September 17, 2026

"Muita gente tem admiração por mim"



Santos Silva olhava para mim com grande admiração. Ao contrário do que se possa julgar, há muita gente que tem admiração por mim.
- Sócrates



O antigo primeiro-ministro José Sócrates garantiu nesta quarta-feira em tribunal que, apesar de tudo o que alegadamente lhe proporcionou o empresário da Covilhã Carlos Santos Silva ao longo dos anos, nunca se aproveitou da sua amizade.

“Ele é que tinha vontade de me ajudar. É uma relação fraterna aquela que temos. Nunca abusei da sua amizade”, assegurou o principal arguido da Operação Marquês. “Mandou comprar [grandes quantidades] o livro que escrevi? Queria ajudar-me em tudo o que podia. Até queria que me candidatasse a Presidente da República.”

Parte significativa da sessão de julgamento desta quarta-feira foi passada a falar, uma vez mais, da casa que o empresário adquiriu em Paris e na qual José Sócrates morou.

São várias as conversas telefónicas gravadas pelos investigadores da Operação Marquês, tendo como protagonistas José Sócrates, mas também a sua ex-mulher e o seu filho, em que os interlocutores falam como se fossem não apenas inquilinos do apartamento, mas os autênticos proprietários. Chega a ouvir-se o antigo chefe do Governo sugerir determinadas cores e materiais para a remodelação da casa. E é essa a tese do Ministério Público: que foi com luvas provenientes de subornos que o antigo líder socialista pagou pelo imóvel, por intermédio de Carlos Santos Silva, 2,8 milhões de euros, além de obras orçamentadas em mais de 300 mil.

A juíza que dirige o julgamento, Susana Seca, também manifestou estranheza relativamente ao tom usado pelo antigo líder socialista nalgumas destas conversas, em especial naquela em que, perante o atraso nas obras que decorriam no apartamento, para o qual Sócrates se queria mudar com a família, o ex-primeiro-ministro incentiva energicamente Santos Silva a dar “um apertão ao gajo” responsável pela empreitada, para os trabalhos acelerarem. Ao que o empresário lhe responde: “Vou já ligar!”

“Seria expectável que, ao pedir um favor ao seu amigo, não lhe impusesse a sua vontade”, observou a magistrada, que falou das suspeitas que levanta um relacionamento de tal forma umbilical entre os dois homens ao ponto de um pagar as despesas não só do outro como dos amigos dele. Santos Silva disse em tribunal, no passado, que emprestou 510 mil euros a Sócrates ao longo de vários anos e que este já tinha devolvido 250 mil.
(excerto)
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O julgamento de Sócrates evidência três aspectos da justiça portuguesa:

1. É perfeitamente possível fazer troça da justiça durante anos e anos e anos usando as suas próprias leis;
2. Os procuradores e outros funcionários que têm como trabalho construir os casos contra os criminosos são amadores e nem os beliscam;
3. A justiça leva tanto tempo a julgar uma pessoa (o processo já leva 12 anos) que, mesmo sendo essa pessoa culpada, a injustiça do arrastamento do processo por dezenas de anos e não os seus crimes, acabam por ser a notícia mais preocupante.
 
Muita gente tem admiração por mim, diz Sócrates. Calculo que sim e entre eles os criminosos serão o que mais o admiram, pela sua arte de gozar impunemente com a justiça.

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