em objecto de exploração.

O monstro Windigo

O monstro é o sistema

Esta metáfora oferece um diagnóstico assustadoramente preciso do sistema dominante que veio a engolir o mundo. No seu cerne está um modo de ver que objectifica tanto os humanos como os não humanos. As florestas tornam-se reservas de madeira. Os animais tornam-se gado. Os oceanos tornam-se pescarias. As pessoas tornam-se factores de produção ou recursos humanos. 

Quando o mundo vivo é reduzido a um stock de activos exploráveis, os limites morais dissolvem-se.

Considere a lógica estrutural da nossa economia. Uma empresa que priorize o bem-estar dos seus trabalhadores em detrimento dos lucros trimestrais verá a sua competitividade diminuir e acabará por ser eliminada por rivais que não o fazem. Um investidor que escolha a preservação ecológica em vez do lucro máximo ficará para trás face a outro que não o faça. Um líder político que proponha limites reais ao crescimento será ultrapassado em financiamento e derrotado por interesses que lucram com o status quo

Os indivíduos mudam; o comportamento persiste. Este é o sinal distintivo de uma patologia sistémica — não agentes desviantes, mas uma estrutura que produz os mesmos resultados destrutivos independentemente de quem ocupa os seus papéis.

É a isto que chamo Windigo Inc.: a institucionalização da fome insaciável como princípio organizador da nossa civilização. Não é uma conspiração. Não exige vilões (embora os produza). É um sistema auto-reforçador que recompensa a extracção e penaliza a contenção, que transforma tudo o que é vivo — florestas, aquíferos, relações humanas, a própria Terra — em recursos a consumir na busca de um crescimento sem fim.

O surgimento do Windigo

Esta mentalidade não surgiu do nada. O meu capítulo traça uma história mais longa de como as sociedades hierárquicas, a propriedade privada, o império e a extração militarizada formaram progressivamente uma “bomba de riqueza” com cinco mil anos, canalizando excedentes de muitos para poucos. 

Praticamente todos os Estados antigos, primeiros impérios e ordens aristocráticas organizaram a sociedade em torno deste padrão. 

Mas o capitalismo moderno introduziu algo de distintivo e ainda mais perigoso. Imprimiu nesta longa história de dominação uma visão do mundo que tratava a natureza como uma máquina, o conhecimento como poder e a acumulação ilimitada como um imperativo civilizacional.

Foi esta a visão mecanicista que se formou na Europa da primeira modernidade e que serve de paradigma ontológico do mundo moderno. Não é coincidência que tenha sido neste tempo e lugar que surgiram a sociedade por acções de responsabilidade limitada, a supremacia branca e o colonialismo: um projecto que tratava continentes inteiros e povos como matéria-prima.

Windigo como colonialismo

Seguiu-se a Revolução Industrial, que tornou o poder extractivo escalável; e, mais recentemente, o neoliberalismo elevou estas tendências a uma ideologia dominante, insistindo que a competição desenfreada não é apenas eficiente, mas moralmente correta.

O capitalismo, neste sentido, não é apenas um sistema económico. É a manifestação económica da mentalidade Windigo. Tal como um processo maligno dentro de um organismo vivo, tem de continuar a expandir-se ou colapsa. Não consegue reconhecer o suficiente. Cada ganho torna-se uma plataforma para mais ganhos. Cada eficiência torna-se um ponto de partida para mais extração. Cada fronteira, seja uma floresta tropical, uma instituição pública ou até o sistema nervoso humano, torna-se uma nova zona de apropriação e monetização.

Uma malignidade silenciosa que se alimenta de si própria

O que torna este sistema tão difícil de enfrentar é que grande parte da sua violência está oculta. Em épocas anteriores, a dominação era muitas vezes directa e visível. Hoje, é frequentemente estrutural, incorporada na arquitectura normalizada da vida quotidiana. O smartphone no seu bolso transporta em si o sofrimento de crianças mineiras e de trabalhadores fabris exaustos em continentes distantes. Os paraísos fiscais dos ultra-ricos drenam silenciosamente riqueza pública de escolas, hospitais e infraestruturas essenciais. A apropriação de terras desloca comunidades tradicionais enquanto empreendimentos de luxo florescem no seu lugar. A própria democracia é capturada por redes de poder concentrado que operam por detrás da linguagem tranquilizadora da governação e da reforma.

