October 10, 2020

Cenas

 




vanitas vanitatum et omnia vanitas

 




imagem da net


A vida entristece-me
como o piano
esquecido
no casarão devoluto
da rua sem nome.
O tempo tirou-lhe o brilho
quebraram-se-lhe as pernas
o tronco torcido de tanto esperar
pelos dedos de tocar.
Foi-se num dia como outro qualquer
deixou silêncio
e desespero 
a fazer o trabalho
de esboroar.

Que louco se foi e o deixou ficar...?

A kind of peace

 




Jakob Alt - Die Blaue Grotte auf der Insel Capri, 1835


O número de mortos no país neste ano de Covid, é bárbaro e assustador

 


Qual onda de calor seu aldrabões? Este ano o Verão não teve aquelas onde de calar em que andamos uma semana com temperaturas de 45º ou mais. Até foi mais frio que o costume. Portanto, a variável óbvia deste ano relativamente aos outros é o Covid... Aliás, dizerem que é impossível saber ao certo porque morreu tanta gente mas depois garantirem que não foi o Covid, é ridículo... 

O Covid foi o factor que diferenciou este ano dos outros. Por conseguinte, a hipótese mais provável é a de que esta enorme barbaridade de mortos (14% em Setembro e mais 5% que o habitual nos meses que se seguiram à entrada do Covid no país), se deva ao Covid e a algumas outras doenças de pessoas que não foram ao hospital por medo ou não tiveram lugar no hospital por causa do Covid. 

Que o governo não queira que se saibam os número de mortos da pandemia para continuar com a narrativa de, 'correu tudo bem', é uma coisa, agora quererem fazer-nos de parvos...? 


Mortalidade em setembro ficou 14% acima da média dos anos anteriores. Covid-19 explica muito pouco

Números provisórios de setembro confirmam acréscimo permanente da mortalidade em Portugal. Neste último mês, apenas 17% dos óbitos registados foram atribuídos à covid-19.

Desde março, mês em que a pandemia chegou a Portugual, a mortalidade tem estado todos os meses acima da média, mas este é terceiro com maior acréscimo, só ultrapassado por abril (mês em que morreu mais gente com covid-19) e por julho (uma onda de calor provocou um pico de mortes). O aumento face ao mesmo mês dos últimos cinco anos foi de 17% em abril e de 28% em julho.

É impossível saber ao certo o que está por trás deste acréscimo persistente de óbitos em Portugal enquanto não estiverem apuradas as causas de morte, um processo muito moroso. No entanto, a DGS tem vindo a atribuir os picos de mortalidade ao calor, mas não avança quaisquer explicações para este acréscimo persistente de mortes.

Soluções

 


Projeto de escola agrícola do Paraná para estimular participação de meninas na ciência é finalista em premiação nacional. Ideia de estudantes de 14 e 15 anos surgiu após incêndio que arrasou parque nacional na região.

Feito com tubo de PVC e movido a base de um combustível natural, uma pilha e um fio para dar ignição, o minifoguete foi desenvolvido a um custo unitário de R$ 50. O protótipo chega a subir até 300 metros.

As sementes são transportadas num compartimento especial no "bico” do veículo. Quando ele atinge a altura máxima, esse compartimento se abre e as sementes são espalhadas no solo, com uma capacidade de reflorestar uma área de 284 metros quadrados.

Coisas que acho piada...

 


Que as pessoas e comentadores que se reclamam da esquerda, sempre que Costa dá uma de ditadorzinho assobiem para o lado e desatem a publicar notícias de Cavaco ter feito isto e aquilo, como se o facto de Cavaco  ou outro qualquer ter feito isto e aquilo legitimasse o desmantelamento do Estado de Direito a que assistimos no tempo de Sócrates e agora outras vez. E não estou a falar daquelas pessoas intelectualmente desinteressantes que escrevem que ou temos corrupção ou então morremos de burocracia... o tribalismo dogmático é isto.


A sociedade também não pode voltar a pagar o custo de um Sócrates/parte II

A sociedade não pode voltar a suportar o custo de uma paragem global", diz Costa sobre pandemia do coronavírus

Primeiro-ministro prestou declarações durante a Cimeira Luso-Espanhola.

🙂 🎵

 


Um enorme passo errado do governo!

