April 05, 2026

Blast from the Past (05-04-2009)



O que se passava neste dia em 2009? O rescaldo do caso Casa Pia e o início do 'Freeport'

Nó-do-diabo

por beatriz j a, em 05.04.09

Hoje, em Almada, o irmão do moço que tira fotocópias a preços caríssimos - aquele que acusou miúdos vítimas de abusos de serem os maus da fita -, rodeado de senhoras com ar de noelistas, comparou-se mais à sua situação ao Humberto Delgado!


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Os 'simplexes' das democracias

por beatriz j a, em 05.04.09

Hoje, um artigo de opinião de Catalina Pestana, no JN, fez-me adiantar a leitura do 1º volume dos Diários de Victor Klemperer intitulado I Shall Bear Witness.

No artigo diz Catalina que é difícil apercebermo-nos do 'mal' na sua origem, mas que são as pequenas cedências, as pequenas complacências que aos poucos lhe vão dando espaço e poder.

Lembrei-me do Victor Klemperer - um judeu de Dresden, linguista e professor universitário que sobreviveu à guerra sem ser deportado, devido à mulher ser uma alemã ariana e ao facto de ter aproveitado os bombardeamentos da cidade para, no meio do caos, arrancar a estrela amarela e fugir com a mulher passando por alemão.

Os seus diários são únicos. Klemeperer, um indivíduo honesto, culto e inteligente, escreve-os sem intenção nenhuma de os publicar de modo que não os retoca nem melhora com efeitos estéticos. São um documento único do dia-a-dia da Alemanha nazi nos doze anos que durou o Reich (de1933 a 1945) dos mil anos.

Klemperer vai registando, nos acontecimentos diários, a degradação progressiva dos valores e da vida alemães; o modo como o nazismo progride pela ameaça, pela corrupção, pelo medo e pela conivência das cedências que o povo vai fazendo aos seus líderes.

Uma obra extremamente pedagógica no modo como ensina a olhar para os acontecimentos vendo o que se esconde por detrás, nas intenções.

Um pequeno excerto, da entrada de 23 de Março de 1936:

"Será um tremendo triunfo para o governo (refere-se às eleições na sequência da ocupação da Renânia e da dissolução do Reichstag). Vai receber milhões de votos para a 'paz e liberdade'. Não vai necessitar de forjar um único voto. A política interna está completamente esquecida. - Exemplo: Martha Wiechmann, que recentemente nos visitou e que era completamente democrática. Agora diz: nada me impressionou tanto como o rearmamento e a marcha sobre a Renânia.
(...)
Impressiona os poderes estrangeiros e, apesar da condenação da Liga das Nações (...) é uma tremenda vitória para Hitler. Ele voa de um lugar para outro a fazer discursos triunfais. A Ópera Kroll chama-se agora Reichstag. Adequado: os eleitos hão-de ser coros, figurantes, a claque! Hitler disse recentemente: Eu não sou um ditador, eu apenas simplifiquei a democracia.

Também as moedas de Napoleão, de início, traziam as palavras, «República Francesa»."


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Freeport, mafiosos e bandidos? O povo sozinho....

por beatriz j a, em 05.04.09

No DN
"Isto vai ser outro processo Casa Pia"
por CARLOS RODRIGUES LIMA

Lopes da Mota terá comparado o caso ao processo da Casa Pia e às consequências que o primeiro poderia ter no Ministério Público, dizendo a Vítor Magalhães e Paes de Faria que ambos estavam "sozinhos sem apoio". O Procurador-geral omitiu os pormenores dos contactos na reunião do Conselho Superior. O presidente do Eurojust volta a negar qualquer pressão.

"Isto (caso Freeport) vai ser outro processo Casa Pia para o Ministério Público", "vocês estão sozinhos nisto e lixados", foram algumas das expressões, confirmadas pelo DN junto de um procurador que acompanhou todos os contactos.

"Os colegas estão de rastos com toda a situação. Sobretudo o Magalhães para quem Lopes da Mota era um motivo de orgulho pelo facto de ser um português a presidir a uma organismo europeu de cooperação judiciária", disse ao DN a mesma fonte do DCIAP.
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Estas declarações, a serem verdade, são de gravidade institucional.

Não são apenas as ameaças que se fazem aos investigadores sobre as suas pessoas e carreiras, mas é também a referência a interferências num outro caso - o da Casa Pia - e ao modo como o processo foi manipulado - para que não tocasse em certas pessoas e lixasse apenas um ou outro dos que, ou não se calaram ou não conseguiram fugir?

Toda esta conversa que se terá passado, parece tirada dum filme de mafiosos onde uns ameaçam outros para os intimidarem e impedirem de denunciar. A diferença é que, nos filmes de mafiosos, eles subornam algumas peças do poder judicial e executivo, enquanto que aqui, nesta situação real e não fictícia, os mafiosos serão os próprios poderes executivo e judicial...?

Isto é tão grave que não se entende como e porque é que o Presidente da República ainda não fez uma comunicação ao País, pelo menos a dizer que está atento. Isso é o mínimo, acho eu... para que não se instale um clima de impunidade sistemática.

Quem o incomoda são alguns jornalistas e alguns bloguistas: gente com pouco poder.

Fazendo e dizendo nada o Presidente passa a mensagem que não está para ter chatices e que nos deixa a nós, povo, sozinhos a lidar com isto. Então, tornam-se dramaticamente verdadeiras as supostas palavras de Lopes da Mota: «vocês estão sozinhos nisto e lixados.»

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