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October 15, 2026

Porque é que todas as cidades deveriam aprender com Bolonha



Porque é que todas as cidades deveriam aprender com Bolonha


Architecture & Tradition



No Norte de Itália existe uma cidade onde podemos caminhar durante quilómetros sem nos preocuparmos com a chuva. O seu segredo é uma tradição arquitectónica que as cidades modernas, em grande medida, esqueceram.

Os pórticos da Via Farini, em Bolonha



Passeie pelas ruas de Bolonha e irá reparar em algo invulgar. Em vez de caminhar ao lado dos edifícios, muitas vezes dá por si a caminhar por baixo deles.

Belas colunas de pedra sustentam galerias cobertas que se estendem ao longo das ruas. Por cima da sua cabeça, há tectos abobadados e, ao seu lado, as entradas de lojas e habitações que existem há gerações.

Estas galerias cobertas chamam-se pórticos e são uma das características mais marcantes de Bolonha.

A cidade tem mais de 60 quilómetros de pórticos. Alguns são medievais, outros foram construídos séculos mais tarde, mas, em conjunto, formam uma extraordinária rede de espaços públicos abrigados.

É possível percorrer grande parte do centro histórico sem se molhar à chuva. Durante o verão, as arcadas protegem do sol, permitindo que as pessoas se desloquem confortavelmente entre diferentes zonas da cidade.

Mas a sua maior realização vai muito além de oferecer abrigo.

Os pórticos tornam belas as ruas comuns.

Transformam o espaço entre os edifícios e as estradas num lugar onde as pessoas querem permanecer. Em vez de tratarem o passeio como um elemento secundário, fazem dele uma parte essencial da arquitetura.

E penso que é algo que todas as cidades modernas poderiam aprender com Bolonha.

1. Uma cidade que construiu as suas ruas à medida das pessoas



Uma das coisas mais notáveis em Bolonha é que os seus pórticos nunca foram exclusivos dos grandes palácios ou dos monumentos importantes.

Encontram-se ao longo de ruas residenciais comuns e por baixo de edifícios que, há séculos, desempenham funções quotidianas.

Podemos sair de casa e caminhar até uma loja próxima, permanecendo protegidos pela mesma estrutura arquitectónica. A rua torna-se uma extensão dos edifícios que a rodeiam, em vez de ser um espaço vazio que os separa.

Isto cria uma experiência muito diferente daquela que temos ao caminhar por um bairro moderno típico.

Em muitos empreendimentos mais recentes, os edifícios estão afastados dos passeios, separados destes por parques de estacionamento ou por extensões de terreno sem utilização. As suas entradas estão desligadas da vida pública e os peões deslocam-se por espaços que oferecem pouca protecção.

Bolonha desenvolveu-se segundo um princípio diferente.

Os edifícios foram concebidos para contribuir directamente para a rua.

Os pórticos criam uma transição contínua entre a propriedade privada e o espaço público. As colunas estabelecem um ritmo reconhecível, enquanto a galeria coberta proporciona aos peões um lugar confortável para caminhar.

E, como as arcadas se prolongam de um edifício para o seguinte, a rua parece constituir um todo arquitectónico coerente.

A beleza de Bolonha não depende de todos os edifícios serem extraordinários.

Resulta da forma como os edifícios comuns funcionam em conjunto.

Jan Gehl, sobre a ordem correta do planeamento urbano:
«Primeiro a vida, depois os espaços, depois os edifícios — nunca funciona ao contrário. Numa sociedade que se torna progressivamente mais privatizada, com casas particulares, automóveis, computadores, escritórios e centros comerciais, a componente pública das nossas vidas está a desaparecer. É cada vez mais importante tornar as cidades acolhedoras, para que possamos encontrar os nossos concidadãos cara a cara e experimentar as coisas directamente através dos nossos sentidos. Uma vida pública de qualidade em espaços públicos de qualidade é uma parte importante de uma vida democrática e de uma vida plena.»

2. Como surgiram os pórticos de Bolonha



As origens dos pórticos de Bolonha remontam à Idade Média, quando a cidade começou a expandir-se rapidamente.