 


Portugueses habituarem-se a ser meio-espanhóis, começarem a misturar as línguas, perderem a noção de fronteira, as crianças educadas em creches e escolas na língua e cultura espanholas e, pior, as autoridades portuguesas desleixarem-se no desenvolvimento do interior uma vez que as populações 'vão a Espanha' tratar de todos os seus problemas e assuntos. Se queriam deixar problemas graves para as gerações futuras, pois acho que acabaram de meter a primeira lança em África. Os espanhóis devem estar a esfregar as mãos de contentes, ainda para mais agora que tanto lá se fala de adjudicarem o nosso país ao deles para serem uma grande potência.

E de quem é esta ideia? Da ministra da Coesão Territorial! Parece uma piada de mau gosto...

Acho que não temos futuro como país dada a mediocridade dramática das pessoas que estão no governo, os da oposição e o ceguinho do Presidente.


Portugal e Espanha vão partilhar acesso a hospitais, lares, creches e escolas


Novo BI para cidadãos transfronteiriços vai beneficiar mais de 1,6 milhões de portugueses.

Terapia

 


Um vídeo para ver quando achar que tem azar ou que o dia lhe está a correr mal.  Works :)


Quite profound

 


"Truth is stranger than fiction, but it is because Fiction is obliged to stick to possibilities. Truth isn't."

Mark Twain

gmornin

 



October 09, 2020

Livros gratuitos - Platão, Fédon III (continuação)

 

Hoje, como não estou com cabeça para ler Hegel, resolvi pôr aqui o que seria o próximo excerto do Fédon de Platão, mas em forma de aúdio. 


Livros gratuitos - Platão, Fédon II (continuação)

 


IV – Nesta altura, falou Cebete: Por Zeus, Sócrates, disse, foi bom que mo lembrasses. Diversas pessoas já me têm falado a respeito dos poemas que escreveste, aproveitando as fábulas de Esopo, e do hino em louvor de Apolo. Anteontem mesmo, o poeta Eveno me interpelou sobre a razão de compores verso desde que te encontras aqui, o que antes nunca fizeras. Se te importa deixar-me em condições de responder a Eveno quando ele voltar a falar-me a esse respeito – e tenho certeza de que o fará – instrui-me sobre o que deverei dizer-lhe.

Então diz-lhe a verdade, Cebete, replicou: que não me movia o desejo de fazer-lhe concorrência nem aos seus poemas, quando compus os meus, o que, aliás, não seria fácil, mas apenas rastrear o significado de uns sonhos e cumprir, assim, minha obrigação, no sentido de saber se era essa a modalidade de música que me recomendavam com insistência. É o seguinte: muitas e muitas vezes em minha vida me visitava um sonho, sob formas diferentes, porém dizendo sempre a mesma coisa: Sócrates, compõe segundo a arte das Musas e a executa. Até agora eu estava convencido de ser justamente o que eu fizera a vida toda e que o sonho me insinuava e estimulava como costumamos estimular os corredores: desse mesmo modo, o sonho me exortava a prosseguir a minha prática habitual, visto ser a Filosofia a música mais nobre e a ela eu dedicar-me. Agora, porém, depois do julgamento e por haver o festival do deus adiado minha morte, perguntei a mim mesmo se a música que com tanta insistência o sonho me mandava compor não seria essa espécie popular, tendo concluído que o que importava não era desobedecer ao sonho, porém fazer o que ele me ordenava. Seria mais seguro cumprir essa obrigação antes de partir, e compor poemas em obediência ao sonho. Assim, comecei por escrever um hino em louvor à divindade cuja festa então se celebrava. Depois da divindade, considerando que quem quiser ser poeta de verdade terá de compor mitos e não palavras, [a arte é ficção e a filosofia é argumentação] por saber-me incapaz de criar no domínio da mitologia, recorri às fabulas de Esopo que eu sabia de cor e tinha mais à mão, havendo versificado as que me ocorreram primeiro.

V – Isso, Cebete, é o que deverás dizer a Eveno. Apresenta-lhe, também, saudações de minha parte, acrescentando que, se ele for sábio, deverá seguir-me quanto antes. Parto, ao que parece, hoje mesmo; assim os determinam os Atenienses.

