July 22, 2020

Deambulações - da nostalgia a Rothko, passando pelo 'metal' e a descoberta de um pintor




Um tema que anda a ocupar em permanência uma das windows abertas na minha mente é o da nostalgia, mais propriamente, como se pode ter nostalgia de sítios, tempos, realidades, situações que nunca tivemos, isto pressupondo -embora sem certezas, aliás com muitas interrogações- que a nostalgia é diferente da saudade, em que esta é a falta do que já se teve e a nostalgia é a falta do que nunca se teve ou terá, como aparece bem retratado nas pinturas chamadas, muitas vezes, 'ruínas antecipadas' de, Lorrain, Church, Hubert Robert ou Panini, por exemplo.

Hoje de manhã fui dar com um artigo acerca deste tema, mas que o aborda de um ponto de vista político, quer dizer, como os políticos se usam das distorções da memória nostálgica (o querer voltar a um tempo em que a realidade era melhor, supostamente) para fazer propaganda populista. Embora interessante, em si mesmo, não é o aspecto que a mim me interessa. Interessa-me o aspecto psicológico e filosófico do assunto.

Andava aqui a ler umas fontes que deixei abertas no computador (neste momento tenho 32 janelas abertas no pc - metade são artigos sobre este assunto - se os guardo nos marcadores nunca mais os leio) quando fui dar com esta pintura que faz lembrar as pinturas de  'ruínas antecipadas', por causa do arco mas com um elemento apocalíptico por causa do contexto diluviano:


Fui pesquisar o nome do autor e dei com a pintura seguinte, ainda mais impressionante:




Descobri que o autor é um polaco de 59 anos e se chama Mariusz Lewandowski. Esta pintura chama-se, Essence of Freedom e nota-se que o autor dá importância à questão do sentido da existência e que é sensível à herança da cultura greco-cristã. As suas pinturas têm todas este tom entre o apocalíptico, por causa da grandeza das cenas em contextos despojados e agrestes e o mítico, por causa das figuras humanas que evocam o drama da existência e da morte. Algumas das pinturas são ilustrações de albuns de música metal. É o caso desta última, capa do álbum, Mirror Reaper de uma banda chamada, Bell Witch, de que nunca tinha ouvido falar.

Fiquei com curiosidade em ouvir a música do dito álbum. Faz bastante tempo que deixei de estar a par do que se faz nesse género de música e só ouço, e pouco, bandas que já passaram o seu tempo, por assim dizer. Bem, fui dar com o álbum destes indivíduos, muito diferente do que costuma ser a música metal. 

O disco tem cerca de uma hora e meia com duas partes, 00:00As Above  e  48:03So Below. Começa com o som de sinos e um tom de beat profundo que lhe dá a atmosfera apocalíptica, mas depois evolui para uma espécie de coro a evocar a religiosidade de monges e uma atmosfera nostálgica.

O álbum é muito longo e a evolução é tão lenta que em vez de despertar emoções, desperta um estado de consciência meditativa, tal como as pinturas de Rothko, onde parece que nada se passa. Aliás, quando penso que são pessoas que estão a tocar a música, parece-me que devem estar num estado de consciência alterada para a tocarem desta maneira etérea.

Enfim, afastei-me do tema da nostalgia (hei-de lá voltar) mas descobri um pintor e uma banda que é uma espécie de Rothko musical. Muito bons.

Piadas Covid 😀




Alegoria de nostalgia



O Vento dobrou o deserto em pregas de uma saia plissada erguida como uma muralha a proteger as dunas quentes e cremosas, mesmo na orla do Oceano, para que não se dissolvam nas de seu oposto -as vagas- e desapareçam, submersas, indiferenciadas.

Meob.Bay-.Coastline of Namibia

Leituras pela manhã - acerca do papel da imaginação na extinção de memórias ameaçadoras



... que espoletam comportamentos desadaptados de medo e ansiedade.

Attenuating Neural Threat Expression with Imagination

The current study bridges the gap between the clinic and the laboratory and, in doing so, demonstrates that a scientific interrogation of imagination’s role in fear regulation may provide novel insight into how threat memories are represented, accessed, and modified by mental action.

Drawing across this wide range of evidence, we propose the following mechanism: imagination of the conditioned threat stimulus will activate stimulus-specific perceptual representations that will, in turn, engage the neurocircuitry that underlies threat acquisition: the vmPFC, hippocampus, amygdala, and NAc. In the absence of any danger, repeated imaginings will have the same effect as actual exposures—neural and physiological responses to the conditioned threat stimulus will diminish.
(...)
Nothing in the real world can be perfectly represented by the brain, but a “good enough” approximation allows one to predict and navigate their environment. Imagination is a process by which information about one’s environment can be simulated and reorganized in order to improve predictions and learn under reduced risk. Imagination, when reduced to this basic functionality, is not unique to humans. Animals demonstrate deliberation when making choices, and this deliberation is thought to be analogous to imagined simulations of possible outcomes (Redish, 2016). Moser and Moser (2011) demonstrate that the resting mouse will both “replay” past actions and “preplay” future ones in a maze task. Furthermore, 
Takahashi et al. (2013) show that rats imagine outcomes when inferring paths through a mechanism that requires the integration of reinforcement histories of environmental cues via the orbitofrontal cortex. The human brain, however, may use imagination to draw upon richer experiences and cognitive frameworks in order to influence memory, learning, emotion, decision making, expectations, and beliefs. In this way, imagination is a process that can inform the study of cognition and behavior in both human and non-human animals.