Durante os séculos XI e XII, Bolonha tornou-se um importante centro de comércio e de ensino. A sua universidade atraía estudantes de toda a Europa, enquanto os comerciantes estabeleciam negócios ao longo das ruas, cada vez mais congestionadas.

Com o aumento da população, a cidade precisava de mais espaço habitacional.

Uma das soluções consistiu em prolongar os pisos superiores das casas sobre a rua.

Estas saliências permitiam acrescentar divisões sem que os proprietários tivessem de adquirir mais terreno. Com o tempo, foram acrescentados suportes de madeira por baixo das extensões, e os espaços inferiores transformaram-se em galerias abrigadas.

O que começou por ser uma resposta prática à sobrelotação acabou por se tornar uma das tradições arquitectónicas mais importantes da cidade.

Os primeiros pórticos eram frequentemente construídos em madeira. Alguns exemplos notáveis sobreviveram até hoje, incluindo a galeria de madeira da Casa Isolani, na Strada Maggiore.

As suas enormes colunas de madeira sustentam os pisos superiores de um edifício medieval e mostram como eram os primeiros pórticos, antes de a pedra e o tijolo se tornarem materiais mais comuns.

À medida que Bolonha continuava a crescer, as autoridades municipais começaram a regulamentar a construção dos pórticos.

Os estatutos medievais exigiam que os novos edifícios, nas zonas mais importantes da cidade, disponibilizassem galerias cobertas e estabeleciam regras destinadas a garantir que estas permanecessem utilizáveis.

As autoridades compreendiam que estas estruturas serviam toda a comunidade.

Um pórtico podia pertencer a um edifício privado, mas o espaço por baixo dele destinava-se à circulação pública.

Este modelo tornou-se uma das características distintivas de Bolonha.

E permitiu que uma tradição construtiva prática evoluísse para um extraordinário sistema de arquitectura pública.

3. O segredo por detrás da beleza das ruas de Bolonha



A beleza de Bolonha resulta da forma como os seus edifícios funcionam em conjunto.

Caminhe sob uma longa sequência de pórticos e repare como os arcos criam um ritmo contínuo ao longo da rua. Cada coluna enquadra uma pequena parte da paisagem à nossa frente, enquanto a repetição dos arcos confere à rua, no seu conjunto, uma sensação de ordem.

O efeito é especialmente belo quando a luz do sol entra de lado e projeta sombras sobre o pavimento.

A arquitectura tradicional recorre amplamente à repetição, porque esta permite que os edifícios individuais contribuam para uma composição mais vasta. Um único arco pode ser atraente, mas uma centena de arcos que se estendem ao longo de uma rua cria algo muito mais impressionante.

Bolonha ilustra este princípio de forma particularmente eficaz.

Os seus pórticos apresentam diferenças consideráveis de aspecto, porque foram sendo construídos ao longo de muitos séculos. Alguns têm colunas simples de tijolo, enquanto outros apresentam capitéis de pedra elaborados e tectos ricamente decorados.

Camillo Sitte, sobre a abordagem artística, em oposição à abordagem puramente técnica, das ruas:
«Os sistemas modernos [...] preocupam-se exclusivamente com a disposição das redes de ruas e, por conseguinte, a sua intenção é, desde o início, puramente técnica. Uma rede de ruas serve apenas os objetivos da circulação, nunca os da arte, pois não pode ser apreendida sensorialmente nem compreendida como um todo, excepto através de uma planta [...] Só aquilo que um observador consegue abarcar com o olhar, aquilo que pode ser visto, tem importância artística; por exemplo, uma rua específica ou uma praça individual.»
No entanto, estas diferenças raramente destroem a unidade visual da rua, porque os edifícios partilham a mesma característica arquitectónica fundamental.

Isto permite que cada geração acrescente algo de novo sem abandonar o caráter estabelecido pelos construtores anteriores.

O resultado é uma cidade onde até um passeio banal se transforma numa experiência arquitectónica.

