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August 23, 2026

Por falar em cores: um dicionário natural das cores

 

A Nomenclatura das Cores de Werner (1814)

O mineralogista alemão Abraham Gottlob Werner criou um sistema inicial para descrever minerais com precisão no final do século XVIII. 
Em 1814, o pintor escocês, Patrick Syme, adaptou e expandiu o trabalho de Werner pintando manualmente as amostras numa paleta de cores.
Antes da tabela Pantone e da fotografia, tanto cientistas como artistas usavam este dicionário das cores para identificar tons exactos recorrendo a exemplos dos reinos animal, vegetal e mineral. 



Contém 110 tons diferentes organizados por famílias de cores - branco, cinzento, preto, azul, verde, amarelo, laranja, vermelho e castanho.
Para cada uma das cores de minerais de Werner, Syme acrescentou um exemplo do reino animal e vegetal, além de incluir uma amostra real da cor na página respectiva para acompanhar o texto. 
Enquanto Werner considerou que um conjunto de 79 tonalidades era suficiente para os seus objectivos geológicos — agora alargados a outros domínios da natureza —, Syme acrescentou 31 cores adicionais, elevando o total para 110.


Com as novas categorias de referência de Syme, nasceu um mundo inteiramente novo de relações entre aspectos díspares da natureza, ditados exclusivamente pela cor. 
Por exemplo, para «branco de leite desnatado», temos o branco dos globos oculares humanos (animal), o verso das pétalas da hepática azul (vegetal) e a opala comum (mineral); para o «roxo lavanda», temos «as partes claras das manchas na parte inferior das asas da borboleta-pavão» (animal), «flores de lavanda secas» (vegetal) e «jaspe porcelana» (mineral). 


Evocações de quadros monocromáticos maravilhosamente estranhos: sobre uma plantação de calamina, um leito de palha onde se senta um urso polar; ou o estilo de um lírio-laranja incrustado com topázio brasileiro e os olhos da maior mosca-da-carne.


A confiança de Syme em referências obscuras ao mundo natural provinha de uma obsessão da época pelas taxonomias, uma linha que se estendia de Carl Linnaeus a Charles Darwin - que recorreu à «Nomenclatura» de Werner durante a viagem do Beagle. 
Essas pessoas recorriam frequentemente a uma rede de coleccionadores e exploradores, obcecados por ordenar e categorizar, fixando borboletas e empalhando aves. 
Fixar a cor continua a ser tão difícil como sempre.

Este dicionário das cores naturais é agora do domínio público.

Fonte: ttps://publicdomainreview.org/collection/werner-s-nomenclature-of-colours-1814/

Por exemplo, na descrição de amarelos, podemos ver:

-Amarelo-Guta (Gamboge Yellow):
- Animal: As asas de um pintassilgo.
- Vegetal: Flor de jasmim-amarelo (Yellow Jasmine).
- Mineral: Enxofre de alta tonalidade.

ou no verde esmeralda: "adorável mancha na asa do pato-azul macho."

(pato-d'asa-azul macho (Spatula discors ou marreca-d'asa-azul ebird.org/)


Por exemplo, na pintura de Igor Dubovoy do post anterior, descobrimos todos estes tons de cinzento de Werner:

- Cinza-Cinza (Ash Grey) — Cor nº 9 - o cinzento padrão (pedra sílex).
- Cinza-Fumaça (Smoke Grey) — Cor nº 10 - o cinzento-cinza misturado com um pouco de castanho como o peito do tordo-europeu (robin).
- Cinza-Ameixa ou Cinza Francês (French Grey) — Cor nº 11, semelhante ao cinzento de aço sem brilho.
- Cinza-Pérola (Pearl Grey) — Cor nº 12 -cinzento-cinza misturado com um toque subtil de vermelho carmim e azul.
- Cinza-Amarelado (Yellowish Grey) — Cor nº 13 - Cinzento-cinza misturado com amarelo-limão e uma porção mínima de castanho.
- Cinza-Azuado /Cinza-Acinzentado Azulado (Bluish Grey) — Cor nº 14 - o cinzento-cinza misturado com um pouco de azul.
- Cinza-Esverdeado (Greenish Grey) — Cor nº 15 - o cinzento-cinza com verde-esmeralda, um toque de preto e amarelo-limão como o berilo.
- Cinza-Ameado / Cinza-Avermelhado (Reddish Grey) — Cor nº 17  o cinzento misturado com vermelho suave ou carmim.

