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May 30, 2026

Leituras de fim-de-semana - " O português que dominou os estreitos de Ormuz a Malaca"



Muito bom este artigo sobre a estratégia de globalização pelo mar de D. Manuel I e Afonso de Albuquerque. O controlo dos estreitos marítimos daqui até à China para dominar o mercado das especiarias. Entretanto fui ver quem é o historiador Luís Filipe Thomaz de que se fala no artigo e fui dar com isto:
Poliglota, Luís Filipe Thomaz fala, para além da sua língua materna, inglês, castelhano, francês, grego moderno, italiano, malaio-indonésio, romeno e tétum (a língua de Timor Leste). Tem também bons conhecimentos de latim, grego clássico, sânscrito, siríaco, gueês (litúrgico etíope) e javanês, bem como rudimentos de neerlandês, amárico (etíope moderno), chinês (mandarim e cantonês), concani (Goa), persa moderno e árabe literal. Wiki
Um historiador que passa todas as passagens para todos os países/culturas através do domínio dos estreitos que são as línguas (uma pessoa sente-se muito ignorante depois de ler esta bio linguística).


O português que dominou os estreitos de Ormuz a Malaca


Leemage/Corbis/Getty Images


Afonso de Albuquerque, o braço armado de D. Manuel, criou o primeiro império marítimo em rede do Golfo Pérsico. Só falhou Áden, diz a lenda, porque se partiram as escadas

Jorge Nascimento Rodrigues

Expresso

O estreito de Ormuz concentra as atenções do ponto mais quente na geopolítica atual e já fez Donald Trump correr, várias vezes, para a situation room, o centro de crise e de gestão de informação de segurança na Casa Branca. O duplo bloqueio iraniano e da armada norte-americana revelou o papel estratégico daquele ‘gargalo’ à saída do Golfo Pérsico no comércio marítimo mundial. Mas Ormuz é um velho conhecido dos portugueses há mais de cinco séculos e a ocupação da ilha com o mesmo nome durou mais de cem anos.

Na ilha ainda sobrevivem ruínas do forte concluído por Afonso de Albuquerque em 1515, a quem em toda a região do Golfo Pérsico até ao Índico temiam como o “Leão dos Mares” e o “Terribil”. O turista ainda pode descortinar traços da arquitetura militar do tempo do reinado de D. Manuel e velhos canhões portugueses apontados para o estreito. A chegada a Ormuz pelos portugueses tem uma história por trás. Não foi obra do acaso. Há mais de 500 anos o tema dos estreitos na Ásia era uma obsessão na corte em Lisboa e nas armadas portuguesas que andavam pela região.

Na situation room da Casa Branca não há nenhum retrato nem de D. Manuel, com quem na Europa, à época, gozavam como o “rei merceeiro” das especiarias, nem a Afonso de Albuquerque, que foi governador da Índia. Mas ao primeiro deve-se um “Regimento” ao pormenor de objetivos globais para toda a região traçado em 1504, uma obra-prima de grande estratégia pioneira de uma rede de estreitos em grande escala no Índico e no Oriente; e ao segundo a concretização de uma boa parte das fundações do primeiro império marítimo moderno.

Muitos historiadores portugueses não poupam nas palavras no que ficou conhecido como guião, detalhado, da projeção portuguesa na Ásia saído da corte de D. Manuel. “É, sem dúvida, uma obra-prima pioneira de geoestratégia”, diz-nos José Virgílio Pissarra, historiador naval, investigador no Centro História, Territórios e Comunidades da Universidade de Coimbra. “Não conheço outro plano tão complexo e tão detalhado que anteceda este projeto de D. Manuel, pelo que me atrevo a afirmar que, nesse sentido, foi absolutamente pioneiro e revela um sentido estratégico apurado”, corrobora Jorge Semedo Matos, capitão-de-fragata fuzileiro reformado, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa.

A UMA ESCALA 
SEM PRECEDENTES

No centro desse plano de projeção bem longe de Portugal e do Atlântico estavam os estreitos hoje na ribalta, de Áden, perto de Bab el-Bandeb às portas do Mar Vermelho, que os portugueses também chamavam Mar Roxo — a que se refere o poeta Luís Vaz de Camões no Canto II de “Os Lusíadas” —, Ormuz, e Malaca. Malaca permitiria, mais tarde, a chegada dos portugueses ao que se designavam por Ilhas das Especiarias (arquipélago das Molucas na atual Indonésia), à China e ao Japão. “Malaca situa-se na ligação entre o Índico e o Pacífico, pelo que o controlo deste porto e estreito foi crucial para a posterior penetração dos portugueses nas redes do comércio do Extremo Oriente Asiático”, refere João Paulo Oliveira e Costa, professor no Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O controlo dos estreitos criados pela geografia, ou ‘ferrolhos’ que controlam a navegação do mundo, como os batizaram os teóricos britânicos e norte-americanos da geoestratégia desde o começo do século XX, sempre foram uma das alavancas da geoestratégia. “O princípio do controlo dos estreitos é tão antigo quanto a atividade naval. Todavia, a escala introduzida pelo plano português não tem precedentes”, reforça José Virgílio Pissarra. Para visualizarmos bem a dimensão do que era o controlo desse corredor de estreitos na Ásia, o historiador salienta: “Sendo senhores da passagem do Atlântico para o Índico, os portugueses identificaram três estreitos comunicantes: Áden, Ormuz e Malaca. E, como se as distâncias não fossem imensas — de Bab el-Mandeb a Malaca distam 8000 quilómetros, por uma rota plausível — decidiram assumir o seu controlo.” E, frisa Pissarra, fizeram-no de um modo acelerado: “Repare-se que a exploração do Atlântico demorou quase um século (até se chegar ao cabo da Boa Esperança no sul de África), enquanto o Índico foi cruzado, do Mar Vermelho, a Ormuz e Malaca em pouco mais de uma década.”

GUERRA DE CORSO ESTATIZADA

Num olhar a cru, este pedaço da projeção pelo Oriente não deixou de ser o que o historiador indiano Sanjay Subrahmanyan considerou como a novidade trazida da Europa: os portugueses introduziram no oceano Índico, a partir de 1500, uma nova forma de comércio de natureza hostil, onde a ameaça da violência organizada passa a ser um instrumento sistemático de controlo das rotas por parte de um Estado invasor. Ou como nos diz José Virgílio Pissarra: “O que Portugal trouxe, com notável modernidade, foi a guerra de corso, de ataque à navegação mercante inimiga, levada exclusivamente a cabo por uma marinha real. Eram operações de guerra e oficiais, característica em que Portugal foi pioneiro. Todos os corsários e a generalidade dos piratas da costa da Índia eram privados locais até então”. O historiador Oliveira Martins, destacado historiador do século XIX e que chegou a ser ministro das Finanças no reinado de Dom Carlos, resumiu que os portugueses introduziram “uma rapina organizada por um estado político” e Latino Coelho, historiador e político, que foi ministro da Marinha e Ultramar no governo do duque de Ávila no século XIX, foi ainda mais lapidar: “Proclamou-se o terror como sistema político e mercantil.”

Não por acaso, Donald Trump disse recentemente: “Somos uma espécie de piratas, mas não estamos a brincar”, citado pela revista “Time”. O Presidente norte-americano comparou a Marinha dos EUA a piratas ao descrever como ela estava a cumprir as suas ordens para bloquear os portos iranianos. “Apoderámo-nos do navio, apoderámo-nos da carga, apoderámo-nos do petróleo. É um negócio muito lucrativo”, disse recordando a apreensão de um navio iraniano.

DO SÍTIO ERRADO A PIONEIRO

É a história desse curto período, do seu contexto e, depois, do início do seu epílogo que vamos percorrer através de alguns marcos que os historiadores portugueses contemporâneos assinalaram. A compreensão do que foi “o momento imperial português no oceano Índico” e a originalidade de um império global em rede, como diríamos hoje, que começou por ser desenhado no Índico, deve-se em muito ao historiador português Luís Filipe F. R. Thomaz, docente na Faculdade de Letras e na Universidade de Lisboa e com uma carreira académica que passou por França, Malásia, Macau e Brasil. Já depois de aposentado organizou na Universidade Católica Portuguesa o Instituto de Estudos Orientais, de que foi diretor até 2011.

São marcantes dois livros deste historiador de divulgação para um público menos especialista, como “De Ceuta a Timor” (1994) e “A Expansão Portuguesa — Um prisma de muitas faces” (2021), publicado inicialmente em castelhano em Bogotá em 2016. Na sua investigação sobre a projeção portuguesa global, Thomaz começou por sublinhar “o paradoxo da vanguarda da expansão europeia partir exatamente de um país que praticamente de nenhum ponto de vista se podia considerar a vanguarda da Europa”. Aparentemente, o sítio errado. Para, depois, sublinhar o carácter “original e por vezes desconcertante” da expansão no Índico que “foi, na sua essência, uma rede, isto é, um sistema de comunicação entre vários espaços. Carateres que o distinguem de um vulgar império”, conclui o historiador que, em junho, fará 84 anos.

UMA OBRA-PRIMA MADE IN PORTUGAL

A “aprendizagem” do que era o oceano Índico a que os portugueses chegaram desde a viagem de Vasco da Gama sempre foi complexa mesmo para quem andou por lá várias vezes: o regime especial climático (monções) cujo conhecimento assumiu uma dimensão estratégica, a economia numa região largamente dominada pela rede muçulmana desde há séculos e a política local em mosaico onde não havia nem sombra dos “cristãos” que os portugueses esperavam encontrar como aliados naquelas paragens longínquas. “Um conhecimento que os portugueses não tinham aquando da viagem de Gama e que foram aprendendo devagar, ao longo do começo do século XVI”, refere-nos Jorge Semedo de Matos, professor da Escola Naval e da Faculdade de Letras de Lisboa.

Em contraste, na corte em Portugal, o clima era outro: de frenesim envolto num grande projeto imperial que misturava a geoeconomia das especiarias e outros recursos do Oriente com um messianismo em torno de D. Manuel muito acicatado por um grupo em que pontificavam a sua segunda mulher, Maria de Aragão e Castela, filha dos chamados Reis Católicos da vizinha Espanha, o conselheiro ideólogo Duarte Galvão, Gaspar da Gama (um espião capturado por Vasco da Gama na primeira viagem) e o frade-cavaleiro André do Amaral, chanceler-mor da Ordem de São João na ilha de Rodes, no mar Egeu. “Impacientes com a lentidão de algumas realizações, com uma compreensão parcial sobre a dimensão e a importância dos poderes locais, emanavam ordens sobre as quais só obtinham retorno cerca de ano e meio depois”, prossegue Semedo de Matos.

Mas o rei e o grupo messianista resolveu ser proativo. O historiador José Pissarra, por seu lado, vê, também, o dedo de Afonso de Albuquerque como contribuinte para o “Regimento” depois de ter participado na armada de Pedro Álvares Cabral e nas seguintes e regressado em julho de 1504 a Lisboa. Em finais de 1504, elaborou-se uma espécie de guião de 110 páginas, um longo “Regimento de capitão-mor”, com 144 pontos a prosseguir durante três anos e que foram dados como missão ao primeiro vice-rei da Índia, Francisco de Almeida, que partiu em março de 1505. O regimento recebeu, depois, cartas régias com aditamentos. “Esse regimento era estruturante do que seria o futuro Estado Português da Índia e continha um conjunto de ordens e regras que visavam esse domínio. Nesse sentido, é uma peça de geoestratégia, como diríamos hoje”, conclui Semedo de Matos.

UMA REDE NA “FRALDA DO MAR”

O “Regimento” e os seus aditamentos, além de um plano de fortalezas em portos e ilhas pela costa africana oriental e na Índia, avançavam com muitos desígnios, uns que se concretizariam, outros que morreriam na praia. O primeiro era o plano do Mar Roxo (Vermelho) e o controlo da sua embocadura que projetava voos mais altos em direção ao controlo dos centros religiosos muçulmanos na Península Arábica (Meca e Medina), conquistar o Sinai e eventualmente o Cairo dominado então pelo sultanato mameluco. Depois, um plano de patrulha permanente ao longo da costa oriental africana até ao cabo Guardafui (hoje na Somália) que, mais tarde, seria reforçado com duas armadas permanentes, acrescentando o controlo marítimo desde o Malabar (costa sudoeste da Península Indiana) até Ceilão. Seguia-se a expedição a Malaca face a rumores de que os espanhóis pretendiam chegar a esse estreito vindos do Pacífico, e avançar para tomar posse das Ilhas das Especiarias, que, também, estariam na mira de Espanha. Chegava mesmo a colocar no mapa a China — a Catayo de “As Viagens”, de Marco Polo — em busca da porcelana, do almíscar, do âmbar e do lenho-alóis.

Em síntese, o que se pretendia era uma rede na “fralda do mar”, parafraseando o padre jesuíta Francisco de Monclaro, mais tarde, por volta da década de 1570. “Era um projeto de estratégia marítima, que é diferente da estratégia terrestre, que envolvia o controlo das rotas e do que hoje chamamos chokepoints — pontos de estrangulamento, gargalos marítimos —, como era o caso dos estreitos marítimos”, acrescenta Semedo de Matos.

O historiador insiste em criticar um erro, que os portugueses à época não cometeram: “A estratégia do uso do mar não tem as mesmas condições de elaboração e pensamento que tem a estratégia de domínio de espaços continentais. E isto nem sempre é evidente. Há muitos ‘especialistas’ a tratar o mar como se fosse uma imensa planície onde em vez de carros de combate andam navios. Mas não é assim. O mesmo se aplica aos estreitos, que uns veem como uma passagem de terra para terra e outros como o corredor por onde circulam navios.”

A CONEXÃO PRECOCE ENTRE MÉDIO E EXTREMO ORIENTE

Com essa rede de controlo de estreitos e dos mares do Golfo Pérsico à entrada do Pacífico, os portugueses concretizaram a primeira conexão marítima estruturada precoce, dominada por uma potência, entre o Médio e o Extremo Oriente, que, à época, não tinham essas designações.

