August 17, 2020

Prioridades


O problema da atitude desta ministra não está, segundo este indivíduo, na perda de vidas mas apenas na perda de credibilidade política. Ele está zangado com ela porque ela prejudica a imagem do chefe.

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Bem sabemos que Ana Mendes Godinho está a gerir uma pasta duríssima nestes dias de pandemia. Conseguimos imaginar as frentes e a complexidade dos problemas a que tem de responder. Mas mesmo numa situação extrema de trabalho e dificuldade, não podia considerar o relatório da OM como uma série de papéis iguais a tantos outros. Fazendo-o, destruiu capital político e credibilidade aos olhos dos cidadãos e legitimou os pedidos de demissão que, entretanto, foram anunciados.


Manuel Carvalho em https:que/relatorios-lê-senhora-ministra

A loucura humana está em destruir o que é raro e difícil de encontrar

 



'Extinct' large blue butterfly successfully reintroduced to UK

By Amy Woodyatt, CNN
   

Esta borboleta estava declaradas extintas há mais de 40 anos e há cerca de 150 anos que ninguém as via, no RU. Este ano, depois de conservacionistas terem largado larvas na natureza, cerca de 750 surgiram este Verão. Os especialistas levaram mais de 5 anos a preparar o terreno e as condições para poderem reintroduzi-las: uma das chaves do sucesso foi o controlo das formigas vermelhas da área onde foram reintroduzidas pois são vitais para o seu ciclo de via. No Verão, as formigas vermelhas carregam as larvas para os seus ninhos pensando que são uma das suas. A larva transforma-se em carnívora e alimenta-se de formigas durante todo o outono o ano até estar pronta para a metamorfose no Verão seguinte.

Foi preciso reduzir área de pasto para o gado para que as formigas aumentassem e ainda fomentar o crescimento de tomilho selvagem e manjerona que são uma fonte de alimento das borboletas e de habitat para a postura dos ovos. 

O projecto de reintroduzi as borboletas começou há 40 anos com espécies da Europa continental. Estas borboletas azuis são ainda mais sensíveis que as outras borboletas às mudanças ambientais de modo que são um barómetro do que acontece com o clima.

A loucura humana está em destruir o que é tão difícil de encontrar e preservar, como se fosse tudo igual ao litro. Vá lá que desta vez alguém se apercebeu da perda e ainda conseguiu fazer alguma coisa para reverter o processo. 

O que faz um poeta?

 



Balin Hobbs, sobre o mundo e a vida na Terra. Londres, Fev. 2019.


WHAT SORT OF ALTERNATIVE SOCIETY AND CULTURE DO YOU ENVISION?
“One that doesn’t make guns and bombs. One that’s not at war with itself constantly. One that doesn’t poison the air, doesn’t poison the land, doesn’t poison the sea. One that has enough respect for each other and the planet we live on and all the other life forms that share this planet that we live on. One that has enough respect for all of that. To live in a way that’s completely sustainable; that is beneficial to all of life, so that mankind becomes a simbiotic life-form that’s supporting the life of its host planet instead of being a parasitic life-form that’s devoiding its host planet of its ability to support life.”

Good morning

 


Jeanne Santomauro Schnupp

August 16, 2020

Dylan revisited

 


Trailer da festa do Avante

 


Hegel em férias 😁

 


A vida boa acabou-se que a água hoje estava a 19º. Nem a nadar se aquecia e ainda arranjei uma infecção nos ouvidos para ajudar. Em contrapartida confirma-se que as cavalas me adoram e o kiwi desidratado que levei para comer depois do banho é óptimo. Comprei numa senhora que tem aqui uma banca em Tavira com tudo quanto é especiarias que traz de Marrocos mais gomas turcas e fruta desidratada que é óptima para levar para a praia.

Ontem fiz o jantar para todos: um arroz de salsichas picantes (estive meia hora a tirar a pele das animalas) com pimentos, cebola e ervas (estava óptimo) e usei um pimentão fumado que comprei nessa senhora. Antes de ir embora (já passou uma semana, como é possível...?) hei-de lá ir comprar as especiarias para o ano. Mas ainda tenho uns dias de praia deserta - à hora que eu vou ainda está tudo a dormir e tenho a praia quase só para mim e para as cavalas.