Windigo hoje

É por isso que o diagnóstico importa. Se identificarmos mal a crise, continuaremos a tratar os sintomas enquanto a patologia subjacente se espalha. O diagnóstico Windigo revela que a ameaça que enfrentamos não é apenas ecológica ou política. É civilizacional. Está enraizada num sistema cuja lógica mais profunda é converter o mundo vivo em combustível para a sua própria expansão sem fim.

É aqui que o diagnóstico Windigo se torna desconfortável tanto para progressistas como para conservadores: não é, sobretudo, uma história sobre pessoas más. Muitos dos executivos que aceleram a extracção são inteligentes, frequentemente compassivos na sua vida pessoal, e acreditam genuinamente que estão a criar valor. Muitos dos políticos que permitem a destruição ecológica consideram-se patriotas. O sistema não requer más intenções. Seleciona sistematicamente comportamentos que o reproduzem e elimina aqueles que o ameaçam.

Dar nome à doença é o começo.

Dar-lhe nome não é um acto de desespero, mas o início da honestidade. E a honestidade é o terreno a partir do qual a transformação se torna possível. Se a crise é sistémica, então a resposta também terá de ser sistémica.

Uma vez nomeada a Windigo Inc., podemos começar a colocar as perguntas que mais importam:

Como seria uma economia estruturada em torno da suficiência em vez do crescimento infinito?
Que instituições poderiam canalizar a engenhosidade humana para o florescimento em vez da extracção?
Que valores — vindos da sabedoria indígena, de tradições contemplativas, das ciências da complexidade e da ecologia — poderiam substituir a fome insaciável do Windigo por um princípio animador diferente?

Essa é a viagem mais ampla de Ecocivilization: compreender a patologia que herdámos e iluminar as possibilidades afirmadoras da vida que ainda podem permitir-nos orientar para um futuro diferente.

Blast from the past (04.04.2009)




os trinta dinheiros
por beatriz j a, em 04.04.09

A FNE é cumplice da Ministra da Educação e seus secretários e mostra-o no apoio aos sindicalistas que aceitaram ser traidores no caso do Agrupamento de Escolas de Santo Onofre.
Hoje em dia a hierarquia de carreira para os cargos maiores da tutela do Ministério da Educação são mais ou menos assim:
Professor primário, ou educador de infância → dirigente sindical → aluno de mestrado da escola Superior de Educação (versão 6 meses com trabalho de 10 páginas) → professor universitário na Escola Superior de Educação ou dirigente sindical → secretário de estado da educação → ministro/a da tutela.

No ano passado deu-me para escrever uma cena depois duma famosa 'entente' :


OS TRINTA DINHEIROS

Sem
Intenção
Nenhuma
De
Incentivo à
Competência
Alguns
Tratantes
Ogres
Sabujos

Pequenos e
Reles comerciantes de valores que os ultrapassam
Ousam ainda
Falar
Em
Sindicância, quando já nem escondem trabalhar para

Fomentar a divisão e a desistência.
Olhem bem e
Reparem se não se parecem com
Aquele outro, de há muito tempo que

Contava
Os dinheiros,
Moedas – eram 30, se não me engano,

Com elas também estes de
Hoje
Arrasam
Com grande despudor o que
Antes
Idealizavam
Sindicar!

(este texto é um acróstico)


April 03, 2026

Blast from the past

 

Só no mês passado me dei conta que o Sapo vai fechar o serviço de blogs e destruí-los todos. Então comecei agora nas férias a copiar o blog (pedi a exportação do blog mas não sei se fazem). e não é que fui dar com uma fotografia minha com o meu amigo André, exactamente de há vinte anos? É esta.

Como é que estes 20 anos se sumiram tão devagar e tão depressa ao mesmo tempo? É um mistério.

Seja como for, decidi começar a pôr aqui no blog, todos os dias, um blast from the past - mesmo dia (se possível porque não escrevia todos os dias), mesmo mês, década diferente.

Ao contrário do que alguns dizem, o meu blog sempre foi muito político. Comecei aquele blog por causa da Lurdes Rodrigues. O que essa megera fez à educação era, e foi, tão grave que me pareceu que tínhamos todos que fazer-nos ouvir. Não se podia comer e calar diante de actos tão graves. 
 

Enfim, vai ser divertido ver o que andava a escrever nessas épocas e outras que se seguiram. 

"Il ne faut peut-être pas parler tous les jours”