Essas caracterizações só apareceram no final do século XIX e no começo do seguinte. “Numa primeira fase, nos anos 1840 a 1890, o Oriente foi pensado pelos europeus como dividido apenas em dois: Oriente e Extremo Oriente. Só, numa segunda fase, desde os anos 90 do século XIX, começaram a aparecer três orientes: Próximo, Médio e Extremo”, refere o historiador italiano Alessandro Vanoli no livro “A Invenção do Ocidente”, publicado em Itália há dois anos, e agora traduzido pelas Edições 70. A designação Extremo Oriente tornou-se popular aquando da corrida das potências europeias, dos Estados Unidos e do Japão ao domínio da China costeira a partir das Guerras do Ópio e da Guerra Sino-Japonesa. O conceito de Médio Oriente chegou à ribalta com o historiador militar norte-americano Alfred Thayer Mahan num artigo publicado em setembro de 1902 na revista londrina “National Review”: “O Golfo Pérsico e as Relações Internacionais”. Ele pretendia usar a expressão no sentido geoestratégico de um espaço marítimo entre o Golfo Pérsico e a Índia. O que caía como uma luva nos desígnios do império britânico para a região.

Os primeiros a dar consistência a esse espaço geoestratégico foram os portugueses. E, na vanguarda desse desígnio, o que o historiador Luís Filipe Thomaz cognomina como “o representante do imperialismo puro e duro, Afonso de Albuquerque”.

ORMUZ, A PEDRA PRECIOSA

Com o título de capitão-mor da costa da Arábia, Afonso de Albuquerque tentou a conquista da ilha e do reino de Ormuz em 1507. A ilha era cantada como “a pedra preciosa” do estreito. Com a conquista de portos na atual região de Omã, como Curiate e Mascate, Albuquerque cortou os fornecimentos de água a Ormuz. “Mas a aventura foi de pouca dura, pois os seus próprios capitães o abandonaram, refugiando-se junto do vice-rei (Francisco de Almeida, que se opunha aos planos maximalistas da corte e de Albuquerque)”, refere Luís Filipe Thomaz em “A Expansão Portuguesa — Um prisma de muitas faces”.

O regresso à “pedra preciosa” deu-se em 1508, mas Albuquerque acabou por largar Ormuz pela segunda vez. Mas há terceira foi de vez, com uma armada de 28 barcos. Em fevereiro de 1515, levou o monarca local adolescente a um balcão do palácio e mostrou-o à multidão que andava agitada. E, assim, nasceu, entre folguedos e festins de rua, o protetorado português de Ormuz. Também seria a última viagem de Albuquerque que morreria no regresso ao largo de Goa.

A guarnição portuguesa de Ormuz rendeu-se a uma coligação entre os persas e a Companhia Inglesa das Índias Orientais (East India Company, ou EIC no acrónimo) em 1622, durante a dinastia filipina em Portugal, ao fim de mais de um século de controlo da pedra preciosa do Pérsico.

MALACA, O OLHO DO SOL

Em 1511, Albuquerque partiu para mais longe, em busca de capturar o porto de Malaca e controlar o estreito. Os chineses chamavam-lhe “o olho do Sol”, desde as navegações do almirante chinês Zheng He que partindo de Nanquim com a sua Frota do Tesouro foram até o Sudeste Asiático, a Índia, a Península Arábica e a costa oriental de África. O almirante chinês utilizou Malaca como um ponto de apoio logístico crucial, oferecendo proteção aos habitantes locais contra piratas e facilitando o comércio na região. Malaca tinha mais habitantes do que Lisboa, com gente que falava mais de oitenta idiomas.

O porto era considerado uma das pontas de um triângulo estratégico que ligava o comércio entre a Arábia, Índia e o Extremo Oriente, nomeadamente as Ilhas das Especiarias e a China. Albuquerque decidiu assaltar a cidade em julho e o sultão local acabou por fugir. Parte dos comerciantes de Malaca decidiu virar-se para os portugueses. Estabeleceu-se uma armada permanente, “contudo, os efetivos eram escassos, pouco mais do que as sobras da Índia”, sublinha-nos José Virgílio Pissarra.

Mas a dinâmica portuguesa era já dominada por outra realidade: “O grosso da presença portuguesa na região era constituído por aventureiros privados que a partir de Malaca enxameavam os mares da China e do Oriente: mercadores, piratas, contrabandistas, mercenários. O seu retrato foi feito, com grande mestria, na “Peregrinação” — o grande relato literário de Fernão Mendes Pinto nos seus 21 anos de viagens nas ‘partes Orientais’” —, acrescenta Pissarra.

Este perfil, que já se notava na Índia, tornou-se mais notório a leste de Malaca. “A rede comercial portuguesa nos mares da Indonésia, da China, e, mais tarde, do Japão, foi estabelecida e consolidada por mercadores portugueses, muito deles até ‘asiatizados’, casados com mulheres locais e com filhos que tinham acesso a duas culturas e duas línguas”, refere, por seu lado, Jorge Semedo de Matos. Os problemas das monções naquela parte do globo traziam uma dificuldade “que fazia com que o mundo português além-Malaca saísse completamente do controlo régio ou do governo na Índia”, diz o historiador. O “formigueiro de navios” que por ali circulavam eram de privados portugueses ou mesmo de alguns capitães de Malaca agindo por conta própria “que descobriram muito depressa que era muito mais rentável, fácil e seguro comprar pimenta em Samatra e Java para ir vender à China, do que trazê-la para a Índia para ser embarcada para Lisboa pela Rota do Cabo”, acrescenta Semedo de Matos.

As duas faces do que ficou conhecido como “comércio de Índia em Índia” tornava-se clara: a parte controlada pela Rota do Cabo e pelas receitas das alfândegas régias em Ormuz, Goa e Malaca, e o “império sombra” paralelo do mundo privado. “Esse dito comércio de Índia em Índia foi o garante da liquidez das contas do Estado da Índia, até à perda de Ormuz, mas não gerava lucros que fossem transferidos para a Europa. No entanto, esse comércio era igualmente o sustentáculo do carregamento das naus da Índia com os mais variados produtos, desde as especiarias, aos diamantes e pedras preciosas, tapetes do Irão, cauris das Maldivas, porcelanas e sedas da China, depois lacas do Japão, ou ainda inúmeras obras de arte, especialmente arte sacra em marfim. A Casa da Índia geria os negócios, mas boa parte dos lucros eram consumidos com a organização de novas armadas”, destaca João Paulo Oliveira e Costa.

Nos cinco meses que Albuquerque ficou por Malaca decidiu estabelecer missões diplomáticas nas redondezas, com o Sião (Tailândia), Pegu (hoje Bago, no sul de Myanmar), Java (Indonésia) e Campar (na Malásia). A partir de Malaca, o “Leão dos Mares” ordenou expedições até às Molucas e a Banda (as Ilhas das Especiarias, da noz-moscada e do cravo-da-índia) na atual Indonésia, e ao rio das Pérolas em Cantão, no sul da China. Albuquerque, na sua partida de Malaca, deixou uma fortaleza que denominou “A Formosa”, e cujas ruínas ainda hoje são visitadas por turistas. Mas o azar bateu-lhe à porta no alto-mar. O navio onde ia, o “Frol de la Mar”, quebrou-se e os tesouros saqueados da cidade foram engolidos pelo naufrágio. No entanto, Albuquerque conseguiu chegar são e salvo a Cochim, na Índia. Parecia ter sete vidas.

Os holandeses conquistam Malaca em 1641, no início da dinastia de Bragança. Depois da queda da cidade, os portugueses mudaram-se de bagagens para Macau, que se tornou “sucessora de Malaca como sede da rede comercial marítima portuguesa” no Extremo Oriente, frisa Semedo de Matos.

O AZAR DAS ESCADAS QUE SE PARTIRAM EM ÁDEN

A última peça do roteiro de Albuquerque seria um desastre. O objetivo era Áden, à entrada do Mar Vermelho, um porto no atual sul do Iémen, que é hoje a capital de facto do Governo iemenita reconhecido internacionalmente, a menos de 200 km do estreito de Bab el-Mandeb. O controlo deste porto não visava só bloquear o estreito mais acima, como abrir o caminho para um megaprojeto manuelino de ocupar Judá, Meca e Medina, construir um canal que atravessasse a Etiópia até ao Mar Vermelho, a fim de desviar o curso do Nilo e secar o Egito, chantagear os mamelucos que mandavam no Cairo e trocar a captura da Caaba em Meca pelos lugares cristãos da Palestina, libertando Jerusalém, nas mãos do império otomano.

Contudo, tudo ruiu em 1513. A lenda posta a circular pelo seu filho Brás, autor de uma coletânea de cartas do governador, é que a culpa foi das escadas curtas e frágeis de assalto que se abateram sob o tropel caótico dos portugueses quando tentaram transpor as muralhas de Áden. Só no final de uma longa carta que escreveu ao rei, já de Cananor, em dezembro de 1513, Albuquerque reconhece que houve um erro operacional: “se tivera visto Áden que o não cometera por onde escalámos”. E passa a expor uma alternativa, a partir do porto “de terra preta” de Hujufu, que recomenda para a próxima operação.

O sucessor de Afonso de Albuquerque como governador da Índia ainda regressou ao Mar Vermelho em 1517, mas não seguiu a sugestão do antecessor, e marchou com a maior armada portuguesa de sempre vista no Índico para outro destino. O objetivo de Lopo Soares de Albergaria era o porto de Jedá, a meio do Mar Vermelho. Mas a maior armada de sempre estava minada por diversos problemas de abastecimento, fruto da ganância dos capitães e intermediários a bordo, que preferiram ocupar espaço para carregar especiarias para vender pelo caminho, mas não conseguiram. Jedá era guardado por uma armada comandada pelo almirante turco Salman Reis, incumbido pelo sultão otomano Selim I de controlar o Mar Vermelho. Uma surpresa esperava Lopo: descobriu que o canal para entrada no porto era muito estreito e pouco profundo e deu ordens de retirada. No caminho de regresso a Cochim, na Índia, ainda tentou realizar um acordo com o emir de Áden, que lhe disse não. O historiador da época João de Barros em “Décadas da Ásia” faz o epitáfio desta operação: “Foi a mais triste e miserável tragédia, pois nem antes nem depois se viu algo assim, uma enorme armada se desfazer sem combater, sob o efeito de tantas grandes desgraças.”

Contudo, o problema estrutural era outro. Como disse o historiador Jean Aubin, as operações de Áden e depois de Jedá tocaram “os limites dos meios de Portugal na Índia”. O império otomano começara a olhar para o que chamamos hoje Médio Oriente e para o Índico. “O centro do mundo muçulmano fora sempre a Ásia. E o oceano Índico fora sempre o seu mar. Por isso, quando os turcos otomanos se expandiram para o sul, era natural que fossem eles a tentar controlar essas rotas”, sublinha Alessandro Vanoli em “A Invenção do Ocidente”. Os otomanos acabariam por capturar o Egito e a Arábia e dominar o Mar Vermelho garantindo uma alternativa à Rota do Cabo. Mas o processo foi demorado. Só ocuparam Áden em 1538 e grande parte do Iémen em 1547. As tentativas de conquista aos portugueses de Diu em 1536 e de Ormuz em 1544 falhariam. A projeção otomana ficou limitada. Fazendo o balanço, Luís Filipe Thomaz, em “De Ceuta a Timor”, considerou que “puderam as rotas do Cabo e do Mar Roxo coexistir em paralelo durante todo o século XVI, sem que qualquer uma delas conseguisse decisivamente preponderar sobre a rival”.

April 11, 2026

Como reestruturei o meu cérebro para me tornar fluente em matemática

 


Como reestruturei o meu cérebro para me tornar fluente em matemática


Desculpem, reformadores da educação, mas continuamos a precisar de memorização e repetição.

Por Barbara Oakley

Eu era uma miúda rebelde que cresceu no lado literário da vida, tratando a matemática e as ciências como se fossem pústulas da peste. Por isso, é um pouco estranho como acabei por chegar onde estou agora — alguém que lida diariamente com integrais triplas, transformadas de Fourier e aquela jóia da coroa da matemática, a equação de Euler. É difícil acreditar que passei de uma fóbica da matemática praticamente desde o nascimento a uma professora de engenharia.

Um dia, um dos meus alunos perguntou-me como é que eu tinha conseguido — como é que tinha mudado o meu cérebro. Apetecia-me responder: «Caramba — com muita dificuldade!» Afinal, tinha-me falhado nas disciplinas de matemática e ciências durante toda a minha passagem pela escola. Na verdade, só comecei a estudar matemática de recuperação depois de deixar o Exército, aos 26 anos. Se houvesse um exemplo clássico do potencial da plasticidade neural em adultos, eu seria a prova viva disso.

Aprender matemática e depois ciências na idade adulta abriu-me as portas para o mundo da engenharia. Mas estas mudanças no meu cérebro, conquistadas com esforço na idade adulta, também me deram uma perspectiva privilegiada sobre a neuroplasticidade que está na base da aprendizagem adulta. Felizmente, a minha formação de doutoramento em engenharia de sistemas — que une o panorama geral das diferentes disciplinas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática) — e, posteriormente, a minha investigação e escrita centradas na forma como os seres humanos pensam, ajudaram-me a compreender os recentes avanços na neurociência e na psicologia cognitiva relacionados com a aprendizagem.

Nos anos que se seguiram ao meu doutoramento, milhares de alunos passaram pelas minhas salas de aula — alunos que foram educados no ensino básico e secundário a acreditar que compreender a matemática através da discussão activa é a chave da aprendizagem. Se conseguires explicar aos outros o que aprendeste, talvez desenhando-lhes um esquema, pensa-se, então deves compreendê-lo.

O Japão passou a ser visto como um exemplo muito admirado e imitado desses métodos de ensino activos e «centrados na compreensão». Mas o que muitas vezes falta na discussão é o resto da história: o Japão é também o berço do método Kumon de ensino de matemática, que enfatiza a memorização, a repetição e a aprendizagem mecânica, a par do desenvolvimento do domínio da matéria por parte da criança. 

Este intenso programa pós-escolar, e outros semelhantes, é adoptado por milhões de pais no Japão e em todo o mundo que complementam a educação participativa dos seus filhos com muita prática, repetição e, sim, aprendizagem mecânica inteligentemente concebida, para lhes permitir adquirir uma fluência conquistada com esforço na matéria.