This investigation has strong implications for the treatment of anxiety and threat-related disorders. While the integration of imagination with exposure therapy is not new, our approach to threat simulation is. Clinical applications of imagination are not pure exposure tools: patients have expectations of recovery, they sometimes are trained to control their breath, and imagination may be combined with cognitive restructuring techniques, or other talk-based therapies (Craske et al., 2014). In this experiment, the only difference between the real and imagined extinction procedure is the existence of the external stimulus. This allowed us to directly test whether stimulus re-exposure is critical to extinction learning, or whether it can be internally simulated. We conclude that an internal simulation of a real-world experience can alter the way one responds to that situation in the future. Indeed, imagined exposures to threatening stimuli are effective in the reduction of learned threat responses and evoke a network of brain activation similar to real extinction. These novel findings bridge a long-standing gap between clinical practice and cognitive neuroscience. Once a topic reserved only for poets and philosophers, imagination is now being regarded by psychologists as an important cognitive tool for both decision-making and emotion regulation.

July 21, 2020

Flying swiftly



Alex.Colville

Nocturna






Não, ontem não, nem antes de ontem, nem no dia anterior



... mas já aconteceu, sim. Mas é raro.


— Wislawa Szymborska, in: Um Amor Feliz. (Companhia das Letras, 2016, pág. 255)











Metamorfoses surrealistas?




ahah Acho que esta é a Criação mais bizarra que já vi



The Creation of Eve. c.1480-c. 1493
Maestro Bartolomé (Spanish)
Oil on panel
The University of Arizona Museum of Art

Original commission by Cathedral of Ciudad Rodrigo, Spain.

Uma pintura diz muito da mentalidade, das crenças, das esperanças e dos medos de quem a fez.


Acho que nunca tinha visto uma 'Criação de Eva' tão... estranha.
Adão está a dormir ferrado depois do almoço (barriguinha cheia), Deus (a ostentar riqueza) e com ar de quem vai vomitar, abre-lhe uma cratera nas costelas que lhe deve ter levado o baço e mais qualquer coisa e faz sair de lá a Eva que, ou é da minha vista ou tem um dos peitos a sair directamente do pescoço. Vem já com um ar miserável, sabendo o que a espera no mundo dos homens da fé. Uma das pernas de Adão tem lá dentro um pão alentejano. Entretanto, uma vaca (os cornos da vaca têm muito que se lhe diga), um cavalo, um carneiro e um galo, estão demasiado interessados no buraco de Adão. Um leão com ar de demónio e um pássaro gigante de uma só perna gritam (o leão ruge). Lá atrás, uns corvos com ar ameaçador atacam-se uns aos outros. Se isto é o paraíso, vou ali e já venho. 
Esta obra foi uma encomenda, o que significa que alguém a viu e deu o ok a esta visão bizarra da Criação de Eva enquanto Adão cochila com um pão alentejano na perna :))) 
Esta pintura faz-me lembrar aquela música popular açoriana que começa assim:

Eu nasci à Sexta-Feira
de barbas e cabeleira
mais parecia o Anti-Cristo
até o senhor padre cura
que é homem de sabedura
nunca tal houvera visto.

Fantásticamente bizarro e revelador. Agora ando a namorar um livro de preço proibitivo, mesmo tendo em conta as 800 páginas ilustradas e os textos excelentes:


- a maneira como um período de um milénio e qualquer coisa imaginou o paraíso e o inferno com os seus anjos e demónios explica muito dos percursos da construção humana.


Angelus & Diabolus


Life options


















Filosofia...

Shattered



... but with life inside, hence, hopeful.

photo-by-Joao-Freitas-Valle

Já começou



Ainda o dinheiro não chegou e já fogem de prestar contas. Vai uma vez a cada dois meses para não se incomodar com essa chatice da democracia e depois, há partidos que só têm 3 minutos para fazer perguntas... enfim... o PSD já se está a ver com a mão no saco do dinheiro porque 7 anos é muito tempo... uma pessoa queria muito ter respeito pelos políticos do país mas é difícil...


"Bloco central" aprova fim dos debates quinzenais. Primeiro-ministro no Parlamento só uma vez a cada dois meses /premium

Votação ainda vai ser confirmada esta tarde, e ratificada em plenário na quinta. Certo é que a partir de setembro, o PM deixa de ir ao Parlamento a cada 15 dias. "Bloco central" uniu-se contra todos.

