“As pessoas que não pagam a renda não são bandidos”Entrevista com João Nabais, presidente da Deco
Expresso
Receber dinheiro de empresas que a Deco pode ter de confrontar não cria um conflito?
Tem toda a razão, é um perigo. Eu posso ter uma parceria com uma grande empresa e ela até me paga porque estou a prestar-lhe um serviço. Mas é só isto. Não estou — e nunca o poderei fazer — a dizer “esta empresa tem os melhores produtos”. Se assim fosse, estaria a violar os meus princípios e os meus valores. A Deco é independente. Tenho que estar atento e não deixar que esta proximidade com empresas ou associações possa levar à perda de independência ou de objetividade da parte da Deco. Esta questão é uma questão central da nossa vida. Dou-lhe outro exemplo de formas de financiamento novas: nós fazemos a segmentação das queixas em função dos sectores de atividade. Tenho para oferecer a uma empresa um pacote com as queixas no seu sector ou relativamente à sua empresa. É um produto a vender, como é evidente. E parece-me legítimo, porque isto tem a ver com a minha atividade de proteção do consumidor. Se eu puder transmitir às empresas ou às associações este capital de queixa, também estou a proteger o consumidor, porque estou a contribuir para que a empresa preste um melhor serviço.
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No campo da habitação, a Deco reconhece como legítimo reduzir a morosidade dos processos de despejo, mas alerta que a reforma não pode limitar-se a responder ao incumprimento. Considera que o Governo está a proteger mais os proprietários do que os inquilinos?
Eu acho que está. Criou-se um mito: os poderes públicos estão a ser demasiadamente complacentes com quem prevarica e o grande prevaricador é o arrendatário. A Deco não escolhe lados nesta matéria. Há muita gente que, em dadas situações, não paga porque não pode mesmo pagar. Qual é a solução? É avançar para o despejo? É acelerar o despejo? Ou é criar condições para que essa pessoa venha a pagar ou arranje uma solução alternativa? De certeza que a solução não é acelerar os despejos. Nós não podemos admitir que as pessoas que não estão a pagar a renda são bandidos, ou são delinquentes.