Os professores podem, inadvertidamente, preparar os seus alunos para o fracasso, à medida que estes se deixam levar por falsas ilusões de competência.

Nos Estados Unidos, a ênfase na compreensão parece, por vezes, ter substituído — em vez de complementar — métodos de ensino mais antigos que os cientistas nos dizem — e sempre nos disseram — que funcionam em sintonia com o processo natural do cérebro para aprender disciplinas complexas como a matemática e as ciências.

A mais recente onda de reformas educativas na matemática envolve o Common Core — uma tentativa de estabelecer padrões sólidos e uniformes em todos os EUA, embora os críticos estejam a argumentar que os padrões ficam aquém quando comparados com países de alto desempenho. Pelo menos superficialmente, os padrões parecem apresentar uma perspectiva sensata. Propõem que, em matemática, os alunos adquiram igual facilidade na compreensão conceptual, nas competências processuais e na fluência, bem como na aplicação.

O problema, claro, está nos pormenores da implementação. No atual panorama educativo, a memorização e a repetição nas disciplinas STEM (ao contrário do que acontece no estudo das línguas ou da música) são frequentemente vistas como algo degradante e uma perda de tempo, tanto para os alunos como para os professores. 

Há muito que se ensina a muitos professores que a compreensão conceptual nas disciplinas STEM se sobrepõe a tudo o resto. E, de facto, é mais fácil para os professores induzir os alunos a discutir um tema matemático (o que, se feito correctamente, pode contribuir muito para promover a compreensão) do que para esse professor corrigir tediosamente os trabalhos de casa de matemática. 

O que tudo isto significa é que, apesar de se supor que as competências processuais e a fluência, juntamente com a aplicação, devam receber igual ênfase que a compreensão conceptual, muitas vezes isso não acontece. Transmitir uma compreensão conceptual reina suprema — especialmente durante o precioso tempo de aula.

O problema de nos concentrarmos incessantemente na compreensão é que os alunos de matemática e ciências conseguem, muitas vezes, apreender os fundamentos de uma ideia importante, mas essa compreensão pode desaparecer rapidamente sem uma consolidação através da prática e da repetição. 

Pior ainda, os alunos acreditam frequentemente que compreendem algo quando, na verdade, não compreendem. Ao defenderem a importância da compreensão, os professores podem, inadvertidamente, preparar os seus alunos para o fracasso, uma vez que esses alunos se deixam levar por uma falsa sensação de competência. 

Como um aluno (reprovado) de engenharia me disse recentemente: «Não consigo perceber como é que me saí tão mal. Eu tinha percebido quando o senhor ensinou na aula.» O meu aluno pode ter pensado que tinha percebido naquele momento, e talvez tenha percebido, mas nunca praticou a utilização do conceito para o interiorizar verdadeiramente. Não tinha desenvolvido qualquer tipo de fluência processual nem capacidade para aplicar o que pensava ter percebido.

Existe uma ligação interessante entre aprender matemática e ciências e aprender um desporto. Quando aprendes a dar uma tacada com um taco de golfe, aperfeiçoas essa tacada através de muitas repetições ao longo de vários anos. O teu corpo sabe o que fazer a partir de um único pensamento — um bloco de memória — em vez de ter de recordar todos os passos complexos envolvidos em bater numa bola.

Da mesma forma, assim que compreendes por que fazes algo em matemática e ciências, não precisas de continuar a explicar o «como» a ti mesmo cada vez que o fazes. Não é necessário andar com 25 bolinhas no bolso e dispor 5 filas de 5 bolinhas repetidamente para perceberes que 5 x 5 = 25. A certa altura, simplesmente sabes isso de cor. Memorizas a ideia de que basta somar os expoentes — aqueles pequenos números sobrescritos — ao multiplicar números que têm a mesma base (10⁴ x 10⁵ = 10⁹). Se usares muito esse procedimento, resolvendo muitos tipos diferentes de problemas, vais perceber que compreendes muito bem tanto o porquê como o como por trás do procedimento. A maior compreensão resulta do facto de a tua mente ter construído os padrões de significado. Focar-se continuamente na compreensão em si, na verdade, atrapalha.

Aprendi estas coisas sobre matemática e o processo de aprendizagem não nas salas de aula do ensino básico e secundário, mas ao longo da minha vida, enquanto uma criança que cresceu a ler Madeleine L’Engle e Dostoiévski, que mais tarde estudou línguas num dos principais institutos de línguas do mundo e, posteriormente, deu uma reviravolta radical para me tornar professora de engenharia.

Como uma jovem com um desejo de aprender línguas e sem dinheiro nem competências dignas de nota, não tinha meios para ir para a faculdade (os empréstimos para estudos superiores ainda não existiam na altura). Por isso, passei directamente do ensino secundário para o Exército. Adorava aprender novas línguas no ensino secundário, e o Exército parecia ser um lugar onde as pessoas podiam realmente ser pagas para estudar línguas, mesmo enquanto frequentavam o conceituado Instituto de Línguas da Defesa — um lugar que tinha transformado a aprendizagem de línguas numa ciência. 
(...)
Comecei a perceber que, embora fosse bom saber outra língua, era também uma competência com oportunidades e potencial limitados. (...) Não pude deixar de pensar nos engenheiros formados em West Point com quem tinha trabalhado no Exército. A sua abordagem à resolução de problemas, baseada na matemática e na ciência, era claramente útil para o mundo real — muito mais útil do que as minhas desventuras juvenis com a matemática alguma vez me tinham permitido imaginar.

Assim, aos 26 anos, quando estava a deixar o Exército e à procura de novas oportunidades, ocorreu-me: se realmente queria experimentar algo novo, por que não dedicar-me a algo que pudesse abrir-me um mundo inteiro de novas perspectivas? Algo como a engenharia? Isso significava que teria de tentar aprender outra linguagem muito diferente — a linguagem do cálculo.
(...)
Com a minha fraca compreensão até da matemática mais simples, os meus esforços de reciclagem profissional após o Exército começaram com aulas de recuperação de álgebra e trigonometria sem créditos. Isto estava muito abaixo do nível básico de matemática para a maioria dos estudantes universitários. Tentar reprogramar o meu cérebro às vezes parecia uma ideia ridícula — especialmente quando olhava para os rostos jovens e frescos dos meus colegas mais novos e percebia que muitos deles já tinham desistido das suas difíceis aulas de matemática e ciências — e lá estava eu a dirigir-me directamente para elas. Mas, no meu caso, com base na minha experiência de me tornar fluente em russo já adulta, suspeitava — ou talvez apenas esperasse — que pudesse haver aspectos da aprendizagem de línguas que eu pudesse aplicar à aprendizagem de matemática e ciências.

O que eu fiz ao aprender russo foi dar ênfase não apenas à compreensão da língua, mas à fluência. A fluência em algo tão abrangente como uma língua requer um tipo de familiaridade que só se consegue desenvolver através de uma interacção repetida e variada com os seus elementos. 

Enquanto os meus colegas de turma muitas vezes se contentavam em concentrar-se simplesmente em compreender o russo que ouviam ou liam, eu, pelo contrário, tentei adquirir uma fluência interiorizada e profundamente enraizada nas palavras e na estrutura da língua. Não me contentava apenas em saber que понимать significava «compreender». Praticava com o verbo — testando-o exaustivamente, conjugando-o repetidamente em todos os tempos verbais, passando depois a utilizá-lo em frases e, finalmente, compreendendo não só quando usar essa forma do verbo, mas também quando não a usar. 

Praticava recordar todos estes aspectos e variações rapidamente. Afinal, através da prática, é possível compreender e traduzir dezenas — ou mesmo milhares — de palavras noutro idioma. Mas se não se for fluente, quando alguém nos atira um monte de palavras rapidamente, como acontece na conversação normal (que soa sempre terrivelmente rápida quando se está a aprender uma nova língua), não fazemos ideia do que estão realmente a dizer, mesmo que, tecnicamente, compreendamos todas as palavras e a estrutura. E certamente não consegues falar com rapidez suficiente para que os falantes nativos achem agradável ouvir-te.

Esta abordagem — que se centrava na fluência em vez da simples compreensão — colocou-me no topo da turma. E, embora na altura não me tivesse apercebido, esta forma de aprender línguas proporcionou-me uma compreensão intuitiva de um princípio fundamental da aprendizagem e do desenvolvimento da especialização: a fragmentação.

O chunking foi originalmente concebido no trabalho pioneiro de Herbert Simon na sua análise do xadrez — os chunks eram vistos como as correspondências neurais variáveis de diferentes padrões de xadrez. Gradualmente, os neurocientistas perceberam que especialistas como os grandes mestres de xadrez são especialistas porque armazenaram milhares de chunks de conhecimento sobre a sua área de especialização na sua memória de longo prazo. Os mestres de xadrez, por exemplo, conseguem recordar dezenas de milhares de padrões de xadrez diferentes. 

Seja qual for a disciplina, os especialistas podem evocar à consciência uma ou várias dessas sub-rotinas neurais bem interligadas e fragmentadas para analisar e reagir a uma nova situação de aprendizagem. Este nível de compreensão verdadeira, e a capacidade de usar essa compreensão em novas situações, só advém do tipo de rigor e familiaridade que a repetição, a memorização e a prática podem fomentar.

Como demonstraram estudos realizados com mestres de xadrez, médicos de urgências e pilotos de caça, em momentos de stress extremo, a análise consciente de uma situação é substituída por um processamento rápido e subconsciente, à medida que estes especialistas recorrem rapidamente ao seu repertório profundamente enraizado de sub-rotinas neurais — os «chunks». 

A certa altura, «compreender» conscientemente porque fazemos o que fazemos apenas nos atrasa e interrompe o fluxo, resultando em decisões piores. Quando senti intuitivamente que poderia haver uma ligação entre aprender uma nova língua e aprender matemática, estava certo. Dia após dia, a prática sustentada do russo activou e interligou os meus circuitos neurais, e comecei gradualmente a entrelaçar fragmentos de conhecimento eslavo que conseguia evocar na memória de trabalho com facilidade. Ao intercalar a minha aprendizagem — por outras palavras, praticando de forma a saber não só quando usar aquela palavra, mas também quando não a usar, ou usar uma variante diferente dela —, estava, na verdade, a utilizar as mesmas abordagens que os profissionais especializados usam para aprender matemática e ciências.

Ao aprender matemática e engenharia já na idade adulta, comecei por utilizar a mesma estratégia que tinha usado para aprender línguas. Olhava para uma equação — para dar um exemplo muito simples, a segunda lei de Newton: f = ma. Pratiquei sentir o que cada uma das letras significava: f, de força, era um empurrão; m, de massa, era uma espécie de resistência pesada ao meu empurrão; e a era a sensação estimulante da aceleração. 

Memorizei a equação para poder levá-la comigo na minha cabeça e brincar com ela. Se m e a fossem números grandes, o que isso fazia com f quando eu a inseria na equação? Se f fosse grande e a fosse pequena, o que isso fazia com m? Como as unidades se combinavam em cada lado? Brincar com a equação era como conjugar um verbo. Eu estava a começar a intuir que os contornos esparsos da equação eram como um poema metafórico, com todo o tipo de belas representações simbólicas incorporadas nela. Embora não o tivesse colocado dessa forma na altura, a verdade é que, para aprender bem matemática e ciências, tive de construir lentamente, dia após dia, sub-rotinas neurais «fragmentadas» sólidas — como a que envolvia a equação simples f = ma — que pudesse facilmente evocar da memória de longo prazo, tal como tinha feito com o russo.

Repetidamente, professores de matemática e ciências têm-me dito que a construção de blocos de conhecimento bem consolidados, através da prática e da repetição, foi absolutamente essencial para o seu sucesso. A compreensão não gera fluência; pelo contrário, é a fluência que gera compreensão. Na verdade, acredito que a verdadeira compreensão de um assunto complexo só advém da fluência.

Por outras palavras, no ensino das ciências e da matemática em particular, é fácil cair em métodos de ensino que enfatizam a compreensão e que evitam a repetição e a prática, por vezes dolorosas, que estão na base da fluência. Aprendi russo não apenas por compreendê-lo — afinal, a compreensão é superficial e pode facilmente desaparecer. (O que significava aquela palavra понимать?) Aprendi russo ao adquirir fluência através da prática, da repetição e da aprendizagem mecânica — mas uma aprendizagem mecânica que enfatizava a capacidade de pensar de forma flexível e rápida. Aprendi matemática e ciências aplicando precisamente essas mesmas ideias. A língua, a matemática e as ciências, tal como quase todas as áreas de especialização humana, recorrem ao mesmo reservatório de mecanismos cerebrais.

À medida que me aventurava numa nova vida, tornando-me engenheiro elétrico e, mais tarde, professor de engenharia, deixei a língua russa para trás. Mas 25 anos depois a minha família e eu decidimos fazer a viagem de comboio pela Rota Transiberiana, atravessando a Rússia. Embora estivesse entusiasmado por fazer a viagem com que há tanto tempo sonhava, também estava preocupado. Mal tinha proferido uma palavra em russo durante todo aquele tempo. E se tivesse esquecido tudo? O que é que aqueles anos a ganhar fluência me tinham realmente trazido?

Efectivamente, quando entrámos no comboio, falava russo como uma criança de 2 anos. Eu procurava as palavras, as minhas declinações e conjugações estavam todas erradas e o meu sotaque, antes quase perfeito, soava horrível. Mas a base estava lá e, dia após dia, o meu russo melhorou. E mesmo com o meu russo rudimentar, conseguia lidar com as necessidades do dia-a-dia da nossa viagem. Em breve, os guias turísticos começaram a vir ter comigo para me pedir ajuda a traduzir para os outros passageiros. Quando finalmente chegámos a Moscovo, apanhámos um táxi. Descobri rapidamente que o motorista estava decidido a enganar-nos — dirigindo-se directamente na direcção errada e prendendo-nos num engarrafamento, onde esperava que nós, estrangeiros ignorantes, aceitássemos passivamente uma hora extra desnecessária no taxímetro. De repente, palavras em russo que eu não falava há décadas saíram da minha boca. Eu nem sequer sabia conscientemente que conhecia essas palavras.

No fundo, quando era preciso, a fluência estava lá — e rapidamente nos tirou do apuro (e nos colocou noutro táxi). A fluência permite que a compreensão se torne parte integrante, surgindo quando necessário.

