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November 20, 2025

O colonialismo português

 

A dívida moral que não pedimos
O colonialismo português não promoveu desenvolvimento em Angola. Ele produziu dependência. Dizer isto não é humilhar ninguém, é apenas descrever a realidade.

Elísio Macamo


As comemorações dos 50 anos de independência de Angola foram capturadas por um episódio sintomático da crise de imaginação política. No discurso solene, e com o Presidente português sentado a poucos metros, o Presidente angolano afirmou que o colonialismo português atrasou Angola. 

A frase, historicamente banal, tornou-se munição eleitoral em Portugal. André Ventura, candidato presidencial e líder do Chega, apressou-se em negar a responsabilidade colonial e apontou o atraso angolano à corrupção do MPLA. A televisão pública angolana, que na verdade é o próprio Governo, respondeu com ofensas que não dignificam nem a instituição nem o país, chamando Ventura de “mentecapto” e vaticinando um futuro sombrio para Portugal caso ele ganhe as presidenciais. 

O resultado é um diálogo de surdos entre um populismo que vive do ressentimento e um Estado que reage como se ainda não tivesse descoberto que a soberania se afirma pela serenidade.

A origem do imbróglio revela fragilidades profundas de ambos os lados. Do lado angolano, a verdade histórica do enunciado, nomeadamente a de que o colonialismo português atrasou Angola, colide com a realidade sensível dum país cuja trajectória pós-colonial ainda não produziu a autoridade moral e material que permita enunciar essa verdade sem ser imediatamente devolvida como acusação. A fragilidade económica, a desigualdade extrema, a corrupção sistémica e a persistente distância entre o Estado e os cidadãos dificultam o pleno exercício da soberania discursiva. (In)felizmente, em política internacional, não basta ter razão, pois são também precisos resultados. Quando estes faltam, as palavras, mesmo verdadeiras, tornam-se vulneráveis à caricatura. O colonialismo criou instituições extractivas, destruiu economias locais e infantilizou sociedades políticas inteiras. Não é preciso ser génio para reconhecer isto. Mas meio século de governo próprio também conta. A contradição não reside na frase do Presidente, mas no facto de Angola ainda não ter conseguido transformá-la em alavanca para a sua própria renovação.
Estou de acordo com o que este senhor diz até aqui (e muito do que diz depois) e nem sequer me parece polémico e também concordo com a sua análise do «indecentismo funcional de Ventura». O artigo é grande e só transcrevi estes excertos. O que não concordo é com esta observação de que Portugal vê como um insulto qualquer crítica ao colonialismo.
Do lado português, o desconforto é de outra natureza. Portugal, como muitas outras ex-potências coloniais, nunca resolveu simbolicamente o seu passado colonial. Qualquer referência crítica ao colonialismo é lida como insulto e não como constatação histórica. Ventura capitaliza esse ressentimento, oferecendo a sectores inseguros da sociedade portuguesa a fantasia moral de que Portugal foi apenas generoso, nunca violento, e que a ingratidão africana é uma afronta à sua identidade. www.publico.pt/
Na verdade, todas as pessoas com quem falo e muitas que leio, excepto os «retornados», não têm nenhum problema em reconhecer o colonialismo como um facto negativo de opressão de povos que desvaloriza a dignidade, a cultura e a agência das populações colonizadas. 

Não por acaso, os «retornados», aqueles que viveram nos países africanos numa situação de privilégio económico e social só por serem brancos da «Metrópole», aqueles que cresceram habituados a ver as populações locais como dependentes e numa escala social inferior, são os que mais se revoltam porque não conseguem tirar de si essa imagem do negro inferior.
Não tem que ver com o facto de serem negros mas de sempre terem tido, no âmbito do colonialismo, um estatuto inferior de maneira que os dois elementos se associam nas mentes desses retornados. É o mesmo processo dos homens de uma certa idade que cresceram a ver as mulheres sempre numa posição inferior, intelectual, política e economicamente e não conseguem ver ou posicionar-se fora desse «template». É um «template» absoluto. Ou os que associam Zelensky a um comediante de TV e portanto, não conseguem introduzi-lo na categoria de sério homem de Estado; ou, sempre se habituaram a ler Putin como estadista e não conseguem incluí-lo na realidade de ditador colonialista ganancioso e mafioso. É a mesma incapacidade de sair de quadros de categorizção enraizados na mentalidade desde a infância.

