A liberdade vem primeiro mas para entrares no Livre tens que te submeter aos meus 4 pilares.
Nós nascemos do zero mas com uma identidade definida (não há ninguém ali que perceba o princípio da contradição?)
Reclama ser o herdeiro de Passos Manuel e outros da 1ª República.
A ganância de poder escorre-lhe por todos os lados. Querem governar e estão a inventar uma identidade como se não estivessem na cena política há anos, como se fossem desconhecidos e nós não soubéssemos o que fizeram no Verão passado.
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“A liberdade é o início da nossa acção política”: rentrée do Livre prepara nova geração de quadros
Dos Setembristas a Flora Tristan, Rui Tavares recupera referências da esquerda progressista e libertária para explicar a identidade do Livre, numa rentréededicada à formação de novos quadros.
O Livre chega à rentrée deste fim-de-semana, no Porto, com uma tarefa que é simultaneamente ideológica e organizativa: formar uma nova geração de quadros sem diluir a identidade de um partido que quer crescer e preparar-se para governar. Sob o nome “Os Setembristas”, a iniciativa recupera uma tradição política que Rui Tavares identifica como antecessora do próprio partido: uma esquerda progressista, europeísta e libertária, que coloca a liberdade e os direitos humanos no centro da acção política.
Tavares, agora responsável pela estratégia, comunicação e formação, parte de uma premissa: o Livre não precisa de voltar a discutir quem é. “Nós nascemos desde logo como um partido criado do zero, sem tendências internas”, diz ao PÚBLICO. Ao contrário de outras forças da esquerda, construídas a partir da junção de partidos ou correntes políticas, o Livre nasceu já com uma identidade definida: “Essa questão ideológica está muito clarificada desde o início.”
Os quatro pilares — liberdade, esquerda, europeísmo e ecologia — não são, na leitura de Tavares, dimensões que possam ser escolhidas separadamente. “Toda a gente que entra no Livre tem de se rever nestes quatro pilares.” E a liberdade vem primeiro: “Só vale a pena fazer política se for de uma forma livre e para os humanos serem mais livres.”
É também aí que o partido estabelece uma fronteira com outras esquerdas. A defesa dos direitos humanos não pode depender da identidade política de quem os viola, argumenta. “Para nós, uma violação de direitos humanos é sempre uma violação de direitos humanos, seja por parte de um governo que se diz de direita ou esquerda.” Além disso, justifica, os estatutos não prevêem tendências internas ecologistas, libertárias ou europeístas: esses elementos não são correntes dentro do Livre, mas parte da sua identidade comum.
É para explicar essa identidade que a rentrée recupera o nome dos Setembristas. “Não é por acaso que esta nossa rentrée política tem este nome”, nota Tavares, recordando até que a designação desta iniciativa é anterior ao próprio partido e remonta a 2013, quando o Livre começou a construir a sua identidade política.
Do passado para o futuro
Com Passos Manuel — uma das figuras máximas do liberalismo português — como uma das principais referências, os Setembristas representam para o dirigente “a primeira esquerda que se afirmou esquerda em Portugal”, associada à educação, à cultura e à construção de “uma sociedade com direitos para todos, não só para alguns”. “Se nós olharmos para as raízes da história política de Portugal antes da ditadura do Estado Novo, desde o fim da monarquia até toda a primeira República, existe uma tradição que alia o progressismo e uma esquerda libertária”, afirma.
É a esse percurso que associa nomes como os de Fernão Botto Machado, Angelina Vidal e Adelaide Cabete, ligados a diferentes expressões do progressismo, do anarco-sindicalismo e do feminismo português. O Estado Novo, considera, “cortou essa tradição política e cortou a memória dessa tradição política”. Depois da ditadura, a esquerda portuguesa passou a organizar-se sobretudo em torno dos partidos da resistência e das forças que se consolidaram com a democracia.
Desde o fim da monarquia até toda a primeira República, existe uma tradição que alia o progressismo e uma esquerda libertária
Rui Tavares, co-fundador e dirigente do Livre
São esses os “os traços gerais dessa história política portuguesa” que o Livre quer levar às novas gerações, continua o dirigente e co-fundador do partido. A genealogia é também europeia, com referências a Victor Hugo e a Flora Tristan, figura do socialismo e do feminismo que Tavares quer incluir nas acções de formação do partido. Não se trata, porém, apenas de recuperar nomes ou correntes esquecidas, mas de sustentar uma ideia de sociedade, que, defende, “deve estar organizada de forma a que cada um possa florescer no seu máximo potencial”.
Do património à organização
É nesta concepção de sociedade que o Livre inclui o mutualismo, o associativismo e o cooperativismo. A aposta não é nova, mas ganhou outra importância depois do último congresso. “Mais do que apenas património ideológico”, passam a ser ferramentas de “crescimento e de enraizamento”. Enquanto o associativismo pode permitir criar meios de comunicação próprios, escolas de formação e capacidade de organização, o cooperativismo pode traduzir essa lógica em áreas como a habitação, o consumo e a produção, exemplifica. Paralelamente, explica, essa estratégia servirá também para disputar espaço político, construindo estruturas colectivas capazes de criar conhecimento, organização e influência fora do aparelho partidário.
Também Jorge Pinto, co-porta-voz do Livre, posiciona essa passagem da identidade à acção no centro da formação dos novos quadros. O partido quer transmitir os “princípios de esquerda do século XXI”, assentes no ecologismo e no europeísmo, mas também uma determinada cultura política. No Livre, “é a acção, a concretização, o tornar real as políticas que defendemos” que deve funcionar como motor, diz, traçando diferenças em relação ao PCP e ao BE. A luta e a resistência são essenciais, reconhece, mas “não o fim último da política”.
Para Pinto, o problema do Livre não é preencher uma lacuna ideológica, dado que acredita que “a base ideológica do Livre é sólida”. O desafio está em garantir que o crescimento acontece “de forma coesa à volta desse quadro ideológico” e que o partido consegue transformar princípios em políticas.
É essa passagem que a rentrée procura trabalhar. O programa que se prolonga até domingo inclui sessões sobre oposição construtiva, participação cívica, comunicação e capacidade de influência num executivo sem maioria, preparando o partido não apenas para fazer oposição, mas para exercer influência e, eventualmente, governar.
Liliana Borges, Público
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