Em suma:

 



Livros - Time of Magicians

 

Apesar do crítico não gostar do livro (veja-se abaixo o que ele diz), parece-me ter uma pesquisa exaustiva biográfica dos autores que merece a pena ler.  

Time of the Magicians: The Invention of Modern Thought, 1919-1929 by [Wolfram Eilenberger]  


O mais recente livro de Wolfram Eilenberger, o fundador da revista, Philosophie Magazin, pinta o retrato de quatro brilhantes jovens filósofos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra: Martin Heidegger, Walter Benjamin, Ernst Cassirer e – o único que viu, de facto, alguma acção militar - Ludwig Wittgenstein. Todos inovadores conceptuais mas em direcções diferentes. No fim, a única coisa que tinham em comum era a língua alemã.
Se algum dia se tivessem sentado à mesa de um café teriam desacordado em tudo. No entanto, segundo, Eilenberger, eles estavam unidos pelo 'espírito da época', o que os levou a cortar com os velhos modelos de existência (família, religião, nação, capitalismo) e a construir novos. Para Eilenberger eles são os 'mágicos' que fizeram da época de 1920 a grande época da filosofia. 

Passados estes anos todos, Heidegger e Wittgenstein são mundialmente conhecidos como patronos de duas tribos filosóficas -os sóbrios linguistas analíticos e os wild desconstrutivistas existencialistas- que mal se falam; Benjamin, o marxista místico, tem poucos seguidores, mas de culto e o pobre e velho Cassirer, parece não ter nenhum seguidor.

O abandono deste último não é merecido. Cassirer foi um pensador original, como nota  Eilenberger, embora demasiado urbano para o seu próprio bem. O seu trabalho estava enraizado na noção de Kant segundo a qual o mundo como o experienciamos é moldado pelas formas do pensamento e da sensibilidade humana; desafiou os filósofos a saírem um pouco mais e explorarem o mundo “em todas as direções”, prestando atenção à arte, às imagens e aos mitos, para além dos argumentos abstratos. Em 1919, Cassirer estabeleceu-se numa vida confortável como professor de filosofia na recém-fundada Universidade de Hamburgo e ganhou reconhecimento como um defensor proeminente da democracia alemã.

Em agosto de 1928 a república de Weimar celebrou seu nono aniversário e Cassirer marcou a ocasião com uma palestra pública na câmara municipal de Hamburg. O tema era duplo: embora a constituição da nova república alemã pudesse ocupar o seu lugar na descendência liberal da Magna Carta e das revoluções americana e francesa, também era fruto da tradição intelectual alemã de Leibniz, Kant e Goethe. O discurso foi feito com graça e autoconfiança e saudado com aplausos efusivos.

Acontece que no mês de fevereiro seguinte, a Universidade de Munique sediou um comício para o nacionalista Kampfbund [não sei como é que esta palavra se traduz] da juventude alemã. Suásticas por todo o lado. Houve uma ovação estridente quando Hitler e a sua comitiva entraram no salão. O filósofo vienense Othmar Spann fez um discurso sobre a “crise cultural do presente”, argumentando que a filosofia alemã estava sendo traída por um grupo muito unido de “estrangeiros”, nomeadamente, Cassirer. Cassirer era o mais alemão possível, não apenas por nascimento, mas também por educação, cultura e vocação, mas Spann - auxiliado por um aperto de mão e uma reverência de Hitler - considerou seu dever revelar que Cassirer era judeu, logo, não alemão.