O que acontece é que em Portugal, desde o 25 de Abril, toda a História promovida, ensinada e divulgada é da extrema-esquerda e defende a ideia de que Portugal se reduz a um povo racista e colonialista, sem nenhuma virtude e, por isso, de cada vez que mais um livro ou opinião dessas sai nos jornais ou nas editoras, muita gente se levanta para negar que sejamos apenas isso. Não por não aceitarmos essa realidade de país colonizador e opressor, mas porque não aceitarmos ser apenas e somente isso.

Portanto, o que falta, como diz este articulista mesmo no fim do artigo, é maturidade. Equilíbrio. Uma história não-histérica, nem da extrema-esquerda que nega e tenta destruir tudo o que faz parte da civilização europeia, apesar de se usar dela como de pão para a boca, nem da extrema-direita que Ventura representa e que continua agarrada a um apostolado de valores cristãos absolutos.

November 16, 2025

Precisamos de ter uma conversa sobre a Rússia

 



Ser anti-Putin não significa ser anti-imperialista. A romantização dos dissidentes russos é enganosa

No debate alemão sobre os 'anti-Putin' na Rússia, os aspectos problemáticos desse meio são frequentemente ignorados. A perspectiva russa continua a ser priorizada em detrimento da perspectiva dos povos colonizados.

Franziska Davies 

Três das figuras mais proeminentes da oposição russa no Ocidente — Yuliya Navalnaya, Vladimir Kara-Murza e Ilya Yashin — convocaram uma «Marcha Anti-guerra» para este domingo, em Berlim. O seu apelo a outros russos para se juntarem à marcha é mais um exemplo de como a oposição russa, frequentemente adulada no Ocidente, tenta absolver a sociedade russa — os «russos comuns» — de qualquer responsabilidade pela guerra genocida da Rússia contra a Ucrânia. T
endo em conta as atrocidades diárias cometidas pelos russos na Ucrânia e o facto de que pelo menos uma parte substancial da sociedade russa apoia a guerra travada em seu nome ou é indiferente a ela, esta perspectiva é absurda.

Navalnaya e os seus colegas activistas não só negam essa realidade, como demonstram mais solidariedade com a sua imaginária «maravilhosa Rússia do futuro» do que com a Ucrânia, que está actualmente sob o seu ataque. 

No seu apelo, exigem que Putin retire as tropas russas da Ucrânia (boa sorte com isso), mas não pedem que mais armas sejam enviadas para a Ucrânia. Na verdade, os três têm sido, na melhor das hipóteses, ambíguos sobre a questão do fornecimento de armas à Ucrânia.

Por último, a escolha de Berlim como local para a marcha é curiosa. Porquê Berlim? Porque a cidade está associada à derrota do fascismo pelos soviéticos, que a Rússia continua a reivindicar como uma vitória exclusivamente russa? Ou talvez porque os alemães ainda se sintam culpados pelos crimes cometidos pelos seus antepassados na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial e, muitas vezes, projectem essa culpa mais na Rússia do que na Ucrânia ou na Bielorrússia? Ou será por causa do tradicional «complexo da Rússia» da Alemanha, que também pode ser visto na admiração acrítica de figuras proeminentes da oposição? Será que Navalnaya, Kara-Murza e Yashin veem isso como um trunfo potencial para sua reivindicação de legitimidade discursiva no debate ocidental sobre a Rússia e a Ucrânia?

Neste ensaio, argumento que é hora de fazer uma avaliação crítica dos auto-proclamados líderes da oposição russa no Ocidente.

Neste Outono, as memórias do opositor do Kremlin, Alexei Navalny, foram publicadas na Alemanha. O incansável combatente contra a corrupção do regime de Putin foi assassinado num campo penal russo em fevereiro de 2024. 

Nas resenhas de suas memórias (com algumas excepções, como as de Nikolai Klimeniouk no Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e Ulrich Schmid no Neue Züricher Zeitung), repete-se um padrão que já podia ser observado em vários obituários nos jornais alemães após sua morte: a estilização de Navalny como um herói, um lutador pela democracia e pela liberdade, enquanto, ao mesmo tempo, o seu racismo, nacionalismo e imperialismo bem documentados são minimizados ou mesmo completamente ignorados. O discurso da mídia na Alemanha sobre Navalny e também sobre a sua viúva, Yulia Navalnaya, que quer continuar o seu legado, é exemplar da romantização acrítica do campo anti-Putin russo no Ocidente.

Ao mesmo tempo, há um desequilíbrio entre o interesse nas (supostas) luzes de esperança da Rússia e os ucranianos que actualmente lutam pela sobrevivência da Ucrânia e da sua democracia. 