Ao olhar hoje para a escassez de licenciados em ciências e matemática neste país, e para a nossa tendência atual na forma como ensinamos as pessoas a aprender, e ao refletir sobre o meu próprio percurso, sabendo o que sei agora sobre o cérebro, ocorre-me que podemos fazer melhor. 

Como pais e professores, podemos usar métodos simples e acessíveis para aprofundar a compreensão e torná-la útil e flexível. Podemos encorajar os outros e a nós próprios a experimentar novas disciplinas que pensávamos serem demasiado difíceis — matemática, dança, física, línguas, química, música — abrindo novos mundos para nós próprios e para os outros.

Como descobri, ter uma fluência básica e profundamente enraizada em matemática e ciências — e não apenas uma «compreensão» — é fundamental. Abre portas para muitos dos empregos mais intrigantes da vida. Olhando para trás, percebo que não precisava de seguir cegamente as minhas inclinações e paixões iniciais. A parte de mim que adorava literatura e línguas era também a mesma parte que, no fim de contas, se apaixonou pela matemática e pelas ciências — e transformou e enriqueceu a minha vida.


March 22, 2025

Leituras de fim-de-semana - Como estragar uma agência pioneira e de reputação única internacional



Por dentro da aquisição da NASA por Trump e Musk



David W. Brown

A Administração Trump e o Departamento de Eficiência Governamental de Elon Musk estão a despedir indiscriminadamente trabalhadores federais e a cancelar contratos e eu queria saber qual o efeito que a presença do DOGE iria precipitar na sede da NASA.

À medida que fui juntando as peças desta história ouvi um nome mais do que qualquer outro: Darren Bossie. O novo contacto da Casa Branca com a NASA, Bossie parece ser a personificação de Trump nos corredores da sede da agência. 

Nunca tinha ouvido falar dele mas sabia que, quem ele era, seria revelador da agenda de Trump. Encontrei o perfil de Bossie no LinkedIn. Para meu espanto, ele tinha passado a maior parte da sua vida profissional como assistente de direção de uma loja Total Wine & More. (A comunidade da NASA também ficou surpreendida. “Não é possível inventar isto”, escreveu alguém no subreddit do Laboratório de Propulsão a Jato). 

Telefonei repetidamente para todas as lojas Total Wine & More da zona, na esperança de falar com alguém que se lembrasse dele. Falei com muitas pessoas, mas só encontrei uma que se lembrava.

Os pormenores sobre Darren Bossie eram difíceis de apurar. Havia um David N. Bossie, o presidente da Citizens United - sim, essa Citizens United, cujo processo judicial de 2010 veio alterar a democracia americana ao permitir às empresas gastos políticos ilimitados - e um fervoroso apoiante de Trump. 

Não consegui encontrar nenhum anúncio de casamento ou obituário que ligasse os dois homens, mas o meu editor, Daniel A. Gross, encontrou os nomes dos pais de David na dedicatória de um livro de que ele era co-autor. A nossa pesquisa de registos públicos acabou por colocá-los a todos - David, Darren, mãe e pai - na mesma morada nos anos oitenta. A ligação familiar esclareceu a súbita ascensão de Darren Bossie.

Nos meus quinze anos de cobertura da NASA, nunca vi os seus trabalhadores tão preocupados - não apenas com projectos individuais, mas com os valores fundamentais da agência. A Administração quer que os colegas de trabalho se denunciem uns aos outros. 

Os funcionários estão a retirar as bandeiras do orgulho por medo de serem visados e a usar o Signal na correspondência diária. É também notável o facto de a Casa Branca parecer ter antecipado a NASA quando pedimos um comentário, respondendo em nome da agência - uma novidade em todas as minhas reportagens. 

Os foguetões reutilizáveis de Musk revolucionaram a forma como a NASA opera, mas a sua política MAGA ameaça agora o apoio bipartidário da agência. A exploração espacial é um empreendimento humano, e acólitos como Bossie parecem estar a ajudar Trump a refazer a NASA à sua imagem. O que é que isto significa para a última fronteira?

Em 20 de janeiro, no seu discurso inaugural, Donald Trump falou com entusiasmo sobre a exploração espacial. “Vamos prosseguir o nosso destino manifesto até às estrelas, lançando astronautas americanos para plantar as Estrelas e as Riscas no planeta Marte”, disse. Mais tarde nesse dia, Elon Musk, proprietário da empresa aeroespacial SpaceX e um defensor de longa data da colonização de Marte, discursou numa celebração pós-Inauguração. O Presidente tinha-o nomeado líder do Departamento de Eficiência Governamental (doge), que estava prestes a começar a reduzir a burocracia federal. “É graças a vós que o futuro da civilização está assegurado”, disse Musk aos apoiantes de Trump. “Vamos levar o doge a Marte”.

A sede da NASA, em Washington, D.C., celebrou o Dia da Inauguração como feriado, mas muitos dos seus funcionários trabalharam na mesma. A agência tinha astronautas em órbita, foguetões para lançar e dados astronómicos para decifrar. No entanto, grandes mudanças estavam a chegar. Bill Nelson, o administrador da NASA durante a Administração Biden, abandonou o seu cargo. A NASA indicou brevemente que Jim Free, o seu funcionário público mais graduado, assumiria o cargo de diretor interino enquanto o nomeado de Trump, o bilionário e astronauta privado Jared Isaacman, aguardava a confirmação do Senado. 

No entanto, às 21h41, foi enviado um e-mail aos funcionários da NASA com o assunto “Uma mensagem da administradora interina, Janet Petro”. Jim Free tinha sido preterido, embora não fosse claro porquê. Petro, licenciada em West Point, tinha anteriormente supervisionado o Centro Espacial Kennedy, na Florida. Apresentou-se dizendo: “Fazemos coisas difíceis todos os dias, e isto não será diferente”.

As coisas difíceis começaram no dia 22 de janeiro. Num segundo e-mail, Petro anunciou que a NASA estaria a cumprir uma ordem executiva, encerrando todos os contratos e gabinetes relacionados com a Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade (D.E.I.A.). 
“Esses programas dividiram os americanos por raça, desperdiçaram o dinheiro dos contribuintes e resultaram em discriminação vergonhosa”, 
Muitas agências federais tinham enviado cartas semelhantes, mas ela assinou o seu nome. (A Fox News relatou mais tarde que tais programas custaram treze milhões de dólares entre 2021 e 2024 - o que, se for verdade, seria da ordem de um décimo milésimo dos gastos da NASA). 

Durante a primeira Administração Trump, o plano estratégico da NASA tinha dado prioridade ao recrutamento direcionado de uma força de trabalho diversificada; os gestores dentro da agência tinham sido incumbidos de promover oportunidades de igualdade de emprego e implementar políticas de D.E.I.. Mas a segunda Administração Trump iria punir as pessoas que tinham cumprido estas ordens.

Na sede da NASA, uma funcionária de longa data leu a mensagem de Petro na sua secretária, estupefacta. Foi diretamente para o gabinete de uma amiga. “Mas que raio?”, disse a funcionária.

O amigo fez-lhe sinal para que entrasse e fechou a porta. Acharam um pormenor no e-mail de Janet Petro particularmente arrepiante: os funcionários da NASA deviam denunciar os colegas que estivessem a editar [a retirar] os descritores da D.E.I.A. dos títulos ou contratos dos trabalhadores. Se não o fizessem no prazo de dez dias, teriam “consequências adversas”. 
“Onde é que estamos a trabalhar para que seja isto que estamos a fazer?”. Perguntaram-se em voz alta se Janet Petro merecia alguma simpatia; a carta da D.E.I.A. não teria sido enviada independentemente de quem estivesse no cargo? Depois começaram a discutir algumas amostras do espaço exterior. Afinal de contas, isto era a NASA e o trabalho continuou.

A sede da NASA, um edifício de escritórios de pedra sem graça que é atualmente propriedade de uma empresa de investimento coreana, está situada a alguns quarteirões a sudeste do National Mall. Darren Bossie, o novo contacto da Casa Branca com a NASA, chegou pouco depois da tomada de posse de Trump. Bossie era mais ou menos desconhecido na agência, mas os funcionários rapidamente encontraram o seu perfil no LinkedIn.

Tinha passado quatro dos últimos sete anos a saltitar entre a política conservadora, com uma passagem como ligação da Casa Branca de Trump ao Departamento de Assuntos dos Veteranos, e tinha trabalhado como consultor sénior para empresas não identificadas. No entanto, durante a maior parte da sua vida profissional - de 2006 a 2018 - foi assistente de direcção numa loja Total Wine & More em Palm Beach County, na Florida.

“(Um total de sete funcionários actuais e cessantes da NASA falaram comigo sob condição de anonimato, alegando receio de retaliação).

Na esperança de compreender a ascensão de Bossie à cena nacional, telefonei para todas as lojas da Total Wine & More no condado de Palm Beach e falei com meia dúzia de empregados. Um deles trabalhou por pouco tempo com Bossie, mas só me disse que ele era conhecedor de vinhos, bom  a lidar com as pessoas e eficiente. Os outros não reconheceram o seu nome.

No entanto, uma análise dos registos públicos sugere que Darren é irmão de David N. Bossie, o presidente da Citizens United - o grupo conservador cujo litígio perante o Supremo Tribunal permitiu que os mega-doadores e as empresas fizessem contribuições ilimitadas para os candidatos políticos. 

Durante a primeira corrida presidencial de Trump, David foi o diretor-adjunto da campanha; em 2017 e 2018, ficou conhecido pelos esforços de angariação de fundos para apoiar os candidatos conservadores. Durante esse período, o seu irmão foi contratado para o que parece ter sido o seu primeiro emprego federal - diretor-adjunto do Gabinete de Conselhos e Juntas Secretariais do Departamento de Energia. (Em 2019, Trump distanciou-se de David Bossie depois que ele foi acusado de lucrar com a imagem do presidente; na época, David disse que estava sendo “injustamente visado por táticas de difamação da esquerda”.) Em resposta a perguntas, um funcionário da Casa Branca disse que Darren Bossie tem “vasta experiência” e “está desempenhando um papel fundamental para garantir que a NASA realinhe as suas prioridades para cumprir a visão [de Trump]”.

Pouco depois de o Presidente Trump ter iniciado o seu segundo mandato, deu instruções a todos os funcionários federais para regressarem ao escritório e trabalharem presencialmente. A sua Administração também deu às agências quatro dias para partilharem com o Gabinete de Gestão de Pessoal listas de vários funcionários “à experiência” - normalmente aqueles com menos de um ou dois anos de serviço. 

O memorando referia que os funcionários em regime probatório podiam ser despedidos sem desencadear um processo de recurso; não era preciso ser um cientista para perceber o que Trump queria. “Um mais um é igual a despedi-los”, disse um gestor da NASA.

A 28 de janeiro, o O.P.M. enviou um e-mail com o assunto A Fork in the Road a mais de dois milhões de funcionários federais. Continha uma carta pré-escrita de “demissão diferida”. Ao responderem com a palavra “demitir-se”, os trabalhadores poderiam aceitar imediatamente uma licença administrativa mas, segundo a mensagem, manteriam todos os salários, benefícios e pensões até 30 de setembro. (Uma mensagem eletrónica com o mesmo assunto tinha sido enviada aos empregados do Twitter depois de Musk ter assumido o controlo da empresa). Tratava-se de uma oferta única. Os funcionários tinham pouco mais de uma semana para decidir.

Quando o segundo mandato de Trump começou, cerca de um terço dos funcionários da sede da NASA trabalhava normalmente no escritório. Como a agência engloba mais de cento e cinquenta missões activas em vinte grandes centros e instalações, muitos funcionários passam os dias em videochamadas. No entanto, ao longo de várias semanas, os trabalhadores começaram a aparecer. Bossie andava pelos corredores e aparecia nas reuniões. “Se sair do seu gabinete, ponha um post-it na porta”, aconselharam o diretor e outros. “Ponha vários. Pareça ocupado.”

Os funcionários disseram-me que as conversas de corredor tinham mudado para pior. O funcionário de longa data ouviu dizer que as pessoas estavam mesmo a enviar um e-mail para o endereço da mensagem de 22 de janeiro e a denunciarem-se umas às outras. Os funcionários da NASA tinham por hábito escrever tudo o que era importante, mas alguns superiores estavam agora a tentar não documentar nada que pudesse convidar ao escrutínio, e alguns funcionários estavam a seguir o exemplo. As conversas de grupo proliferaram no Signal, a aplicação de mensagens encriptadas. Alguns tinham centenas de membros.

Duas das minhas fontes disseram que, no início de Fevereiro, um homem desconhecido andou pela Science Mission Directorate, a divisão da NASA que supervisiona os telescópios espaciais, os rovers de Marte e outras missões robóticas. Aparentemente, estava a tirar fotografias de bandeiras de Pride nos espaços de trabalho dos funcionários. Um deles ouviu dizer que era Bossie. De acordo com o gerente, um supervisor aconselhou: “Limpem a área para que ninguém seja despedido.” Solicitado a comentar o assunto, um funcionário da Casa Branca disse que Bossie estava a documentar gabinetes vazios. “Embora tenha reparado nas bandeiras - incluindo as bandeiras Biden-Harris, da Ucrânia e do orgulho - nunca recomendou a sua remoção”, disse o funcionário.

A 7 de fevereiro, os funcionários da NASA voltaram a receber A Message from Acting Administrator Janet Petro. “Sei que as recentes ordens executivas e as orientações subsequentes estão a pesar sobre muitos de vós”, escreveu. Ela destacou a força e a dedicação dos funcionários da NASA e depois foi directa ao assunto. A oferta de demissão adiada - a que alguns cientistas da NASA chamavam “o derp” - tinha sido alargada. Os empregados já não podiam referir os seus pronomes nos endereços de correio eletrónico e nas linhas de assinatura. “Inspirando-se no espírito do 'Departamento de Eficiência Governamental (DOGE)'”, escreveu Petro, ‘a NASA deve aproveitar esta oportunidade para maximizar a eficiência’ e ‘encontrar novas formas de trabalhar de forma mais inteligente’.