Cassirer parece ter ficado impassível: não conseguia acreditar que um país civilizado cairia nas mentiras de palhaços populistas. Um mês depois, em março de 1929, foi para a estação de esqui suíça de Davos para um seminário de duas semanas sobre Kant, que ele lideraria em colaboração com o líder de uma nova geração de professores de filosofia, Martin Heidegger. Cassirer passou grande parte da quinzena cuidando de um resfriado, enquanto Heidegger subia pelas encostas com habilidade consumada; mas eles deram-se muito bem e encerraram os procedimentos com um debate. Cassirer aproveitou a oportunidade para elogiar Kant como um filósofo do infinito segundo o qual a humanidade está constantemente a esforçar-se por chegar a uma iluminação que nunca alcançará, enquanto Heidegger apresentou Kant como testemunha, apesar de si mesmo, de um "abismo" sob o trono polido de razão. O confronto foi um tanto rígido - “dois monólogos falados”, como disse um observador - mas também cortês, até mesmo cordial: um genuíno encontro de mentes, com uma séria diferença de opinião.

As entranhas do debate de Davos foram revolvidas muitas vezes, geralmente com uma retrospectiva portentosa: dentro de quatro anos, Cassirer encontraria refúgio na Inglaterra, enquanto Heidegger se tornava um nazi pago. Mas Eilenberger prefere manter os anos 20 dourados quando, a seu ver, Cassirer e Heidegger, junto com Benjamin e Wittgenstein, estavam essencialmente dançando a mesma melodia filosófica.

Não é uma história vulgar, mas Eilenberger conta-a com grande entusiasmo. Começa afirmando que os seus quatro filósofos se colocam todos na mesma "questão fundamental", ou seja, "o que é que a linguagem nos faz?" Em aparente concordância com Wittgenstein, partiram em busca de "uma linguagem subjacente a todo discurso humano" - "um unificador, uma linguagem primordial por detrás de todas as línguas e todos os significados ”.

Eilenberger apela aquilo que chama de “o espírito dos anos 1920”, que segundo ele envolvia espanto com a indefinição do tempo, ansiedade sobre os efeitos desumanizadores da ciência e espanto com “o nascimento de uma era de comunicação global”. No entanto, ele deve estar ciente de que dificilmente houve uma década nos últimos 500 anos que não pudesse ser descrita da mesma forma. 

Eilenberger amarra os seus mágicos por meio de conversas biográficas, passa rapidamente de uma vida para outra, nunca se esquivando da especulação sexual, e resume os seus resultados em títulos de capítulos alegres: "Heidegger está ansioso para uma luta, Cassirer está fora de si, Benjamin dança com Goethe e Wittgenstein procura um ser humano ”, por exemplo, ou“ Benjamin chora, Heidegger gera, Cassirer se torna uma estrela e Wittgenstein uma criança ”.

Eilenberger é uma presença benigna na Alemanha, onde fundou uma popular revista filosófica e publicou livros generalistas, além de promover a “filosofia para todos” nas redes sociais, rádio e TV. Mas a popularização filosófica é uma arma de dois gumes: pode incitar-nos a ler os grandes livros, mas também pode levar-nos simplesmente à gratidão por um popularizador ter se aventurado no seu escuro interior para que não tenhamos nós que o fazer.

Uma coisa que Eilenberger parece não perceber é que a maioria dos filósofos prefere morrer esquecido numa valeta do que receber ordens do “espírito da época” e o que eles fazem é tudo menos magia: é um árduo esforço com muita edição.  Como dizia Wittgenstein, “It’s damned hard to write things that make blank sheets better!”

Time of the Magicians é um best-seller premiado na Alemanha e está a ser traduzido para 24 idiomas. Bem, isso realmente soa como mágico - o tipo de sucesso que Cassirer, Heidegger, Wittgenstein e Benjamin não poderiam ter esperado nem nos seus sonhos mais selvagens.

 no Guardian (tradução minha)

August 15, 2020

Problemas na sala barroca


Dioniso Punk

" I'm a Saint and a sinner "

 

" I'm a Saint and a sinner "
Angels & Demons - Piazza del popolo, Rome

Geometry of survival

 

How does matter move from expansion to contraction? I need to know.

what do I do with all this just-a-while-ago-expanding-feelings-of-blue-sky?