Por exemplo, mais ou menos na mesma altura da publicação das memórias de Navalny, foi anunciado, a 18 de outubro, que o activista dos direitos humanos e soldado Maksym Butkevych tinha sido libertado após quase dois anos de prisão na Rússia. O tageszeitung foi o único grande jornal alemão que considerou esta notícia digna de destaque. Este é apenas um dos muitos exemplos de que os «bons russos» (uma descrição irónica dos críticos de figuras problemáticas do campo anti-Putin russo) gozam de maior presença nos meios de comunicação ocidentais do que os ucranianos que lutam pela sua liberdade, mesmo durante a guerra de agressão da Rússia. 

A idealização romântica da Rússia, que o historiador Gerd Koenen descreveu acertadamente como um «complexo da Rússia» num dos seus livros, ainda não é coisa do passado, apesar da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em Fevereiro de 2022. A nível analítico, isto é insatisfatório e do ponto de vista político, é problemático. Foi, em grande parte, a avaliação completamente errada da situação actual da Rússia que, pelo menos, facilitou a invasão em grande escala da Ucrânia.

É digno de nota que a romantização de Navalny também pode ser observada em círculos profissionais. Por exemplo, Kerstin Holm, correspondente cultural de longa data do Frankfurter Allgemeine Zeitung em Moscovo, vê em Navalny uma «personalidade de enorme curiosidade, capacidade de aprendizagem e criatividade», que «desde cedo procurou o diálogo com pessoas fora da sua bolha (como nacionalistas, pelo que muitos democratas o criticaram)». 
Esta última afirmação está simplesmente errada. Navalny não procurou o diálogo com nacionalistas; ele próprio era nacionalista e nunca fez segredo disso - mesmo não fazendo parte da cena militante de extrema-direita organizada, Navalny chamou a atenção com declarações racistas extremistas, especialmente na fase inicial da sua biografia política. 

Um exemplo é um vídeo publicado pelo Movimento de Libertação Nacional Russo em 2007, no qual Navalny, um auto-proclamado «nacionalista certificado», se refere a pessoas não brancas, rotuladas como «alienígenas» e muçulmanas no vídeo, como «moscas e baratas»(...)

É indubitavelmente verdade que se pode observar uma evolução na biografia de Navalny, no sentido em que ele fez da luta contra a corrupção na Rússia o seu tema principal.

No entanto, continuou a ver-se como um nacionalista e apenas suavizou o seu tom ao longo do tempo, mas as exigências anti-imigrantes e a retórica xenófoba continuaram a fazer parte do seu programa político, tanto como candidato às eleições para a Câmara Municipal de Moscovo em 2013, como na sua tentativa (mal sucedida) de ser nomeado candidato à presidência em 2018. 

Nunca se distanciou nem um pouco, mesmo das suas declarações mais desumanas. Esta foi uma decisão deliberada de um homem que se via como a antítese de Vladimir Putin e queria tornar-se presidente da Rússia. Como afirmou a historiadora Kimberly St. Julian-Varnon no seu obituário de Navalny, «O futuro da Rússia de Navalny não incluía toda a gente».

A marginalização deste aspeto de Navalny e do seu programa político pode estar relacionada com o facto de o foco de Navalny na corrupção ter conseguido atrair os jovens para protestar contra o regime de Putin. O grande reconhecimento de que Navalny goza no Ocidente também tem origem nisso. Afinal, segundo esse argumento, alguém conseguiu organizar uma pequena resistência a Putin nas ruas. 

Porém, o que é esquecido é que o foco restrito na questão da corrupção também foi o grande fracasso político de Navalny. Na Chechénia, na Síria e na Ucrânia, pode-se ver que não é a corrupção que torna a Rússia tão perigosa e destrutiva, mas a violência e o colonialismo, aliados ao nacionalismo extremo.

A mentalidade colonial do campo anti-Putin russo

Navalny não é de forma alguma o único representante do campo anti-Putin russo a ser elevado acriticamente no discurso da mídia alemã a um símbolo de uma Rússia diferente e melhor. 

O mesmo se aplica, por exemplo, ao ex-político russo Vladimir Kara-Murza, que foi preso e encarcerado em Moscovo em Abril de 2022 por se opor à invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia. Embora esteja muito longe do racismo extremo de alguém como Alexei Navalny, a sua atitude também revela uma postura generalizada no meio anti-Putin russo: uma relutância em responsabilizar a sociedade russa pelo desenvolvimento da Rússia.

Pouco depois de Kara-Murza ter sido libertado da prisão em Agosto de 2024, no âmbito de uma troca de prisioneiros, afirmou que, no futuro, concentraria os seus esforços em pôr fim às sanções abrangentes contra a Rússia. Afinal, apenas Putin e o seu grupo são responsáveis por esta guerra e, consequentemente, apenas eles deveriam ser afectados pelas sanções. 