4. Quando os edifícios privados serviam o público


Um dos aspectos mais interessantes dos pórticos de Bolonha é a relação entre a propriedade privada e a utilização pública.

(...)

(para ler o resto é preciso pagar)

July 22, 2024

A inutilidade do belo

 



Na cultura mediterrânica, a folha de acanto significa vida duradoura - por isso, foi incorporada diretamente nas colunas.
Pequenos pormenores como este ligam-nos ao passado (vários milénios, neste caso)

 (The Cultural Tutor)

Até algo tão mundano como o mobiliário urbano pode fazer isso. Os curiosos "bancos esfinge" de Londres eram uma homenagem à chegada das Agulha de Cleópatra, do Egipto, em 1878.
O banco moderno não conta histórias. É um testemunho do totalitarismo do funcionalismo massificado.

O que falta aqui?
O humano em nós - "põe o que és em cada coisa que fazes"

Praga não é bonita por causa dos seus grandes monumentos mas por toda a beleza 'desnecessária', 'inútil': estátuas esculpidas à mão e nichos em cada esquina...
Essas cidades antigas foram o resultado de pessoas que moldaram organicamente o seu ambiente ao longo do tempo, com o objetivo de lhe pertencerem.

Cada esquina conta uma pequena história sobre a sua origem.
A esquina moderna, em grelha, não diz nada. É simplesmente o ponto de encontro das paredes de cortina. As ruas não pertencem realmente a ninguém.

A construção da nossa identidade, enquanto indivíduos ou cidadãos, ao longo da vida, está sempre encostada a um contexto ambiental-arquitectónico que nos forra as memórias, as vivências, a energia (positiva ou negativa), os horizontes, a auto-confiança, o sentimento de coesão com o passado, o presente e as possibilidades de futuro. 
Há uma tristeza deprimente nestas cidades esquecíveis, sem história nem poesia. 

O valor do belo não está na sua inutilidade funcional? Porque é que uma amizade é bela? Porque o nosso 'amigo' pensa que lhe podemos prestar serviços? Que pode usar-nos como uma função do seu interesse? Quem quereria uma amizade dessas? Porque é que uma cabeça de cavalo é bela? Porque podemos usá-la ou vendê-la por bom preço ou porque a sua contemplação nos causa um prazer interior e uma ligação fundamentalmente humana entre o passado e o presente? O que é que os turistas vêm ver a Lisboa? O edifício do novo museu dos coches, o edifício da EDP? Ou a Torre de Belém, os Jerónimos, a Rua Augusta, as ruelas da Mouraria, da Graça e do Bairro Alto, com as suas escadinhas, arcos, brasões de pedra e casas coloridas a contarem histórias milenares? 

April 29, 2024

Arquitectura de poder sombrio versus arquitectura de luz



A arquitectura expressa muito bem a visão do mundo, as intenções e as relações de poder dos seus criadores.



O Pavilhão alemão na Exposição Mundial de Paris, 1937



O Pavilhão soviético na Exposição Mundial de Paris, 1937



ambos os pavilhões frente a frente - esmagam todos os outros na sua óbvia competição pelo poder total


Veja-se o pavilhão da Alemanha na feira internacional de Barcelona nove anos antes, em 1929, desenhado por Ludwig Mies van der Rohe e Lilly Reich: um edifício de serenidade, cheio de luz e aberto - inclusivo como se diria actualmente - em contraste com aquele bloco fechado, gigantesco, de intimidação. Oito anos e um político criminoso predador de diferença... É difícil não fazer comparação com os 8 anos de diferença entre Janeiro de 2014 e Janeiro de 2022 do predador da Rússia relativamente à Ucrânia...





March 03, 2024

Deixar a marca da evolução das ideias nos espaços ou apagá-la?

 


A view of the Temple of Diana at Evora - curiosa gravura de produção inglesa datada de 1795, parte integrante da obra "Travels in Portugal, trhough the Provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura and Alem-Tejo", de James Murphy.