Seguiu-se uma ordem executiva que delineava uma “Iniciativa de Otimização da Força de Trabalho” liderada pela DOGE. Instruía as agências federais a prepararem “reduções de força em grande escala”. Deveriam dar prioridade ao despedimento de qualquer pessoa cujo emprego não fosse legalmente obrigatório, incluindo os que trabalhavam na D.E.I.A. e os que não fossem designados como “essenciais” durante as paragens do governo.

Na terça-feira, 21 de fevereiro, cerca de novecentos dos dezoito mil funcionários da NASA - cinco por cento da força de trabalho da agência - tinham aceite a demissão diferida. “A NASA perdeu algumas pessoas que são verdadeiros especialistas na sua área, reconhecidos mundialmente”, disse-me um dirigente da agência. “Assustaram as pessoas para que se demitissem e a questão não é só a NASA ir ficar mais lenta sem elas. Vamos perder especialidades na sua totalidade. Não compreendem as implicações a longo prazo num campo tão difícil como este, até ser demasiado tarde”.

Nos últimos anos, a NASA e Elon Musk tornaram-se cada vez mais inter-dependentes. Actualmente, a agência está quase totalmente dependente dos seus foguetões para lançar astronautas para a Estação Espacial Internacional e sondas para o sistema solar exterior. 

A SpaceX é um dos maiores empreiteiros da NASA - está a construir as naves lunares tripuladas da agência e seria inevitavelmente fundamental para um programa americano de colonização de Marte. Os esforços de investigação e desenvolvimento da empresa dependem frequentemente de investidores externos, e Jared Isaacman, o presumível futuro administrador da NASA, terá pago centenas de milhões de dólares por várias viagens ao espaço nos foguetões de Musk. No final de janeiro, Petro anunciou que Michael Altenhofen, que, segundo ela, passou quinze anos na SpaceX, era agora um conselheiro sénior do administrador da NASA.

A NASA tem políticas robustas de conflito de interesses baseadas no código legal dos EUA, mas qualquer influência que Musk exerça sobre o seu maior cliente porá em causa a independência da NASA. 

Não é claro se o seu entusiasmo pela exploração espacial e a sua influência junto de Trump poderão ajudar a proteger a agência de cortes radicais - ou encorajar Musk a refazê-la à sua imagem. Neste momento, a NASA não parece ter dinheiro para prosseguir o programa lunar existente e o programa de Marte que Musk prevê, o que sugere que um ajuste de contas pode estar a chegar.

O DOGE ganhou notoriedade por empregar engenheiros inexperientes e em idade universitária, mas o seu primeiro emissário para a NASA foi um quarentão fundador de um fundo de gestão de investimentos, Scott M. Coulter. Coulter chegou na quarta-feira, 12 de fevereiro; parecia interagir apenas com o pessoal de alto nível da NASA que trabalhava no nono andar, e parecia mais preocupado com os contratos federais. Na semana seguinte, já tinha passado para a Administração da Segurança Social.

O Gabinete de Gestão de Pessoal deu às agências federais o prazo de segunda-feira, 17 de fevereiro - o Dia do Presidente - para despedirem todos os empregados à experiência que não fossem considerados de missão crítica. (Mas os diretores também receberam instruções para classificar esses trabalhadores e, mais tarde, para incluir uma justificação para quem devesse ser mantido. “Eles não sabiam que tínhamos de os classificar, porque isso é horrível”, disse-me o diretor. Muitos trabalhadores estagiários da Science Mission Directorate, na expectativa de não voltarem na semana seguinte, passaram o Dia de S. Valentim e o fim de semana a organizar o seu trabalho e a enviá-lo aos outros, sem serem solicitados. “Isso fez-me sentir como um saco de merda ainda maior”, disse o gerente.

A direção da NASA estava a ponderar a hipótese de cortar cerca de mil e trezentos funcionários em regime de estágio, de acordo com os relatórios. Numa agência envelhecida onde os empregados cultivam conjuntos de competências hiper-específicas, todas as perdas, desde o executivo sénior ao estagiário, são sentidas. “O voo espacial é uma arte”, disse-me o líder da NASA. Os procedimentos escritos só vão até certo ponto. “O facto de o pino 38 de um conector ter de ser instalado num ângulo que não permita riscar o pino 40 - isso nunca consta de um procedimento. Esse é o tipo de conhecimento que nem sequer sabemos que temos até precisarmos dele, e só o podemos aprender observando os outros.”

Durante uma série de reuniões tensas na primeira quinzena de Fevereiro, um pequeno número de líderes seniores da NASA tentou persuadir a Administradora Interina Janet Petro a reagir energicamente contra a ordem de despedir funcionários em regime de estágio. Duas das minhas fontes disseram-me que, a certa altura, Nicola (Nicky) Fox, a líder da Direção da Missão Científica da NASA e outros argumentaram que as missões iriam falhar - não num futuro de anos, mas potencialmente já num futuro de semanas. (Alguns trabalhadores cujos empregos estavam em risco encontravam-se na Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, e no Centro Espacial Kennedy, na Florida, onde as naves espaciais estavam a ser preparadas para serem lançadas dentro de semanas. Seriam capazes de dedicar toda a sua atenção a tarefas de vida ou de morte, ou estariam a preocupar-se com o pagamento de hipotecas e propinas?

De acordo com as minhas fontes, Petro ouviu os argumentos. Muito bem, disse ela: Vamos dizer que não temos trabalhadores dispensáveis. Foi uma decisão ousada: a Administração Trump não teria quaisquer escrúpulos em despedir uma nomeada interina como Petro. (Na terça-feira, 18 de fevereiro, a National Science Foundation tinha realizado uma reunião de emergência no Zoom, durante a qual despediu cento e setenta pessoas - dez por cento da sua força de trabalho). O Gabinete de Gestão de Pessoal deve ter aceite a sua recomendação.

O O.P.M. recusou-se a comentar e remeteu o The New Yorker para a NASA; esta, por sua vez, não respondeu a perguntas escritas nem devolveu as chamadas telefónicas. Em vez disso, o funcionário da Casa Branca respondeu. “Os funcionários estagiários da NASA não foram demitidos porque, como a administração disse, aqueles com funções críticas permanecerão em seus empregos”, escreveu o funcionário. “A missão do DOGE é tornar o governo mais eficiente, não eliminar funcionários inovadores e trabalhadores”.

Em meados de Fevereiro, um novo funcionário do DOGE apareceu na sede da NASA. Riley Sennott, um trabalhador de tecnologia, de vinte e poucos anos, com vínculos à empresa de carros elétricos de Musk, Tesla. Foi integrado na agência como consultor senior. Os rumores espalharam-se rapidamente. “Como é que ele é?”, perguntou o diretor da NASA a um colega. Dizia-se que tinha acne e que se vestia de forma informal mas ninguém sabia dizer qual era o seu aspecto. Mais tarde, chegou um terceiro representante do DOGE: Alexander Simonpour, alegadamente um director de engenharia da Tesla.

No dia 22 de fevereiro, o Gabinete de Gestão de Pessoal deu instruções aos funcionários federais para “responderem a um e-mail com cerca de 5 pontos sobre o que fizeram na semana passada ”. As minhas fontes descreveram o e-mail como totalmente amador, logo, do OPM. Mas logo a seguir vinha “A Message from Acting Administrator Janet Petro”. “Não são obrigados a responder e não há qualquer impacto no vosso emprego na agência se optarem por não responder”, escreveu Petro. 

Aparentemente, a administradora em exercício tinha mudado a sua abordagem. As minhas fontes estavam divididas sobre se Petro era uma heroína ou uma vilã; uma elogiou-a por proteger os funcionários em estágio, mas também me foram enviadas capturas de ecrã de textos e e-mails que a denunciavam por avançar a agenda da Administração Trump.

Uma semana depois, os tribunais apanharam o Gabinete de Gestão de Pessoal. Num dos vários reveses legais para a Administração Trump, um juiz federal decidiu que o despedimento em massa de trabalhadores à experiência seria ilegal. De acordo com os relatórios, o juiz distrital dos EUA William Alsup disse: “O OPM não tem qualquer autoridade sob qualquer estatuto na história do universo para contratar e demitir funcionários de outra agência”. (Cerca de metade dos trabalhadores despedidos da National Science Foundation acabaram por ser reintegrados).

O director achava que as duas fases de redução de custos do DOGE tinham terminado. Se a primeira fase consistia em intimidar os trabalhadores para que se fossem embora - acabando com os esforços de diversidade, forçando o regresso ao cargo e ameaçando com despedimentos enquanto se balançava o derp - então a segunda fase consistia em eliminar os empregados mais fáceis de despedir. Na NASA, esta fase tinha falhado largamente.

Mas as minhas fontes previram que uma terceira fase mais drástica - as “reduções de força” que estão a encolher numerosas agências federais - cortaria números significativos da força de trabalho da NASA, não visando funcionários individuais mas, antes, eliminando completamente os seus cargos. 

A NASA engloba dezoito mil pessoas que trabalham em locais como Huntsville, Alabama; sul do Mississippi; e Houston. A Administração Trump poderia cortar galhos do seu organigrama, ou pegar num machado e cortar membros inteiros, apagando escritórios inteiros. 

Um primeiro ponto de referência surgiu no início de Março. Depois de uma reunião que envolveu Sennott, do DOGE, os líderes da NASA decidiram eliminar o Gabinete do Cientista-Chefe, uma equipa de seis pessoas que dava conselhos científicos imparciais ao administrador. “Agora essa capacidade desapareceu”, disse-me o alto funcionário. O cientista-chefe cessante era também o conselheiro climático da agência. O Gabinete de Tecnologia, Política e Estratégia também foi dissolvido. No total, a NASA despediu vinte e três pessoas na sede, incluindo várias que trabalhavam num gabinete da D.E.I.A..

Não foi oferecida aos trabalhadores a possibilidade de serem transferidos para outro local da agência; foi-lhes dado um pré-aviso de trinta dias, apesar de ser habitual darem sessenta.

Mais despedimentos estavam para vir. Os dirigentes da agência têm-se reunido com funcionários do DOGE e estão a recolher informações de vários departamentos para desenvolver um plano de redução de efectivos. (A NASA obteve uma prorrogação do prazo para apresentar o seu plano à Administração Trump). 

As minhas fontes alertaram para as potenciais consequências. “Assim que perdermos os nossos valores, vamos matar alguém”, disse o líder da NASA. “Vamos fazer explodir uma nave espacial.” Acrescentaram que o programa espacial da China - incluindo os seus esforços de investigação científica - está a crescer rapidamente. “Se quiserem desistir da vossa liderança no espaço, façam o que a Administração está a fazer neste momento”, prosseguiu o dirigente. “Um corte na investigação não afecta apenas o orçamento deste ano”, disse. “É o financiamento da pessoa que estuda a matéria negra num buraco negro numa universidade qualquer e é o seu Prémio Nobel daqui a trinta anos que está fora da janela”.

No dia 7 de março, uma organização sem fins lucrativos atribuiu à NASA o título de “Melhor Lugar para Trabalhar no Governo Federal” pelo décimo terceiro ano consecutivo. Mas ninguém parece importar-se mais com isso, disse-me o gerente. A NASA não é a mesma organização que era há dois meses. Os seus funcionários públicos têm um historial de trabalhar semanas de cinquenta a sessenta horas, com base nas trajectórias das naves espaciais e não nos relógios terrestres. Talvez isso tenha acabado. “Porque é que alguém haveria de abdicar de horas de tempo pessoal todas as semanas para uma Administração que diz que somos lixo?”, disse o gestor. É provável que as demissões, despedimentos e perturbações afectem o trabalho da NASA no futuro. “Um erro cometido hoje pode não se concretizar, por assim dizer, até que um astronauta esteja na superfície da lua dentro de alguns anos”, disse-me o director. “Queres ser a Administração que matou os astronautas?” ♦


January 27, 2025

Leituras - A questão do gosto II




(continuação daqui: leituras-de-fim-de-semana-questao-do-gosto - 3 sessões)



Sessão 2

JAMES MILLER: Ao ler os vários textos que nos foram atribuídos para preparar esta conversa pública, e ao ouvir a maioria dos nossos comentários durante a sessão de abertura, fiquei impressionado com o facto de muitos de nós darmos por adquirido que o gosto ou o mau gosto são obviamente uma questão mais ou menos puramente convencional, e que os padrões de bom gosto e mau gosto variam muito em função do tempo, do lugar, da cultura, ou daquilo a que chamarei práticas nos domínios da arte e da crítica de arte. 

Esta era a opinião do sociólogo e teórico francês Pierre Bourdieu, que argumentava que, em qualquer sociedade, um pequeno grupo de pessoas, mais consequentemente uma elite, distinguida pela educação e intelecto, estilo de discurso, estilo de vestuário, etc., determinará o que constitui bom ou mau gosto dentro do seu grupo ou classe.

Vale a pena lembrar, no entanto, o que esta visão moderna comum ignora. Em nenhum momento das nossas leituras, e penso que em nenhum momento da nossa conversa anterior, encontrámos um exemplo de uma defesa matemática ou platónica da proposição enormemente fecunda, como Galileu diria mais tarde, de que “a matemática é a língua em que Deus escreveu o universo” e que, de um ponto de vista matemático, algumas relações sonoras, musicais e espaciais são comprovadamente mais harmónicas ou mais belas do que outras. Esta era uma posição defendida na antiguidade por Vitrúvio e reavivada no Renascimento pelo pintor Piero della Francesca, que defendeu a ideia das proporções divinas nos seus escritos matemáticos, uma proposta também defendida no Renascimento por Leonardo DaVinci e Palladio.

É também surpreendente a frequência com que os críticos modernos esquecem as raízes essenciais do gosto em dois dos nossos órgãos animais essenciais da sensação, a língua e o nariz. Bordieu não comete esse erro, escrevendo que “não se pode compreender plenamente as práticas culturais a não ser que a cultura, no sentido restrito e normativo do uso comum, seja trazida de volta à cultura no sentido antropológico e que o gosto elaborado pelos objectos mais refinados seja reconectado com o gosto elementar pelos sabores dos alimentos”. Reparem como ele hierarquiza os dois. 