Ao fazê-lo, declarou efectivamente que o sofrimento e as mortes na Ucrânia e a sua vitória eram uma questão secundária: afinal, o objectivo das sanções ocidentais é enfraquecer a economia de guerra russa e, assim, tornar mais provável a derrota de Moscovo. Kara-Murza fez uma distinção nítida entre Putin e a Rússia e falou — tal como Navalny e a sua esposa Yulia Navalnaya antes dele — absolvendo a sociedade russa de qualquer responsabilidade por esta guerra, chegando mesmo a afirmar que a maioria dos russos era contra a guerra.

Os opositores de Putin, Ilya Yashin e Andrey Pivovarov, que também foram libertados como parte da troca de prisioneiros, fizeram declarações semelhantes. Mesmo após a invasão em grande escala da Ucrânia, Navalny, ainda na prisão, continuou a negar que a Rússia seja um país imperialista. 

A linha de argumentação de Navalny: fez a pergunta (retórica) sobre se todos os russos teriam uma «consciência imperial». Escusado será dizer que a resposta a esta pergunta só pode ser negativa: seria impossível afirmar que todos os cidadãos de qualquer país, sem excepção, têm a mesma atitude em relação a qualquer questão. 

O segundo argumento de Navalny foi ainda mais revelador: se a Rússia é imperialista, então a Bielorrússia também deve ser imperialista, uma vez que o ataque à Ucrânia também teve origem em solo bielorrusso. O absurdo dessa afirmação é óbvio, já que a degradação da Bielorrússia a um estado vassalo é consequência da política imperialista de Moscovo.

Talvez fosse lógico, portanto, que a equipa de Navalny se abstivesse de arrecadar dinheiro para a Ucrânia e continuasse a concentrar-se na corrupção de Putin e sua comitiva e na produção de vídeos no YouTube sobre esse tema. Recentemente, a sua viúva, que também foi estilizada pela mídia como uma heroína, disse que a questão de se a Ucrânia deveria receber armas para sua defesa era difícil, uma vez que essas armas poderiam acabar sendo usadas contra os russos.

Este é o cerne do fracasso de muitas figuras proeminentes da oposição russa no Ocidente: elas imaginam uma sociedade russa inocente que só precisa ser libertada de Putin, e a Rússia democrática e livre do futuro terá início. 

Este sonho de uma «Rússia maravilhosa do futuro» e as (supostas) vítimas russas do presente são os principais destinatários da sua solidariedade, e não a Ucrânia, que luta pela sua própria sobrevivência. 

Mas de onde virá essa Rússia melhor, quando a maioria dos que se apresentam como representantes dessa Rússia não só não têm influência política no seu país natal, como também não demonstram qualquer vontade de criticar a sua sociedade? Se são incapazes até de chamar pelo nome a violência colonial que caracteriza a política e a sociedade russas, no passado e no presente?

O oposicionista russo como mártir

É impressionante que tal análise crítica da oposição russa na Alemanha muitas vezes provoque reflexos defensivos emocionais. A tradicional priorização das perspectivas russas é uma das razões para isso. Outra está relacionada com a forma de resistência de figuras proeminentes da oposição russa. Essa forma é personificada por Navalny, Kara-Murza e Yashin: todos estavam dispostos a ir para a prisão por suas convicções e a pagar com suas vidas por defendê-las. 

Pode-se tirar a conclusão moral de que criticar essas pessoas é inadequado, tendo em vista a sua disposição pessoal de fazer tais sacrifícios. No entanto, do ponto de vista analítico, isso seria o fim de qualquer exame crítico da agência em ditaduras, pelo menos para todos aqueles que trabalham em democracias. O silêncio inspirado pelo temor e a admiração silenciosa substituiriam a análise. Mas essa também seria a abordagem errada do ponto de vista político. Não estaríamos a fazer nenhum favor aos membros da oposição russa ao rotular qualquer crítica ao seu destino como inadequada. Somente por meio de discussões difíceis há uma chance de que algo mude nesse meio.

Como devem ser interpretadas as formas de resistência de Navalny, Kara-Murza e Yashin contra o regime de Putin no contexto histórico-cultural russo? É que, nestes casos, foi realmente uma escolha: Navalny poderia ter ficado na Alemanha após a tentativa de envenenamento, e Kara-Murza, que também tem cidadania britânica, poderia ter deixado a Rússia. O facto de tanto Kara-Murza como Navalny terem aceitado a – esperada – detenção num campo na Rússia e, consequentemente, a sua própria morte, também tem a ver com um modelo tradicional russo, fortemente carregado de religiosidade, do opositor ao regime, que na sua resistência ao poder assume o martírio pelo povo e retira a sua autoridade moral desse acto de sacrifício. 

