Que tal ser mais exigente com as universidades, em vez de o ser com os jovens?
Que tal aprender e fazer como fazem os países sem numerus clausus, como a Bélgica ou França, ou universidades como a University of California que recusam exames estandardizados?
Luis M. Rocha
Público
Deveria chocar todos os portugueses que alunos mais pobres sejam apenas 3% dos novos colocados no ensino superior público este ano. Mas ler as declarações de reitores das universidades públicas ou outros responsáveis pela educação em Portugal é ainda mais frustrante e enfurecedor.
Estes frequentemente relacionam “exigência” académica com a prática nacional de definir a entrada na universidade pública por numerus clausus baseados em (um ou dois) exames e notas da escola secundária.Transmitida por reitores, governantes e pelos meios de comunicação nacionais, esta falácia é uma ideia zombie sem qualquer evidência empírica que a justifique (já anteriormente escrevi sobre essa falta de evidência). Notas em exames ou médias do secundário não revelam as pessoas com maior criatividade e desempenho profissional. Alguém acha que os melhores futuros médicos ou engenheiros se revelam pelas notas em exames de Biologia, Química, Matemática ou Geometria Descritiva do secundário?
O objetivo do numerus clausus e dos exames de acesso à universidade (como implementados) é o elitismo. Na prática, essa chamada “exigência” é um mecanismo de autosseleção e preservação das classes dominantes que têm melhores recursos para preparar os seus filhos — Engenharia Aeroespacial e Medicina são símbolos valiosos na dinâmica social deste elitismo. Isto não é a procura da excelência, exigência, capacidade ou mesmo inteligência (se esses conceitos fossem definidos) e explica tanto da falta de imaginação observada na academia, governação, inovação, economia e sociedade portuguesa.
O sistema educacional português parece estar viciado neste elitismo, mas as coisas não têm de ser necessariamente assim. Não temos de aceitar que a promessa da nossa Constituição esteja por cumprir, com o sistema "exigente" vigente a levar necessariamente ao corolário agora observado em que só 3% dos alunos que entram na universidade são de famílias pobres. Também as bolsas de incentivo não são mais do que caridadezinha sem impacto na trajetória garantida do sistema atual — além de criarem ressentimento justificado nos alunos e famílias da classe média que não são suficientemente pobres para as bolsas, nem têm os recursos das famílias mais ricas.
Que tal aprender e fazer como fazem os países sem numerus clausus, como a Bélgica ou França, ou universidades como a University of California que recusam exames estandardizados? Ou Cambridge ou Oxford que usam métricas holísticas? Será que os engenheiros formados em Berkeley, Cambridge ou na França não são capazes?
Entretanto, as universidades de Lisboa e Porto estão na posição 300-400 no ranking de Xanghai. Será a "exigência" e a "excelência"? O reitor da universidade do Porto (e ex-governante) está feliz que manteve a "exigência" de dois exames. Se exigíssemos classificações tão altas às universidades portuguesas como estas exigem aos jovens portugueses, um numerus clausus a elas aplicado, pelas "notas" no ranking de Xanghai, por exemplo, resultaria num grande chumbo. Certamente não é uma prestação equivalente à nota de entrada em engenharia aeroespacial que estas exigem aos jovens portugueses.
Esta falta de imaginação da universidade portuguesa lembra-me a história de Walter Pitts, um dos inventores das primeiras redes neuronais que eventualmente deu na inteligência artificial atual. Ele não acabou a escola secundária, abandonando-a aos 15. Ficou até um jovem sem abrigo. Mas, após impressionar os melhores cientistas da universidade Chicago à conversa (certamente não com exames e médias de escolinha), acabou por fazer um doutoramento no MIT — já depois do artigo famoso de 1943 com Warren McCulloch sobre redes neuronais que motivou a cibernética. Quantos Walter Pitts pode a sociedade portuguesa dar-se ao luxo de não aproveitar (e até destruir pela saúde mental), para preservar os privilégios das suas elites?
5. A única coisa que ele diz com verdade objectiva é que os mais pobres têm mais dificuldade em entrar em certos cursos, porque são caros e porque o seu contexto os prejudica à partida relativamente aos outros. No entanto, a solução não é abrir as portas das universidades a toda a gente (nem é útil ou importante que toda a gente tire um curso universitário), a solução é apostar em melhorar a vida das pessoas e apostar na educação pública.