 ResonanceScience.org


O gosto da vida III

 

Sons Of Anarchy S01 EP04 "Patch Over" 🎬🎥 Filosofia & Devaneios


O gosto da vida II

 



FOUR SPARROWS AND FLOWERING WISTERIA, OHARA KOSON (1877-1945)

Woodblock print, [n.d]. Please tap for full view.
Freer Gallery of Art, Smithsonian

O gosto da vida

 

Imagem: Pinterest


Dores de olhos

 



O gosto da vida e a tranquilidade



O gosto é um dos sentidos da percepção, o que está ligado ao paladar, o que indica que para apreciarmos a vida ela tem de ter algum sabor. Saborear a vida, diz-se. Ora o sabor é subjectivo, o que para uns é doce para outros é amargo, o que para uns é picante para outros é suave e para outros extremamente agressivo.
Neste sentido, nem toda a tranquilidade leva ao gosto da vida.
A tranquilidade de Pirro, dos cépticos, a ataraxia, aquele estado de tranquilidade livre de sobressaltos, indiferente às vissicitudes da vida, sem opiniões a favor ou contra o que seja pois que tudo é indefinido e em mudança, implica uma vida sem sabor, nem doce, nem amarga, pelo menos, não o suficiente para incomodar. Uma vida um bocado insonsa. Troca-se o sabor pela calma. Às vezes apetece mas só por uns instantes porque é uma vida contrária aos instintos do eros, no sentido freudiano do termo.
A tranquilidade estóica, a eudaimonia, é uma vida, já não de indiferença mas de aceitação, de resignação pelo estado de coisas tais como ocorrem. Os estóicos são deterministas e defendem a libertação das paixões pela razão. Prudência e auto-controlo acima de tudo, mesmo nas relações humanas. Não deixa espaço para as grandes lutas: contra a injustiça, contra o mal... são lutas que requerem um pathos muito forte. Às vezes apetece mas só por uns instantes porque é uma vida contrária aos instintos do eros, no sentido freudiano do termo.
Que outro tipo de tranquilidade existe? A tranquilidade que se sente no fim de uma luta intensa que acaba bem? É um tipo de tranquilidade que mostra ser esta um intervalo entre esforços. Uma intermitência entre lutas. Um repouso impermanente. Será que sem a intermitência do esforço almejávamos tão fortemente a tranquilidade?  É possível uma vida sem luta? Talvez seja para certas pessoas em certos contextos que não consigo imaginar porque não há vida nenhuma sem perda, sem doenças, sem frustração, sem paixões sem eros nem Thanatos.
A vida boa que inclui, o gosto da vida, o saborear da vida, será aquela em que paralelamente à labuta diária, temos um porto seguro de tranquilidade, sejam amigos, sejam pessoas da família, sejam companheiros: que nos percebem, nos valorizam, em quem nos reconhecemos como pares e com os quais somos nós mesmos, sem máscaras e estamos bem com o que somos, pessoas que nos desafiam e nos acrescentam qualquer coisa para dar gosto à vida. Como quem esteve numa viagem e regressa a casa. A tranquilidade e o gosto da vida são pessoas. Porque apreciar a paisagem, a arte, a comida e tudo o mais enriquece a vida mas por si só, sem aquelas pessoas que nos fazem sentir em casa, não conseguem infundir o gosto pela vida.

"Para os índios [da Amazónia], quando um jaguar se vê ao espelho, ele vê um homem" (Eduardo Viveiros de Castro)






Illustrator Ferdy Remijn
www.ferdyremijn.com

Existencialismo de trazer por casa III

 



directamente do FB

Existencialismo de trazer por casa II

 

As dores de existir na expressão dela e na firmeza com que estrangula o gato.

Lucian Freud, menina com um gatinho, 1947.

Existencialismo de trazer por casa

 


Uma barra de ferro custa US $5. Transformada em ferraduras, vale US $12. Transformada em agulhas, vale US $3.500. Transformada em molas para relógios, o seu valor é US $300.000.
O seu próprio valor é determinado pelo que é capaz de fazer de si mesmo.
E está aqui também a explicação para o salto que falta na economia do país... não é falta de trabalho, fazemos muitas ferraduras e poucas molas para relógios.


MorWal