Nikolai Klimeniouk apontou para uma segunda tradição, originária dos dias da ditadura soviética, que pode explicar essa decisão: a ideia de que, como opositor do regime, só assim você só pode permanecer credível como actor político dentro da Rússia, mesmo que isso signifique esperar pela morte ou pelo resgate do exterior como prisioneiro.

No caso específico de Kara-Murza e Yashin, o caminho do sacrifício tinha algo de passivo e fatalista. Afinal, após a invasão russa em grande escala da Ucrânia, teria havido formas mais activas e eficazes de resistência: alistar-se no exército ucraniano, por exemplo (o que alguns russos, muito menos conhecidos no Ocidente, fizeram) ou usar os seus contactos internacionais para pressionar por apoio militar à Ucrânia. 

No entanto, isso teria significado romper com o culto russo ao martírio e, talvez mais importante, reconhecer que a oposição mais eficaz a Putin e ao seu regime não está na Rússia, mas na Ucrânia — um país que, entre todos os lugares, muitos russos tradicionalmente trataram com arrogância colonial.

O culto quase religioso que se desenvolveu em torno de Navalny desde a sua morte, no qual ele aparece como um revenant de Jesus Cristo, pertence ao contexto do culto mais antigo ao martírio. 

Este culto ao martírio de indivíduos, por sua vez, tem um elemento passivo no qual o culto ao luto substitui uma crítica abrangente e honesta da sociedade russa actual. Mas sem uma reflexão crítica sobre a sociedade russa, essa Rússia melhor do futuro simplesmente não se concretizará. 

Actualmente, os russos que reconhecem a responsabilidade da sociedade russa e alertam contra o culto a Navalny – o escritor Sergei Lebedev é um exemplo – são amplamente marginalizados no discurso russo do campo anti-Putin e também são muito menos procurados para entrevistas no Ocidente.

O apagamento das experiências dos colonizados

Por mais compreensível que seja, a nível emocional, o desejo de uma Rússia diferente daquela que actualmente comete genocídio na Ucrânia, esse desejo é problemático. 

Em primeiro lugar, já é hora de o Ocidente abandonar as suas ideias românticas sobre a Rússia. A reacção surpresa de muitos no Ocidente à invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia é um forte lembrete de que ouvir as pessoas erradas pode ter consequências políticas fatais. 

Em segundo lugar, a persistência de hierarquias culturais em relação aos povos e países da Europa Oriental, nas quais a Rússia ainda ocupa frequentemente o primeiro lugar, mostra que ainda estamos longe de uma descolonização da visão ocidental da Europa Oriental e Central. Para as pessoas na Ucrânia, Cazaquistão, países bálticos e outros países e regiões que sofreram o colonialismo russo, a glorificação acrítica de muitos representantes do campo anti-Putin no Ocidente, ignorando as suas mentalidades coloniais e a sua defesa da Rússia, também contém uma mensagem fundamental: as perspectivas russas ainda são mais importantes para nós do que as suas.

Nos países e regiões historicamente e actualmente afetados pelo colonialismo russo, não se encontra a romantização de Navalny e de outros proeminentes opositores russos de Putin. Pelo contrário, a adulação ocidental de indivíduos como Navalny é recebida com consternação.

Devemos levar a sério os apelos dos países colonizados pela Rússia, como a Ucrânia, para nos afastarmos de uma romantização acrítica do campo anti-Putin russo. 

Talvez muitos alemães tenham dificuldade em fazê-lo porque a perspectiva do agressor lhes é muito familiar devido ao seu próprio passado. 

Em última análise, o egocentrismo das figuras da oposição russa, a tendência para ver Putin e o seu grupo como os únicos responsáveis e para conceber a sociedade russa como vítima e não como cúmplice, lembra fortemente os discursos da Alemanha Ocidental após 1945. 

Descolonizar o próprio pensamento pode, sem dúvida, ser um processo doloroso que muitas vezes afecta directamente a própria vida – seja na Academia, na política ou no jornalismo. Terá ignorado factos, teve ilusões, talvez os heróis da sua própria vida não fossem tão irrepreensíveis como supunha...? 

A romantização da Rússia, o auto-engano sobre o caminho que o país está a seguir, a arrogância colonial em relação à Ucrânia, foram decisivos para a desastrosa política oriental dos governos alemães das últimas décadas e a sua aceitação social comparativamente elevada. Os povos da Chechénia, Geórgia, Síria e agora Ucrânia pagaram o preço por isso. 

