November 24, 2025

O poder e a humilhação

 

«No meu estudo das sociedades comunistas, cheguei à conclusão de que o objectivo da propaganda comunista não era persuadir ou convencer, nem informar, mas humilhar; e, portanto, quanto menos correspondesse à realidade, melhor. Quando as pessoas são forçadas a permanecer em silêncio quando lhes são contadas as mentiras mais óbvias, ou pior ainda, quando são forçadas a repetir elas próprias essas mentiras, perdem de uma vez por todas o seu sentido de probidade. Concordar com mentiras óbvias é, de certa forma... tornar-se mau. A capacidade de resistir a qualquer coisa é assim corroída e até destruída. Uma sociedade de mentirosos castrados é fácil de controlar. Acho que, se analisarmos o politicamente correcto, ele tem o mesmo efeito e é essa a sua intenção.» - Theodore Dalrymple, Frontpage Magazine (31 de agosto de 2005) 

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Há o poder e há a humilhação. O poder é a capacidade de forçar outros à sua vontade, não necessariamente de modo violento. A humilhação é violência e está ligada a uma necessidade de reconhecimento de status. Os revolucionários da revolução francesa compravam bilhetes para ir ver os nobres sem cabeleiras nem jóias, prostrados na «Viúva», como chamavam à guilhotina, serem separados das suas cabeças que eram mostradas à populaça e atiradas para um cesto, como se fossem restos de carne para cão. A execução era planeada, não para matar -embora matasse- mas para humilhar. Este excesso de violência grotesca e animalesca foi responsável por levar Napoleão ao poder, o primeiro ditador totalitário da história ocidental. 
Da mesma maneira, após a derrota da Alemanha em 1945, mais de 20 mil mulheres francesas que tinham namorado um alemão, foram publicamente humilhadas: as cabeças rapadas, para as desumanizarem, na maioria dos casos passeadas nuas dessa maneira para a multidão de homens (muitos deles colaboradores virados pseudo-patriotas) as humilharem. Tiraram-lhes fotografias e fizeram postais que venderam para a sua humilhação ser espalhada pelo país e pelo mundo e perdurar para sempre. São os inceis de todos os tempos. (via BORZOI)
Trump e Putin têm essa característica em comum. Ambos vêm de uma classe social baixa -apesar de Trump vir de uma família com dinheiro, era dinheiro novo, de imigrantes, sem nenhum estatuo social- e ambos necessitam de sentir que os outros lhes são inferiores em status
Trump tem as suas casas todas cheias de ouro porque pensa que isso lhe confere um estatuto próximo da majestade. Encheu a Casa Branca de dourado e está a fazer um salão de baile com mais ouro que Versalhes. Espera que o dourado que o rodeia se estenda à sua pessoa.  
Putin faz-se filmar a atravessar as salas e corredores dourados dos palácios dos imperadores russos, com uma multidão de vassalos a aplaudi-lo ao longo do seu percurso de apoteose. Faz-se fotografar vestido de Imperado russo.
Trump humilha: desde chamar piggy às mulheres, a rodear-se de mulheres que parecem ter saído de um filme porno (os Bezzos e outros bilionários misóginos também), até mandar prender os imigrantes de um modo degradante e humilhante, em frente dos filhos, no meio da rua, por tipos de cara tapada, atirados para um sítio qualquer, esquecidos e incomunicáveis. 
Putin pediu a Trump que humilhasse Zelensky naquela famosa ida à Casa Branca. Quer muito humilhar Zelensky e os ucranianos. Pediu-lhe para deixar entrar os jornalistas da Tass e pediu-lhe que o humilhasse em frente ao mundo - ponho as minhas mãos no fogo que o fez e que o outro acedeu contente pela expectativa e a crueldade de preparar a humilhação e destruir uma pessoa em frente ao mundo. Seria uma espécie de espectáculo de guilhotina online. Saiu-lhe mal. Nem Zelensky rastejou nem ninguém no mundo inteiro -fora da Rússia- gostou da armadilha de Trump-Putin. 
Ambos têm uma enorme necessidade de reconhecimento de superioridade de status e usam a crueldade e  humilhação para esse fim. 
Este plano de 28 pontos que Putin mandou Trump impor a Zelensky é para o humilhar a ele e à Ucrânia, que o trataram, não com o medo e reverência que se deve a um ser de status superior, mas como um criminoso, um bandido, um merdoso. É também por isso que Trump não gosta dos europeus.
Não se pode apaziguar este tipo de pessoas que se drogam com o medo dos outros, com a vassalagem dos outros, com a reverência dos outros, ao mesmo tempo que a desprezam, na sua insegurança de homenzinhos que querem muito estar à altura dos grandes homens.


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