June 26, 2025

Um olho é Vermeer e o outro é Van Gogh

 

Hoje já posso estar um tempo limitado no computador. Baixei a luminosidade do ecrã.

A minha operação correu bem. Acontece que agora tenho os olhos desajustados e assim vão continuar até operar o outro. A primeira consequência que notei, neste desajuste, foi o aspecto das cores. Quando tapo o olho operado e vejo pelo não-operado, as cores, que sempre me pareceram normais, aparecem sombrias e saturadas, comparadas com as cores que vejo quando olho só com o olho operado. Neste, as cores aparecem impregnadas de luz. O mundo visto por esse olho é todo luminoso. 

Um dos meus olhos é Vermeer e o outro é Van Gogh.

Calculo que quando operar o outro olho, ambos os olhos sejam Van Gogh, durante um tempo. Depois, como deixarei de ter um Vemeer para comparar, a luminosidade será o normal e deixarei de a notar. 

Isto faz pensar. Sabemos que não sabemos como os outros vêem, quer dizer, como as coisas aparecem às suas percepções, mas outra coisa diferente é termos experiência dessas diferenças, porque talvez essas diferenças expliquem, em parte, os comportamentos.

Talvez o optimismo que costuma marcar a infância e a adolescência se deva a terem os olhos novinhos em folha e vejam o mundo cheio de magia desse excesso de brilho que cobre tudo, como o meu olho Van Gogh. O outro olho, mais sombrio e renascentista, digamos assim, é mais profundo.

Talvez Van Gogh tenha sido Van Gogh, pelo menos em parte, por ter olhos impressionistas e tudo lhe aparecer cheio de luz.

Quem sabe? Seja como for vou aproveitar esta experiência enquanto durar e guardá-la na memória. 



4 comments:

  1. Espero que recupere bem e que ambos os olhos se tornem no pintor cujas corres preferir. Gostei deste texto, acho que se constrói daqui uma boa história ou uma boa metáfora. Sempre disse, de mim próprio, que não envelhecia, porque já tinha nascido velho, talvez cheio desse olhar "mais sombrio e renascentista". Sempre desconfiei de gente muito contente, talvez vejam tudo com cores demasiado vivas, faltando-lhes alguma tristeza saudável.

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    1. Eu sou uma amante dos flamengos renascentistas - e outros renascentistas, como Durer. Mas também amo o amor de Van Gogh por aquela explosão de luz.
      O que preferia era ficar com um olho de cada estilo e mudar a visão conforme o estado de espírito. Mas para isso temos a imaginação.
      Quanto a isso de nascer-se velho, neste sentido, compreendo e acompanho.

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  2. Hummm....até no olhar a Beatriz difere do comum. Já conhecíamos um cantor com um olho de cada cor; mas uma pessoa com um olho de cada pintor, confesso, é a primeira vez que encontro. O bom mesmo é que se sinta melhor e caminhe para a igualdade nos dois olhos. Subjectividades à parte, é desejável que funcionem os dois como manda a lei. Boas e efectivas melhoras.
    Ontem alguém esteve a falar-me sobre a pintura flamenga, sobretudo a das mulheres, hoje tão pouco conhecidas. Parece que, em termos de obra, não são inferiores ao produzido pelo género masculino. Nesse tempo, o mundo era ainda mais dos homens do que é hoje.
    Também vimos Durer e Van Eyck. Não consigo saber de que pintor gosto mais, mas amo a loucura pictórica de Van Gogh.
    Bom dia:)

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    1. Pois não são, não. Há um famoso pequeno grande livro chamado, "Why Have There Been No Great Women Artists?"

      Neste livro a autora mostra que houve grandes artistas mulheres e se foram menos do que poderiam ser deve-se aos obstáculos que lhes eram impostos pelos homens para que não pudessem florescer no seu talento. Também houve apropriação do trabalho das mulheres. Rodin, na arte, Voltaire, no pensamento filosófico e outros - na ciência são legião.

      Penso que em relação à pintura, como à música ou outra arte, somos todos Pessoa: diante da obra assumimos a perspectiva do artista, se faz eco em nós. E se temos algum conhecimento, alguma intuição e experiência de vida é difícil uma obra de arte não fazer eco m nós.

      Obrigada pelos votos de saúde. Para si também: "No Verão passado adoeci e aposentei-me". Espero que não tenha sido nada de grave.

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