January 24, 2025

A Rússia trava guerras a cada 2 ou 3 décadas - desde 1547 que não há uma única geração russa que tivesse vivido livre de guerras, em paz

 


O jornal Kyiv Independent publicou hoje um novo documentário - Curated Theft - que revela como a Rússia roubou relíquias e obras de arte de Kherson, antes de esta cidade ser libertada pelo exército ucraniano em novembro de 2022.

As autoridades russas também roubaram os restos mortais de Grigory Potemkin, um líder militar e estadista russo, que morreu em 1791 e foi enterrado na Catedral de Santa Catarina, em Kherson.

Deixem-me contar-vos porquê.

Olá, chamo-me Oleksiy Sorokin, sou o editor-chefe adjunto do Kyiv Independent e esta é a última edição do nosso boletim informativo temático sobre a Rússia.

Hoje, vamos falar de Grigory Potemkin, o favorito da imperatriz russa Catarina II, governador da chamada Novorossiya e fundador de várias cidades ucranianas. O projeto grego de Potemkin, uma ideia para uma nova ordem mundial, está em sintonia com as ambições imperiais modernas da Rússia.

Para muitos russos, Potemkin é um dos pais fundadores da ideia expansionista do chamado “mundo russo”, que está na base das guerras modernas da Rússia.

A história do Potemkin é uma história de nepotismo, corrupção, guerra e ambição política. É também uma história que poderia facilmente ter acontecido na Rússia atual.

A ascensão do Potemkin começou em 1762, quando a princesa Sophie de Anhalt-Zerbst encenou um golpe contra o seu marido, Pedro III da Rússia.

Pedro III era profundamente impopular entre os militares russos devido ao seu temperamento e estranhos alinhamentos geopolíticos. Os militares confiavam na sua mulher, uma princesa alemã convertida à ortodoxia oriental sob o nome de Catarina.

Potemkin, um oficial de 23 anos na altura, não desempenhou um papel significativo no golpe, mas chamou a atenção da futura imperatriz, que lhe começou a dar uma promoção atrás da outra. Os dois começaram a corresponder-se e, em breve, um caso amoroso que durou uma década, após o qual mantiveram uma amizade duradoura.

Há até rumores de que tiveram uma filha e se casaram em segredo.

Sabemos tudo isto porque a sua correspondência sobreviveu até aos dias de hoje, lançando luz sobre o que se passava no Império Russo na segunda metade do século XVIII.

Como já deve ter reparado, a Rússia adora travar guerras.

Desde o estabelecimento do Tsardom da Rússia em 1547 até aos dias de hoje, a Rússia tem travado guerras a cada duas ou três décadas, em média, o que significa que nunca houve uma geração russa que vivesse em paz.

Para pessoas ambiciosas e de alto nível como Potemkin, as guerras eram uma forma de satisfazer as suas ambições, obter promoções e enriquecer.

Potemkin não participou ativamente nas três partições da Polónia nem na Guerra dos Camponeses de 1773-1775, liderada por Yemelyan Pugachev. Em vez disso, Potemkin concentrou toda a sua atenção na fronteira sul e no principal rival da Rússia, o Império Otomano.

No século XVIII, a Rússia era um império em ascensão com um apetite crescente por terras estrangeiras. A forma mais fácil de se expandir era para sul, onde o Império Otomano em declínio e o Canato da Crimeia constituíam uma pequena ameaça.

Em 1774, a Rússia venceu de forma decisiva a Guerra Russo-Turca, obtendo o que é hoje, grosso modo, as regiões ucranianas de Dnipropetrovsk, Zaporizhzhia, Odessa, Mykolaiv e partes do Donetsk Oblast. O Império Russo também forçou o Império Otomano a abandonar o controlo do Canato da Crimeia.

Em violação do tratado, a Rússia ocupou a Crimeia nove anos mais tarde.

Potemkin foi um dos principais generais que garantiram a vitória da Rússia sobre o Império Otomano. Rapidamente se tornou o Governador-Geral do território conquistado, que, sob a sua liderança, ficou conhecido como Novorossiya, ou Nova Rússia.

Devido à sua estreita relação com a imperatriz, ganhou poderes absolutos, combinando autoridade cívica e militar.

O seu primeiro decreto foi a eliminação do Sich Zaporozhiano, uma estratocracia ucraniana que, durante mais de um século, serviu de Estado-tampão semi-autónomo entre o Império Russo e o Canato da Crimeia. As terras controladas pelos cossacos ucranianos foram agora incluídas na Novorossia de Potemkin.