Esta ligação entre sensação bruta e sensibilidade é especialmente clara no latim. Francês e espanhol. Aquilo a que chamamos gosto em inglês é gustibus em latim, goût em francês, gusto em espanhol. Em francês, o oposto de gout é degout, a palavra que designa a sensação humana primitiva de nojo. O gosto por algo, penso eu, implica uma atração que, por vezes, é quase tão fortemente instintiva como o nojo. Uma atração muito, muito poderosa.

Surge agora naturalmente uma série de questões. Quando exprimo o meu gosto pela comida ou por uma obra de arte, estarei de alguma forma a responder, pelo menos em parte, a algo intrínseco ao objeto externo que experimento? Por exemplo, existe um sentido de proporção matematicamente especificável, como a média dourada, que é análogo aos compostos químicos verificáveis nos alimentos que quase toda a gente sentirá como amargos, permitindo a quase toda a gente distinguir facilmente as uvas azedas das doces? Ou, pelo contrário, o meu gosto é apenas uma sensação interior de sentimento, como David Hume chama a estes sentimentos? Em caso afirmativo, será o meu gosto inteiramente idiossincrático, sem qualquer correlação demonstrável com o mundo exterior e com as coisas em si mesmas?

De gustibus non disputandum est [gostos não se discutem]. A origem deste velho adágio romano é desconhecida. O seu significado é, por si só, objeto de debate. Uma tradução padrão em inglês é there is no disputing about taste, enquanto os franceses traduzem o adágio latino como á chacun son goût, a cada um o seu próprio gosto. 

Uma das implicações deste adágio, que os alunos contemporâneos das minhas aulas costumam tirar, é que o gosto de cada um é pura e obviamente subjectivo. O que é verdade para mim não é necessariamente verdade para si. É assim que as coisas são. Mas se for esse o caso, porque é que eu estaria a participar numa conversa pública sobre o gosto? Parece-me uma perda de tempo. Porque é que me haveria de importar se Ian Buruma ou Rochelle Gurstein ou Bob ou Peg Boyers partilham o meu gosto por pães doces ou pelos filmes de Pedro Almodovar? A cada um o seu próprio gosto. Vamos fazer uma pausa para comer e beber.

É verdade que alguns seres humanos têm percepções sensoriais comprovadamente defeituosas. Afinal de contas, as deficiências sensoriais que conhecemos como daltonismo ou surdez da língua existem. Por outro lado, também é verdade que existem super paladares, assim como super olfactores, ambos contratados por empresas alimentares e fabricantes de perfumes para se tornarem juízes ultra-sensíveis de um prato ou de uma nova colónia. No seu famoso ensaio sobre o padrão do gosto, Hume admite-o, dizendo que nos indivíduos em que os sentimentos e os órgãos dos sentidos “são tão finos que não permitem que nada lhes escape e, ao mesmo tempo, tão exactos que se apercebem de todos os ingredientes da composição, chamamos a isto delicadeza de gosto”.

Os super degustadores parecem ser tão raros como os atletas com os dons de LeBron James. Aqueles com uma delicadeza de gosto refinada nas artes são talvez ainda mais raros. Daí uma das observações de Hume no seu famoso ensaio, segundo a qual, numa situação em que existe uma tal diversidade empírica nos órgãos de perceção dos sentidos internos, e também nos padrões utilizados por pessoas de gosto refinado para julgar uma peça de comida ou uma obra de arte, temos de concluir que “é inevitável uma certa diversidade de juízos e procuramos encontrar um padrão pelo qual possamos conciliar os sentimentos contrários”.

Kant ficou tão intrigado com o adágio latino como Hume. Na sua terceira crítica sobre o poder do juízo, Kant concorda inteiramente com a observação empírica de Hume de que não existe um critério empírico nem um padrão através do qual as disputas sobre o gosto por uma comida ou uma obra de arte possam ser resolvidas com uma prova. E Kant usa o termo muito forte “prova”.

Mas Kant, na mesma secção da terceira crítica, também salienta que as disputas sobre o gosto como uma questão de efeito empírico ocorrem constante e regularmente na sociedade civil. Assim, mesmo que nunca consigamos provar, através de argumentos fundamentados, que aquilo que agrada ao meu gosto empírico deve agradar ao teu, não deixamos, como diz Kant, de “como animais sociáveis que exibem uma propensão natural para interagir com outros que pertencem à humanidade, ter um grande prazer em comunicar os nossos sentimentos e sensações interiores a outros, num esforço de comparação e contraste”. Se não para garantir o acordo, precisamente porque os desacordos sobre o gosto são, falando empiricamente, um meio de promover o que é exigido por uma inclinação natural a todos. Penso que um dos erros que Kant comete é pensar que, pelo facto de obviamente discordarmos sobre o gosto, precisamos de ter um conceito que cubra isso. Assim, a antinomia é que não há conceito, não pode haver prova, mas temos de supor que há um conceito.

Mas, na verdade, penso que não é assim que as divergências se processam. A referência a um padrão ou a um exemplar contorna, de facto, a exigência de fornecer a prova, pois nesse caso basta apontar para o exemplar. Este é, portanto, o verdadeiro limite do que Kant tinha para dizer, penso eu. 

Façamos de conta que sou um teórico do contrato, como Kant por vezes fez e como eu normalmente evito tentar fazer. Imaginemos agora uma cena primordial na origem de todas as sociedades e civilizações. Imaginemos que os membros individuais de grupos anteriormente isolados se sentam para comer uma refeição em comum, para partilhar algum vinho e conversar, e que esta é a origem do seu contrato social: um momento primordial de prazer intersubjectivo em que parte do prazer é constituído precisamente pela comparação de notas sobre o que cada um acabou de provar. Talvez a melhor maneira de iniciar uma conversa pública sobre o gosto seja simplesmente antecipar o que está para vir, dizendo: bom apetite.

ROBERT BOYERS: Se calhar, sou um pouco diferente, mas parece-me que o problema do gosto vai muito além daquilo em que pensamos quando comparamos o nosso gosto ou desgosto por determinados alimentos. É claro que é inevitável que, quando pensamos em comida e apetite, nos encontremos no domínio do gosto. Mas posso facilmente resolver problemas ou diferenças quando estamos a falar de comida dizendo: “Bem, tu gostas disto e eu gosto daquilo, e depois? Não temos uma discussão sobre isso. Tu pedes o que queres e eu peço o que quero. E eu ficarei satisfeito e talvez tu não fiques.

Mas ao pensar nas diferenças de gosto que se manifestam nos nossos encontros com as obras de arte ou com as ideias, não é assim tão fácil, penso eu, resolver as questões que surgem.

Por exemplo, alguns de nós acreditam que o que está a ser exibido nas galerias de Chelsea não deveria estar lá. Queremos discutir sobre isso. Queremos discutir sobre o que o Museu de Arte Moderna decide destacar na sua programação de primavera. Não nos limitamos a dizer, bem, a pessoa que fez a escolha este ano tem uma visão da arte contemporânea que é muito diferente da minha. Queremos discutir sobre isso e queremos perguntar-nos o que está por detrás das nossas diferenças. E é isso que torna as coisas difíceis. Tal como é difícil convencer alguém que se comove com um discurso que contém chavões e banalidades de que não se deve comover - a não ser com nojo.

JAMES MILLER: Bem, menciono o exemplo da comida porque, antes de mais, discordo de si. Para aqueles de nós que são gourmets ou mesmo gourmands, parte do prazer é ir a um restaurante e discutir se o pato está tão bom como da última vez. A pele está estaladiça? Esta colheita de Bordéus é tão boa como a anterior? Nem toda a gente se preocupa com a comida dessa forma. Mas o principal aspeto que queria referir essencialmente, voltando à comida, é que penso que a cena primordial da partilha do gosto e da comparação sobre o gosto é trazer à tona o apetite e os aspectos apetitivos e orgânicos do gosto. Em Bourdieu, podemos ter uma hierarquia em questões de pura sensação, em que o prazer que não é mais do que sensorial é menosprezado.

Isto torna-se particularmente notório no alto modernismo, em que o prazer associado ao mero entretenimento não merece discussão. Se gostamos de ser entretidos, temos mau gosto. O entretenimento é uma forma de prazer apetitivo que é fácil de partilhar com as pessoas. Muitas foram as ocasiões em que ouvi conversas realmente animadas e discordâncias amigáveis sobre o gosto quando as pessoas estavam a sair de um filme ou depois de terem estado a ouvir o mesmo álbum. Há uma liberdade e um prazer tangível na partilha de opiniões que é muito estranho à sala de seminários. Um dos problemas da educação é lidar com o facto de o nosso gosto pelas coisas ser essencialmente apetitivo e não apenas racional e estético.

IAN BURUMA: Sim, penso que, obviamente, quando se trata de gostar de um tipo de comida ou de outro, é inteiramente subjetivo, mas tenho uma história de restaurante. Há uns anos, estava no Peninsula Hotel, em Hong Kong, com o crítico gastronómico do The Atlantic, que teve uma conversa com o chefe, e a conversa que teve com o chefe foi exatamente como as conversas que as pessoas têm com cantores de ópera ou críticos de ópera, que não era tanto, gosta do soufflé de chanterelle ou prefere ravioli de lagosta? Era sobre, o soufflé de chanterelle do José - não era maravilhoso? E ele disse, sim, comi-o em Genebra. Oh, comi-o em Copenhaga. E o que se resumia a isto é que se tratava de comida, obviamente, tratava-se de prazer e apetite, mas também se tratava de comparação. E para fazer uma comparação, é preciso conhecimento. E isso aplica-se também a coisas que têm puramente a ver com entretenimento e prazer. Há pessoas que têm uma espécie de conhecimento talmúdico de determinadas partes de canções rock e podem dizer-nos porque é que a cassete da cave feita em 1967 em São Francisco é realmente superior à que foi feita em Woodstock em 1971.

JAMES MILLER: Só para esclarecer, não acredito que o gosto seja subjectivo, ou que seja ingénuo pensar que existe uma diferença objetiva que informa as nossas preferências de gosto, não quando se trata de comida, vinho ou música rock.

BARBARA BLACK: A história do Ian traz-me de volta ao conhecimento, ao facto de existirem pessoas que têm um gosto exigente quando se trata de comida. Muitas vezes, essas pessoas pertencem a uma classe, uma classe de pessoas que têm um certo orgulho no seu gosto e na sua capacidade de diferenciar um tipo de coisa de outro. 

Um dos meus livros favoritos é O Processo Civilizador, de Norbert Elias. Nesse livro, ele diz-nos que muitas das regras, leis e códigos originais se centram na tomada de refeições com outras pessoas, e que os manuais que as pessoas usavam, desde os anos entre os séculos XIV e XVII, se centravam no comportamento corporal, no esforço para ensinar as pessoas a comportarem-se como as pessoas bonitas, as pessoas que sabiam como se comportar quando estavam na corte. O elemento de classe é visível na classificação dos indivíduos em melhores e menores, superiores e inferiores, e também na aversão àqueles que não exibem a aversão adequada a coisas desonestas, feias ou desagradáveis. Por isso, penso que o gosto é ou pode ser um cacetete, e pode ter a ver com desprezo, nojo e vergonha.

É interessante o facto de Elias ter sido um judeu alemão, estudando a forma como grupos de pessoas usam linguagem e conceitos estigmatizantes para banir, envergonhar ou ostracizar outros grupos de pessoas.

Embora tenha conseguido fugir da Alemanha e ir para a Grã-Bretanha, os seus pais morreram ambos no Holocausto. Por isso, dedica o livro, que é sobre o fenómeno da vergonha, “à memória dos meus pais, Herman Elias, morto em Breslau, 1940, e Sophie Elias, morta em Auschwitz, 1941”. É uma espécie de capítulo não escrito deste livro, mas está lá enterrado na dedicatória. É estranho, talvez, pensar que estes factos têm algo a ver com o nosso tema, mas têm. Afinal de contas, o gosto é um aspecto do projeto de transformar um povo inteiro em verme, abaixo do desprezo ou da preocupação.

ROCHELLE GURSTEIN: Parece-me que estamos a falar de várias versões muito diferentes do gosto e ainda não chegámos ao que responderia à afirmação de que, em última análise, é subjetivo. Todos concordamos que dentro de uma prática pode haver um exemplar, uma pedra de toque, e que as pessoas que participam nela a usarão como uma espécie de padrão até que deixe de se adequar aos seus desejos ou expectativas. Mas isto não resolve as questões sobre a validade do exemplar ou a superioridade de uma espécie de gosto. Posso aceitar que a classe e as convenções têm muito a ver com o gosto, e que o gosto da língua está relacionado com os juízos estéticos, embora também seja distinto deles. Mas não creio que seja claro como é que estes apetites e juízos estão ligados.

TERENCE DIGGORY: Uma forma de resolver a questão que a Rochelle acaba de levantar sobre estas diferentes formas de definir o gosto é através de uma espécie de paradigma da história cultural. Penso na questão do gosto como uma questão de estética e, em particular, de juízo estético, como tendo descido do discurso iluminista. A ênfase no gosto como algo baseado no corpo é descendente do romantismo. O facto de sermos herdeiros de ambas as tradições é responsável por alguma da confusão em que nos encontramos continuamente.

MICHAEL GORRA: Tenho duas questões e uma delas remete para algo que o Jim disse e a outra para as observações da Rochelle. Jim, observou que, quando as pessoas vão ao cinema, saem e conversam e comparam notas, e muitas vezes divertem-se muito, e o que dizem baseia-se na sua apetência por um tipo de prazer. Para si, pelo menos da forma como o ouço, isso parece estranho ao que fazemos na sala de seminários, onde muitas vezes temos vergonha de falar sobre o prazer que sentimos com as obras que nos são atribuídas para estudo. Quer dizer, ainda me lembro de estar na pós-graduação e pensar que era uma espécie de desclassificação admitir que gostava de certas coisas, embora me lembrasse sempre do que Henry James disse em The Art of Fiction, que “nada substitui o gosto por um livro”. Mas também me comove o que a Rochelle disse, sobre a confusão ou tensão em pensar nos diferentes tipos de gosto, e se pode haver uma base objetiva e mensurável para o gosto, como quando falamos de proporções harmónicas e assim por diante.

