May 27, 2026

"Antissemitismo"



Antissemitismo, o silêncio que nos vai matando

Paulo Mendes Pinto

Esta mesma frase, pintada noutro local, poderia ser entendida de outra forma. Aqui, na sinagoga de Lisboa, não poder ser outra coisa senão um crime de ódio racista e antissemita.

Vêm de muito longe as raízes do antissemitismo português. Em 1904, quando a sinagoga de Lisboa era inaugurada, passavam mais de 400 anos desde que o judaísmo fora proibido em Portugal, apesar de uma parte significativa da população em 1496, data desse infame decreto, ser judia.

Localizada na Rua Alexandre Herculano, esse que era o primeiro espaço religioso judaico construído em Portugal desde esse decreto criminoso, não podia ter fachada virada para a rua para não “ofender os olhares” dos transeuntes, naturalmente católicos. Era o que dizia a lei e, por isso, a sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança) foi construída num logradouro, escondida por detrás de um edifício também ele projetado pelo arquiteto Ventura Terra.

Foi na fachada desse edifício, que teve em 1904 a função de esconder a sinagoga, não fosse algum católico ficar ofendido por ver um templo de outra religião, que, na noite de 20 para 21 passado (maio de 2026), alguém, pelo que sei, ainda não identificado, pintou a frase “Free Palestine from the river to the sea”.

Nunca é demais alertar para a dificuldade que muitos de nós demonstram ter ao baralharem uma posição de crítica legítima, e mais que justificada, contra uma política de uma liderança israelita, e uma oposição frontal à existência do Estado de Israel. São duas posições em nada próximas, uma democrática, a outra já no campo da negação a um direito estabelecido internacionalmente e, sem dúvidas, a resvalar para uma posição antissemita.

É claro que a situação que se passou em Lisboa há poucos dias é mais complexa, ainda. Muitos poderão dizer, e com razão, que semelhante afirmação categórica é feita pelo partido Likud – partido do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu – quando dizem, sem necessidade de entrelinhas, que “entre o mar e o rio Jordão só haverá soberania israelita”. Em ambos os casos, é a inibição à existência do outro que se materializa nessa afirmação territorial de exclusividade entre o Jordão e o Mediterrâneo.

Nunca uma afirmação pode justificar outra de igual valor, mesmo quando usando quase o mesmo vocabulário. Hoje, a frase pintada na parede fronteira à entrada da Sinagoga Portas da Esperança é, no contexto da luta palestiniana, uma afirmação da negação do Estado de Israel. E isso não é tolerável, nem nos limites mais plásticos dos valores que nos regem.


Quem pratica a sua fé nesse edifício religioso não são autoridades israelitas, mas sim cidadãos nacionais, nascidos e criados aqui, como eu e quem me lê, muitos também críticos para com as políticas do atual governo de Israel

Mas a preocupação tem de ser levada ainda mais longe, havendo três reflexões urgentes, sob o risco de sermos cúmplices através do silêncio:

1. Alguns órgãos de comunicação social afirmaram de forma bem visível apenas a ligação da frase à luta palestiniana, ignorando o lastro e o significado da totalidade da frase. Ignorância? Se o é, é grave e merece reflexão das redações pela forma como alimentam o radicalismo;

2. O significativo silêncio que teve lugar por parte das entidades nacionais. Em Portugal vive-se, a este nível, seja agora neste ato, seja noutros momentos, em atos semelhantes, mas islamofóbicos, um silêncio que premeia os criminosos. Não tomamos posição, fingimos que não é importante, até que o quadro seja mais grave. Esta postura apenas nos mostra que, ao contrário da mitologia nacional, não somos um “povo de brandos costumes”. Somos, antes, um povo que cala e que consente. Somos os mesmos que aceitaram durante quase 50 anos uma ditadura, que se deixa amochar com injustiças, mas gosta de acusar em voz alta quando está no sofá, repetindo nas redes sociais o que os aprendizes de Salazar repetem e vociferam.

3. Por fim, mesmo que se queira justificar a frase pintada junto à sinagoga, nunca se conseguirá fazer essa justificação em relação ao local em si. Quem pratica a sua fé nesse edifício religioso não são autoridades israelitas, mas sim cidadãos nacionais, nascidos e criados aqui, como eu e quem me lê, muitos também críticos para com as políticas do atual Governo de Israel.

É nesta confusão, achando que tudo o que é judeu ou judaico é o mesmo que Netanyahu, que se mostra que estamos, sem dúvida, perante um ato antissemita. Esta mesma frase, pintada noutro local, poderia ser entendida de outra forma, por alguém mais ingénuo ou otimista. Aqui, não pode ser outra coisa senão um crime de ódio racista e antissemita.

Até quando vamos pactuar, através do silêncio, com coisas destas?

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