“Para ter uma velocidade tão alta é porque não vem do Sistema Solar. É um visitante de outros mundos”: 3I/ATLAS, o nómada do espaço
André Manuel Correia
Aliens são deuses pós-modernos. Não porque estejam entre nós, mas porque ocupam o lugar simbólico onde antes se erguia o divino: o território reservado ao que escapa à compreensão. Durante milénios, a Humanidade convocou deuses para explicar aquilo que não conseguia decifrar — o Sol como general dos dias, a Lua a vigiar a noite, o ímpeto das tempestades, a fúria dos vulcões, a coreografia invisível dos astros e as estrelas cadentes que escorrem em chamas do céu. A ciência, paciente e luminosa, retirou véus, desmontou enigmas, trouxe ordem ao que parecia indomável. Mas, ao dissipar muitos mistérios exteriores, revelou outro, mais íntimo: a inquietação de existir no meio de um Cosmos silencioso, sem certeza de companhia.
No vazio deixado pelos antigos panteões ergueu-se uma nova esperança metafísica, a ideia de que, algures na penumbra entre as estrelas, possa existir um olhar voltado para nós. Não para salvar ou punir, mas para confirmar que a vida não é um acaso isolado a flutuar na escuridão. É essa ânsia, ancestral e quase litúrgica, que transforma cada indício vindo de fora num convite à fantasia. Antes de qualquer explicação científica, instala-se um reflexo antigo, quase instintivo: acreditar que existe algo além de nós. E, quando esse reflexo desperta, a razão levanta-lhe um contraponto inquietante.
O paradoxo de Fermi pergunta, de forma simples e direta: se o Universo é vasto e propício à vida, onde estão todos os outros? Uma das respostas possíveis é a hipótese da Floresta Negra: civilizações avançadas que, cautelosas e silenciosas, se camuflam entre as estrelas, tementes de predadores invisíveis e talvez entregues ao silêncio como forma de sobrevivência. A Humanidade, porém, parece existir para comunicar; é no gesto de se dar ao outro que encontra sentido. É por isso que a imaginação coletiva cria extraterrestres tão vocacionados para o encontro quanto nós, como se a necessidade de revelação perante o outro fosse universal e inevitável. É nesse intervalo — entre a ausência de sinais e o desejo de companhia — que teorias da conspiração florescem sempre que algo verdadeiramente exótico, como um visitante de outro canto da galáxia, se aproxima do pequeno átrio do Sistema Solar.
Ciência vs. Conspiração
“Já comprou bilhete para esta nave espacial? Acho que estão esgotados”, começa por dizer ao Expresso o astrofísico Pedro Machado, soltando uma gargalhada, a propósito do 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar confirmado a cruzar o Sistema Solar, depois do Oumuamua (1I/‘Oumuamua) e do 2I/Borisov. Desde que foi detetado, o simples facto de se tratar de um visitante do espaço profundo bastou para acender a imaginação. Rapidamente, as redes sociais transformaram-se num palco para a especulação, com muitos a sugerirem que o 3I/ATLAS é um artefacto tecnológico de origem alienígena.
“É uma óbvia teoria da conspiração, impulsionada pelo astrofísico Avi Loeb, que insiste nessa hipótese sempre que surge um novo objeto interestelar”, comenta Pedro Machado, acrescentando que o cientista de Harvard e autor do livro “Extraterrestres — O Primeiro Sinal de Vida Inteligente Além da Terra” é a prova de que “no melhor pano cai a nódoa”. “Era um astrofísico conceituado, com um trabalho sólido, mas agora enveredou por esta loucura dos extraterrestres”, critica o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Para este especialista, “é preciso manter sempre o espírito aberto e não negar à partida, mas também não se pode atirar logo para estas conclusões. É preciso ter mais tento na língua e não se pode fazer estas afirmações levianas”. Até porque, distingue, “uma coisa é acreditar seja no que for, outra é deixar que isso afete o trabalho como cientista”.