E acho que, para mim, no fim de contas, tudo depende de um certo grau de conhecimento, não é? Quer dizer, tanto o crítico gastronómico como o chef estão a falar de coisas que podem ser mensuráveis, em termos da temperatura exacta a que o soufflé é cozinhado e da qualidade dos cogumelos, etc. Embora tudo isso pertença à vida social, ao jogo da vantagem, ao snobismo e à tentativa de marcar pontos dizendo: “Bem, eu não jantaria em tal sítio e sei distinguir estes cogumelos daqueles”. Há qualquer coisa no que outros disseram sobre a vantagem social que se pode tentar obter exibindo gosto e vantagem.

ROBERT BOYERS: Mas a vantagem surge muitas vezes - não é verdade? - quando o que se exibe é a capacidade e o instinto de ir contra a corrente do que é acreditado, harmónico, aperfeiçoado e até bem feito. O conhecimento que existe entre um grande número de pessoas altamente treinadas e sofisticadas dá-lhes permissão para desdenhar o que passa por bom gosto, seja nas artes ou nas cozinhas dos ricos e famosos. Não sou um gourmet, como o Jim já referiu, mas já fui muitas vezes levado a sítios fora do caminho, com um aspeto pouco vulgar, para jantar pratos deliciosos - levado por pessoas que se orgulham do seu desprezo pelos restaurantes caros, cuja comida típica consideram medíocre e suavemente “perfeita”.

Uma das melhores refeições que já comi foi partilhada com vários escritores num centro comercial queimado num bairro deserto de Miami, onde um chinês de meia-idade e a sua mulher nos receberam e nos perguntaram que tipo de comida chinesa queríamos que nos preparassem. O nosso anfitrião, e motorista, era Tom Healy, e o seu prazer teve claramente muito a ver com o facto de nos ter trazido a um lugar assustador e improvável e de nos ter convidado para jantar num restaurante sem estrelas e sem perspectivas de sermos descobertos. A vantagem social, escusado será dizer, era diferente de tudo o que estas palavras sugerem.

JAMES MILLER: Essa história confirma os meus comentários sobre a sociabilidade e sobre a sensação de partilhar uma poderosa atração por uma experiência sobre a qual nos encontramos para falar. Qual é a sensação para si? O que é que eu sinto? Interagimos porque estamos ambos no mesmo restaurante. O que é interessante é a cena em si. Uma atração profunda, uma espécie de realismo ingénuo, e ninguém se preocupa com o relativismo depois de sair daquele lugar. Acabámos de partilhar uma experiência.

ROCHELLE GURSTEIN: Mas depois podemos interrogar-nos sobre o que partilhámos realmente com o Tom e com os outros do nosso grupo, Bob. Estavam a gostar das mesmas coisas? A surpresa, a novidade, foi tão inovadora para o Tomás como foi para si? E a comida, talvez com uma apresentação não tão apelativa, era tão boa como fingiam pensar que era?

JAMES MILLER: Bem, é claro que é um problema se decidirmos que a experiência é sentida de tal forma que já não a podemos considerar como uma experiência partilhada. Quer dizer, se os nossos companheiros não concordarem connosco em nada, é difícil criar laços por causa da comida e da paixão partilhada por algo novo e inesperado e nada elegante de uma forma acreditada.

IAN BURUMA: Para começar, penso num ponto que todos lemos nas leituras que nos foram atribuídas para esta conferência, ou seja, a análise fascinante que a Rochelle fez da pornografia e a ideia de Susan Sontag de que o choque da pornografia é o último “abismo” da vanguarda. Parece-me que a perversão desempenha um papel importante no snobismo de um certo tipo de conhecedor. As pessoas podem considerar-se sofisticadas por gostarem de uma coisa, precisamente porque essa coisa causa repugnância à maioria das pessoas.

Assim, o conhecedor de comida gosta de andouillette ou de um queijo francês muito malcheiroso ou de durian, precisamente porque cheira a casa de banho pública, e também porque o filisteu comum o detesta. E penso que o que se passa com o apetite por comida também se aplica ao apetite por sexo, na medida em que existe um snobismo entre os sofisticados sexuais, que acreditam que tudo o que tenha a ver com sexo heterossexual procriativo é basicamente filisteu.

Quanto mais nos afastamos disso, mais refinados ficamos. Acaba-se numa espécie de adega S&M gay. E é aí que se encontram os verdadeiros sofisticados. Não é esse o caso? Mas penso que isso se aplica a muitas avaliações da arte e do gosto, em que uma força motriz é a aversão ao insípido.

CELESTE MARCUS: Queria falar de um conhecimento diferente, que aprendi com a minha namorada, que consegue fazer uma coisa que eu não consigo, que é uma conversa de raparigas muito sofisticada, que envolve, por exemplo, conversas intensas sobre os pormenores da história das relações da Taylor Swift. A minha namorada e as suas companheiras não falam sequer sobre a música enquanto música, mas sobre quem sabe mais sobre as canções e os namorados. Se eu dissesse: “Acham que a música dela é muito boa?”, provavelmente iriam gozar comigo por falar nisso. Quero dizer, segundo que critério é que a consideras “boa”? É boa, pelo menos, no sentido em que inspira o tipo de interacção de que eles gostam e confirma o seu estatuto dentro de uma certa comunidade confiante no bom gosto que advém de se ser fã da Taylor Swift. Trata-se, penso eu, de conhecer algo profundamente e de estar invulgarmente ligado a algo. Talvez não seja muito diferente do que estamos a fazer na nossa mesa de conferências, fazendo juízos de valor, corrigindo-nos uns aos outros e confirmando a nossa pertença a uma comunidade intelectual.

BARBARA BLACK: Portanto, é evidente que o gosto é um vector, que está sempre a mudar e a alterar o que parece atraente ou aceitável para a corrente dominante ou para a maioria. Isso não me ajuda a decidir se o gosto se baseia em algo universal, se existe um padrão universal para o elegante, o belo ou o gracioso. Continuo a acreditar que é muito contingente e contextual. Será que o poder nos diz porque é que este ou aquele padrão de gosto predomina num dado momento? Está na moda pensar que sim, mas não tenho a certeza disso.

Adam Phillips define o gosto como um clube do qual fazem parte aqueles que partilham a valorização destas coisas em vez daquelas. Assim, o gosto tem a ver com a afiliação a outros, e pode ser um fator de consenso e também a base da comunidade. Mas, neste ponto, concordo com Pierre Bourdieu quando diz que um clube é uma afiliação com pessoas que partilham a mesma opinião, pelo que não é possível compreender verdadeiramente o clube, o carácter clubístico ou a capacidade clubística do gosto se não houver pessoas que sejam outsiders, que não pertençam ao clube. Assim, o gosto é uma identidade social. Tem uma dimensão pública muito forte, e penso que o gosto tem tudo a ver com o eu aos olhos dos outros, e é isso que une todas as nossas várias versões do gosto.

TERENCE DIGGORY: Tenho apenas uma pergunta para o Jim ou para a Barbara: o prazer da partilha tem de se basear num acordo sobre o que acabámos de partilhar ou pode assentar sobretudo no facto de estarmos dispostos a reunir-nos e a falar sobre isso?

JAMES MILLER: Penso que estamos a falar de uma ocasião de sociabilidade e do facto de estas experiências partilhadas se tornarem frequentemente a base de amizades duradouras. E as amizades não exigem que se concorde com tudo, o que importa é o prazer que se tem em discordar sem ser desagradável e o facto de se ter partilhado uma experiência. Por vezes, se vejo um filme com Bob Boyers, o que já fiz muitas vezes, ele pode dizer algo em que eu nunca tinha pensado antes, e isso é fixe ou perturbador. Mas o que está em jogo não é um desporto de sangue filosófico onde se prova que se tem a norma definitiva e se usa isso como um bastão. O que está em causa é uma flexibilidade que se baseia na forma como este tipo de experiência social partilhada do gosto está enraizada. É uma situação incorporada que envolve amizade, sociabilidade e desacordo, na qual todas as questões que atormentaram Immanuel Kant são simplesmente colocadas entre parêntesis. É quase como - sinto-me tentado a dizer isto - Kant não conseguia ver as coisas desta forma porque tinha um problema de sociabilidade.

TOM LEWIS: Aqui está - como lhe chamar? - um pequeno pedaço de outra coisa, de um discurso que James Russell Lowell fez em Harvard no 250º aniversário da universidade. E ele disse: “Este é o objetivo de uma educação universitária. Esperemos fazer de cada jovem que nos é confiado um cavalheiro; não um cavalheiro convencional, mas um homem de cultura, um homem de recursos intelectuais, um homem de espírito público, um homem de requinte, e com aquele bom gosto que é a consciência da mente e aquela consciência que é o bom gosto da alma.” Devo admitir que tenho estado a refletir sobre isto há muito tempo?

JAMES MILLER: Acho isso nojento.

TOM LEWIS: Já estava à espera disso. É por isso que não vamos ao cinema juntos.

BARBARA BLACK: Ainda bem que vocês os dois não são membros do mesmo clube - embora sejam ambos amigos do Bob Boyers.

TOM LEWIS: Mas é aí que eu quero chegar. Era isso que ele estava a fazer. Lowell estava a dizer: “Nós, em Harvard, temos de aumentar o número de membros deste clube para podermos ter essas experiências estéticas e intelectuais”. E o clube pode ser apenas duas pessoas a comer um jantar sumptuoso num restaurante ridiculamente caro, ou pode ser um grupo. E isto, claro, acho que corrobora o que estava a dizer, Barbara. Que o gosto tem a ver com o eu aos olhos dos outros.

ROCHELLE GURSTEIN: Sem dúvida. Essa passagem capta, à sua maneira, a dimensão pública com que nem todos nos sentimos confortáveis. E isto leva-me a uma pensadora que me interessa, e penso que a muitos de nós, a ideia de Hannah Arendt de que o gosto decide o que aparece no mundo e a qualidade ou o carácter do mundo em que vivemos. E que temos um mundo comum que só existe quando as coisas persistem ao longo do tempo. Não é uma questão trivial, lamento dizê-lo. Não concordo que os mexericos sobre os namorados da Taylor Swift sejam algo parecido com o que estamos a tentar fazer aqui. Afinal de contas, estamos a tentar falar sobre as coisas que devem ser importantes para a nossa cultura. Que tipo de mundo vai existir depois de nós. O que veio antes de nós. Quando discutimos questões de gosto, estamos a tentar perceber porque é que certas coisas que outrora foram muito importantes para as pessoas civilizadas já não comandam a nossa lealdade ou atenção, porque é que as coisas que as pessoas queriam exaltar, imitar ou escrever poesia já não inspiram essas ambições. Não creio que façamos justiça ao nosso interesse pelo gosto, reduzindo-o a uma questão de saber sobre o que as pessoas coscuvilham quando querem ter algo em comum para falar. É claro que existe essa dimensão do gosto e é claro que as relações de poder determinam por vezes os gostos ou preferências dominantes numa cultura. Mas estou empenhado em perguntar que coisas estamos a manter vivas? Que coisas são importantes no mundo?

MARCUS CELESTE: Sim, acho que o que eu estava a dizer não era que estes dois tipos de discurso são qualitativamente iguais. Estava a dizer que são estruturalmente iguais. Eu acho que a música da Taylor Swift é má. Agora, se eu dissesse isso nessa conversa, não só seria rude, como também não teria nada a ver com o que os meus amigos estavam a falar, porque eles não estão interessados em julgamentos qualitativos. Estão interessados em participar numa comunidade. E penso que há um elemento do que estamos a fazer aqui que é, como diz, mais importante, embora estruturalmente possa ser semelhante. Mas, na verdade, Rochelle, concordo plenamente com tudo o que disse sobre o que esperamos fazer ao discutir o gosto. E quero subir um pouco a parada dizendo que quando a estética se confunde e se torna popular a fetichização da obscenidade, da crueldade ou da violência, então as nossas escolhas estéticas podem vir a influenciar as nossas escolhas políticas. É claro que não sou o único a aperceber-me disto, embora não tenha a certeza de que possamos concordar sobre o que fazer a este respeito.

ROBERT BOYERS: No meu livro sobre Susan Sontag e George Steiner, falo um pouco sobre uma mudança muito interessante no pensamento de Sontag que ocorreu no período entre o início da década de 1960 e meados da década de 1970. Numa primeira avaliação dos filmes de Leni Riefenstahl, Sontag argumentou que o conteúdo dos filmes de Riefenstahl não devia contar na nossa avaliação dos mesmos, nos nossos sentimentos em relação a eles.

Eram, afinal, grandes obras de arte e podiam ser avaliadas simplesmente nesses termos. Dez ou doze anos mais tarde, argumentou que o contexto tinha mudado e que uma avaliação, outrora talvez convincente e válida para uma minoria sofisticada de intelectuais que leram o seu ensaio original na The Partisan Review, já não era de confiança. Tal argumento, transferido para o domínio público, dirigido a um público muito mais vasto, poderia tornar-se perigoso. Sontag chegou a acreditar que os filmes de Leni Riefenstahl não deviam ser vistos simplesmente como artefactos estéticos. Não era esse o seu objetivo.

Não estou completamente convencido de que o contexto tenha mudado da forma que Sontag achava que tinha mudado, mas é claro que ela apresenta um caso notável e sabia que, uma década depois de ter escrito o ensaio original para uma pequena revista, um número enorme de pessoas estava a seguir os escritos de Susan Sontag e, de facto, não se podia confiar que ela aceitasse o que dizia da forma que pretendia.

IAN BURUMA: Bem, não tenho a certeza de que o público seja assim tão diferente, porque o segundo ensaio, Fascinating Fascism, foi publicado na The New York Review of Books, que é basicamente o mesmo público - embora, tem razão, muito maior. Deixem-me ler a frase relevante: “A dura verdade é que o que pode ser aceitável na cultura de elite pode não ser aceitável na cultura de massas, que os gostos que apenas colocam questões éticas inócuas enquanto propriedade de uma minoria se tornam corruptores quando se tornam mais estabelecidos.” 

E há uma coisa que me fez lembrar um pouco o costume, que persistiu até talvez aos anos 60, de exigir que, mesmo em livros sérios, as passagens citadas de escritos eróticos fossem publicadas em latim. A ideia era que, se tivéssemos uma educação adequada, isso não nos poderia corromper. Mas se pessoas sem educação puserem as mãos nisto, isso pode ter consequências muito graves. E o que a Susan estava a dizer não é muito diferente disso.

