April 05, 2026

Livros - "Não há grande génio sem um toque de loucura"


 

«Não há grande génio sem um toque de loucura» é uma frase de Séneca, o Jovem, que a atribuiu a Aristóteles. Na sua obra Problemata, Aristóteles argumentou que todos os indivíduos excepcionais — quer na filosofia, na política, na poesia ou nas artes — eram, de alguma forma, melancólicos. Não no sentido actual de doença mental mas no sentido de natureza intensa, dada à meditação profunda e contemplativa, que permite ver além dos limites convencionais, desafiar as normas e pensar de forma diferente. 

Ao contrário de Platão que via o génio criativo como um daímon, uma ligação do humano ao divino, uma espécie de dom atribuído pelos deuses,  Aristóteles via a «loucura» do génio como um temperamento natural, instável — uma melancolia «quente» ou «fria», mas sempre de excesso emocional.

Este livro, escrito por Margot e Rudolf Wittkower, um casal de Berlim que fugiu da Alemanha nos anos 30, primeiro para Inglaterra, depois para os EUA, retoma essa ideia da Melancolia como fonte do génio criativo. 

Daí o título do livro, Nascido sob Saturno - Saturno é o deus da melancolia e dos melancólicos diz-se que têm uma disposição saturnina - e daí, também,  a primeira página trazer uma representação da Melancolia de Jacob Gheyn.

Margot e Rudolf Wittkower são Historiadores de Arte e escreveram este livro, publicado pela primeira vez em 1963 pela Random House, conscientemente contra as interpretações psicanalíticas da arte e dos artistas que vinham sendo cada vez mais a norma.

O livro trata da vida e obra de artistas: quem eram, o que era o seu contexto e o seu tempo, o que os inspirou e o que são as suas obras. O livro é excelente porque junta a informação e o insight a uma escrita muito cativante. O género de livro em que se pega e já não se pousa. Exactamente o que estava a precisar pois, vendo bem, vendo bem, também eu ando a ler menos por causa da internet...

Enfim, aconselho vivamente a todos os que se interessam pelo assunto e a todos os curiosos sobre a natureza da alteridade dos artistas, pessoas que sendo como nós, não o são.

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