Durante anos, o Império Russo sonhou com o acesso ao Mar Negro. À semelhança dos antecessores de Catarina, que ambicionavam o acesso ao Mar Cáspio e, mais tarde, ao Mar Báltico, o acesso a uma importante via fluvial era visto como uma grande vitória geopolítica.

No entanto, Potemkin e alguns outros altos funcionários tinham uma ideia mais ambiciosa - o Plano Grego.

De acordo com esta ideia, a Rússia é a Terceira Roma e a sua forma de “destino manifesto” é reconquistar Constantinopla, chamada Tsargrad (literalmente “capital imperial”) pela elite russa.

Nas suas cartas ao Sacro Imperador Romano-Germânico José II, arquiduque da Áustria, Catarina II fazia circular a ideia, afirmando que a Europa precisava de um rei cristão no trono de Constantinopla.

De acordo com o plano, a Rússia colonizaria a Crimeia e os territórios do atual sul da Ucrânia, enquanto que, mais a sul, seriam criados dois ou mais Estados - Dacia (Roménia) e Bizantino (Grécia). A Grécia controlaria Constantinopla.

Os nobres russos chefiariam ambos os Estados. O neto de Catarina, Konstantin, foi aceite como potencial czar da Grécia. Potemkin como rei romeno.

A Áustria recebeu a promessa da Sérvia e da Bósnia em troca do seu apoio.

Obviamente, a ideia estava longe de ser concretizada e nenhuma das principais potências europeias chegou a concordar com ela.

No entanto, o plano era popular entre os ambiciosos nobres russos.

Como primeiro passo deste plano, a Rússia precisava de tomar o máximo de terras possível ao Império Otomano e transformar a região sul numa região poderosa e, mais importante, etnicamente russa.

Era também necessária a criação de uma poderosa frota do Mar Negro. Potemkin era o responsável por tudo isso.

Potemkin conseguiu obter fundos substanciais para construir a frota e novas cidades, entre as quais Yekaterinoslav (atual Dnipro), Aleksandrovsk (Zaporizhzhia), Kherson, Odesa, Nikolayev (Mykolaiv), Mariupol, Simferopol, Sevastopol, etc.

De acordo com o plano de Potemkin, as novas cidades receberam nomes gregos ou com nomes que soavam a grego para assinalar a ligação direta da Rússia ao Império Romano do Oriente - Bizantino.

As pessoas também foram encorajadas a mudarem-se para estas terras, com a promessa de trabalho aos servos e camponeses e a promessa de oportunidades de expansão da riqueza aos comerciantes e à nobreza.

Algumas das “novas cidades russas” foram, de facto, construídas no local de antigas povoações da Crimeia, turcas ou cossacas, que foram depois apagadas dos livros de história.

Odesa foi construída no local da Hadjibay turca, Simferopol e Sevastopol foram construídas no lugar das Aqmescit e Aqyar da Crimeia. Mariupol foi construída sobre um povoado cossaco arrasado.

As avultadas somas afectadas à construção ou reconstrução de cidades significavam uma enorme corrupção.

Em 1787, Catarina decidiu viajar para o sul da Ucrânia para observar o que estava a acontecer nas terras recém-adquiridas. A ela juntou-se o seu amigo, o Sacro Imperador Romano-Germânico José II. Potemkin foi o responsável pela viagem efectuada a jusante do rio Dnipro, que atravessa a atual Ucrânia.

Segundo a lenda urbana, apesar dos grandes investimentos, pouco estava pronto e Potemkin deu instruções para a construção de fachadas de edifícios luxuosos ao longo do rio para impressionar a realeza e as suas cortes. As fachadas seriam desmontadas e erguidas novamente mais abaixo no rio para obter o mesmo efeito. Eram conhecidas como “aldeias Potemkin”.

É provável que a história seja um exagero, mas o estilo de vida luxuoso de Potemkin, a riqueza acumulada e o número de projectos inacabados sugerem que o dinheiro destinado à construção nem sempre chegava aos destinos pretendidos.

Potemkin morreu em 1791, quando viajava para supervisionar as negociações de paz após outra guerra com o Império Otomano. Foi enterrado em Kherson, uma cidade no sul da Ucrânia.

Então, porque é que a Rússia roubou os restos mortais de Potemkin de Kherson mais de 200 anos depois?

Como referi no início deste boletim, a história de Potemkin poderia facilmente ter tido lugar nos dias de hoje. A sua vida reflecte a vida da elite russa de hoje.