Sou só eu que penso que isto vai ser um fartar vilanagem...



... e que o próximo governo vai ter 320 ministros que vão construir 20 comboios TGVs e 7 aeroportos mas nem um tostão vai parar à escola pública ou ao SNS? Ahhh e vamos aumentar, (in)explicavelmente, o número de milionários? Que se vai escoar tudo num ralo de ajustes directos amigáveis?


Portugal com acesso a 45 mil milhões a fundo perdido nos próximos sete anos

Algarve receberá programa específico de 300 milhões de euros, financiados pelos fundos da coesão. Portugal obtém, entre fundo de recuperação e QFP mais de 45 mil milhões a fundo perdido da UE. Mas ainda pode recorrer a 10,8 mil milhões de empréstimos.



Situações que dizem muito acerca do lugar da cultura em Portugal



Ando aqui há algum tempo à procura do discurso de aceitação do prémio Nobel de Bertrand Russel em versão portuguesa e não encontro. Encontro a original, em inglês e também encontro em espanhol, mas não em português. Não é como se Bertrand Russel tivesse sido uma figura menor da cultura a nível mundial, muito pelo contrário. Não por acaso, quando falo com alunos acerca de trabalhos e de como fazer pesquisas na internet, digo-lhes sempre que é provável não haver informação em sites portugueses e que o melhor é irem a sites brasileiros ou ingleses, se souberem razoavelmente inglês. Digo isto com alguma tristeza, mas temos que ser pragmáticos nestas coisas. Quanto aos discursos de aceitação de laureados, encontra-se o de Saramago e pouco mais.

About cruelty - A philosopher’s perspective



Something can be cruel, in the first instance, without being unjust; we can be cruel towards those to whom we have no particular duties of political equality. Indeed, Michel de Montaigne, the 16th century humanist – and Judith Shklar, his 20th century intellectual descendant – both took cruelty to be a natural human failing, which has a particular home in those spaces in which people are not predisposed to think of each other as moral and political equals. We are, said Montaigne, often tempted towards cruelty towards those who are vulnerable to us; it is the fact of their vulnerability, in part, which makes us want to hurt them. The desire to hurt, moreover, is at the heart of what cruelty is. All policy – no matter how well-designed – will cause pain to some people; the goal for public policy is to figure out how to design that policy, so that the pain is minimized (and distributed fairly). Cruel policies, though, take the hurt of some people to be, not a necessary evil, but a positive good; cruelty, as Montaigne has it, involves taking the pain of one’s enemies to be a sort of spectacle, watched for enjoyment, rather than regretted and subjected to public justification.

A philosopher’s perspective on the cruelty of Donald Trump’s immigration policies
BY MICHAEL BLAKE

Livros para 'dog lovers'



Coisas que se descobre em casa sem saber que se tinha.



Parece que ontem fez uma grande trovoada



Não dei por nada.

Visions of Earth






North Cascades National Park, Washington, USA

July 20, 2020

Abandoned beauties



Basta um bocadinho de imaginação e pode-se escrever um conto ou uma grande história a partir desta fotografia, de tal maneira ela é ricamente evocativa e densa com elementos estéticos, históricos e dramáticos. Até o cheiro do soalho conseguimos sentir. É uma tentação.

fotografia da net em 'abandoned beauties'

"Por que havemos de ser unicamente humanos?" II



Alexander o Grande nasceu neste dia em 356 AEC. 
Esta cabeça de mármore mostra-o barbeado, estilo revolucionário na época, mas que permaneceu na moda até ao reinado do imperador romano, Adriano.  
Esta cabeça foi encontrada em Alexandria, a cidade que fundou no Egipto. 



Marble portrait head of Alexander the Great. 
Found in Alexandria, Egypt, 2nd – 1st century BC. 
Find out more: http://ow.ly/raYB30qWwNg


Alexander The Great

There once was a Macedon lad
Whose mind was a trifling mad.
At twelve years of age, 
He fancied it sage
To render Bucephalus glad.

The boy on his horse would aspire
To better his average sire.
King Philip was mild
Compared to his child, 
Whose spirit consumed like a fire.

At twenty, the bellicose man
Embarked on a grandiose plan.
With dagger and shield
And soldiers to wield
His empire swelled quite a span.

In Egypt, where ships ever sail, 
He carried the crook and the flail.
In Persia he led
As Darius fled
Like a dog with a quivering tail.

There never was fortress to stall
The lord with a lust for the brawl.
He seized with a slam
Of his battering ram
An island surrounded by wall.

But in India vigor was spent
And soldiers began to dissent.
They pleaded, "No more! 
We're tired and sore."
The conqueror sulked in his tent.

Conceding at last to his fate, 
He ordered his men to abate.
Along their way back
A germ would attack
And overtake Alex the Great.

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