KATJA HOYER
West German Chancellor Konrad Adenauer visiting for the first time the newly established Bundeswehr, January 1956. Img: Bundesarchiv, Bild 146-1998-006-34 / Wolf, Helmut J. / CC-BY-SA 3.0
Aconteceu algo notável esta semana: a Alemanha lançou a sua primeira estratégia militar desde a Segunda Guerra Mundial. A Bundeswehr, como é conhecido o exército alemão do pós-guerra, definiu quem é o seu principal adversário (a Rússia) e o que precisa de fazer para lhe fazer frente (construir o maior exército convencional da Europa). Isto é tão novo e ambicioso que não será exagero chamar-lhe “histórico”.
Há que em diga que ambos os Estados alemães do pós-guerra tiveram, em tempos, exércitos consideráveis e conscrição durante a Guerra Fria, e que os actuais esforços de rearmamento são uma restauração desse estatuto e não algo novo, mas não concordo. O que estamos a ver agora é fundamentalmente diferente em três aspectos-chave:
A) Nenhuma das Alemanhas do pós-guerra teve de pensar estrategicamente.
B) Não se esperava que as suas forças fossem destacadas, de forma séria, para grandes missões de combate.
C) Tendo perdido duas guerras mundiais e permanecendo profundamente marcadas pelos crimes associados à segunda, nem a Alemanha de Leste nem a de Oeste desenvolveram um ethos militar que celebrasse o serviço militar como acontece noutros países, incluindo os EUA, o Reino Unido, a França e a Rússia. Por razões históricas compreensíveis, a cultura alemã do pós-guerra tem sido cautelosa em relação a tudo o que é militar e até à própria ideia de patriotismo.
O actual esforço nacional de rearmamento — que prevê a criação de uma grande força militar de 460 000 pessoas, incluindo 200 000 reservistas, tudo isto baseado na primeira estratégia pós-guerra alguma vez concebida em Berlim — é totalmente novo.
Colourised image of Wehrmacht soldiers surrending in Bohemia, 1945. Img: Johannes Dorn - Collection Peter, CC BY-SA 4.0.
Em geral, os jovens (e, no caso da RDA, também as mulheres) que escolheram o serviço militar como carreira fizeram-no porque apreciavam a estabilidade e o espírito de camaradagem desse tipo de vida. Aqueles que foram obrigados a cumpri-lo durante algum tempo (especialmente no Leste, onde não havia alternativa civil ao serviço militar, ao contrário do que acontecia no Ocidente), muitas vezes ressentiam-se com a experiência. Mas ambos os grupos podiam contar com a possibilidade de evitar o combate activo.
Um exemplo que ilustra este ponto é a repressão da Primavera de Praga, um movimento de reforma na Checoslováquia sob a liderança do político eslovaco Alexander Dubček. Quando, na madrugada de 20 de Agosto de 1968, uma força de invasão de 500 000 soldados do Pacto de Varsóvia ameaçou esmagar qualquer resistência no país da Europa Oriental, as forças da NVA da RDA estavam entre as unidades de apoio. O líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, queria enviá-las em força para provar o valor do seu país aos soviéticos, mas mesmo eles foram cautelosos em não enviar soldados alemães para a Europa Oriental apenas uma geração após a Segunda Guerra Mundial. As tropas da NVA nunca chegaram a atravessar a fronteira para a Checoslováquia, embora estivessem a ajudar o comando soviético. Foi uma decisão tomada em Moscovo e não em Berlim, essa de não enviar tropas da NVA para combate aberto.
As implicações práticas e as relações eram diferentes, mas o princípio de seguir a grande estratégia definida pelos aliados era semelhante na Alemanha Ocidental. Após a reunificação, a Alemanha também não elaborou o seu próprio documento estratégico.
Aconteceu algo notável esta semana: a Alemanha lançou a sua primeira estratégia militar desde a Segunda Guerra Mundial. A Bundeswehr, como é conhecido o exército alemão do pós-guerra, definiu quem é o seu principal adversário (a Rússia) e o que precisa de fazer para lhe fazer frente (construir o maior exército convencional da Europa). Isto é tão novo e ambicioso que não será exagero chamar-lhe “histórico”.
Há que em diga que ambos os Estados alemães do pós-guerra tiveram, em tempos, exércitos consideráveis e conscrição durante a Guerra Fria, e que os actuais esforços de rearmamento são uma restauração desse estatuto e não algo novo, mas não concordo. O que estamos a ver agora é fundamentalmente diferente em três aspectos-chave:
A) Nenhuma das Alemanhas do pós-guerra teve de pensar estrategicamente.
B) Não se esperava que as suas forças fossem destacadas, de forma séria, para grandes missões de combate.
C) Tendo perdido duas guerras mundiais e permanecendo profundamente marcadas pelos crimes associados à segunda, nem a Alemanha de Leste nem a de Oeste desenvolveram um ethos militar que celebrasse o serviço militar como acontece noutros países, incluindo os EUA, o Reino Unido, a França e a Rússia. Por razões históricas compreensíveis, a cultura alemã do pós-guerra tem sido cautelosa em relação a tudo o que é militar e até à própria ideia de patriotismo.
