October 22, 2020

Random

 


Such colors...


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Realista? Pessimista?



«Mirar sin comprender: eso es el paraíso. El infierno será, pues, el lugar donde se comprende, donde se comprende demasiado...»

Emil Cioran, Del inconveniente de haber nacido (1973) 








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It is we who are passing when we say time passes.

Henri Bergson


Right

 




Haviest objects in the universe

 








Eutanásia razões para um referendo

 


Foi criada na Lei uma Rede Nacional de Cuidados Paliativos que inclui tudo o que possa dar apoio ao doente e eliminar o sofrimento, controlando qualquer dor insuportável, até à sedação progressiva ainda que por virtude do duplo efeito dela possa resultar a sua morte. A Lei prevê ainda uma sedação permanente para os casos de prognóstico vital breve. Este ponto parece inspirado na lei francesa de 2016 aprovada por uma maioria socialista no mandato do Presidente Hollande que introduziu a sedação profunda e continua que "provoca uma alteração da consciência mantida até à morte quando o doente está atingido por afeção grave, incurável, com prognóstico de vida comprometido a curto prazo tendo um sofrimento refratário aos tratamentos". Pode ser mantida no domicílio do doente.

Se estes direitos forem reconhecidos cai pela base o principal argumento a favor da eutanásia. 

Não cai, não.  Se bem entendo, o que chamam sedação profunda é equivalente a um estado vegetativo. Ora a pessoa pode não querer ficar nesse estado, independentemente de não ter dores. E ao contrário do que diz Roseta, isto não é, para toda a gente, um fim digno, de modo de que aquilo de que acusa os outros, de quererem generalizar a sua opinião a todos, é o que fez aqui.

O problema é que estes direitos são muito pouco concretizados na prática. Se o fossem estaria assegurado um fim de vida digno, sobretudo se houvesse apoio psicológico ao longo do processo.

A pessoa mantém a sua dignidade em qualquer circunstância, pois é inerente à sua condição de pessoa A morte digna é um conceito sem sentido usado pelos que não se preocupam em garantir a dignidade da vida até ao último instante. O que não fizeram e é urgente fazer é garantir o acompanhamento e as condições que evitem situações que conduzam as pessoas por causa da dor a pedir a eutanásia. Quem tem responsabilidade na situação atual não tem autoridade para votar a favor da eutanásia sem uma consulta à população. Se o Estado o fizer é claramente imoral.

Do facto de a pessoa, por ser pessoa, ser um ser (um fim em si mesmo) com dignidade, não se pode concluir que a sua vida seja sempre digna porque uma coisa é a pessoa em si e outra o seu modo de vida. Um proxeneta que viva de explorar e submeter mulheres a violência é um ser digno enquanto pessoa, mas com uma vida não-digna, embora de um modo diferente daquele em que estão os doentes terminais, mas é um exemplo que mostra que a pessoa e o seu modo de vida são coisas diferentes.

 Roseta assume que a pessoa só pede a morte se estiver com dores físicas mas isso não é verdade. Ainda há pouco tempo li o caso de um rapaz que ficou tetraplégico e pediu aos pais para aceitarem e ajudarem-no a morrer. Para não falar no caso conhecidíssimo do espanhol.

Outro dos fundamentos do projeto de lei que deve ser submetido a referendo é o princípio da autonomia da vontade individual. Ora, se esta autonomia não tiver limites o indivíduo julga-se um pequeno "deus" soberano que goza de liberdade sem fim, mas reivindica serviços aos outros e ao Estado.

O problema de Roseta é Deus: se o ser humano tem autonomia da vontade (e já agora, o argumento da dignidade da pessoa, [enquanto fim em si mesmo] como sabemos, vem justamente da autonomia da vontade fundada na liberdade, de modo que, se ataca a autonomia da vontade, ataca ao mesmo tempo, o argumento da dignidade que dela depende - como é que seres heterónomos têm uma dignidade inerente fundamental? Gostava de saber... se são heterónomos no que respeita à vontade, então a dignidade não é deles mas do princípio exterior que os organiza e determina), no pensamento de Roseta, substitui-se a Deus, que é o único que pode dar e tirar vida. É claro que, como Deus não está aqui nos hospitais, Roseta delega o poder de Deus em homens; ou seja, como os seres humanos não podem ser indivíduos autónomos, têm que deixar as decisões da sua vida a outros indivíduos também humanos que não têm nenhum grau de dignidade humana superior à sua... sejam médicos, padres, psicólogos... quer dizer, todos decidem da sua vida menos a própria pessoa? É um escravo dos outros, então, pois só os escravos é que sendo inocentes, têm outros a determinar a sua vida e a sua morte.
E qual é o problema da eutanásia implicar os serviços de outros que estão dispostos a prestá-los?