ROBERT BOYERS: Concordo plenamente.

JAMES MILLER: Isto parece-me abordar a questão do conhecimento proibido, que é um dos temas incluídos na nossa antologia de leituras. E lembro-me de uma interação que tive com o nosso amigo comum, Roger Shattuck, há muito colunista regular do Salmagundi, que escreveu um livro inteiro sobre o tema do conhecimento proibido. 

O capítulo mais longo do livro de Roger é sobre o Marquês de Sade. O Roger estava interessado em saber o que eu pensava sobre o assunto, porque tinha lido o meu livro sobre Michel Foucault e sabia que eu estava disposto a ir a sítios - incluindo falar sobre o Marquês de Sade - que nem toda a gente queria ir. E quando o conheci e li o capítulo, disse-lhe: “Parece-me, Roger, que temos aqui uma contradição performativa. Escreveu 180 páginas a dizer que os escritos do Marquês de Sade são proto-fascistas. Qualquer pessoa que os leve a sério tornar-se-á um assassino em série, pelo menos um sociopata de primeiro grau. No entanto, descreveu com grande pormenor algumas das piores passagens de Sade, e deu-lhe essas 180 páginas”.

E eu disse: “Mas Roger, quando foste a Paris no final dos anos 40, provavelmente tiveste de ir ao La Faire, na Bibliotheque Nationale, onde estavam os livros proibidos. E sabes que eles não punham esses livros em latim. Puseram-nos fechados à chave”, e claro que o Roger estava furioso, porque o De Sade tinha acabado de ser lançado numa edição da Pléiade. E eu disse: “Então, Roger, o que é que está a propor?”

O problema, estou a sugerir, é que, se atacarmos as heresias, como Agostinho descobriu com o Pelagianismo, mantemo-las vivas. E por isso queria perguntar ao Roger: vai defender a censura? Quero dizer, porque é que não o diz logo? E ele disse: “Não, não, não. Eu nunca faria isso.”

É óbvio que estamos num mundo em que esse barco partiu há cerca de 50 anos. Fiz apenas um fraco esforço para ver as cassetes do Hamas sobre o Massacre de 7 de outubro, porque me disseram que não as devia ver. Mas elas estão algures por aí e, uma vez postas em circulação, estão disponíveis para serem usadas de qualquer maneira. Por isso, a questão para alguém como Roger, parece-me, é: terá sido um erro? Escritores como J.M.Coetzee dizem basicamente que acabou. Não podemos proibir tais escritos. O desejo moderno e iluminista de ser curioso sobre tudo deixou-nos sem limites e sem tabus. E uma vez quebrados os tabus, é como se o génio tivesse saído da garrafa.

ROBERT BOYERS: (EN) A passagem de Coetzee na nossa conferência Reader é retirada do seu romance, Elizabeth Costello, e esses sentimentos provêm mais da personagem do que do próprio Coetzee. Poder-se-ia ler essa passagem como uma tentativa de, digamos, colocar um balão de ensaio. Elizabeth sugere, afinal de contas, que uma palavra como “obsceno” pode ainda ressoar para nós, pode de facto atingir-nos ou abalar-nos, como por exemplo ao descrever as cassetes do Hamas a que aludiu como uma obscenidade. 

Mas é claro que eu também usaria a palavra “obscenidade” para descrever o tratamento dado por Israel aos palestinianos, tanto em Gaza como na Cisjordânia. É preciso considerar o que significa “obscenidade” quando a utilizamos em relação não só às cassetes, mas também às acções que inspiraram - não justificaram, mas inspiraram - o massacre de civis israelitas em Outubro. Penso que, em Coetzee, há pelo menos uma tentativa de sugerir que talvez ainda haja alguma vida no conceito de obsceno, embora em vários pontos desse livro a oradora, Elizabeth Costello, diga, de uma forma ou de outra: “Na verdade, não tenho a certeza do que estou a dizer. É óbvio que não sou a favor da censura. Não sei o que estou a dizer. Sou um escritor. Posso dizer o que me apetecer. E no entanto....”

ROCHELLE GURSTEIN: Num julgamento de obscenidade do século XIX, o juiz não permitia que a passagem obscena fosse registada, pela simples razão de que a linguagem iria poluir e contaminar o registo público para sempre. Por isso, recusavam-se a usar a linguagem, embora dissessem: “Bem, não podemos ser acusados se não pusermos as palavras. Eles têm de saber qual é a acusação contra eles”. Claramente, eles tinham uma forte consciência do que a repetição dessas palavras poderia evocar. Andrea Dworkin e Catherine McKinnon, ao escreverem contra a pornografia, acabaram por reproduzi-la na página. Exatamente aquilo que não queriam que existisse.

SUSAN KRESS (plateia): Durante esta sessão, pensei muito sobre a forma como sabemos do que gostamos e recordei a minha própria educação nas escolas e universidades britânicas, onde nos era dito praticamente do que gostar. Não era uma questão de saber se me identificava com esta personagem ou com este autor. Era uma questão de saber o que era bom para mim, ou seja, o que era bom para comer ou ingerir. Eu era um imigrante de segunda geração. A cultura era branca, cristã e de classe média ou alta. Eu vinha de uma casa praticamente sem livros. Havia uma estante que tinha os livros do New Left Book Club e alguns romances de Dickens. Era só isso.

Assim, a minha educação foi um projeto de formação do meu gosto, para que pudesse ser assimilado, integrado e fazer parte do que quer que fosse o clube a que tinha de aderir. Por isso, tenho admiração por todos vós que parecem saber do que gostam, mas preocupa-me saber se estamos preparados, aqui ou noutro lugar, para fazer pelos nossos alunos o que foi feito por mim. Adoro aquela passagem de James Russell Lowell que Tom Lewis leu há pouco, em que ele diz que estamos a educar as pessoas para serem cavalheiros, certo? Claro que não se fala de mulheres. Não havia mulheres em Harvard. Mas, mesmo assim, havia a invejável convicção de que estávamos a educá-los para terem este espírito e consciência que os tornaria admiráveis cavalheiros brancos cristãos.

Mas agora, não há muitos conhecedores e, quando não há um projeto de consenso, um acordo sobre o que é necessário e o que não é necessário, de que é que devemos falar nas nossas aulas? É essa a minha pergunta. E não terá isto muito a ver com questões de gosto, em termos gerais?

TOM LEWIS: Concordo inteiramente, Susan, que se admitirmos e reconhecermos a retórica do século XIX e o sexismo que informam a passagem de Lowell, podemos ainda assim levar a sério o projeto essencial que ele recomendava. Ele partiu do princípio de que havia obras de arte e literatura que continham verdades, se quisermos, ou verdades sobre a condição humana. E que essas verdades eram universais. Familiarizem as pessoas com estas verdades - sei que isto parece idealista - e criarão pessoas resistentes às pressões que nos são exercidas atualmente para sermos brandos em relação ao que é humilhante e desumanizante na cultura.

BARBARA BLACK: Ouço-vos a ambos e, no entanto, devo dizer que, para mim, na educação e na forma como nos movemos no mundo e escolhemos educar-nos, é uma negligência do dever protegermo-nos de qualquer expressão ou representação do mal. Não é responsável permitirmo-nos a nós próprios que nos protejamos de qualquer expressão ou representação do mal. Não é responsável permitir que nos movamos pelo mundo ignorando o facto de que existe um mal real e que nos compete tentar combatê-lo, quer a nível pessoal, através da bondade, quer através do activismo e da agitação política. Mas penso que é preciso conhecê-la. Temos de sentir a responsabilidade de aprender sobre o assunto, se tivermos a sorte de não o encontrar diretamente. A arte tem a capacidade de familiarizar as pessoas que estão inocentes e que não estão contaminadas por ele com a realidade do mal, de uma forma que nos pode realmente mudar.

Tal como outros membros do nosso painel, estou a pensar nisto por causa da inclusão na nossa antologia das páginas do romance de Coetzee, Elizabeth Costello, em que o contacto brutal da protagonista com o mal ficou com ela e coloriu o seu pensamento sobre as representações do mal. Costello nunca falou sobre isso a ninguém, porque achava que era sua responsabilidade manter o mal dentro de si e suprimi-lo, não deixar que as outras pessoas o soubessem e, basicamente, tentar esquecê-lo. Costello nunca falou sobre o assunto a ninguém, porque achava que era sua responsabilidade mantê-lo dentro de si, suprimi-lo e não deixar que as outras pessoas o soubessem e, basicamente, tentar esquecer. E eu acho que isso é exatamente errado, que se encontrarmos o mal, temos de ser um emissário dele. Temos de dar a conhecer o mal às pessoas.

Por isso, penso que a arte pode ensinar-nos o bom gosto, em parte, pelo menos, não nos protegendo do que é horrível e recusando-se a fetichizar a brutalidade. Mas tem a responsabilidade de nos familiarizar com ela. Não admira que Elizabeth Costello se sinta confusa quando considera as opções.

ROCHELLE GURSTEIN: Gostaria que Susan Kress falasse mais sobre a sua formação.

SUSAN KRESS: Vou dizer uma frase: a minha educação foi maravilhosa.

ROCHELLE GURSTEIN: Oh, isso diz muito, de facto.

SUSAN KRESS: Porque li todas estas coisas espantosas e fiquei a conhecer uma grande tradição.

BARBARA BLACK: Ainda bem para si.

SUSAN KRESS: Embora também tenha sido horrível nalguns aspectos, que não precisamos de abordar aqui.

IAN BURUMA: Importante, o que a Susan disse, e sim, sou a favor do ensino superior, do requinte, da alta cultura, da arte, etc., mas sou muito mais pessimista do que alguns dos oradores. Penso na ideia alemã do século XIX da Bildung, segundo a qual se educarmos a burguesia e ensinarmos toda a gente a tocar música e a apreciar a boa literatura e as ideias exigentes, estaremos a criar um ser humano mais moral. 

Mas depois, embora pudesse ser um pouco aborrecido sobre o assunto, George Steiner continuava a lembrar-nos de todos aqueles oficiais das SS que arrancavam as unhas às pessoas, mas que também citavam Goethe e tocavam lindamente as sonatas de Schumann. Por isso, penso que as pretensões da Bildung são demasiado elevadas. Quer dizer, é bom tê-la, mas não nos torna necessariamente melhores seres humanos.

Não há razão para não mencionar também que existe uma espécie de consenso liberal, entre as elites liberais, que são as elites culturais deste país, e que estão empenhadas numa ideologia de diversidade e inclusão, dando voz às pessoas marginalizadas e tendo o cuidado de serem anti-racistas, etc. Podemos discutir incessantemente até que ponto os efeitos desse empenhamento ideológico são bons ou maus. Mas essa é certamente uma fação poderosa nas nossas instituições de elite. Será que isso nos diz muito sobre o gosto e a formação do gosto na cultura atual? Ainda não abordámos essa questão.

MICHAEL GORRA: Estamos todos a girar em torno da pergunta da Susan e da situação pedagógica em que muitos de nós trabalhamos. Por isso, mais uma vez, há a frase de T.S. Eliot sobre a função da crítica e a correção do gosto. E eu próprio não acredito muito nisso. Não me considero no ramo da correção do gosto. Sou mais feliz, em termos de temperamento, quando gosto das coisas do que quando não gosto. Embora grande parte da minha educação me tenha dado exatamente o oposto, na medida em que me ensinaram aquilo que devo desaprovar. Não há nada de muito novo nisto, pois na pós-graduação encontrámos aquilo a que se chama a hermenêutica da suspeita. E, apesar disso, nunca pensei que a minha função fosse corrigir o gosto. O meu trabalho é expandir o gosto. A minha função é mostrar aos alunos que podem gostar e apreciar e achar estimulantes e animadoras coisas que não encontraram, coisas de que não teriam gostado ou apreciado se as tivessem encontrado sozinhos. O trabalho é dar-lhes o vocabulário, o equipamento através do qual podem achar essas coisas gratificantes. A maioria dos meus alunos acha Jane Austen gratificante por si só, mas podem não achar Middlemarch gratificante, ou Faulkner. Por isso, quero ajudá-los nessa tarefa.

E a outra coisa que eu diria sobre esta expansão do seu gosto é o meu papel em apresentá-los aos livros mais sombrios possíveis, e mostrar-lhes, tentar persuadi-los, ou mostrar-lhes através do meu próprio entusiasmo ou gosto por estas coisas, porque é que alguém como Coetzee pode ser alguém que eles queiram ler ou achem necessário ler, ou os livros de Pat Barker. Portanto, uma expansão do gosto em vez de uma correção do gosto.

ROBERT BOYERS: Concordo plenamente com o Michael. Em termos de temperamento, é impossível pensar em mim, na sala de aula, a corrigir o gosto de alguém. Mas, na verdade, quando penso nisso, é difícil não pensar que é isso que estou a fazer. Quando apresentamos aos alunos, de uma forma entusiástica, obras de literatura, arte ou filosofia extremamente exigentes, estamos, de facto, a tentar corrigir o gosto, dizendo que é válido entregarmo-nos a este trabalho. É um verdadeiro trabalho. É difícil. E isso é uma coisa boa. E não, não estamos a atribuir-vos apenas o que é fácil, não estamos a dar-vos aquilo a que estão habituados. Um alargamento do gosto, sem dúvida, mas também, à sua maneira, uma correção.

Ao mostrar aos alunos o seu entusiasmo pelo conflito de uma obra, uma obra que não adopta um ponto de vista fácil e o martela, está, de facto, a corrigir o gosto. Está a dizer: “Não é emocionante ver a forma como isto funciona neste tipo particular de livro?” E “sim, podes querer uma resolução clara dos conflitos abertos em livros como este, mas não é isso que os melhores livros, filmes ou poemas fazem por nós, e são estes os tipos de obras de arte e ideias que devias amar tanto como eu”. Portanto, não, não estou a dizer a ninguém que é proibido ver isto ou aquilo, mas ao modelar um certo tipo de paciência e atenção, penso que estou - quer queira quer não - a corrigir o gosto dos meus alunos.

MICHAEL GORRA: Talvez seja melhor chamar-lhe uma transformação do gosto. Esperamos que no final os alunos não sejam as mesmas pessoas que eram quando vieram ter connosco.

(continua)