V – Isso, Cebete, é o que deverás dizer a Eveno. Apresenta-lhe, também, saudações
de minha parte, acrescentando que, se ele for sábio, deverá seguir-me quanto antes. Parto,
ao que parece, hoje mesmo; assim os determinam os Atenienses.
[Platão introduz aqui o tema da morte como algo que o filósofo deseja]
Símias exclamou: Que conselho, Sócrates, mandas dar a Eveno! Tenho estado
bastantes vezes com o homem, e por tudo o que sei dele, não terá grande desejo de aceitar-
te a indicação. [o homem comum tem medo da morte e vê-a como um mal, mas o filósofo deseja a morte]
Como assim? Perguntou; Eveno não é filósofo?
Penso que é, retrucou Símias.
Nesse caso, terá de aceitá-la, tanto Eveno como quem quer que se aplique dignamente
a esse estudo. O que é preciso é não empregar violência contra si próprio. Dizem que isso
não é permitido. [o suicídio é proibido pela religião e, aliás, o desejo da morte só vem após se ter percorrido o caminho da filosofia. Portanto, não é um desejo contra a vida mas o objectivo de uma vida]
Assim falando, sentou-se e apoiou no chão os pés, permanecendo nessa posição, daí
por diante, durante todo o tempo da conversa. [apoiou os pés no chão é uma indicação de ter os pés assentes na terra]
Nessa altura Cebete o interpelou: Por que disseste, Sócrates, que não é permitido a
ninguém empregar violência contra si próprio, se, ao mesmo tempo, afirmas que o filósofo
deseja ir após de quem morre?
Como, Cebete, nunca ouvistes nada a esse respeito, tu e Símias, quando convivestes
com Filolau? [era, na época, o chefe da escola pitagórica que acreditava na transmigração das almas, isto é, que após a morte, a alma se separava do corpo e entrava em outro corpo]
Ouvi, Sócrates, porém muito pela rama.
Sobre isso eu também só posso falar de ouvir; porém nada me impede de comunicar-
vos o que sei. Talvez, mesmo, seja a quem se encontra no ponto de imigrar para o outro
mundo que compete investigar acerca dessa viagem e dizer como será preciso imaginá-la.
Que melhor coisa se poderá fazer para passar o tempo até sol baixar? [aqui Platão expressa o tema da conversa: a morte e o seu significado, ou melhor, a vida e o seu significado filosófico]
VI – Qual o motivo, então, Sócrates, de dizerem que a ninguém é permitido suicidar-
se? De facto, sobre o que me perguntaste, ouvi Filolau afirmar, quando esteve entre nós, e
também outras pessoas, que não devemos fazer isso. Porém nunca ouvi de ninguém
maiores particularidades.