Não há forma de contornar o tema. “Uma empresa só consegue promover um profissional de forma sustentável em duas situações: se estiver a crescer e puder aumentar a equipa, ou se nas estruturas de liderança houver rotação”, explica Luís Sítima, diretor-geral do Grupo Odgers Portugal, especialista em recrutamento executivo. Mas, então, como se evita que a falta de margem para o crescimento vertical na empresa dite a saída dos melhores profissionais? Não há fórmulas perfeitas, mas, para o recrutador, os desafios atuais exigem “que se repense o que significa progredir”.
IA tende a diminuir as estruturas hierárquicas nas empresas e eliminar funções de liderança
O risco de nada fazer está documentado. Uma revisão de 72 estudos empíricos, publicada em 2019 no “Journal of Vocational Behavior”, associa a estagnação de carreira a menor satisfação, e menor compromisso com a organização, além de ampliar a intenção de saída. A investigação distingue o bloqueio hierárquico, da estagnação no conteúdo do trabalho: não ter perspetivas de promoção e deixar de aprender são problemas diferentes, embora possam coexistir. A perceção de falta de apoio da empresa ajuda a explicar os efeitos negativos.
REPENSAR A PROGRESSÃO
É nessa distinção que podem surgir alternativas. “Nem toda a gente quer liderar ou ser chefia”, lembra Luís Sítima. Mudar de equipa, adquirir conhecimentos, desenvolver competências ou assumir projetos mais desafiantes, de maior escala e exposição internacional, pode constituir progressão. Dar visibilidade a um profissional num projeto relevante também pode ser uma forma de o valorizar. O essencial é que a oportunidade corresponda às suas ambições e represente desenvolvimento efetivo.
Apesar disso, Sítima defende a necessidade de maior circulação nas lideranças, antecipando que a IA trará organizações com menos níveis hierárquicos e mais pessoas a reportar à mesma chefia. “Com menos degraus na cadeia, as empresas terão de encontrar outras formas de reconhecer quem merece avançar”, nota. E acrescenta que há um hábito que é necessário eliminar: fazer depender o aumento salarial da subida na hierarquia. “Eu posso aumentar o salário de um trabalhador que tem bom desempenho, sem ter de o nomear para nenhum cargo de chefia”. Separar remuneração e liderança permite valorizar especialistas sem os empurrar para funções de gestão que não desejam ou para as quais não estão preparados.



