A soltar um si bemol largado como se fosse normal.
A soltar um si bemol largado como se fosse normal.
Olga Kulchynska, uma soprano ucraniana com um timbre rico e uma voz cheia de vivacidade e Joshua Hopkins, um barítono canadiano com uma voz linda. Cheia e com um timbre emocionante.
Le Bayreuth Baroque Opera Festival
Elena Obraztsova era uma soviética fanática ao ponto de ter denunciado Mstislav Rostropovich e Galina Vishnevskaya (sua mulher) por terem apoiado Aleksandr Solzhenitsyn. Repugnante. Se estivesse viva seria uma daquelas pessoas insuportáveis, defensora do império russo sangrento e do seu líder terrorista actual. Porém, temos de separar o artista-pessoa da sua arte e podemos ouvi-lo depois de morto - antes não seria possível. Seria uma legitimação de tudo o que é repugnante e contrário aos princípios da civilização. Agora que está morta há dez anos, já podemos ouvir livremente a sua voz rica de mezzo-soprano, sem celebrar a sua pessoa. Aqui a cantar a aria mais famosa da ópera Samson et Dalila de Camille Saint-Saëns.
Como diz um comentador, Callas canta e ouve-se, na sua voz, todas as emoções de Leonora: a fragilidade, o desespero, a confusão, a raiva e a determinação. Tudo. É perfeitamente compreensível que as pessoas enlouquecessem com ela.
Esta é talvez a ária de Verdi mais difícil para soprano.
Ontem fui ver O Trovador, de Verdi, ao S. Carlos. Começo já por dizer que gostei imenso. Quase tudo muitíssimo bom. O Trovador é uma ópera difícil que precisa de vozes muito boas, porque não tem tempos mortos e os cantores são obrigados a cantar sempre no limite das capacidades. Para além disso, é uma ópera que tem cenas de exaltação e cenas de sofrimento extremos o que pede vozes muito bem moduladas e educadas. Um grande controlo técnico e uma grande expressividade.
O Trovador é uma drama lírico, de superstição, obsessão, vingança, amor e morte - não são quase todas?- entre 4 personagens:
- Manrico, trovador ao serviço do Príncipe de Biscaia (tenor)O Trovador pensa ser filho da cigana (mas não é) que está apostada numa vingança contra o conde, cujo pai matou a sua mãe na fogueira. O conde está apaixonado pela Leonora que por sua vez está apaixonada por Manrico, o Trovador. Acaba mal, claro, mas até morrerem cantam todos muito bem :)
A ópera passa-se na Idade Média. O décore era uma estrutura a evocar algo entre o castelo e a armadura medievais. Multifacetada, ia rodando e mostrando uma faceta diferente consoante a cena. Muito inteligente e a criar um efeito metálico e rústico de Idade Média. A encenação muito boa, o movimento do coro e dos figurantes no placo, muito bom. Os figurinos e as roupas excelentes. a capa de um vermelho cerise da Leonora completamente de acordo com a emoção da ária, a criar um efeito dramático muito eficaz.
As cantoras femininas, ambas portuguesas (Cristiana Oliveira, a soprano e Cátia Moreso, a mezzo), ganharam o palco. A mezzo que faz de cigana tem uma voz mesmo perfeita para o papel de Azucena e uma presença forte em palco, o que é necessário, nesta ópera. Muito boa. A soprano que fazia de Leonora, tem uma voz rica, com um grande alcance e cheia de expressividade. Capaz de grande lirismo, muita doçura, um controlo de voz excelente. Cada vez que ela começava a cantar ficava imediatamente com a pele toda arrepiada e emocionada.
O conde, o barítono, um italiano, começou um bocadinho frio mas foi sempre a melhorar e cantou muito bem, muito convincente. O tenor, o Trovador que dá o nome à ópera, um russo, foi o menos bom. Chegou ao fim da terceira cena com a voz a sumir. Redimiu-se no fim, mas é um tenor com uma voz que não emociona nada (porém, tinha lá uma claque a gritar por ele). O coro esteve excelente, como de costume. Foi mesmo, mesmo bom.
Aqui neste concerto ao Largo do S. Carlos, há uns 3 anos, dá para apreciar a voz da Cristina Oliveira.