Entre todas as pessoas existem laços indestrutíveis de natureza ontológica e ética que decorrem da unidade de origem e comunidade de destino da espécie humana, os quais devem ser lembrados sobretudo quando surgem movimentos demagógicos e populistas que querem novas ou velhas discriminações.

O facto de vivermos em sociedade e termos deveres para com os outros não nos subtrai a vontade individual livre. Não somos um pó que se dissolve nas águas sociais, somos uma sociedade de vontades autónomas e, se somos um fim em si mesmo e não um meio, não podemos ser um meio de os religiosos se sentirem bem com a sua fé. O ser humano não pode ser um instrumento da fé ou desconforto alheio. 
Portanto, segundo Roseta, o rapaz que ficou tetraplégico deveria ter que aturar um psicólogo para o resto da vida, muito paternalisticamente, a explicar-lhe que devia ficar vivo para não ofender os religiosos na sua fé, apesar de ele mesmo não querer estar vivo naquelas circunstâncias?

O dever do Estado de Direito de proteger sempre a vida humana sobrepõe-se às vontades individuais, pois é um Estado de legitimidade e de justiça que tem de respeitar os direitos naturais da pessoa, incluindo os que ela própria não pode alienar.

Só que aqui não se trata de proteger a vida mas de suprimir a autonomia da vontade, que é um princípio filosófico fundamental nos direitos humanos. E, pior, fazê-lo à força. Em última análise, poderíamos ter que pôr uma pessoa num colete de forças como nos asilos de lunáticos do outro século ou sedá-la para a manter viva, à força. 
No meio disto tudo, Roseta critica o autoritarismo da lei mas para defender uma espécie de terrorismo de Estado tendo como fim obrigar a pessoa a manter-se na vida mesmo contra a sua vontade autónoma consciente e livre. 

O fundamento de todo o argumento de Roseta é o de que as pessoas, inocentes, conscientes e autónomas sejam privadas da sua liberdade para não se pensarem uns deuses e para que os religiosos fiquem de consciência tranquila com os mandamentos do seu Deus.

Eu não sou necessariamente contra o referendo, mas não com esta argumentação.

Pedro Roseta

É por isto que só temos incompetentes em tudo quanto é cargo

 


O princípio deste artigo, que é de ontem, penso, diz que Cavaco Silva fez uma coisa bem feita e boa (obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) mas como o autor é contra Cavaco Silva concluiu que ele fez o bem sem querer, quer dizer, a intenção era má mas foi incompetente na execução e resultou em competência - veja-se lá a complicação; depois diz que Marcelo fez de modo diferente e mal (não obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) e no fim do artigo exorta-o a fazer o que Cavaco fez (embora não diga por estas palavras) e conclui que Marcelo fez mal, foi incompetente mas como foi com boa intenção, há competência, de modo que Marcelo foi um incompetente, competente, com resultado incompetente - ao contrário de Cavaco que foi um competente, incompetente, com resultado competente.

A política em Portugal é isto: se és da direita, tudo o que a esquerda faz é mal intencionado e se és da esquerda, todos que são da direita são mal intencionados. Não interessa que façam bem e sejam competentes, interessa é que sejam da esquerda (neste caso, porque podia ser o inverso se o articulista fosse da direita). 

Ou as pessoas como são calculistas e dão sempre passos a calcular o efeito e não a pensar no bem, assumem que os outros são todos iguais.




Lendo Hegel

 


Nenhuma filosofia, nenhuma pessoa, nenhuma situação se pode reduzir a uma frase, a um conceito definidor como se fosse um retrato. Os retratos fixam uma cena que não existe separada do seu processo. Há um contexto, momentos catalisadores do processo, um movimento, uma orientação, uma intenção. Os seres são uma totalidade com complexidade dinâmica. Excitante é a descoberta progressiva dessa complexidade, mas isso é uma tarefa de descascar cebola que requer, ao mesmo tempo candura, coragem, confiança e verdade. Há quem viva e queira só a camada exterior. E está bem, porque o que serve a uns não serve a outros.