June 09, 2026

Biologia sexual III

 

Biologia sexual II

 


Biologia sexual

 


May 31, 2026

🎯

 

March 31, 2026

A biologia pode informar as políticas, mas as preferências políticas não devem ditar a biologia.

 

Resposta à resposta de Mahr (2026) ao artigo de Wright (2025) intitulado, 

«Por que existem exactamente dois sexos»
Carta ao editor
Acesso aberto
Publicado: 26 de março de 2026

Acolho a carta ao editor de Mahr (2026), que critica o meu comentário (Wright, 2025) sobre a natureza e o número dos sexos. O desacordo académico oferece uma oportunidade para clarificar pontos de divergência e possíveis fontes de confusão, bem como para dotar tanto a comunidade científica como o público em geral de uma compreensão mais rigorosa da biologia subjacente. 

Dado que os debates sobre o sexo têm consequências cada vez mais relevantes para as políticas públicas, agradeço a oportunidade de responder aos pontos específicos de Mahr. Para maior clareza, abordo as minhas discordâncias pela ordem em que surgem.

A primeira crítica de Mahr é a de que eu alegadamente trato a natureza binária — “dois e apenas dois” — do sexo como uma suposição “a priori”, e que isso “pressupõe um facto científico neutro, livre de contexto”. 

Mahr escreve que “o próprio acto de definir ‘macho’ e ‘fêmea’ por gametas não é uma verdade puramente descritiva, mas uma escolha moldada por normas históricas e culturais”. Embora eu concorde que os rótulos que atribuímos às coisas são convenções humanas — poderíamos ter usado palavras diferentes de macho e fêmea — a questão substantiva em causa não é um rótulo, mas o fenómeno reprodutivo natural, observável e recorrente da anisogamia.

O meu argumento não é “a priori” no sentido de ser afirmado antes da observação. Trata-se de um argumento a posteriori, baseado na observação de que, em taxa anisogâmicos, os indivíduos participam na reprodução através de sistemas reprodutivos cuja função é produzir gametas pequenos (espermatozoides) ou gametas grandes (óvulos) (Hilton & Wright, 2023; Minot, 1888). 

A nomenclatura que usamos para estas classes reprodutivas é uma convenção humana, mas a biologia subjacente não o é. Eis uma analogia: os humanos deram o nome de “água” muito antes de conhecerem a sua composição, e só mais tarde descobriram, através da experimentação, que se trata de uma molécula composta por dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio (H₂O) (Edelstein, 1948; Eisenberg & Kauzmann, 1969). Poderíamos ter escolhido um nome diferente para a molécula, mas a sua estrutura era o que era antes de a descobrirmos e manter-se-ia a mesma independentemente do nome que lhe déssemos. Do mesmo modo, as duas estratégias reprodutivas baseadas na produção de gametas pequenos ou grandes antecedem qualquer categorização humana em mais de mil milhões de anos (Butterfield, 2000).

Mahr rejeita depois a minha afirmação de que a definição centrada nos gametas é objectiva ou universal, classificando tais alegações como um “truque divino” e uma “ilusão de uma perspectiva de lugar nenhum”, e recorre à epistemologia feminista para argumentar que as categorias científicas estão historicamente e socialmente situadas. 

Num sentido amplo, a ciência é de facto uma actividade humana inserida na história. Mas daí não se segue que a biologia não possa descrever características objectivas, independentes da mente, do mundo. Muitas afirmações científicas são objectivas no sentido relevante: o Sol está no centro do nosso sistema solar (Copérnico, 1543); a água é composta por hidrogénio e oxigénio numa proporção de 2:1 (von Humboldt & Gay-Lussac, 1805). 