O actual esforço nacional de rearmamento — que prevê a criação de uma grande força militar de 460 000 pessoas, incluindo 200 000 reservistas, tudo isto baseado na primeira estratégia pós-guerra alguma vez concebida em Berlim — é totalmente novo.
Para ter sucesso, exigirá uma revisão e reforma cuidadosas das atitudes estabelecidas em relação à guerra, ao serviço militar e ao país. Vale a pena examinar como os alemães se rearmaram após a Segunda Guerra Mundial para compreender as raízes da Bundeswehr actual.
Quando a Alemanha nazi perdeu a guerra em maio de 1945, o seu exército, a Wehrmacht, rendeu-se incondicionalmente e foi dissolvido pelos Aliados pouco depois. Na verdade, a desmilitarização foi um dos poucos princípios sobre o futuro da Alemanha em que todos concordaram.
Quando a Alemanha nazi perdeu a guerra em maio de 1945, o seu exército, a Wehrmacht, rendeu-se incondicionalmente e foi dissolvido pelos Aliados pouco depois. Na verdade, a desmilitarização foi um dos poucos princípios sobre o futuro da Alemanha em que todos concordaram.
Isto significa que, quando a Alemanha de Leste e a Alemanha de Oeste foram criadas em 1949, não tinham forças militares próprias. Ambas acolhiam tropas dos países que continuavam a ocupá-las. Provavelmente teria permanecido assim durante mais tempo não fosse o surgimento da Guerra Fria, que levou sobretudo os EUA a reconsiderar a situação. Washington precisava da Alemanha Ocidental para reforçar a linha da frente europeia contra o comunismo.
Já em 1951, a Alemanha Ocidental começou a criar unidades policiais paramilitares para ajudar a guardar a fronteira inter-alemã (a longa linha no meio do país; o Muro de Berlim só seria construído uma década depois).
Já em 1951, a Alemanha Ocidental começou a criar unidades policiais paramilitares para ajudar a guardar a fronteira inter-alemã (a longa linha no meio do país; o Muro de Berlim só seria construído uma década depois).
Planos vagos de rearmamento estavam em curso desde 1947/48, mas este desenvolvimento específico resultou de um novo sentido de urgência provocado pela Guerra da Coreia, que prendeu os EUA e os confrontou com a expansão comunista por meios militares. Precisavam dos alemães ocidentais para manter a linha na Europa.
Independentemente das necessidades práticas, é surpreendente, em retrospectiva, a forma como este processo decorreu. No outono de 1950, teve lugar uma reunião na Abadia de Himmerod, onde antigos oficiais da Wehrmacht, encarregados pelo chanceler Konrad Adenauer, delinearam opções para o rearmamento.
O memorando resultante propunha um exército de cerca de 500 000 homens — mais do que os planos actuais, apesar de uma população menor. Defendia também que a única forma de construir um novo exército alemão seria reabilitar o antigo, garantindo continuidade de pessoal e tradições. “As nações ocidentais”, exigiu o presidente da reunião, “devem tomar medidas públicas contra a ‘caracterização prejudicial’ dos antigos soldados alemães”.
Em janeiro de 1951, Dwight D. Eisenhower fez precisamente isso, afirmando que existia uma diferença real entre o soldado alemão e Hitler. Isto ajudou a criar o mito da “Wehrmacht limpa”, conceito que viria a ser contestado nos anos 1990 e 2000, quando uma famosa exposição da Wehrmacht, dividida em duas partes, a contestou ao centrar-se nos crimes cometidos pelas forças armadas regulares durante a guerra.
Nos anos 1950, esse mito abriu caminho ao rearmamento — mas com uma condição: a Alemanha não tomaria decisões estratégicas de forma autónoma. A integração europeia avançava e, em 1955, a Alemanha Ocidental aderiu à NATO. Isto aconteceu no início de Maio, ou seja, quase no mesmo dia, 10 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Ficou decidido: haveria uma nova força militar alemã — a Bundeswehr, fundada oficialmente a 12 de novembro de 1955. Mas isso viria a ser contido pelas decisões dos Aliados, sobretudo pelas dos EUA. Os planos de Adenauer para desenvolver armas nucleares para a Alemanha Ocidental foram também imediatamente abortados.
Independentemente das necessidades práticas, é surpreendente, em retrospectiva, a forma como este processo decorreu. No outono de 1950, teve lugar uma reunião na Abadia de Himmerod, onde antigos oficiais da Wehrmacht, encarregados pelo chanceler Konrad Adenauer, delinearam opções para o rearmamento.
O memorando resultante propunha um exército de cerca de 500 000 homens — mais do que os planos actuais, apesar de uma população menor. Defendia também que a única forma de construir um novo exército alemão seria reabilitar o antigo, garantindo continuidade de pessoal e tradições. “As nações ocidentais”, exigiu o presidente da reunião, “devem tomar medidas públicas contra a ‘caracterização prejudicial’ dos antigos soldados alemães”.