Leituras para a semana

 


A Philomag está com piada e a outra não podia ter vindo mais a propósito.






I do, I really do.I


Activismo politico e social

 



100 rapazes adolescentes do Quebec, Canadá, foram para a escola de saias para protestar contra o sexismos, a homofobia e a masculinidade tóxica.

Já Portugal rima com eucaliptal

 


Territórios da rede Natura 2000 “fortemente afectados” pela expansão dos eucaliptos


Investigação levada a cabo por investigadores das universidades de Munique e Zurique usou imagens multi-espectrais para monitorizar populações de eucaliptos fora do perímetro das áreas de plantações regulares. As conclusões surgem em tom de alerta.


Trees are prone to anthropomorphism





Empires rose and fell; wars raged; people were enslaved and freed; and the tree from 2500 B.C. continued its implacable slow-motion existence, adding about two-hundredths of an inch to the diameter of its trunk each year.
(...)
In 1957, Edmund Schulman, a researcher from the Laboratory of Tree-Ring Research, in Tucson, determined that this eccentric senior was older than any other tree on earth which had been dated. He named it Methuselah.
(...)
What is most astonishing about Pinus longaeva is not the age of any single organism but the collective oldness and otherness of its entire community. No two super-elderly trees look alike, to the point where they have acquired the characteristics of individuals. Trees are prone to anthropomorphism; we project our dreams and our anxieties onto them. Bristlecones have been called elders, sentinels, sages. The possibility that climate change will cause their extinction has inspired a spate of alarmed news stories, although tree scientists tend to discount the idea that the bristlecones are in immediate danger. They have survived any number of catastrophes in the past; they may survive humanity.

Bristlecone pines thrive at high elevations and live for thousands of years.Photograph by John Chiara for The New Yorker


Bristlecones can’t be monumentalized in the same way. They have the look of survivors, not conquerors. Fittingly, they found fame during the Cold War, when atomic tests were taking place not far off, in the Nevada desert. Bristlecones are post-apocalyptic trees, sci-fi trees. They can be seen as symbols of our own precarious future. Michael P. Cohen, in his 1998 book, “A Garden of Bristlecones,” deftly anatomizes this latter-day bristlecone mythology, writing that the trees “always reveal the motives of their observers.”

Bristlecone pines have survived various catastrophes over the millennia, and they may survive humanity.
By Alex Ross

A natureza é tão inteligente

 


Vive o Ser, sendo. 

O facto de todos os eventos ocorrerem num universo físico, não implica que todos os eventos sejam de ordem física.








Oil painting by Carin Wagner 

Uma declaração de princípio e duas notinhas



Declaração de princípio: defendo um SNS robusto e eficaz.
Duas notinhas:
1ª - até hoje nenhum dos hospitais privados a que fui desde o início da pandemia (4) me cobrou taxa de covid, nem qualquer quantia por material de protecção: pelo contrário, até oferecem uma máscara, se não levamos nenhuma e o desinfectante é gratuito e está espalhado por todas as valências dos hospitais. 
2ª - quanto aos outros três pontos, o senhor jornalista faria bem em informar-se antes de espalhar boatos. Uma coisa é ter artigos de opinião em que diz 'coisas'; outra diferente é ter artigos de factos jornalísticos e não ter um único dado a suportar as afirmações e basear tudo em boatos.


Podemos confiar nos hospitais privados?


Já se esqueceram que, logo em março, muitos hospitais privados começaram a cobrar aos utentes das consultas mais simples uma abusiva "taxa Covid" de 10 a 20 euros, que podia ir às centenas de euros no caso de uma cirurgia? E isto até para pagar equipamentos de proteção, banais e baratos, como máscaras e gel?

Já se esqueceram que vários hospitais privados decidiram suspender as convenções com o Estado, no período de março a abril, a até então fase mais difícil da pandemia do novo coronavírus, deixando de dar apoio ao Serviço Nacional de Saúde quando este mais precisava?

Já se esqueceram que, em setembro, foi notícia o facto dos hospitais privados recusarem fazer partos a grávidas com COVID, sem terem avisado disso as mães que, durante a fase de acompanhamento da gravidez, iam lá às consultas médicas?