Os humanos tiveram de descobrir estes factos e representá-los através da linguagem e de modelos, mas a sua verdade não depende da cultura. Do mesmo modo, macho e fêmea, enquanto classes reprodutivas baseadas no tamanho dos gametas, constituem um fenómeno observável e geral que torna estas categorias coerentes, comparáveis entre taxa e explicativamente úteis (Hilton & Wright, 2023). 

A questão não é se, ou como, os cientistas estão “socialmente situados”, mas sim se a classificação proposta corresponde a uma distinção funcional real e recorrente na natureza. Em espécies anisogâmicas, corresponde.

Mahr argumenta ainda que uma definição baseada nos gametas “ignora muitas outras características biológicas que variam (cromossomas, hormonas, estruturas cerebrais, etc.)”, e afirma que os “elementos biológicos normalmente associados ao ‘sexo’ (incluindo células, tecidos, moléculas, estruturas e vias) não se dividem de forma nítida em duas categorias distintas”. A partir daqui, Mahr conclui que definir o sexo “estritamente pelo tamanho dos gametas é uma redução que omite essas complexidades”. 

Esta objecção é abordada directamente no meu comentário original, na discussão das abordagens “politéticas” do sexo (Wright, 2025). Aí descrevi a visão politética como aquela em que o sexo é tratado como “um agregado de características — cromossomas, gónadas, gametas, hormonas, neuroanatomia, características sexuais secundárias e outros traços sexualmente dimórficos — sendo os indivíduos atribuídos a graus de masculinidade ou feminilidade conforme o seu perfil global se alinha com o que é considerado típico de macho ou de fêmea”.

A dificuldade desta abordagem não é que a variação de características seja desinteressante, mas sim que os modelos politéticos confundem os determinantes e os correlatos a jusante do sexo com o próprio sexo. Como escrevi, “as características são rotuladas como ‘típicas de macho’ ou ‘típicas de fêmea’ porque se correlacionam com machos e fêmeas já identificados independentemente — em última instância, por referência aos gametas”. Por outras palavras, a visão politética colapsa sobre si mesma, porque depende do próprio fundamento classificatório — macho e fêmea enquanto classes reprodutivas funcionais enraizadas nos gametas — que procura substituir.

A definição baseada nos gametas não nega a variação biológica; organiza-a. Os cromossomas, as hormonas, o desenvolvimento genital e muitos traços dimórficos variam — por vezes substancialmente — dentro de cada sexo, e o desenvolvimento pode produzir resultados atípicos. Mas a variação nos correlatos do sexo não é o mesmo que variação no próprio sexo. Em organismos anisogâmicos, a distinção universal que torna “macho” e “fêmea” biologicamente comparáveis entre taxa é a função reprodutiva relativamente a espermatozoides versus óvulos (Bogardus, 2025). É também por isso que é um erro tratar qualquer destes correlatos, isoladamente ou em conjunto, como constitutivos do sexo.

Por exemplo, não há nada de inerentemente “masculino” num cromossoma Y em si. Nos mamíferos, o cromossoma Y desempenha um papel central no desencadear do desenvolvimento masculino (Wilhelm et al., 2007); nas aves, os cromossomas sexuais são diferentes (sistemas ZW) (Ellegren, 2000); e muitos répteis nem sequer possuem cromossomas sexuais (Janzen & Paukstis, 1991). No entanto, apesar da diversidade dos mecanismos de determinação do sexo (Bachtrog et al., 2014), as classes sexuais permanecem inteligíveis e comparáveis entre taxa porque continuam ancoradas no tamanho dos gametas. 

É também por isso que a mudança de sexo em hermafroditas sequenciais é inteligível: identificamos a transição precisamente por uma alteração no tipo de gameta que o sistema reprodutivo do organismo tem a função de produzir (Avise & Mank, 2009). Sem os gametas como traço definidor universal, “macho” e “fêmea” perdem toda a coerência entre taxa e tornam-se meros rótulos sem significado, aplicados a conjuntos variáveis de correlatos.

