July 13, 2020

Isto é um erro tão grande



Why does philosophy have a problem with race?

Unthinkable: Racist views must be confronted honestly, says philosopher Aislinn O’Donnell




No longer can one pretend that the Enlightenment figure David Hume was speaking out of character when he ranked black people as “naturally inferior to the whites”. Nor can one pass off Immanuel Kant’s lowly regard for “the Negroes of Africa” as an aberration. Nor indeed can Voltaire’s anti-Semitism and offensive baiting of non-whites be treated like a minor blip in an otherwise unblemished intellectual record.

As John Gray writes in his book Seven Types of Atheism, “Voltaire’s racism was not simply that of his time. Like Hume and Kant, he gave racism intellectual authority by asserting that it was grounded in reason.”

Philosophy has largely been taught through the eyes of male, pale thinkers. Is it time for an overhaul?

Aislinn O’Donnell: “Philosophy departments’ lack of diversity when it comes to both curricula and staff
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Querer ajustar contas com os filósofos por terem sido racistas. Também foram machistas. Ainda ontem fui dar com uma frase de Hegel -A mulher pode ser educada, mas sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e algumas das artes- chocante. Hegel viveu até quase meados do século XIX. Mas pior que Hume, Kant ou Hegel serem racistas ou machistas, são os autores contemporâneos ainda o serem. Na semana passada li um livro de Byung-Chul Han, um pensador coreano que vive e ensina na Alemanha, chamado, A Agonia de Eros. O autor fala da tendência actual de se reduzir os sentimentos a emoções e afectos positivos e superficiais e da importância da negatividade no que é autêntico e conclui dizendo que o amor se efeminou... quer dizer, as mulheres só são capazes de emoções fúteis e pueris e infectaram os homens com essa incapacidade. Que diabo! Como não podemos partir do princípio que o indivíduo não se dá conta do seu machismo, só podemos concluir que não se dá conta da sua estupidez. No entanto, o livro tem muitas ideias que me parecem válidas e certeiras. É claro que este indivíduo não é Hume, nem Kant, nem Hegel. É só um pensador. Para mim um filósofo é outra coisa. Mas eu aproveito do livro as ideias que me parecem bem pensadas e não renego o que me parece bem pensado só porque o homem é um machista idiota. Nem percebo essa maneira de pensar. Se fossemos a rejeitar os autores machistas, em todas as áreas da cultura, sobravam uns cinco...

Tem que se aceitar que os homens, e em particular, os brancos, na generalidade, sobretudo de uma certa idade, têm uma grande incapacidade de se des-subjectivarem, são muito auto-centrados e por isso falta-lhes compreensão e respeito pela alteridade da humanidade. 

A ideia de que os filósofos são sábios está tão impregnada na mente que em geral não se lhes perdoam estes erros. Ou melhor, não se lhes reconhecem erros, de modo que estas particularidades de carácter aparecem como pecados que têm que ser constantemente purgados.

O que interessa dizer vinte vezes que os filósofos eram racistas ou machistas? Ou que viveram num tempo de colonizadores e que não rejeitaram essa visão, até a aceitaram? Basta sabermos uma vez. 
É mais importante tentar perceber porque é que essas pessoas que tão bem pensam em tantas dimensões da realidade, não conseguem pensar-se fora da cultura que os formou e livrar-se dos seus preconceitos. Isso e diversificar os departamentos que, como se diz no artigo, têm uma falta de diversidade que não ajuda ao debate de ideias.

Não me faz mossa nenhuma ler as barbaridades que esses indivíduos, e até algumas mulheres, dizem sobre as mulheres. Hanna Arendt, numa entrevista que anda no YouTube, diz que as mulheres que têm profissões masculinas perdem a feminilidade ou algo do género, agora não me recordo ao certo se eram as profissões se era outro aspecto. Era uma mulher com um intelecto muito forte mas com uma mentalidade, em muitos aspectos, do seu tempo e não estava habituada a ver as mulheres a fazerem certas coisas e essa visão colidia com a sua estética de vida. Isso não retira valor ao seu pensamento, embora seja uma pena, claro.

Na verdade, o que me surpreende são aqueles que escaparam ao 'enformamento' das suas pessoas no processo de socio-endoculturação. Um dia li um livro italiano de memórias, do fim da Idade Média, escrito por uma mulher. Já não me lembro que livro era. Acho que é duma colecção que tenho de livros escritos por mulheres de outras épocas. A mulher contava que os pais a casaram muito nova, com 14 anos ou 15. O marido tinha quase 40 anos. Na noite do casamento o marido disse-lhe para ela não se preocupar que não ia forçá-la a dormir com ele, que esperava até ela ser mais velha e estar preparada. Que achava mal os pais casarem as raparigas muito novas, que era uma grande violência. Disse-lhe que não tinha pressa em ter filhos e que se os pais perguntassem ela que dissesse que estava tudo bem. Ela falava disto com um grande carinho por ele e lembro-me de ter ficado estupefacta. Parecia um discurso actual e invulgar, mesmo nos nosso tempos. Não estamos à espera que um homem, sobretudo em tempos remotos, tenha esse tipo de compreensão, de capacidade de se des-centrar, de respeito e delicadeza. 

Ainda hoje, a maioria dos homens de uma certa idade são machistas, paternalistas e vêem as mulheres como 'pessoinhas' de modo que esperar que outros de outros séculos fossem capazes de ver fora do seu tempo, é um exercício inútil e, quanto a mim, errado. É uma perda de tempo e não se ganha nada em sabedoria com isso. Uma pessoa não  deita fora as pinturas de Gaugin só porque ele era um porco esclavagista e um ordinário. Sabemos que o era. Podemos pôr uma nota informativa ao lado das suas pinturas, para ajudar à verdade do autor, mas isso não retira valor às pinturas. 

Hume, Kant e Hegel eram pessoas d seu tempo, por muito que isso nos custe, mas isso não retira valor às suas obras.

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