É uma pena que não tenham gravado a ópera. Dantes, quando a TV era mais que novelas e programas ordinários, passavam óperas. Óperas, teatro, concertos. Enfim...
Venho de ouvir o "Holandês Voador" de Wagner no CCB. Espectacular. Absolutamente espectacular. Adorei a encenação. Fui ver quem é o encenador: Max Hoehn. Muito moderna, minimalista a tirar o máximo efeito dos adereços e das luzes de modo a fazer sobressair a atmosfera da música. Todo o primeiro acto é em três cores, apenas: vermelho, negro e branco. Toda a movimentação dos cantores e do coro é de grande efeito dramático, às vezes quase escultórico. Muito dinamismo e imaginativo na maneira de evocar as ondas do mar, as tempestades e os espíritos dos marinheiros fantasmas.
A música de Wagner, como se sabe, vai do maior clímax dramático a trechos de grande majestade e de exuberância que caem de repente no mais puro lirismo romântico encantador. Esta ópera foi o primeiro grande êxito de Wagner e há trechos em que 'ouvimos' já as Valquírias, outros em que se adivinha o Tristão (os últimos minutos da ópera).
Todos os cantores foram bons mas o Holländer, cantado por Tómas Tómasson, um barítono islandês, um baixo-barítono (este da fotografia), é de uma categoria superior. Estávamos no 1º acto a ouvir o capitão do barco (um baixo) a cantar muito bem, numa atmosfera escura e meio tenebrosa, quando um corpo embrulhado numa capa negra começa a rolar lentamente até à boca do palco num efeito dramático extraordinário. De repente levanta-se um indivíduo enorme e começa a cantar com um enorme vozeirão de barítono sem nunca perder a clareza e a musicalidade da voz. Toma conta da cena. Fui procurar ao YouTube um excerto de uma actuação dele para pôr aqui, mas é tudo tão infinitamente distante da qualidade dele ao vivo, que desisti. O indivíduo tem uma voz e uma presença wagnerianas do melhor que se pode ver e sempre que ele está em palco, toda a cena e os outros cantores ficam carregados de energia. Nós estávamos no meio da segunda fila e o efeito da voz dele é indescritível. Uma voz rica e sombria. Depois, os seus gestos, a figura e a maneira como a iluminação caí sobre as suas mãos no meio da penumbra, fazia com que parecesse uma coisa fantasmagórica mesmo. Excepcional.
Venho de uma tarde de ópera no S. Carlos. Lucia di Lammermoor de Donizetti. É uma ópera dramática daquelas de faca e alguidar. A Lucia gosta de um tipo, casa com outro, aquele de quem gosta zanga-se, chama-lhe traidora, ela enlouquece de amor, morre e ele quando sabe, suicida-se (canta um bom quarto a plenos pulmões à hora da morte).
A encenação da ópera foi ridícula - o encenador é o mesmo espanhol que no ano passado nos obrigou a ver o Fausto, nu, em palco e uma fulana a lavar-lhe o rabo durante montes de tempo... pois esta encenação ainda foi pior. Tão má e ridícula que houve cenas de grande dramatismo que viraram burlesco à conta das parvoíces da encenação que nos distraiam e, muito pior, faziam rir. Houve alturas em que foi difícil conter o riso. A certa altura alguém num camarote deu uma gargalhada porque enfiaram a Lucia dentro de um carro no meio do palco e ela destravou o carro.
Uma pessoa vai ver esta ópera pelo canto. É uma ópera que requer habilidade e virtuosismo, sobretudo da soprano e do tenor que têm de ser de grande qualidade. Não vamos vê-la por causa do cenário ou da acção. A maioria das cenas têm duas pessoas em palco a cantar os seus estados de alma e de dor e não se passa nada a não ser o que dizem um ao outro.
A ópera passa-se no século XVI na Escócia, entre nobres. O encenador resolveu pôr dois planos temporais na ópera. Num plano estamos na actualidade e está uma mulher a ler a história da ópera... a mulher entra em cena vestida com umas cuecas e um soutien encarnados de renda diminuta, vai mostrar o rabo e as mamas ao público, depois veste um fato de treino ordinário e passa toda a ópera, tipo emplastro a intrometer-se no meio dos cantores. Há alturas em que entram os amigos dela, vestidos como drogados sem abrigo. Um bate-lhe. Em outra altura ela está outra vez de roupa interior e os homens apalpam-na, mexem-lhe no peito, põem-lhe água dentro das cuecas... uma coisa estúpida, de mau gosto e completamente descabida. Enquanto os outros cantam, vestidos à época, está a fulana num sofá encarnado no meio do palco, a rir, depois come bolachas...
