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May 23, 2026

Estou a reler a Odisseia de Homero

 


Li que Christopher Nolan está a rodar um filme sobre a Odisseia e resolvi reler o livro. Li a Odisseia quando era adolescente numa versão resumida para adolescentes de uma coleção de clássicos para a juventude que a minha mãe comprava para nós. 

Depois, comprei-o quando acabei o curso numa altura em que andava muito interessada em ler gregos e medievais. Essa edição era uma tradução inglesa e nessa altura ainda tinha dificuldade com poesia em inglês e ia lendo pedaços. Entretanto, há uns anos saiu esta edição da Quetzal e comprei-a mas ainda não tinha lido, só folheado. 





Há uns meses comprei outra edição da obra numa tradução inglesa de uma mulher (esta aqui ao lado) porque li um artigo a dizer que era a primeira tradução da Odisseia feita por uma mulher e que a perspectiva era algo diferente das dos homens. Fiquei com curiosidade.

Então, ontem comecei a ler a tradução portuguesa, depois de ler sobre umas polémicas com a abordagem de Nolen.

Estou a ler o livro como quem lê um romance, isto é, não páro para ir ler as notas (a não ser que alguma passagem me desperte curiosidade ou dúvida), dado que já conheço as histórias e as personagens principais - não todas, pois são muitas, mas não preciso de saber o nome de todos.

O que estou a fazer é a comparar com a versão inglesa de Emily Wilson, nas passagens que me parecem ter um olhar masculino na tradução. Não há grandes diferenças -até agora- mas há nuances.

Estou a ler um canto por dia. São mais ou menos 15 páginas. Sendo que são 24 cantos, no fim de Junho está lido. Por acaso lembrei-me que podia ler esta obra e gravar no YouTube como fiz com o Guerra e Paz. Essa obra levou-me pelo menos 9 meses a ler e gravar as leituras. Esta levaria um mês. Podia fazer isso nas férias. Quinze páginas lêem-se num instante. Se tiver disposição logo faço. Para quem nunca leu e não lhe apetece ler, mas gostava de conhecer e gosta que lhe leiam. Veremos.

Tenho pena de saber quase nada de grego antigo. O suficiente para perceber umas citações de filosofia que aparecem nos livros, mas não para ler um livro, nem de longe nem de perto. Se tivesse menos vinte anos ia aprender grego antigo porque uma obra desta deve perder muito na tradução, por muito boa que seja. Dantes era mais difícil aceder ao conhecimento. Conciliar um trabalho desgastante física e intelectualmente, mais a vida particular com filhos e o estudo, sobretudo em outra cidade. Pelo menos para as mulheres. Hoje-em-dia os miúdos queixam-se de muitas dificuldades, o que é verdade, mas têm enormes facilidades no acesso à informação que nós não tínhamos.

Enfim, entretanto, li que há uma polémica com a escolha de Lupita Nyong'o para o papel de Helena de Tróia, no filme de Nolan, pelo facto dela ser negra. Não sei qual é a dinâmica do filme. Uma coisa seria fazer uma espécie de documentário seguindo à risca as descrições de Homero, outra é fazer um filme de aventuras com deuses e heróis. 

O que define a profissão de actor é representar outros diferentes de si e se assim não fosse, um heterossexual só podia ser representado por um heterossexual, um gay por um gay, um judeu por um judeu, um nazi por um nazi, etc. 

Claro que se o filme fosse sobre a figura histórica de Napoleão, ele teria de ser branco e se fosse sobre a luta de Martin Luther King sobre os direitos civis dos negros, ele teria de ser negro, mas fora esses casos onde a cor da pele ou outra característica tem importância para a integridade da personagem, o resto são actores a representar pessoas diferentes de si.

Helena de Tróia só tem de ser bonita para não atraiçoar a integridade da personagem. Lupita Nyong'o é uma mulher bonita, de maneira que não percebo a polémica. 

Quantos actores e cantores brancos já interpretaram Otelo no teatro, na Ópera...?

Agrada-me que Nolan faça um filme sobre a Odisseia. O Ocidente, por influência da esquerda socialista e comunista impôs o desprezo pela história e pelas raízes da nossa história comum europeia, que é o mesmo que impôr a alguém o esquecimento da sua família e das suas origens. Espero que o filme seja bom, tenha sucesso e seja visto por muita gente.

February 05, 2021

Publicar ou não publicar

 


... obras de criminosos?

O meu ponto de vista numa frase: 'leia o livro 'x' - é de um aborrecimento total, todo mal escrito e não se aprende nada com ele, mas o autor é moralmente irrepreensível'.



O novo número, dedicado ao trabalho dos actuais e antigos prisioneiros, provoca alvoroço depois de ter surgido um poeta que cumpriu pena por delitos de pornografia infantil
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A prestigiada revista de Poesia dos EUA duplicou a sua decisão de publicar um poema de um agressor sexual condenado como parte de uma edição especial dedicada aos poetas encarcerados, dizendo aos críticos que "não é nosso papel julgar ou punir [pessoas] como resultado das suas condenações criminais".

A revista, que funciona desde 1912 e é publicada pela Fundação Poesia, acaba de lançar o seu novo número centrado no trabalho de "pessoas actual e anteriormente encarceradas", suas famílias e trabalhadores prisionais. Inclui um poema de Kirk Nesset, um antigo professor de literatura inglesa que foi libertado da prisão no ano passado depois de cumprir pena por possuir, receber e distribuir imagens de abuso sexual infantil em 2014. A investigação encontrou Nesset na posse de mais de meio milhão de imagens e filmes de abuso sexual de crianças.


Quando um leitor perguntou por que razão o número incluía Nesset, a revista Poetry disse que os seus editores convidados "não tinham conhecimento dos antecedentes dos colaboradores", porque "o princípio editorial para este número era alargar o acesso à publicação a escritores dentro da prisão e expandir o acesso à poesia, tendo em conta os preconceitos e as barreiras contra as pessoas encarceradas".

"Reconhecemos o impacto destruidor da violência e denunciamos os danos", disse a revista numa declaração no Twitter. "As pessoas na prisão foram condenadas e estão a cumprir/já cumpriram essas penas; não nos cabe a nós julgá-las ou puni-las como resultado das suas condenações penais. Como editores, o nosso papel é ler poemas e facilitar as conversas em torno da poesia contemporânea.

"Defendemos que estes poemas são a expressão de uma experiência humana e que a poesia é uma força para fazer avançar o envolvimento humano e a auto-reflexão crítica. Esperamos que a poesia nesta edição facilite uma leitura profunda e empática e alargue o nosso discurso".


(...)
Uma petição assinada por mais de 500 pessoas pede que o trabalho de Nesset seja retirado da revista, dizendo que o seu "tempo servido não equivale ao tempo de vida das vítimas de trauma emocional, físico e psicológico de pornografia infantil e agressão sexual perduram".
(...)
Os escritores disseram que não iriam submeter qualquer trabalho à revista até que as suas exigências fossem satisfeitas, incluindo a demissão do presidente da Fundação Poesia e do presidente do conselho de administração, bem como pela "afectação significativamente maior de recursos financeiros ao trabalho que é explicitamente de natureza anti-racista".

Tanto o presidente como o presidente renunciaram subsequentemente, tendo o ex-presidente Henry Bienen dito à direcção que tinha "perdido o respeito pelo pessoal que não se defendia a si próprio ou à fundação de ataques que sabiam ser falsos".

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A quem aproveita isto? Não à poesia, certamente.