Os amigos e amantes do Presidente russo Vladimir Putin estão a receber cargos governamentais, contratos governamentais e indústrias inteiras para gerir - semelhantes às de Catarina. Os grandes projectos governamentais são envenenados pela corrupção e pela ineficiência - os Jogos Olímpicos de Sochi de 2014 foram os Jogos Olímpicos mais caros da história.

As novas armas são facilmente comparáveis a uma aldeia Potemkin - como a exibição daquele míssil Oreshnik ou os tanques Armata que se dizia serem a nova grande novidade smas ão ineficientes no campo de batalha.

E, apesar de tudo isto, os Potemkins modernos estão a sonhar alto, esperando satisfazer as suas ambições através da guerra e da conquista.

A Rússia continua a dar novos nomes às cidades e vilas conquistadas, apagando os seus séculos de história, utilizando novamente Novorossiya ou Nova Rússia como nome para o território que tenta tomar e remodelar.

Para os russos, a vida e a morte de Potemkin legitima as suas reivindicações sobre as terras que governou. 

Quando fugiram de Kherson em 2022, empurrados pelos militares ucranianos, também roubaram os restos mortais de Potemkin e um monumento dedicado a ele. Isto significa que tinham medo de não regressar.

Oleksiy Sorokin in the Kyiv Independent

September 15, 2022

Agora a maioria interpreta os acontecimentos com uma única lente

 


Fui dar com uns tweets de uma professora universitária a dizer que havia pouca diversidade entre os que estão na fila para ir ver o caixão da rainha Elizabeth II e que isso se deve às críticas contra o colonialismo inglês. Fui pesquisar acerca da etnicidade dos ingleses: quase 86% são brancos (Inglaterra e País de Gales); dos que restam, cerca de 10% são asiáticos -indianos, sobretudo- e os outros, negros do Caribe e de África. Portanto, é normal que com estes números, a maioria dos que se vêem sejam brancos. Fui espreitar a BBC para ver as filas. Por acaso vêem-se regularmente indianos e vêem-se, embora menos, africanos ou gente do Caribe. Tendo em conta que os últimos anos de imigração inglesa são de refugiados da Síria e outros países do Médio Oriente, isto é, pessoas que chegaram ao RU há três ou quatro anos, é normal que não tenham nenhuma ligação especial à monarquia e nenhum interesse em despedir-se da rainha. De maneira que não vejo aqui nestas filas de pessoas que vão prestar uma última homenagem à sua rainha, nenhuma demonstração de colonialismo. Não quer dizer que o RU não tenha esse problema para resolver, nomeadamente com alguns países que querem deixar de ter o monarca inglês como Chefe de Estado, mas não vejo aqui neste acontecimento particular provas de colonialismo ou de crítica ao colonialismo. Hoje em dia o mais fácil é reduzir todos os acontecimentos a colonialismo ou algo assim. Agora que existe essa lente -que é real- há quem só consiga olhar através dela.


September 07, 2022

Para ver é preciso mais que ter olhos




Sofi Oksanen

@SofiOksanen


Estou grata à #Ucrânia, porque:

- Há 20 anos que escrevo sobre colonialismo da Rússia e as suas consequências. Eu defino-me como uma autora pós-colonial, mas sempre que disse isto, os jornalistas ocidentais em geral não compreenderam o que queria dizer: não ligavam a história da ocupação da Estónia pela URSS a colonialismo. Desde Fevereiro que não tenho de explicar isto.

- Tornou visível a questão da energia como arma. Embora a Rússia a tenha usado durante séculos, os países ocidentais simplesmente não a viam.

- Tornou visível a apropriação cultural russa. Até o Google definia como russos, Repin e Gogol, que são ucranianos. O Ocidente não compreendia que fosse um problema, embora soubessem que a apropriação cultural é um instrumento para fazer com que o colonialismo pareça "justificado" ou "natural".

- Tornou visível o colonialismo russo. Nos Estados Bálticos, já assistimos à ascensão dos ventos coloniais quando Putin subiu ao poder. Mas o Ocidente era surdo às nossas palavras a este respeito.

- Tornou visível a retórica nazi russa e finalmente parece que os países ocidentais compreendem que para a RU, ser nazi é sinónimo de ser, não-russo. Nos Estados Bálticos, temos sido chamados nazis pelos russos desde 1940. Mas o Ocidente era totalmente surdo a isto e, quando a Rússia nos chamou nazis, o Ocidente começou a procurar nazis nos nossos países, embora devessem estar à procura de nazis no Kremlin.

Vou terminar por agora com um facto "curioso": os actores bálticos tiveram sempre a «honra» de representar os nazis no cinema soviético.