O cenário da ópera é uma lixeira de electrodomésticos ladeada por candeeiros daqueles antigos de auto-estradas e um candeeiro de 5 euros do chinês à laia de lustre. A Lucia, o Edgardo e os outros todos, vestidos como nobres da época no meio da lixeira... uma coisa sem sensibilidade e esteticamente agressiva.
Um dueto que a Lucia e o Edgardo cantam muito bonito, estragado pelo emplastro das cuecas encarnadas a meter-se no meio. Uma coisa mesmo de bandalheira.
A soprano é uma portuguesa com uma voz muito bonita, mas a encenação desvalorizou-a completamente. Isso irritou-me. A cena mais emblemática da ópera é quando ela enlouquece. É uma aria enorme de quase um quarto de hora de coloratura extraordinária, que pede grande técnica e ornamentação vocal com efeitos de trilos, mordentes, cadenzas, etc. É muito difícil de cantar. Pois puseram a soprano dentro de um pequeno Lada, no meio do palco, os faróis acesos apontados para nós e projectavam a imagem dela numa tela. Uma coisa indecente. A soprano é grande, a cantar uma aria muito exigente e difícil, sentada apertadinha no carro, mal se ouvia.
A cena, que tem um grande impacto, não teve impacto nenhum. Uma pena, porque se percebe que, se a tivessem deixado cantar com liberdade para usar o corpo, ela teria cantado muito bem. No fim, fazem-na sair do carro vestida com um fato de treino de licra. Distraímo-nos do canto porque só se repara nos pneus que se movem à medida que ela canta. Uma coisa sem dignidade, sem sensibilidade e sem respeito, nem pela música nem pelos cantores.
No fim muita gente bateu palmas à encenação... não percebo... foi um desperdício de boas vozes e foi dinheiro mal gasto. A encenação foi uma coisa feia e absurda que alguém deve pensar que é muito moderna e estragou a ópera.
(nem vou contar a cena do padre agarrado ao telemóvel ou do casamento deles e o coro com facalhões na mão...)
Valentina Nafornita
Pus o vídeo a começar em, Nel di della vittoria do Macbeth de Verdi que é a segunda ária que canta neste concerto em Hamburgo a 15 de Maio de 1959 - a segunda parte deste vídeo é de outro concerto.
Ela é extraordinária nesta ária.
Ontem fui ao São Carlos ver o «Fausto» de Gounod. Uma ópera grande, em cinco actos, baseada na primeira parte da obra homónima de Goethe. Desde que o «Fausto» veio à luz, por assim dizer, nunca mais deixou de inspirar obras, tanto na literatura como na música. Há muitas peças musicais baseadas no poema de Goethe e três grandes óperas, sendo esta de Gounod a mais popular e a que mais vai à cena nas casas de ópera. É uma peça muito melódica e que se desenvolve com muita profundidade.
A peça abre com o Dr. Fausto velho, doente, em fim de vida, a reflectir sobre a falta de sentido do mundo, mas incapaz de se desapegar, revoltado e tentado pelo suicídio, «Nada. Em vão interrogo a Natureza e o Criador», diz Fausto, antes de invocar Satã, com quem fará um pacto de vender a alma em troca da juventude. Este início é muito melódico.
A encenação não começou muito bem, para o meu gosto. Vemos Fausto, já muito velho, entrar numa cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira, parar diante de uma banheira gigante no meio do palco (que tem um pêndulo gigante a balouçar para indicar a passagem inexorável do tempo), despir a camisa e ficar nu, de costas para nós. Depois, enquanto ouvimos aquela música impregnante e melódica estamos a ver a enfermeira lavar o rabo do Fausto... não havia necessidade. Percebe-se a ideia do peso da carnalidade humana na superficialidade da vida, mas... enfim, passado este início, foi tudo muito bom.
