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July 19, 2025

O golpe do baú

 

É o contrário do que é costume dizer-se. 

A maioria dos homens considera que, se uma mulher casa ou se junta a eles e eles têm muito mais dinheiro que ela ou se ela nem sequer trabalha, está a aproveitar-se deles que são as vítimas. Na verdade é o oposto. 

Sem terem que pagar salários, têm à sua disposição uma mulher de acordo com os seus gostos materialistas, emocionais e sexuais que os apoia, faz de psicóloga, de confidente e de repositório de frustrações, trata-lhes da casa, apoia a sua carreira, trata-lhes da comida, da roupa, dos filhos, dos melhoramentos da casa, das compras e de todas as milhares de preocupações diárias que a rotina doméstica implica. Isto tudo de borla. A quantas pessoas diferentes seria preciso pagar salário para fazer todas estas tarefas?

Alguns, apesar de ganharem 20 vezes mais que as suas mulheres e não contribuirem nada a não ser dinheiro para a família, ainda se queixam de elas não pagarem todas as contas a meias, como se tivessem a ser prejudicados, sabendo que elas desistiram da sua independência económca, da sua carreira e de tantas outras coisas, para se dedicarem a cuidar deles como filhos. Mas falam como se a única coisa importante fosse o dinheiro e consertar o candeeiro sem luz, não a família ou a vida comum. E perguntam o que é que elas trazem para a mesa. Elas são a mesa e tudo o que a mesa tem. 

Neste vídeo, o homem pergunta, qual é o mal de ter uma mulher em casa, "uma mulher feminina"... uma mulher que tenha uma profissão e não desista dela é, portanto, masculina. 

O que o frustra é que nesse caso, ela tirou-lhe o poder do dinheiro que é o poder do domínio, da objectificação do outro e da supressão da sua liberdade de escolher e de ser.


Teologia do domínio

 

Uma passagem da Bíblia diz que o ser humano foi feito por Deus para crescer, multiplicar-se e dominar a Terra: 

“Deus os abençoou e lhes disse, sejam férteis e multipliquem-se. Encham e subjulguem a terra. Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra”.

Na interpretação literal evangélica, o que se entende por esta passagem é que todos os eleitos por Deus devem ter domínio sobre tudo e, por isso, especialmente na condução do Estado.

Essa teologia foi desenvolvida inicialmente nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80 do século passado e recentemente foi adoptada no Brasil.

Qual é a sua ideologia? Entender que têm de dominar a sociedade, não apenas na religião mas numa forma ampla, nos chamados 'sete montes': governo, família, educação, meios de comunicação social, religião, negócios e artes.
Diferentes tradições evangélicas, provenientes do Grande Revivalismo protestante americano que engloba, sobretudo puritanos, mas também baptistas e outros credos cristãos, vão unir-se e mobilizar-se para combater o movimento da sociedade em direção à secularização, ao laicismo, no governo e na educação e para combater o feminismo e o crescimento dos movimentos gay.  (Odir Fontoura)

Então constituem-se à volta de um cristianismo conservador e atávico, em defesa dos bons costumes e da família tradicional. 

Temo-los visto crescer nos EUA, em todos os 'sete montes' e estão agora em pleno domínio do governo central e em muitos Estados. Reverteram o diereito das mulheres à saúde e ao controlo da sua saúde reprodutiva, proibiram os médicos de prestar assistência às mulheres, mesmo em risco de vida, limitaram o direito das mulheres ao voto com um estratagema de só poderem votar se conservaram o seu nome de solteiras, retiraram as mulheres de todos os cargos políticos importantes considerados tradicionalmente de direito masculin, etc. Votaram em Trump para não votarem numa mulher.

Em Portugal importámos este 'dominianismo' através de várias igrejas brasileiras e temos os evangélicos a crescer no poder por intermédio do Chega. 

À medida que o discurso extremista deste movimento cristão se torna comum, outras fés cristãs, nomeadamente a católica, que estavam subindo a ladeira do respeito pelos diretos humanos dos gays e, quem sabe, um dia, até das mulheres, sentem-se legitimados para resvalar ao discurso retrógrado patriarcal que, por comparação com os evangélicos, até começa a parecer moderado.

Como estamos lembrados, PPC e outros cristãos, tentaram influenciar uma mudança na Constituição no sentido de combater o feminismo enquanto acesso das mulheres ao trabalho, para conservar a 'família tradicional patriarcal'. Também assistimos ao crescimento da presença das igrejas na comunicação social (quase todos os jornais têm opinadores influencers do cristianismo patriarcal), na educação (os lobbies cristãos estão por detrás das recentes mudanças no ME na disciplina de cidadania; dos contratos de associação - aqui como nos EUA e no Brasil- com colégios privados de ensinamento cristão; do recrudescimento dos fiéis masculinos nas igrejas cristãs patriarcais católicas e evangélicas; da revalorização da arte representativa e desvalorização da arte abstracta e, em geral, da presença das religiões na vida cívica secular.

O objectivo da 'Teologia do Domínio' é a teocracia ou, pelo menos, o teonomismo (de teo, Deus + nomos, lei), que consiste numa sociedade onde o Direito está subordinado às leis da religião e trabalha para elas.

Os evangélicos são os talibãs do Ocidente. Podem não matar as mulheres e os gays com enforcamento, decapitações à faca ou apedrejamento, mas matam-nos socialmente e obrigam as mulheres à submissão social, económica e sexual. Podem não obrigar à burca ou hijab, mas obrigam ao encerramento dentro de casa, sem voz nem voto, sem autonomia e liberdade de ser.

É bom que as sociedades se protejam e travem estes carro antes de atingir o cume como atingiu nos EUA. Lá, já anularam os direitos das mulheres a serem cidadãs de peno direito, já manietaram os advogados e firmas que não se submetem ao dominianismo, já calaram a comunicação social crítica (todos os dias calam a voz a mais um), já afastaram dos negócios os liberais laicos e os progressistas, retiraram milhões de livros das escolas e bibliotecas porque divergem da doutrina oficial, apagaram dos sites oficiais as pessoas e acontecimentos que não se encaixam na sua tirania ideológica, etc.

Temos neste momento, no mundo, 3 ideologias totalitárias muito perigosas, duas religiosas -a cristã evangélica e a islamita- e uma de inspiração fascista/estalinista, que é a russa. O pior é que estão em conluio umas com as outras, ao mais alto nível. Trump está em conluio com a Rússia, que está em conluio com os talibãs e o Irão, que está em conluio com o Hamas e os Estados islamitas, que estão em conluio com a ONU.

Este revivalismo cristão evangélico não é uma tendência das sociedades, uma coisa orgânica, é um projecto ideológico com estratégia delineada e objectivos definidos. Tal como a ideologia islamita e a russa. 

Seria bom que os países democráticos, os que querem continuar a evoluir no desenvolvimento da liberdade de cada um escolher o seu projecto de vida sem, com ele, ameaçar a existência e a liberdade dos outros seres humanos e do respeito dos direitos de todos os seres humanos, se aliassem uns aos outros, conscientes de que é preciso defender este modo de vida social e político e que isso não se coaduna com esperar que alguma divindade resolva os problemas ou tolerar as ideologias totalitárias e pô-las ao mesmo nível que os movimentos não-totalitários, pois se não o fizerem, quando perceberem o que se passa, já lá estão, como aconteceu nos EUA.

Para isso, os políticos, os jornais e as TVs teriam que desistir de serem trombetas destas ideologias totalitárias.