Já se esqueceram que no mês passado a Entidade Reguladora da Saúde teve de emitir um comunicado, depois de receber várias queixas de utentes, a pedir aos hospitais privados que recusam doentes com COVID-19 para avisarem antecipadamente os utentes dessa decisão?


"A thing of beauty is a joy for ever." John Keats

 



Dương Quốc Định


Lemn Sissay - child in care - im reporting back

 


Livros gratuitos - Platão, Fédon XIII (continuação)



Perfeito, falou Símias, pois então vou dizer-te quais são as minhas dúvidas, para depois Cebete indicar os pontos de tua exposição com que ele não concorda. Sobre esses assunto, Sócrates, creio estar de acordo contigo, que nesta vida não é possível saber a este respeito algo definitivo. Mas também será prova de fraqueza deixar de analisar por todos os modos o que foi dito, e abandonar o assunto enquanto não sentirmos cansaço. Neste passo vemo-nos ante o dilema: aprender e descobrir de que se trata, ou, no caso de não ser isso possível, adotar a melhor opinião e a mais difícil de contestar, e nela instalando-nos à guisa de jangada, procurar fazer a travessia da vida, na hipótese de não conseguir isso mesmo com maior facilidade e menos perigo numa embarcação mais firme, ou seja, com alguma palavra divina. [não havendo possibilidade de certeza definitiva, procura-se a hipóteses mais forte; o que não se faz é abandonar a questão pois então fica-se à mercê do erro ou do relativismo sofista] Assim, não ficarei acanhado agora de interrogar-te, já que tu próprio mo aconselhas, nem precisarei censurar-me de futuro por não te haver dito hoje o que pensava. O facto, Sócrates, é que quando reflito no que disseste, ou seja comigo mesmo ou na companhia deste aqui, tenho a impressão de que nem tudo ficou bem fundamentado.

XXXVI – Sócrates respondeu: Talvez, companheiro, estejas com a razão; porém explica o que não te parece bem fundamentado.

É que seria possível alegar a mesma coisa, continuou, a respeito da harmonia [música] e da lira com suas cordas, a saber: que a harmonia é algo invisível, incorpóreo e sumamente belo numa lira bem afinada, e que esta, por sua vez, é corpo, com também o são as cordas, coisas materiais, compostas, terrenas e de natureza morta. Ora, no caso de alguém quebrar a lira e cortar ou arrebentar as cordas, alguém poderia argumentar como o fizeste: dizer que aquela harmonia ainda vive, pois não foi destruída; pois não é possível subsistir a lira depois de se partirem as cordas, e as próprias cordas, todas elas de natureza morta, e desaparecer a harmonia, da mesma natureza e da família do divino e do imortal, que assim viria a ser destruída até mesmo antes do que é perecível. [os elementos materiais da lira ainda existiriam, embora partidos e já a música teria desaparecido] Não, prosseguiria essa pessoa; necessariamente a harmonia terá de continuar em qualquer parte, por ser forçoso que a madeira apodreça primeiro, e as cordas, antes de acontecer àquela alguma coisa. A esses respeito, Sócrates, creio que tu mesmo já consideraste que a noção da alma admitida por nós é mais ou menos a seguinte: Da mesma foram que temos o corpo distendido e
coeso pelo calor e o frio, o seco e o húmido, e tudo o mais do mesmo gênero, viria a ser a 
nossa alma a mistura e a harmonia de todos esses elementos, quando combinados em justa proporção. [os pitagóricos vêem a alma como uma combinação -um composto- harmónica dos elementos corporais, mas Platão vê a alma como um elemento simples e não composto, logo, não corruptível] Ora, se nossa alma for uma espécie de harmonia, é evidente que, ao ficar relaxado o corpo, ou distendido em excesso, por doenças e outras perturbações, forçosamente a alma fenecerá logo, mesmo com a sua natureza divina, tal como se dá com as outras harmonias, tanto as resultantes de sons como das demais obras dos artista; ao passo que os despojos do corpo perduram por muito tempo, até que o fogo os destrua ou venham a apodrecer. Vê, portanto, o que devemos opor a esses argumentos, no caso de alguém nos vir dizer que a alma, por ser a mistura dos elementos do corpo, é a primeira a fenecer naquilo que chamamos morte.