É particularmente interessante porque nos mostra a aparência que tinha ainda nesse tempo, tão diferente daquela que hoje ostenta.
Não foi, no entanto, unânime o destino a dar ao Templo Romano de Évora, quando a partir dos anos cinquenta do século XIX se começou a ter noção da sua real importância como polo central da identidade histórica da cidade.
Com efeito, por esses anos, o monumento permanecia ocultado numa espécie de torre medieval, com os espaços entre as colunas emparedados com paredes de alvenaria e coroado por ameias, fruto das transformações arquitectónias operadas durante a Idade Média, convertido em estrutura militar e depois em açougue.
Consultou a Câmara de Évora diversas personalidades nacionais habilitadas na matéria para se eleger a melhor solução, tendo sido díspares as opiniões sustentadas.
Para uns, a demolição do Templo. Para outros, mantê-lo como estava. Para outros ainda, o mais correcto seria o expurgo dos acrescentos medievais, os quais, no seu entender, constituíam uma profanação e abastardamento da traça romana, que urgia recuperar.
Em Julho de 1870, perante os resultados da consulta, a Câmara Municipal determina que se proceda ao restauro da traça original do Templo Romano, entregando a direcção da obra a Giuseppe Cinatti, o autor das Ruínas Fingidas do Passeio Público de Évora.
Para esta decisão, em muito terá contribuído a opinião de Alexandre Herculano, o mais conceituado historiador da sua época, que numa visita a Évora em Maio de 1870 se pronunciara a favor da completa desobstrução das estruturas romanas.
José Luís Espada-Feyo via A Torre do Tombo

November 29, 2023

Revivalismo arquitectónico

 


Dresden - os Atalantes em primeiro plano e a Catedral de Nossa Senhora, reconstruída, ao fundo.

Alguns países da Europa que tiveram os monumentos das suas cidades destruídos estão num revivalismo arquitectónico. Dresden, na Alemanha, é um desses casos, a Hungria é outro.

@Yunhehtn


March 21, 2023

Arquitectura de fusão: o estático e o dinâmico num só

 


November 15, 2022

Ver concretamente no abstracto

 


Os começos são sempre difíceis e o que sustém é a fé num futuro projectado e visionado. 


Barcelona, Espanha 1906. Basílica da Sagrada Família no início da construção. 

(via a beautiful culture)

December 22, 2021

December 11, 2021

Chão de pedra

 


Veneza, Basílica de São Marcos. Detalhe do chão: dodecaedro estrelado desenhado por Paolo Uccello, século XV.


December 07, 2021

Chão de pedra

 


Roma, Stanza della Segnatura no Palácio Vaticano. Por muito que o olhar se encante com a visão dos frescos divinos de Rafael, por favor preste também a devida atenção ao maravilhoso chão renascentista Cosmatesco, uma obra-prima frequentemente negligenciada durante as visitas.
Foto por Lure.
Dottrina dell'Architettura




October 23, 2021

Uma casa

 


Casa Katana (pela forma de lâmina das linhas da casa), Creta, Grécia
Perfeitamente integrada no ambiente.















KRAK. architects

By Naser Nader Ibrahim

October 11, 2021

Arquitectura

 


Uma casa na montanha, em British Columbia, Canadá desenhada por Milad Eshtiyaghi.















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(a house or a dwelling is not a home...)



September 20, 2021

Arquitectura elegante

 


Museu de Arte Moderna de São Francisco (Califórnia)


Em 2016, o Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA) passou por uma renovação que acrescentou nova energia ao espaço. A renovação foi conduzida por Snøhetta (uma comissão que ganhou num concurso que contou com a Adjaye Associates, Diller Scofidio + Renfro, e Foster + Partners). A expansão acrescentou 235.000 pés quadrados de espaço aos interiores do edifício, ao mesmo tempo que contribuiu muito para a integridade arquitectónica da cidade com o exterior do edifício.





Photo: Courtesy of Snøhetta/Henrik Kam

August 01, 2021

A poética do espaço

 




House under the hill in Nashtarood, Iran by mrk office / Mohammad Reza Kohzadi