[Platão introduz aqui o tema da morte como algo que o filósofo deseja]

Símias exclamou: Que conselho, Sócrates, mandas dar a Eveno! Tenho estado bastantes vezes com o homem, e por tudo o que sei dele, não terá grande desejo de aceitar- te a indicação. [o homem comum tem medo da morte e vê-a como um mal, mas o filósofo deseja a morte]

Como assim? Perguntou; Eveno não é filósofo?

Penso que é, retrucou Símias.

Nesse caso, terá de aceitá-la, tanto Eveno como quem quer que se aplique dignamente a esse estudo. O que é preciso é não empregar violência contra si próprio. Dizem que isso não é permitido. [o suicídio é proibido pela religião e, aliás, o desejo da morte só vem após se ter percorrido o caminho da filosofia. Portanto, não é um desejo contra a vida mas o objectivo de uma vida]

Assim falando, sentou-se e apoiou no chão os pés, permanecendo nessa posição, daí por diante, durante todo o tempo da conversa. [apoiou os pés no chão é uma indicação de ter os pés assentes na terra]

Nessa altura Cebete o interpelou: Por que disseste, Sócrates, que não é permitido a ninguém empregar violência contra si próprio, se, ao mesmo tempo, afirmas que o filósofo deseja ir após de quem morre?

Como, Cebete, nunca ouvistes nada a esse respeito, tu e Símias, quando convivestes com Filolau? [era, na época, o chefe da escola pitagórica que acreditava na transmigração das almas, isto é, que após a morte, a alma se separava do corpo e entrava em outro corpo]

Ouvi, Sócrates, porém muito pela rama.

Sobre isso eu também só posso falar de ouvir; porém nada me impede de comunicar- vos o que sei. Talvez, mesmo, seja a quem se encontra no ponto de imigrar para o outro mundo que compete investigar acerca dessa viagem e dizer como será preciso imaginá-la. Que melhor coisa se poderá fazer para passar o tempo até sol baixar? [aqui Platão expressa o tema da conversa: a morte e o seu significado, ou melhor, a vida e o seu significado filosófico]

VI – Qual o motivo, então, Sócrates, de dizerem que a ninguém é permitido suicidar- se? De facto, sobre o que me perguntaste, ouvi Filolau afirmar, quando esteve entre nós, e também outras pessoas, que não devemos fazer isso. Porém nunca ouvi de ninguém maiores particularidades.

Então, o que importa é não desanimares, disse; é possível que ainda venhas a ouvi- las. Talvez te pareça estranho que entre todos os casos seja este o único simples e que não comporte como os demais, decisões arbitrárias, segundo as circunstâncias, a saber: que é melhor estar morto do que vivo. E havendo pessoas para quem a morte, de fato, é preferível, não saberás dar a razão de ser vedado aos homens procurarem para si mesmos semelhante benefício, mas precisarem esperar por benfeitor estranho.

Itto Zeus, disses Cebete em seu dialeto, esboçando um sorriso: Deus o saberá.

Aparentemente, continuou Sócrates, isso carece de lógica; mas o facto é que tem a sua razão de ser. Aquilo dos mistérios [órficos], de que nós, homens, nos encontramos numa espécie de cárcere que nos é vedado abrir para escapar, afigura-me de peso e anda fácil de entender. Uma coisa, pelo menos, Cebete, me parece bem enunciada: que os deuses são nossos guardiães, e nós, homens, pertença deles. Aceitas esse ponto?

Perfeitamente, respondeu Cebete.

Tu também, continuou, na hipótese de algum dos teus escravos pôr termo à vida, sem que lhe houvesses dado a entender que estavas de acordo em que se matasse, não te aborrecerias com ele, e se fosse possível, não o punirias? [portanto, os deuses são nossos senhores como nós somos senhores dos escravos]

Sem dúvida, respondeu.

Por conseguinte, não acho absurdo ninguém poder matar-se sem que a divindade o coloque nessa contingência, como é o meu caso agora.