XXXVII – Sócrates se conservou durante algum tempo com o olhar parado, como era seu costume; depois falou, sorrindo: A objeção de Símias, declarou, é procedente. Se algum de vós estiver em melhores condições do que eu, por que não lhe responde? O argumento dele é muito feliz. Porém antes de formular qualquer resposta, sou de parecer que devemos primeiro ouvir o que tem Cebete a opor à nossa tese, pois assim ganharemos tempo para refletir no que será preciso dizer. E depois de ouvir a ambos, dar-lhes-emos nossa aprovação, se nos parecerem bem afinados os argumentos; caso contrário; dizendo logo o que te deixa atrapalhado.

Vou dizer, respondeu Cebete. A meu parecer, o nosso argumento não saiu do lugar e continua como alvo das mesmas objeções de antes. Que nossa alma já existisse antes de assumir esta forma, é proposição que não me repugna aceitar, por engenhosa e – salvo imodéstia de minha parte – suficientemente demonstrada. Porém que subsista algures depois de estarmos mortos, com isso é que não posso concordar. Não aceito, também o reparo de Símias, quando afirma que a alma não é mais forte nem mais durável do que o corpo, pois sob ambos os aspectos ela se distingue imensamente dele. Por que então, lhe diria o argumento, ainda te mostras incrédulo, se estás vendo que depois da morte do homem sua porção mais fraca ainda subsiste? Não te parece que a porção mais durável terá forçosamente de sobreviver igual tempo? Vê agora se o que digo contém alguma substância. Para maior comodidade vou socorrer-me, como o fez Símias, de uma imagem. Para mim, falar desse jeito é o mesmo que fazer as seguintes considerações a respeito de um velho tecelão que acabasse de morrer: o homem não está morto, continua vivo em alguma parte e para prova dessa afirmação, apresenta-se a roupa que ele então trazia no corpo, tecida por ele mesmo, conservada e sem ter ainda perecido. E se alguém se mostrasse incrédulo, poderia perguntar o que é por natureza mais durável, imaginaria ter demonstrado que com maioria de razões o homem terá de estar bem, visto não haver perecido o que por natureza é menos durável. Porém a meu ver, Símias, a realidade, é muito diferente. Presta atenção ao seguinte: não há quem não veja quanto é fraco semelhante argumento. Havendo gasto muitas roupas por ele próprio tecidas, o nosso homem morreu, de fato, depois de todas, e não foram poucas, porém antes da última, segundo penso; [portanto, assim como o homem gasta muitas roupas até morrer mas a última que veste sobrevive-lhe, também a alma gasta muitos corpos nas reencarnações, mas o último, sobrevive-lhe] mas nem por isso o homem é inferior ou mais fraco do que a roupa. Essa imagem, quero crer, se aplica tanto à alma como ao corpo, e quem argumentasse desse modo com relação ao corpo, falaria com muito mais propriedade, a saber: que a alma é mais durável e o corpo mais fraco e transitório, pois fora acertado acrescentar que cada alma consome vários corpos, principalmente quando vive muitos anos. Forçoso será, por conseguinte, que, no instante de morrer, ainda esteja a alma com a última vestimenta por ela feita, só vindo a morrer antes da última. Desaparecida a alma, mostra, de pronto, o corpo sua fraqueza natural e se desmancha pela putrefação. Por isso mesmo, com base nesses argumentos não podemos confiar que nossa alma subsista algures depois da morte. E se alguém concedesse ao expositor de tua proposição mais ainda do que fazes e lhe desse de barato não apenas que nossas almas existem antes do tempo do nascimento, sendo que nada impede, até mesmo depois de nossa morte, existirem algumas e continuarem a existir, e muitas vezes renascerem e tornarem a morrer, por serem de natureza bastante forte para suportar esses nascimentos sucessivos: se lhe concedêssemos esse ponto, de todo o jeito ele se recusaria a admitir que a alma não se esgota nesses nascimentos sucessivos, para acabar numa dessas últimas mortes, por desaparecer de todo. Dessa morte última, poderia acrescentar, e dessa decomposição do corpo que leva para a alma a destruição, ninguém pode ter conhecimento, por não estar em nós experimentá-la. [a alma vai-se desgastando nas fricções com o corpo como consequência das sucessivas reencarnações] Se as coisas se passam mesmo dessa forma, por força terá de ser irracional a confiança de qualquer pessoa diante da morte, a menos que esse alguém pudesse demonstrar que a alma é absolutamente imortal e imperecível. Sendo isso impossível, não há como evitar que o moribundo receie de que no instante em que sua alma se desaparecer do corpo, venha a desaparecer de todo.

