January 26, 2026

Mais um artigo sobre o uso da IA no ensino superior que não diz nada de relevante

 

Limita-se ao é proibido proibir. Pois, todos sabemos que a IA está aí e existe, mas dizer que deve ser usada desde que «com ética», dá vontade de rir, porque equivale a dizer aos estudantes, 'sejam honestos' e esperar que o sejam, quando sabemos que não o são. Nem os professores o são. 

A solução deste senhor que trabalha na área da IA é fazer dos professores polícias e especialistas em detectar cabuladores. Mas ser professor não é isso de andar a fazer avaliações, não para perceber o que o aluno progrediu e domina mas para detectar se andou a cabular. 

E ensinar a desconfiar e a confirmar fontes digitais já nós fazemos nas escolas, mas o problema é que os alunos não querem saber de fontes credíveis, querem é saber de uma aplicação que lhes faz os trabalhos e consegue as notas e os certificados.

Eu também não sou a favor da proibição no ensino superior mas sei que é um problema sério no que respeita à credibilidade epistémica da própria universidade e que é preciso pensar seriamente onde é útil a IA ser usada com mérito e onde o seu uso é um demérito. 

Mesmo nas escolas secundárias há disciplinas científicas-práticas onde o uso da IA faz sentido mas em disciplinas de Humanidades faz menos sentido. Às vezes faz sentido num determinado ponto. Por exemplo, tenho as minhas turma do 10º ano em vésperas de fazer testes de Lógica Proposicional. Tenho levado exercícios e disse-lhes que, se acabassem os exercícios e quisessem mais para treinar podiam trocar todas as conectivas, que é o suficiente para mudar os exercícios e os resultados ou ir à IA pedir mais exercícios e depois de os fazerem pedirem-lhe as soluções. Este é um caso em que é útil, mas em geral, substituir o pensamento por IA prejudica o desenvolvimento das suas potencialidades em formação. 

A IA não pode ser usada sem critério na educação e nem pode ser igualmente usada em qualquer situação, em todas as disciplinas, só porque existe. Isso é o mesmo que dizer, já que as redes sociais existem e os alunos as usam, vamos deixar que as usem para o seu trabalho. 

Portanto, este articulista não tem nenhuma solução válida para um problema que necessita urgentemente de solução e vem para os jornais dizer coisas inconsequentes. 

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O ponto não é moralizar estudantes, é olhar para os incentivos e para o desenho da avaliação. Se um aluno consegue fazer um trabalho inteiro copiando respostas de um modelo de linguagem, o problema não é a IA, é o desenho da avaliação. Se fosse possível um estudante terminar uma licenciatura a papaguear textos que não percebe, a pergunta séria não seria “o que é que a IA está a fazer à universidade”, mas “que universidade construímos para que isso fosse possível?”

Proibir é o gesto mais fácil.

O desafio não é afastar a IA, é ensinar a usá-la. Ensinar a desconfiar das respostas, a comparar com fontes, a explicitar o que foi feito pela máquina e o que foi feito pela pessoa. Usar a IA como espelho devolutivo do pensamento: pedir ao estudante que mostre o prompt, critique o output, reescreva, explique por escrito onde concorda, onde discorda e porquê. Se quisermos, a IA pode ser um laboratório de pensamento crítico. Se a proibirmos, será apenas mais uma fonte de atalho silencioso.

Nelson Zagalo in https://www.publico

2 comments:

  1. « Usar a IA como espelho devolutivo do pensamento: pedir ao estudante que mostre o prompt, critique o output, reescreva, explique por escrito onde concorda, onde discorda e porquê.»

    O que vai fazer o aluno? Pedir à IA que lhe faça o trabalho: criticar o «output», «reescrever», «explicar por escrito onde concorda, onde discorda e porquê». Chega à aula e papagueia o que a IA lhe forneceu.

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    1. Exacto. Penso que devia haver, integrada na disciplina de TIC, nas escolas, um tema dedicado ao cuidado a ter com a informação digital - como verificar fontes, quais os sinais que indiciam fraude, etc. Porém, isso não garante ética na sua utilização porque a honestidade não é uma técnica que se ensine na escola, é um traço de carácter.

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