VII – Essa parte, observou Cebete, também me parece razoável. Porém o que afirmaste antes, sobre a disposição do filósofo para morrer, é um verdadeiro contra-senso, Sócrates, se estiver certo o que dissemos há pouco, que o deus cuida de nós e que somos propriedade dele. Como explicar que os mais sensatos não se aflijam com a ideia de abandonar um posto onde tinham a guiá-los os melhores guias que há - os deuses, é o que não chego a compreender. Pois ninguém ousará dizer que saberá cuidar melhor de si mesmo, uma vez em liberdade. Um indivíduo insensato poderia raciocinar dessa maneira, por achar bom fugir do amo, sem considerar que não se deve fugir do bem, mas ficar junto dele o maior tempo possível. Foge por carecer de senso. O indivíduo inteligente, pelo contrário, só deseja continuar junto de quem lhe seja superior. Por isso, Sócrates, o certo é, precisamente, o oposto do que foi dito há pouco: aos sábios é que fica bem insurgir-se contra a ideia da morte, e aos insensatos, exultar ante essa perspectiva.

Ao ouvi-lo assim falar, quis parecer-me que Sócrates se alegrava com a agudeza de Cebete; depois, voltando-se para nosso lado, falou: Cebete anda sempre à cata de argumentos, sem aceitar de pronto a opinião dos outros.

Ao que Símias observou: Porém quer parecer-me, Sócrates, que há bastante senso nas palavras de Cebete. Não se compreende, de facto, que indivíduos verdadeiramente sábios fujam de amos melhores do que eles e se alegrem com essa liberdade. A meu ver, o argumento de Cebete vai dirigido contra ti, por aceitares com ligeireza a ideia de deixar-nos a nós e também aos amos cuja superioridade és o primeiro a proclamar.

Tens razão, observou. Pelo que vejo, sois de parecer que preciso defender-me dessa acusação, como o fiz no tribunal.

Perfeitamente, respondeu Símias.

VIII – Pois que seja, disse. Vejamos se diante de vós outros minha defesa saíra mais convincente do que a feita na frente dos juízes. O fato, Símias e Cebete, prosseguiu, é que se eu não acreditasse [Platão faz notar que acerca do que se passa depois da morte não há certezas, só crenças], primeiro, que vou para junto de outros deuses, sábios e bons, e, depois, para o lugar de homens falecidos muito melhores do que os daqui, cometeria uma grande erro por não me insurgir contra a morte. [Sócrates acredita que forçou o seu próprio destino] Porém podes fiar que espero juntar-me a homens de bem. Sobre esse ponto não me manifesto com muita segurança; mas no que entende com minha transferência para junto de deuses que são excelentes amos: se há o que eu defenda com convicção é precisamente isso. Esse motivo de não me revoltar com a ideia da morte. Pelo contrário, tenho esperança de que alguma coisa há para os mortos, e, de acordo com antiga tradição, muito melhor para os bons, do que para os maus.

[nesta obra, Platão quer mostrar a razoabilidade da crença na imortalidade da alma e com isso combater o materialismo e cepticismo da época que foi de grandes transformações como foi aquela - a época de Pitágoras e de Heraclito e de Parménides e dos atomistas e dos sofistas e da democracia e por aí fora]

Como assim, Sócrates, perguntou Símias; com semelhante convicção queres deixar- nos sem no-la dar a conhecer? Eu, pelo menos, acho que se trata de algo de grande relevância para nós todos. Ao mesmo tempo, com isso farás a tu a defesa, se com o que disseres conseguires convencer-nos. [a filosofia é um combate racional entre argumentos -uma dialéctica- cujo valor é inter-subjectivo, díriamos hoje]

É o que vou tentar, continuou; porém primeiro vejamos o que o nosso Critão há tanto tempo quer dizer-me. 

Trata-se apenas do seguinte, Sócrates, falou Critão: é que há muito vem insistido comigo, a pessoa encarregada de dar-te o veneno, para avisar-te de que deves conversar o menos possível. Conversa muito animada esquenta, é o que ele afirma, e isso prejudica a ação da droga. Já tem acontecido ser preciso tomar duas ou três doses a quem se comporta desse jeito.

Sócrates: Manda-o passear! disse. E que prepare dose dupla, e até tripla, se for preciso.

Eu já sabia mais ou menos o que irias responder, observou Critão; mas o homem não me dava sossego.

Deixa-o, disse. E agora, juízes, pretendo expor-vos as razões [fala, não da crença em si mesma mas das razões que a sustentam] de estar convencido de que o indivíduo que se dedicou a vida inteira à Filosofia, terá de mostrar-se confiante na hora da morte, pela esperança de vir a participar, depois de morto, dos mais valiosos bens. Como poderá ser dessa maneira, Símias e Cebete, é o que tentarei explicar-vos. [é aqui que Platão os indica como os interlocutores de Sócrates]

(continua)



Post to myself

 


If it hurts is because that matters. 



