May 18, 2022

Pôr as coisas em perspectiva: as preocupações com a face de Putin são irrelevantes

 



Timothy Snyder

@TimothyDSnyder

Não faz sentido proteger Putin da sensação de estar a perder. Ele vai descobrir isso por si próprio, e vai agir para se proteger.

Os russos não estão encurralados. O exército russo não está encurralado. É uma força invasora. Quando derrotadas, as forças invasoras apenas recuam através da fronteira para a Rússia. 

Putin governa na realidade virtual, onde há sempre uma rota de fuga. Ele não pode ser encurralado na Ucrânia, porque a Ucrânia é um lugar real. É difícil para as pessoas noutras sociedades compreenderem que Putin é um ditador que controla os media do seu país. Ele governa mudando de assunto. Putin muda de assunto o tempo todo. Da última vez que a Rússia invadiu a Ucrânia, os seus meios de comunicação social mudaram o assunto para a Síria de um dia para o outro, e os russos seguiram em frente.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro deste ano, os meios de comunicação social rapidamente se ajustaram passando de dizer que a invasão era impossível para dizer que era inevitável. Os russos alinharam.

Se for derrotado na realidade, Putin irá apenas declarar vitória na televisão, e os russos irão acreditar nele, ou fingir acreditar. Ele não precisa da nossa ajuda para isso. Não faz sentido criar uma s
aída de emergência no mundo real, quando tudo o que Putin precisa é de um mundo virtual que ele controla completamente. Falar de "saída de emergência" apenas dá aos líderes russos algo para  rir em tempos que, de outro modo, seriam difíceis. 

Há a hipótese de Putin errar e esperar demasiado tempo para declarar a vitória no mundo virtual. Nesse caso, perderá o poder. Não podemos, nem queremos, salvá-lo de um tal erro de juízo.

O poder de Putin sobre os meios de comunicação é completo até ao momento em que cessar. Não há intervalo onde as nossas acções no mundo real farão a diferença. Ou as nossas acções são desnecessárias ou são irrelevantes.

É grotesco pedir aos ucranianos que tomem decisões sobre a guerra para o conforto dos produtores de televisão russos, que de qualquer forma não se guiam pelo mundo real.

Interpretar mal a Rússia através de clichés de "encurralados" e "saídas de emergência" fará com que a guerra dure mais tempo, distraindo da simples necessidade da derrota russa.

A Ucrânia é uma história muito diferente. Zelensky, ao contrário de Putin, é democraticamente eleito, sente-se responsável pelo seu povo, e governa num mundo onde os outros importam.
A Ucrânia tem uma imprensa que o governo não dirige. Zelensky não pode simplesmente mudar de assunto. Ele tem de levar em conta o seu povo ao tomar qualquer decisão importante.

Ao contrário de Putin, Zelensky tem de apresentar um caso ao seu povo para pôr fim a esta guerra. Ele precisa, portanto, de ajuda, tanto para ganhar a guerra como para dizer aos ucranianos o que vem a seguir.

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