Com um asteroide batizado em sua homenagem, Pedro Machado tornou-se o mais recente “calhau” português reconhecido pela União Astronómica Internacional. Partilha o pódio com Nuno Peixinho e Pedro Lacerda, completando um trio de titãs de pedra cósmica. “Estamos à espera de um quarto para podermos jogar à sueca”, brinca Peixinho. Sobre o intrigante 3I/ATLAS, mantém o pé na ciência: “Toda a gente gostaria que fosse uma nave, porque seria muito mais interessante. Só que todos sabemos que não é”, desmistifica o investigador do IA e da Universidade de Coimbra.
Apesar de não existir qualquer evidência de origem artificial, o 3I/ATLAS, terceiro visitante interestelar já observado, cativa a atenção da comunidade científica. “A primeira vez foi em 2017, com a passagem do Oumuamua. Toda a gente ficou muito excitada. Tínhamos a confirmação de que aquele objeto só podia ter vindo de fora do Sistema Solar. Era bastante esquisito: parecia um asteroide, mas tinha mais ou menos a forma de um charuto. Era muito comprido e muito estreito”, recorda o especialista. Dois anos depois surgiu um segundo intruso cósmico: o 2I/Borisov. Diferente do anterior, tratava-se de um cometa proveniente de outro sistema planetário. “Assim que foi detetado já se percebia que tinha atividade cometária, uma vez que já possuía a cabeleira típica de um cometa”, relembra Nuno Peixinho.
Esta sexta-feira, 19 de dezembro, o 3I/ATLAS alcança o ponto de maior aproximação à Terra. Calma. Nada tema. Não é preciso acumular alimentos ou papel higiénico na cave. O fim não está próximo; o objeto interestelar não é um cavaleiro do Apocalipse. Nunca esteve tão perto de nós, mas, acredite, o Espaço tem mesmo muito espaço. Passará a cerca de 270 milhões de quilómetros — quase o dobro da distância entre a Terra e o Sol. Mesmo assim, o visitante permanece esquivo. O seu brilho é ténue, e os telescópios amadores dificilmente o conseguem captar. Para ver o 3I/ATLAS é preciso equipamento robusto e céu realmente escuro: um pontinho discreto, que revela uma coma ligeira, mas sem a grande cauda que nos habituámos a admirar em cometas próximos do Sol. “Passou longe e de forma muito rápida, não ganhou atividade cometária fora do normal”, nota Nuno Peixinho.
Intruso do centro da galáxia
A 1 de julho de 2025, o telescópio ATLAS, no Chile, parte de uma rede dedicada a rastrear objetos potencialmente perigosos para a Terra, detetou o terceiro objeto interestelar, ainda a uma distância de 670 milhões de quilómetros do Sol, dentro da órbita de Júpiter. Estes telescópios “são como radares” e “apanham tudo o que mexe, mesmo a velocidades impressionantes”, explica Nuno Peixinho. O 3I/ATLAS circulava inicialmente a 61 km/s (aproximadamente 220 mil km/h) e, puxado pela gravidade do Sol, acelerou para 68 km/s (cerca de 245 mil km/h) no periélio, a sua passagem mais próxima do astro-rei.
Mover-se a esta velocidade dentro da localidade do Sistema Solar fez com que as autoridades científicas, incluindo várias agências espaciais, começassem imediatamente a seguir o vagabundo cósmico. “Por vir em excesso de velocidade apanhou logo uma multa. Vai ficar com muitos pontos na carta depois desta. Não volta a passar por aqui, certamente”, graceja Pedro Machado. Mas o humor sublinha um ponto essencial: a velocidade extraordinária foi justamente a pista que permitiu perceber que o objeto veio de outra região da galáxia.
“Para ter uma velocidade tão alta é porque não vem de dentro do Sistema Solar”, afirma Nuno Peixinho. “Não veio, nem por sombras, de estrelas próximas [do Sol]. As velocidades das estrelas próximas da nossa são muito mais baixas, não chegam nem perto dos 60 km/s”, assegura Pedro Machado, acrescentando que o 3I/ATLAS “veio do disco fino ou do disco denso” da Via Láctea. “É um visitante de outros mundos, vindo do centro da galáxia há muitos e muitos milhões de anos”, realça o astrofísico.