O tenor, Mario Bahg, cantou a sua parte com muito lirismo, muita sensibilidade, sobretudo nas partes mais íntimas. Mefistófeles, um baixo, Rubén Amoretti, aparece como um dandy fantástico, sempre seguido por dois demónios visualmente insidiosos e maléficos nos seus movimentos (no final, já nos agradecimentos, desmascaram-se e vamos que são duas mulheres) é como um mestre de dança que comanda todas as almas para a perdição eterna. A cena da danação de Marguerite é verdadeiramente impressionante. Num ambiente escuro e fantasmagórico, Marguerite reza, perto de um padre, aos pés de uma pietá. Eis que aparece Mefistófeles e um monte de gente que ele possui, como marionetas momentaneamente animadas, contra ela - a própria escultura ganha vida e Cristo e sua Mãe começam numa dança erótica, bela na sua decadência obscena, tudo cantado com grande beleza e profundidade dramáticas. A cena da dança das bruxas também é impressionante, uma espécie de bacanal dos infernos a acompanhar o enlouquecimento de Marguerite.
Marguerite é a personagem que mais evolui ao longo da peça. Começa como uma donzela cheia de excitação pela vida, pelo amor e pelas riquezas e no fim da obra é uma mulher desiludida, abandonada grávida por Fausto que se esgota -ele, não ela- na busca ávida de prazeres e na satisfação dos desejos.
O soldado, Valentin, irmão de Marguerite que canta uma das árias mais bonitas e famosas da ópera -avant de quitter ces lieux - é um barítono português, André Baleiro, com uma voz cheia e de grande dimensão, vencedor do prestigiado concurso alemão de Heidelberg, DAS LIED.
Enfim, desde os cenários, muito inteligentes (como têm de ser sempre no São Carlos que é uma casa de ópera muito pequena e não tem espaço para grandes construções em palco), a movimentação das personagens em cena, o coro do São Carlos (excelente), o jogo de luzes que ajudou na perfeição ao ambiente temático da ópera, até à prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa e ao seu maestro, foi tudo muito bom e no fim gritámos todos em ovação como acontece quando as óperas são boas e há um frisson na assistência.
Adoro esta ópera, conheço-a de cor e em casa estou habituada a cantar à medida que ouço música, de maneira que estava a fazer um esforço para acompanhar a melodia só com os ouvidos e a mente.
Para quem gosta de ópera, um espectáculo que quando é bom é insuperável, porque completo, já que inclui tantas artes diferentes, recomendo vivamente uma noite na ópera, no São Carlos, a ouvir o «Fausto» de Gounod.
(André Baleiro canta aqui bem, mas ontem cantou, ainda, muito melhor)
texto também publicado no delito de opinião
Ver Così Fan Tutte, de Mozart, em versão concerto, na Gulbenkian. Così Fan Tutte é uma ópera buffa.
Foi muito giro. Estava bem encenada, apesar de ser em versão concerto e muito bem cantada e interpretada. Todo o elenco era bom. Gostei particularmente da Despina, cantada pela soprano sul-coreana Sunhae Im. Uma voz belíssima e uma excelente interpretação do papel. Muito expressiva (estávamos numa das filas da frente e percebe-se tudo) e cómica, como convém ao seu papel e a esta peça. O baixo, Marcos Fink que cantou a personagem de Dom Alfonso, foi muito bom também. E os outros quatro também. O barítono que é um alemão, também muito bom. A Natalie Pérez que aparece classificada como mezzo-soprano mas que a mim me parecia uma soprano. E o coro muito bem. A orquestra tocou bem e no geral foi muito bom. Uma noite bem passada.
A ópera é longa de três horas inteiras - é de um tempo em que se ia à ópera e enquanto decorria o espectáculo se conversava com os amigos, entrava-se e saia-se do camarote para falar com este e aquele e ir ao camarote de outro em vez de estar em silêncio sentado três horas. Bem, ainda hoje, quando estamos num camarote vamos pondo em pé e esticando as pernas e isso. Enfim, mais um dia de ir cear às onze da noite e sermos praticamente expulsos do restaurante :)
Uma cena (O Cabaret do Inferno) da produção do «Fausto» de Gounod da Royal Opera Hause - pode ver-se em streaming, até 13 de Fevereiro, aqui: https://stream.roh.org.uk/.../faust-2019/videos/faust-2019