Em janeiro de 1951, Dwight D. Eisenhower fez precisamente isso, afirmando que existia uma diferença real entre o soldado alemão e Hitler. Isto ajudou a criar o mito da “Wehrmacht limpa”, conceito que viria a ser contestado nos anos 1990 e 2000, quando uma famosa exposição da Wehrmacht, dividida em duas partes, a contestou ao centrar-se nos crimes cometidos pelas forças armadas regulares durante a guerra.
Nos anos 1950, esse mito abriu caminho ao rearmamento — mas com uma condição: a Alemanha não tomaria decisões estratégicas de forma autónoma. A integração europeia avançava e, em 1955, a Alemanha Ocidental aderiu à NATO. Isto aconteceu no início de Maio, ou seja, quase no mesmo dia, 10 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Ficou decidido: haveria uma nova força militar alemã — a Bundeswehr, fundada oficialmente a 12 de novembro de 1955. Mas isso viria a ser contido pelas decisões dos Aliados, sobretudo pelas dos EUA. Os planos de Adenauer para desenvolver armas nucleares para a Alemanha Ocidental foram também imediatamente abortados.
A Alemanha Oriental respondeu a este processo criando as suas próprias forças armadas, o Exército Popular Nacional, começando com unidades da polícia militar em 1952 e culminando na formação oficial do NVA a 18 de janeiro de 1956. Dez dias depois, aderiu à contraparte comunista da NATO, a Organização do Tratado de Varsóvia, frequentemente referida como o «Pacto de Varsóvia». Tanto a Bundeswehr como a NVA introduziram o serviço militar obrigatório para os homens e ambas receberam proporções comparativamente elevadas do PIB.
Em geral, os jovens (e, no caso da RDA, também as mulheres) que escolheram o serviço militar como carreira fizeram-no porque apreciavam a estabilidade e o espírito de camaradagem desse tipo de vida. Aqueles que foram obrigados a cumpri-lo durante algum tempo (especialmente no Leste, onde não havia alternativa civil ao serviço militar, ao contrário do que acontecia no Ocidente), muitas vezes ressentiam-se com a experiência. Mas ambos os grupos podiam contar com a possibilidade de evitar o combate activo.
Um exemplo que ilustra este ponto é a repressão da Primavera de Praga, um movimento de reforma na Checoslováquia sob a liderança do político eslovaco Alexander Dubček. Quando, na madrugada de 20 de Agosto de 1968, uma força de invasão de 500 000 soldados do Pacto de Varsóvia ameaçou esmagar qualquer resistência no país da Europa Oriental, as forças da NVA da RDA estavam entre as unidades de apoio. O líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, queria enviá-las em força para provar o valor do seu país aos soviéticos, mas mesmo eles foram cautelosos em não enviar soldados alemães para a Europa Oriental apenas uma geração após a Segunda Guerra Mundial. As tropas da NVA nunca chegaram a atravessar a fronteira para a Checoslováquia, embora estivessem a ajudar o comando soviético. Foi uma decisão tomada em Moscovo e não em Berlim, essa de não enviar tropas da NVA para combate aberto.
Após a invasão russa em grande escala da Ucrânia, o então chanceler Olaf Scholz continuou a salientar que o seu país «não agiria sozinho» no que dizia respeito ao apoio à Ucrânia, mas aguardaria orientações dos EUA. Scholz também salientou que a Alemanha nunca seria uma «parte» nessa guerra.
Esses princípios fundadores do rearmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial estão agora a mudar:
A) Ao desenvolver a sua própria estratégia militar abrangente, a Alemanha está a começar a pensar estrategicamente - pela primeira vez desde 1945.
B) O ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que quer que a Alemanha seja «kriegstüchtig» ou «pronta para a guerra», esperando claramente que os soldados estejam prontos para serem destacados.
C) Existem tentativas em pequena escala para valorizar mais o serviço militar, por exemplo, com o primeiro Dia dos Veteranos da Alemanha, celebrado no ano passado.
Esses princípios fundadores do rearmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial estão agora a mudar:
A) Ao desenvolver a sua própria estratégia militar abrangente, a Alemanha está a começar a pensar estrategicamente - pela primeira vez desde 1945.
B) O ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que quer que a Alemanha seja «kriegstüchtig» ou «pronta para a guerra», esperando claramente que os soldados estejam prontos para serem destacados.
C) Existem tentativas em pequena escala para valorizar mais o serviço militar, por exemplo, com o primeiro Dia dos Veteranos da Alemanha, celebrado no ano passado.
Não há uma forma fácil de resolver este dilema. A Alemanha terá de encontrar um equilíbrio muito delicado ao tentar conciliar a necessidade de força militar com uma relutância profundamente enraizada em permitir que o militarismo volte a ganhar força.


"Porque é que a Alemanha só agora acordou para a questão da defesa" A resposta é fácil. E quando voltará a adormecer? A resposta é difícil.
ReplyDeleteA resposta é fácil?
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