Outro dado curioso é precisamente a idade deste objeto. Estima-se que o 3I/ATLAS seja mais antigo do que o próprio Sistema Solar, formado há 4,6 mil milhões de anos. “É um fóssil de outro sistema planetário. Isso é fantástico”, salienta Nuno Peixinho. Para Pedro Machado, trata-se de uma “autêntica cápsula do tempo” e “analisar este corpo é fundamental para compreender a história de outros sistemas planetários”. Recolher o máximo de dados sobre este objeto interestelar permite perceber como outros rebanhos de planetas se formaram e evoluíram em torno de estrelas diferentes do Sol. “É uma ocasião de ouro para estudar e comparar o nosso Sistema Solar com um sistema muitíssimo distante do nosso. As leis da física são as mesmas em todo o Universo, mas há depois uma grande diversidade nos caminhos que a evolução segue”, nota Pedro Machado. No fundo, sintetiza, corpos como o 3I/ATLAS são uma janela aberta para uma “visão mais profunda de como funcionam as fábricas de fazer planetas”.
“Para ter uma velocidade tão alta é porque não vem de dentro do Sistema Solar”, diz Nuno Peixinho. “É um visitante de outros mundos, vindo do centro da galáxia há muitos milhões de anos”A trajetória do 3I/ATLAS também revela a sua natureza interestelar. “As coisas que vêm de fora do Sistema Solar, em vez de fazerem uma órbita fechada e elíptica, nem sequer fazem uma parabólica. Fazem mesmo uma hipérbole”, detalha Nuno Peixinho. “Aquilo vem do infinito, passa aqui e volta para o infinito.” O objeto parece mover-se praticamente alinhado com o plano em que os planetas orbitam o Sol, o que o torna ainda mais singular, uma vez que os cometas costumam apresentar órbitas extremamente inclinadas. “É raro, mas não é uma anomalia, como diz Avi Loeb”, comenta Pedro Machado. “Os planetas do Sistema Solar formaram-se e estão todos alinhados como azeitonas numa pizza, no mesmo plano, a que se chama eclíptica”, esclarece o astrofísico. “Os resquícios foram atirados em todas as direções. Por isso é que os cometas da manada do Sistema Solar podem vir de todas as direções”, complementa. Só que o 3I/ATLAS, continua Pedro Machado, apresenta uma trajetória que “parece quase retilínea e não encurvada”, o que, associada à sua velocidade, permite concluir que “não pertence ao nosso bairro”.
Surpresas escondidas
Mas, afinal, o que é o 3I/ATLAS? É um cometa interestelar, à semelhança do 2I/Borisov, mas com traços que o distinguem claramente dos cometas do Sistema Solar, tanto na composição química como no comportamento. “Um cometa é um corpo feito de gelo sujo. São compostos essencialmente de água e poeira, mas também têm muito ferro, silício e outros elementos na sua composição”, esclarece Pedro Machado, sublinhando que cada detalhe revela a história da região do Cosmos onde nasceu.
Observações do Hubble e do James Webb destacaram características químicas pouco comuns. “Começou a ter atividade cometária muito mais longe do Sol do que os nossos cometas. E isso aconteceu por uma razão muito simples: foi confirmado, através de um estudo espetroscópico efetuado pelo James Webb, que a sua composição tem muito mais dióxido de carbono do que água. O que contrasta com os nossos cometas, muito mais ricos em água”, observa Pedro Machado. E, como “o dióxido de carbono tem uma temperatura de sublimação muito mais baixa do que a água, isso permite perceber porque é que o 3I/ATLAS ligou os ‘motores’ muito mais cedo do que o expectável”, fundamenta o astrofísico e investigador do IA. Além disso, continua, “este objeto interestelar também tem muito mais níquel do que ferro”.
Segundo Nuno Peixinho, os vários instrumentos utilizados para observar o 3I/ATLAS revelam contrastes que o tornam ainda mais singular. “Tem muito mais dióxido de carbono do que água — cerca de oito vezes mais CO2 do que gelo de água. Nos cometas que temos estudado, sobretudo os periódicos que passam regularmente pelo Sistema Solar interno, essa diferença é muito mais baixa”, afirma o especialista na caracterização de asteroides, cometas e objetos transneptunianos.
