Abreu Pessegueiro
1983 Transparência V (Monsarás)
Óleo s/ tela
Colecção Particular
Neste momento há um grande desinteresse pelos mestres antigos. Todos os grandes colecionadores estão a comprar arte contemporânea. A arte dos mestres flamengos -retratos, natureza mortas, paisagens- caíram em desmoda. Naturalmente que isso não se aplica a Rembrandt e mais dois ou três nomes que nunca desvalorizam, mas quem quiser agora comprar uma pintura flamenga de um pintor menos importante, pode fazê-lo por 2000€ ou 3000€.
Se eu fosse rica ia comprar arte flamenga antiga. A pintura flamenga dos grandes mestres tem uma profundidade e uma densidade que as separam de outros estilos, técnicas, épocas. Olhamos para este retrato de Jan Six e reparamos logo no semblante dele, no olhar e na presença. Mesmo visto aqui por intermédio de um ecrã líquido e brilhante conseguimos adivinhar-lhe a força. Imagine-se perto dela, a receber o impacto daquelas camadas de tinta, em sombra e luz. A pintura flamenga antiga é a minha preferida -tudo tão real e profundo- e a humanidade de Rembrandt impressiona sempre.
Quando olhamos a pintura de muito perto, a mão enluvada e a luva caída na outra mão são umas camadas de tinta sem sentido e depois afastamo-nos e tudo aparece. Ele tem a expressão do olhar nas mãos, esquecidas nas luvas - ou as luvas esquecidas nas mãos. Não sei como faz isto mas parece-me uma espécie de magia.
Os grandes mestres estão dentro das pinturas. Como dizia Garaudy, “ Numa fruteira de Cézanne, não me interessa a presença das maçãs mas a presença de Cézanne.” Acredito piamente que para além do espírito, há uma parte material dos artistas que passa para a tela, durante aquelas horas e dias que se debruçam nela a deixar lá traços de tinta e fica lá presa, como os insectos no âmbar.Tenho saudades de ir visitar os pequenos e os grandes museus, cheios de jóias antigas.
Retrato de Jan Six por Rembrandt (1654)
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Dürer, era um grande apaixonado pela natureza em toda a sua diversidade e, se bem tenha viajado pela Itália para se inteirar das obras dos mestres renascentistas e tenha observado a recorrência deste tema nas suas telas, ninguém, à época, deu tanto destaque à natureza e à sua multiplicidade de formas como ele.
Foi um dos primeiros pintores a interessar-se em pintar animais e plantas por si mesmos. Naquele tempo era costume pintar-se estes temas como estudos que se vendiam a outros artistas -ou os próprios usavam- para incluir como pormenores em telas grandes, mas Dürer desenhou-os e pintou-os como obras acabadas. Atribui-se-lhe a frase, "É de facto verdade que a arte é omnipresente na natureza e o verdadeiro artista é aquele que consegue revelá-la".
Toda a gente conhece obras suas: a Lebre, a Asa de Um Rolo Azul, O Grande Turfo de Ervas, o Rinoceronte (cujo desenho está ligado ao início da construção da calçada portuguesa) e muitos outros desenhos e pinturas onde ele mostra a sua paixão pela natureza, a sua atenção ao detalhe (ao contrário dos italianos que usavam então o sfumato, Dürer preferia os traços bem definidos - dizem os entendidos que talvez por ter começado a sua carreira como gravador). Mesmo em obras sobre outros temas, estou a lembrar-me do Massacre dos Dez Mil, a natureza não está pintada como um mero pano de fundo, não: está pintada como um suporte de vida independente, em grande pormenor, ao ponto de podermos ver num ramo, por exemplo, um pássaro a fazer o ninho.
Já me aconteceu viajar para ir ver uma exposição deste pintor ou até uma obra só. Como outros pintores, mais até que muitos, as obras de Dürer têm que ver-se ao vivo. As nuances nos traços, na cor e na textura e outros aspectos, porque Dürer não deixava nada ao acaso na sua obsessão pelos detalhes e seus significados, perdem-se nas reproduções, por muito boas que sejam.
Um verde cheio de luz.
A neve sombreada no chão macio sobe pelo tronco a envolvê-lo como um abraço (isto foi de estar a ler aqueles artigos todos da Philomag 🙂) da cor da lua -meio escondida- e as florzinhas como estrelas pousam nos ramos, em frente ao azul cobalto do céu.
A sabedoria pertence a todas as gerações. É transtemporalmente intercomunicável e não vem só dos sábios e dos livros mas dos animais e da natureza também. Tudo é fonte de sabedoria para quem olha.
Raquel di Carvalho
Não podemos enquadrar a natureza, fechá-la num rectângulo e pensar que fica contida, domada, controlada.
"tronie”, palavra usada pelo neerlandês do século XVII para “cara”, definindo muitas vezes “estudos de figuras com cabeça e ombros, vestidos de forma exótica”(...) Isto não significa, no entanto, que Vermeer não tenha recorrido a um modelo, quer apenas dizer que “o resultado é mais genérico, intemporal e misterioso”, como se estivéssemos perante “uma sibila ou uma personagem bíblica”» (Helder Guégués)Também pouco se sabe sobre Vermeer. Pensa-se que ele poderá ter usado uma Camera Obscura para a composição dos quadros. Os amarelos e azuis dele são famosos.
Esta pintura é como um poema que sentimos tão nosso que podíamos ter sido nós a escrevê-lo. Também aqui sentimos imediatamente o calor das tardes de Verão e reconhecemo-nos no caminhar à sombra encostados à parede para fugir do sol abrasador.
Manuel García y Rodriguez (Spanish painter) 1863 - 1925
Street scene in Granada, 1890
oil on canvas