XXXVIII – Ao ouvi-los falar dessa maneira, todos nós nos sentimos desagradavelmente impressionados, conforme depois confessamos a nós mesmos; firmemente convencidos como ficáramos, ante os argumentos anteriores, as palavras de agora como que nos deixavam inquietos e nos levavam outra vez a duvidar, tanto com relação ao que já fora dito como ao que ainda restava por dizer. Ou éramos maus juízes ou o assunto não admitia prova.

Equécrates [outro pitagórico]– Pelos deuses, Fedão! Compreendo o que se passou convosco, pois agora mesmo, perguntei-me em que argumento poderemos confiar daqui por diante, se o que Sócrates acabou de desenvolver, tão convincente, perdeu de todo o crédito? É maravilhosa a atração que sobre mim sempre exerceu, e ainda exerce, a doutrina de que nossa alma é uma espécie de harmonia. O que acabaste de expor me fez lembrar que até ao presente eu a aceitava. Mas agora necessito de novos argumentos para convencer-me de que a alma não morre juntamente com o corpo. Dize logo, por Zeus, de que modo Sócrates prosseguiu na sua argumentação? Porventura revelou desânimo, como disseste ter acontecido com todos vós, ou, pelo contrário, defendeu a sua opinião com a serenidade habitual? Foi completa ou falha nalgum ponto sua defesa? Conta-nos tudo com a maior exatidão possível. [Platão, subtilmente, revela os perigos do cepticismo sofista na razão que não empreendeu um processo gnoseológico dialéctico e se embaralha logo com qualquer objecção ou contra-argumento e fica sempre convencida da última tese que ouve]

Fedão – Em verdade, Equécrates, por mais que antes eu tivesse admirado Sócrates, nunca me senti tão arrebatado naquele instante. Não é de espantar que um homem do seu estofo pudesse sair-se bem em semelhante conjuntura. Mas o que nele, primeiro de tudo, me admirou ao extremo foi a maneira delicada, cordial e deferente com o que acolheu as objeções dos moços; depois, a sagacidade com que observou o efeito de suas palavras sobre nós e, por último, como soube curar-nos: de fugitivos e derrotados, fez-nos voltar e exortou-nos a segui-lo, para considerarmos junto o argumento.

Equécrates – De que modo?

Fedão – Vou te dizer como foi. Aconteceu que eu me achava, justamente à sua direita, num banquinho ao pé do catre, ficando ele num plano muito mais alto. Afagando- me a cabeça e abarcando com a mão os cabelos que me cobriam a nuca – pois sempre que se lhe oferecia ocasião graceja a respeito de minha cabeleira – me disse: Decerto é amanhã, Fedão, que vais pôr abaixo esta bela cabeleira?

[Platão trata-os um bocadinho como crianças, como se o pensamento pré-socrático fosse infantil diante da filosofia]

Penso que sim, Sócrates, respondi. Não, se aceitares um conselho, disse-me. Que devo, então, fazer? Perguntei.

Hoje mesmo, disse, cortarei a minha, como farás com a tua, se o nosso argumento vier a morrer e nos revelarmos incapazes de lhe dar lume e vida. De minha parte, se eu estivesse no teu lugar e o argumento me escorregasse por entre os dedos, faria um juramento à feição dos Argivos, de não deixar crescer os cabelos enquanto não vencesse em luta franca a proposição de Símias e Cebete.

Mas, como se costuma dizer, objetei-lhe, contra dois, nem Hércules aguenta.

Então, chama-me em teu auxílio, enquanto é dia; serei o teu Iolau. [Iolau era sobrinho de Hércules e um dos argonautas que ajudou Hércules nos seus trabalhos]

Bem, chamarei, lhe respondi; porém não na qualidade de Herácles: Iolau é que vai chamar Herácles em seu auxílio.

Tanto faz, me disse.


XXXIX – Inicialmente, precavemo-nos contra certo perigo. Qual será? Perguntei.