As surpresas continuam quando se observam os metais: “Nos gases que conseguimos medir observou-se níquel e muito pouco ferro. Nos cometas que conhecemos, sempre que se observava níquel encontrava-se também ferro. Este tem níquel e quase não tem ferro. Certamente que agora alguém vai estudar que cenários podem levar à formação de uma região em torno de uma estrela onde haja níquel sem ferro. Isso é bastante estranho”, admite Peixinho. Mas sublinha, com a serenidade de quem olha para o Universo com fascínio: “As diferenças é que tornam estes visitantes interestelares verdadeiramente interessantes. Se fossem exatamente iguais, teriam interesse porque confirmariam que lá fora é tudo como aqui — mas, sendo diferentes, tornam-se ainda mais cativantes.”
Visualmente, o 3I/ATLAS também não dececiona. A coma, a nuvem de gás e poeira que envolve o núcleo, começou a formar-se cedo, e a sua coloração ligeiramente avermelhada denuncia a sua química distinta. “As caudas de poeira dos cometas são geralmente esbranquiçadas, mas a do 3I/ATLAS é ligeiramente avermelhada. Isso tem a ver com a sua composição química diferenciada”, justifica Pedro Machado. Para Nuno Peixinho, estes detalhes são uma confirmação da diversidade da Natureza: “Isso demonstra que, afinal, não é assim tão difícil formar objetos como os que temos aqui e que não é preciso que um sistema seja exatamente igual ao nosso para produzir planetas, cometas e asteroides.”
Quanto ao tamanho, o 3I/ATLAS mantém o seu ar enigmático. A incerteza é grande, fruto da densa coma que envolve o núcleo e impede medições diretas. “A margem de erro vai dos 300 metros aos 6 quilómetros. O problema do tamanho é que, enquanto o cometa tiver a cabeleira, não estamos a ver diretamente o núcleo sólido. Está tudo envolto em poeira. É como tentar ver um navio no nevoeiro: só vemos o nevoeiro, não sabemos o tamanho do navio”, explica Nuno Peixinho.
Imagem do Oumuamua, o primeiro objeto interestelar alguma vez identificado, e representação da trajetória hiperbólica do 3I/ATLAS
NASA
Mas, mesmo que o 3I/ATLAS tenha alguns quilómetros de diâmetro, isso em nada impressiona. “Está na média dos cometas que observamos por aqui, que são sempre objetos dessa ordem de grandeza. Chegar até uma dezena de quilómetros é comum”, conclui Peixinho, para quem o 3I/ATLAS, mesmo com as suas peculiaridades químicas e visuais, se enquadra harmoniosamente numa diversidade maior de corpos celestes que a ciência permite conceber.
Um dos pontos em que os teóricos da conspiração mais têm insistido é numa suposta anticauda que o 3I/ATLAS teria formado. Na realidade, o fenómeno é conhecido na astronomia: as caudas dos cometas costumam apontar para o lado oposto ao Sol, empurradas pela pressão da radiação solar, mas há situações em que uma pequena fração de partículas maiores, distribuídas ao longo da órbita, cria a ilusão de uma cauda projetada para a frente. Como explica o astrónomo Nuno Peixinho, “durante algum tempo, o 3I/ATLAS conseguiu ter partículas que conseguiam sair com velocidade suficiente para não serem logo empurradas para trás e fez um bocadinho de cauda para a frente. Surgiram logo vozes a dizer que era um efeito esquisito para um cometa”. Nada de anómalo, garante o astrofísico: “É um fenómeno conhecido, embora não aconteça muitas vezes. Mas, acima de tudo, é um problema de perspetiva. A cauda do cometa espalha-se e faz uma grande curva. Em certos momentos, dependendo da posição da Terra em relação ao objeto, conseguimos ver um bocadinho da cauda à frente do cometa, embora geometricamente ela esteja para trás.”
Outro fator que tem dado fôlego às narrativas paralelas são as oscilações na trajetória e na velocidade, que muitos leem como indícios de que o 3I/ATLAS não seria um visitante puramente natural. Mas essas variações têm explicação científica. Como explica Pedro Machado, “as mudanças rápidas de direção e de velocidade do corpo são explicadas muito simplesmente com os pés na ciência”. “O 3I/ATLAS tem muito gelo de dióxido de carbono e não é homogéneo. Isso significa que há zonas do núcleo que começam a sublimar, provocando um efeito semelhante a um jato de um avião.” E conclui: “Isso vai empurrando o corpo mais para a esquerda ou mais para a direita em função destas ejeções que parecem jatos.”