RÉMY VAN DEN ABEELE

Ver tudo a preto e branco

 


Joacine não percebe que pôs a questão ao contrário: ela é que é deputada da Nação, ela é que devia representar-nos a todos. Porque uma pessoa não está na AR para representar apenas os negros ou as mulheres ou os vegetarianos ou o que seja. Tendo entrado lá tinha que elevar-se à altura do cargo e aproveitar a ocasião para melhorar um pouco, na medida das suas possibilidades, a sociedade em que vivemos. Mas não, porque ela vê o mundo a preto e branco e não consegue sair dali. Até podia dedicar-se à luta contra o racismo mas isso não se faz posicionando-se no mundo apenas enquanto mulher negra: olhem para mim, seus racistas e vejam que sou uma mulher negra vossa vítima - esta é a única posição constante dela. E como se apresenta desta maneira, mesmo que queiramos ver para além dessa condição, ela não deixa. Não se apresenta nunca como um ser humano com preocupações humanas e parte do princípio que é a única pessoa vítimas de estereótipos e que todos devíamos parar o que estamos a fazer para lhe escrever cartas de apoio. Um deputado que tenha uma iniciativa que melhore a perspectiva de empregabilidade dos afro-portugueses faz mais contra o racismo que 1000 textos dela a chamar racistas às mulheres que ela vê como brancas. Ela está presa à sua condição de mulher negra e quer que todos fiquemos presos como ela.


Joacine: "O feminismo branco é intrinsecamente elitista e racista"


Ex-deputada do Livre não se sente representada pelas feministas brancas, uma ideia que partilhou recentemente no Twitter e que foi muito criticada. Hoje, uns dias depois, lançou um site, na sequência da polémica ou não, certo é que promete usar esta plataforma para inaugurar uma nova forma de fazer política representativa”.


Corrosão imparável

 


Isto é a ideia dele de campanha. Chamar monstro a Kamala e retardado mental a Biden. É fácil eleger os Calígulas. Difícil é ver-se livre deles.


Porquê a filosofia



"É absolutamente próprio de um filósofo esse sentimento: o espanto. A filosofia não tem outra origem..." (Platão, Teeteto)

“Com efeito, foi pelo espanto (thauma) que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, perante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e colocaram problemas a respeito das maiores, como os fenómenos da Lua, do Sol, e das estrelas, assim como da génese do universo.
E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante; portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária.” (Aristóteles, Metafísica)


E de onde vem o espanto? O que o causa? A observação, mental, chocante, de que as coisas que pareciam ser afinal eram outras completamente diferentes, abre uma ruptura de perplexidade e contradição no sentido do real [havia já uma necessidade, não consciente, de sentido], momento a partir do qual a desadequação ao mundo, a ansiedade pela ruptura e a sede consciente de sentido, que guiam a sede de conhecimento que se instala, não mais abandonam a pessoa. Cada um saberá o momento em que essa perplexidade e ruptura de sentido se instalaram. Aos 12 anos.


"Somente artistas odeiam essa vida desleixada de maneiras emprestadas e opiniões vagamente adequadas e desvendam o segredo, a má consciência de todos, o princípio de que todo ser humano é uma maravilha única; ousam mostrar-nos o ser humano tal como é, até ao último músculo, ele próprio e só ele ainda mais, que nesta rigorosa consistência da sua singularidade é belo e digno de ser contemplado, tão novo e incrível como toda obra da natureza, e de forma alguma enfadonho.
(...)
É assim que a filosofia de Schopenhauer também deve ser sempre interpretada em primeiro lugar: individualmente, pelo singular ser humano, sozinho para si mesmo, para obter algum insight de sua própria miséria e necessidade, [face ao mundo] de sua própria limitação. . . Ensina-nos a distinguir entre as promoções reais e aparentes da felicidade humana: como nem as riquezas, nem as honras, nem a erudição podem despertar o indivíduo de seu desânimo pela inutilidade da existência e como o esforço por esses objetivos pode receber significado apenas de um objetivo geral elevado e transfigurador: ganhar poder para ajudar a natureza e corrigir um pouco suas tolices e erros crassos. Começar por si mesmo; mas eventualmente através de si mesmo para todos." (marxist.org)