Para não ficarmos misólogos, disse, como outros ficam misantropos. O que de pior pode acontecer a qualquer pessoa é tornar-se inimigo da palavra. A misologia e a misantropia têm a mesma origem. O ódio aos homens nasce do excesso de confiança sem razão de ser, quando consideramos alguém fiel, sincero e verdadeiro, e logo depois descobrimos que se trata de pessoa corrupta e desleal, e depois outra mais nas mesmas condições. Vindo isso a repetir-se várias vezes com o mesmo paciente, principalmente se se tratar de amigos íntimos e companheiros de alto crédito, depois de decepções seguidas, acaba essa pessoa por odiar os homens e acreditar que ninguém é sincero. Nunca observaste que é assim mesmo que as coisas se passam.

Sem dúvida, respondeu.

E não é isso vergonhoso? Continuou. Pois é claro que esse indivíduo procura o convívio com seus semelhantes sem conhecer devidamente a natureza humana, pois se dispusesse de alguma experiência nas suas relações com eles, teria compreendido como é realmente o mundo, isto é, que são poucos os indivíduos inteiramente bons ou maus de todo, e que a maioria constitui o meio-termo.

Como assim? Perguntou.

É o mesmo que acontece, prosseguiu, com as pessoas excessivamente baixas ou excessivamente altas. Julgas que pode haver nada mais raro do que encontrarmos um homem muito grande ou muito pequeno, ou um cão, ou seja o que for? O mesmo se diga do veloz e do lento, do feio e do belo, do branco e do preto. Ou não percebeste que em tudo isso os extremos são raros e pouco numerosos, e os da mediania, extremamente frequentes e em grande número?

[O método dos sofistas, a que Platão aqui se refere é o de pôr ao mesmo nível princípios e consequências e com isso gerar a controvérsia]

Perfeitamente, respondi.

E não te parece, continuou, que se se organizasse um concurso de maldade, os primeiros se apresentariam em número muito reduzido?

É muito provável, respondi.

Sim, muito provável, continuou. Porém não é sob esses aspecto que os argumentos se parecem com os homens. Neste passo não fiz senão seguir tua orientação. A semelhança consiste no seguinte: quando se admite a exatidão de um argumento, sem ser-se versado na arte da dialética, pode acontecer que logo depois ele nos pareça falso, às vezes com fundamento, outras vezes sem nenhum, e depois mais outro e mais outra da mesma natureza. Como sabes, é o que se verifica com os disputadores de razões contraditórias, [referência aos sofistas] que acabam por considerar-se os maiores sábios, por serem os únicos a reconhecer que nada há de são e firme, [cépticos e relativistas] nem nas coisas, nem no raciocínio, encontrando-se tudo, em verdade, em permanente agitação, tal como se dá com as águas do Euripo, sem permanecer nada, um só instante, no mesmo estado.

É muito certo o que dizes, observei.

E se, de facto, existe raciocínio verdadeiro e estável, capaz de ser compreendido, não seria de lastimar, Fedão, no caso de ouvir alguém esses argumentos que ora parecem verdadeiros ora falsos, em vez de inculpar-se ou à sua própria incapacidade, acabasse por irritar-se e comprazer-se em tirar de si a culpa para lançar no raciocínio, e passar, daí por diante, o resto da vida a odiá-lo e a depreciá-lo, com o que só alcançaria privar-se da verdade e do conhecimento das coisas?

[os misólogos, tal como os misantropos que se afastam dos homens por achar que nenhum é de confiança, afastam-se dos argumentos por acharem que são todos um engano, já que a cada argumentos parece ser possível contrapôr um contra-argumento. Sócrates diz que a culpa não é dos argumentos mas da razão que não foi treinada no método dialéctico da análise das hipóteses]

Por Zeus, lhe disse; seria, de fato grande lástima.

XL – Assim, continuou, de início precisamos acautelar-nos contra semelhante perigo; não permitamos o ingresso em nossa alma da idéia de que não há nada saudável em nosso raciocínio; digamos, isso sim, que nós é que ainda não estamos suficientemente sãos, mas que devemos esforçar-nos para alcançar esse desiderato, tu e os demais, por causa da vida que ainda tendes pela frente; eu, por motivo, justamente, da morte. Receio muito que, neste momento em que a morte é tudo, não me haja como filósofo ou amigo da sabedoria, como se dá com os indivíduos muito ignorantes. Estes tais, quando debatem algum tema, não se preocupam absolutamente de saber como são, de fato, as coisas a respeito de que tanto discutem, senão em deixar convencidos os circunstantes de suas próprias asserções. Nisso põem todo o empenho. Eu, também, num ponto apenas, agora, me diferencio deles: não me esforço por demonstrar aos presentes a verdade do que afirmo, a não ser como acessório, mas por convencer-me, tanto quanto possível, a mim mesmo. 