A navalha de Ockham
E como é que um objeto que se formou ao redor de outra estrela, numa região próxima do centro da galáxia, se deslocou até à periferia da Via Láctea? Ao que tudo indica, foi expulso. Não por mau comportamento, mas por causa das companhias. A interação gravitacional com planetas massivos no seu sistema de origem lançou-o numa viagem que atravessa a galáxia. O mesmo acontece no Sistema Solar. “Júpiter, por ser tão massivo, foi o principal responsável por empurrar cometas e asteroides para fora do Sistema Solar”, explica Peixinho, descrevendo a técnica de assistência gravitacional, também conhecida como efeito de fisga. “Usa-se a força gravitacional de um planeta para acelerar um objeto. É um mecanismo que usamos constantemente para lançar sondas espaciais e conseguir chegar onde queremos com o mínimo de combustível possível”, explica o investigador do IA e da Universidade de Coimbra. Um exemplo disso é a Voyager 2, que já saiu da heliosfera e adentrou no espaço interestelar. “Foi lançada da Terra a 38 km/s, o que não seria suficiente para escapar do Sistema Solar, mas estava tudo calculado: quando passou perto dos gigantes gasosos — Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno — foi sendo acelerada a cada aproximação. Ganhou assim o empurrão necessário para atingir a velocidade suficiente para escapar definitivamente do Sistema Solar”, recorda Nuno Peixinho.
Nos primórdios do Sistema Solar, explica o astrofísico, também “muitos cometas e asteroides foram empurrados pela interação gravitacional de Júpiter”. Isso quer dizer que resquícios da formação do nosso quintal vagueiam há milhares de milhões de anos pelo espaço interestelar. “Se existir alguma civilização noutro planeta que também pratique astronomia, poderão estar a observar um cometa ou asteroide oriundo do nosso Sistema Solar. Podem estar também a observar. Também podem ter o seu próprio Avi Loeb e especular que se trata de uma nave”, atira Nuno Peixinho, entre risos.
Embora se trate apenas do terceiro objeto interestelar confirmado a cruzar o Sistema Solar, isso não quer dizer que estes peregrinos sejam raros. “Agora descobrimos estes corpos porque temos tecnologia que nos permite detetar quase tudo. No passado, estes visitantes também por cá passaram, só que não os conseguíamos ver”, expõe Nuno Peixinho. “Se em oito anos já vimos três, provavelmente podem passar entre dois a quatro em cada década”, estima o cientista.
Depois de passar pelo Sistema Solar, o 3I/ATLAS vai continuar a sua jornada solitária. “A passagem por aqui vai causar uma pequena perturbação [na sua trajetória], mas não vai ficar com marcas indeléveis. A variação da velocidade e da direção são quase irrisórias”, comenta Pedro Machado. “Vamos deixar uma pequena marca no 3I/ATLAS, mas não será um amor que ficará perdido para o resto da eternidade”, complementa o astrofísico. Até porque, mesmo que se tratasse de uma nave espacial, o 3I/ATLAS nunca pareceu muito interessado na Terra. Passou bem perto de Marte, o planeta vermelho, mas não fez questão de se aproximar muito do pálido ponto azul onde vivemos. “Se existe toda a tecnologia de enviar uma nave para o Sistema Solar, estranhamente não está a aproximar-se da Terra, o planeta que mais interessaria. Decidiram vir cá por acaso?”, questiona Nuno Peixinho.
O 3I/ATLAS parece um cometa e comporta-se exatamente como tal. “Nos EUA é frequente a polícia andar a cavalo, e os americanos dizem muito isto: ‘Se estou na cidade e ouço cascos, obviamente são cavalos. Não vou pensar que é uma zebra’”, brinca o astrofísico. A analogia, além de divertida, traz à memória a velha sabedoria do princípio filosófico da navalha de Ockham: entre múltiplas explicações, a mais simples é geralmente a correta. Não há necessidade de construir intrincadas fantasias de naves alienígenas ou conspirações extraterrestres quando a física, elegante e rigorosa, descreve a Natureza na perfeição. “A ciência ajuda-nos a desmistificar as coisas, mas não deixa de ser fantástica e espetacular”, conclui Pedro Machado.
https://expresso.pt/semanario/revista