Mahr contesta também a minha afirmação de que a clareza definicional tem “benefícios científicos e sociais”, argumentando que um “essencialismo rígido sobre o sexo frequentemente sustenta normas excludentes”, nomeadamente quando “decisores políticos ou tribunais invocam a ‘ciência’ para restringir direitos de pessoas transgénero”. 

Esta preocupação destaca uma distinção importante. Uma questão é descritiva: qual é o sexo de um indivíduo enquanto classificação biológica em espécies anisogâmicas. Outra é normativa: que direitos ou acomodações uma sociedade deve adoptar para machos e fêmeas. 

As minhas afirmações sobre o número de sexos e a sua definição não se baseiam numa preferência por qualquer resultado político, mas no que torna as categorias biologicamente coerentes e explicativamente úteis. As pessoas são livres de defender muitas políticas diferentes relativamente ao desporto, casas de banho ou mesmo reconhecimento social. Mas, embora a biologia possa e deva informar a política, as preferências políticas nunca devem ditar a biologia.

Por fim, Mahr escreve que a visão binária “arrisca invalidar as experiências vividas de pessoas intersexo e de indivíduos com diversidade de género”, refere “géneros não binários” e invoca a afirmação de que “um grande corpo de investigação mostra que cerca de 2% das pessoas têm características intersexo que desafiam um esquema simples XX/XY”. 

O meu comentário centrou-se deliberadamente na biologia do sexo, não na identidade de género, papéis ou expressão — tópicos distintos e irrelevantes para a questão de quantos sexos existem e como são definidos em termos evolutivos e reprodutivos.

Quanto à afirmação de que “cerca de 2% das pessoas têm características intersexo que desafiam um esquema simples XX/XY”, trata-se de algo enganador e, tal como apresentado, insuficientemente sustentado pelas referências citadas (Fausto-Sterling, 1993, 2025). 

O valor amplamente repetido de “2%” resulta da adopção de uma definição excessivamente abrangente de “intersexo”, entendida como qualquer desvio de um “ideal platónico de dimorfismo físico ao nível cromossómico, genital, gonadal ou hormonal” (Blackless et al., 2000). 

Como corresponder a um “ideal platónico” é um padrão impossivelmente exigente, esta abordagem infla drasticamente a prevalência ao incluir muitas condições não ambíguas como “intersexo”. Em resposta, Sax (2002) argumentou que, para manter uma definição clinicamente significativa, “intersexo” deveria ser “restrito às condições em que o sexo cromossómico é inconsistente com o sexo fenotípico, ou em que o fenótipo não é classificável como masculino ou feminino”. 

Sob esta definição mais restrita, realista e clinicamente útil, a estimativa de prevalência desce duas ordens de grandeza, para aproximadamente 0,018%. 

No entanto, a existência e prevalência de DSDs, ou condições “intersexo”, são irrelevantes para a questão de quantos sexos existem. Embora a variação no desenvolvimento possa produzir fenótipos sexualmente ambíguos em casos extremamente raros, isso não constitui sexos adicionais ou intermédios, pois não resulta em anatomias reprodutivas com a função de produzir novos tipos de gametas além de espermatozoides e óvulos.

Em suma, a crítica de Mahr incide sobretudo na sociologia das categorias e nas implicações políticas dos debates científicos. São temas legítimos de discussão, mas não alteram a base biológica da definição dos sexos. A binariedade do sexo não é uma suposição “a priori”, mas uma observação empírica de que existem apenas dois tipos distintos de gametas em espécies anisogâmicas. Tratar o sexo como um conjunto politético de correlatos confunde os determinantes e os efeitos a jusante do sexo com o próprio sexo, e acaba por depender do fundamento baseado nos gametas que procura contestar.

O reputado geneticista Dobzhansky (1973) escreveu que “nada na biologia faz sentido excepto à luz da evolução”, sublinhando a evolução como o quadro unificador que torna compreensível a diversidade, complexidade e interligação da vida. Sustento que uma afirmação paralela se aplica à biologia reprodutiva: nada na biologia dos sexos faz sentido senão à luz dos gametas.