[uma discussão como as dos sofistas faz-se para ver quem consegue convencer os outros, mas uma discussão filosófica, como esta, faz-se para compreender a natureza das coisas e chegar à verdade; assim, a linguagem, mal usada, é um instrumento de manipulação mas, bem usada, é um instrumento de verdade]

Meu cálculo, companheiro, é o seguinte; observa quanto o argumento é interesseiro: Se for verdade o que eu disse, só haverá vantagem em fortalecermos essa convicção; porém se nada mais houver depois da morte, pelo menos não importunarei os presentes com minhas lamentações no pouquinho de tempo que ainda me resta para viver. Aliás, esse estado de coisas não vai durar muito, o que seria mau; acabará dentro de pouco. Preparado desse modo, Símias e Cebete, continuou, é que aceito a discussão. Quanto a vós outros, se me aceitardes um conselho, concedei pouca atenção a Sócrates, porém muito mais a verdade; se vos parecer que há verdade no que eu digo, concordai comigo; caso contrário, resisti quanto puderdes, acautelando-vos para que no meu entusiasmo não venha a enganar-vos e a mim próprio e me retire como as abelhas, deixando em todos vós o aguilhão. 

[deve atentar-se à verdade do argumento e não à autoridade do argumentador, que neste caso é Sócrates, pois o que confere veracidade a um argumento é a sua fundamentação e não a personalidade de quem argumenta, por maior autoridade que seja - a força da demonstração vem da razão e não da habilidade técnica]


Impressões filosóficas

 


If

By Rudyard Kipling (1865-1936)
Rewards and Fairies (circa 1895)

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!



Kipling escreveu este poema para o filho.

Fui dar com este poema -uma versão traduzida- teria uns 11 ou 12 anos. Talvez 12. Lembro-me de passá-lo para uma folha de papel (aliás, lembro-me do acto de o escrever e onde o fiz e o que senti e tudo) e andar com ele no bolso e lê-lo muitas vezes ao dia e sentir que havia ali qualquer coisa que tinha que perceber e, ao mesmo tempo, sentir um conforto existencial nas suas palavras. Portanto, o poema causou-me um grande impacto. Penso que foi a primeira vez que tive uma impressão filosófica da vida auto-consciente. Daí para a frente lembro-me de fazer muitas perguntas filosóficas sem saber que o eram. Aliás, pensava mesmo que eram perguntas estúpidas. Um dia, aí pelos 13 anos, numa aula de matemática (tinha sempre muito boas notas a matemática, aquilo para mim era fácil), acabei de fazer uns exercícios com equações e enquanto esperava que os outros acabassem, perguntei ao professor o que eram equações, porque é que alguém as tinha inventado e se existiam coisas na realidade que fossem equações. O homem ficou furioso, 'lá vens tu com essas perguntas estúpidas que não interessam para nada. Cala-te com isso.' É claro que eu fiquei a pensar que era estúpida com as minhas perguntas estúpidas e nunca mais as fiz em voz alta. Foi preciso passarem anos e ler o Heidegger para perceber que afinal as perguntas não eram estúpidas e havia um grupo de pessoas que também vivia com elas no pensamento. Foram precisos ainda mais anos para perceber que o professor é que era estúpido. Sabia pouco de matemática e não querendo mostrar fraqueza fez o que fazem todos os cobardes.

A sua expressão estava manchada de humano

 


Caravaggio 



October 21, 2020

Pôr as coisas em perspectiva

 


“Please save my life”: Julian Assange in prison



By Annissa Warsame

Cell Number 37, ‘Britain’s Guantanamo Bay’ – a single occupancy cell, furnished sparsely with a plastic chair, metal bed and steel toilet. For over 150 days this has been Julian Assange’s residence, whether he likes it or not. And a judge has ruled he is to remain there even after his jail sentence is over.


Pôr as coisas em perspectiva e lembrar que há pessoas que sofrem grandes horrores e não desfalecem. Nem guardam rancor. Só querem justiça e paz. É preciso recordar as coisas positivas: as dívidas que temos e que nunca poderemos pagar e contentarmos-nos com essa graça.