August 01, 2026

Uma pedrada no charco

 


Os “teóricos” da educação também são a favor da inovação 

Carlos Ceia 
Professor Catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa

Esta ruidosa cortina de fumo tecnológica abafa convenientemente a falta de discussão sobre um problema estrutural muito mais corrosivo: a continuada deriva facilitista dos exames portugueses. Sempre que o poder político decide impor uma mudança tecnológica de cima para baixo no sistema educativo, o guião repete-se com uma previsibilidade confrangedora. De um lado, ergue-se o estandarte luminoso da “inovação”; do outro, atira-se para a fogueira mediática quem ouse questionar o ritmo ou a forma, rapidamente rotulado como Velho do Restelo ou, o insulto supremo nestas andanças, “teórico da educação”. Foi essa a estratégia de defesa do primeiro-ministro na crise da classificação digital dos exames, glosada pelo seu ministro da Educação. 

O debate sobre a desmaterialização e classificação digital em massa dos exames nacionais em Portugal é o exemplo perfeito desta falsa dicotomia. Perante a pressa governativa em migrar um processo de avaliação colossal para plataformas digitais, surgiram vozes do meio académico, pedagógico, civil e sindical a pedir cautela. Não pediram a interrupção do progresso. Não exigiram o regresso à pena e ao tinteiro, nem a recusa cega da tecnologia. Pediram, pura e simplesmente, prudência. Uma prudência que, estranhamente, é logo tratada nos corredores do poder como uma heresia ao progresso. 

Mas que culpa tem a “modernidade” das invocações blasfemas que lhe dirigem? 

O que os apelidados “teóricos” defendem é nada mais do que o elementar bom senso. A classificação de exames nacionais não é um mero teste lúdico; é um processo de altíssima sensibilidade que define o acesso ao ensino superior e a justiça de todo o sistema para dezenas de milhares de jovens. Os países mais desenvolvidos que o fazem há anos não escolheram esse caminho de um dia para o outro. Avançar para uma transição digital abrupta e em massa sem testes de controlo rigorosos, sem a garantia prévia e testada da robustez do software e, sobretudo, sem um plano de contingência claro para o momento em que os servidores falharem, não é arrojo tecnológico, é jogar na roleta russa institucional. 
Os “teóricos” da educação conhecem precisamente estas lições. A investigação em avaliação educativa, em gestão da mudança organizacional e em tecnologias educativas demonstra, há décadas, que as reformas sustentáveis são aquelas que respeitam princípios de experimentação controlada, monitorização contínua e correcção progressiva dos problemas identificados. Ignorar este conhecimento acumulado não é um sinal de coragem política; é um desperdício de evidência científica. 

A transição digital da avaliação é um passo desejável no século XXI. A agilização logística, a segurança no transporte de provas e o cruzamento de dados são argumentos fortes. No entanto, em qualquer organização que leve a sério a sua integridade, uma alteração estrutural desta magnitude far-se-ia por etapas controladas e seguras. Começar-se-ia com projectos-piloto em disciplinas com menos alunos, avaliando a fiabilidade do sistema sob carga, a ergonomia do software para os milhares de professores classificadores e a invulnerabilidade dos dados. Corrigir-se-iam os bugs, afinar-se-iam as redundâncias de rede e os planos B. Só depois, com a segurança validada no terreno, se faria o avanço a nível nacional. Isso, sim, é mudança a pensar no futuro. 

Mais grave ainda, esta ruidosa cortina de fumo tecnológica abafa convenientemente a falta de discussão sobre um problema estrutural muito mais corrosivo: a continuada deriva facilitista dos exames portugueses. Tome-se o caso gritante do exame de Português, minado por critérios de classificação cientificamente discutíveis e por opções de tipologia de provas mais do que duvidosas, desenhadas para inflacionar estatísticas. Quando esta tempestade digital passar e os ecrãs se apagarem, será imperativo avaliar os estragos causados pela deliberada opção por exames que, na prática, nada avaliam. Ao nivelar a exigência por baixo para fabricar sucesso escolar, o sistema atira as suas falhas para a frente, empurrando para o ensino superior a responsabilidade de tentar cauterizar as muitas feridas e lacunas que este modelo produz na formação dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. 

Em Portugal, padecemos frequentemente de uma febre de pseudomodernização. Há uma necessidade voraz, por parte de quem governa, de apresentar vitórias “modernas” e disruptivas para consumo imediato nos telejornais. A digitalização forçada e apressada dos exames serve perfeitamente este propósito: é uma medida de choque, reluzente, que permite reclamar a vanguarda da educação digital europeia em tempo de mandato. 

Defender que o Estado não use as provas de acesso à universidade como cobaia para testes beta de um software implementado à pressa, e que já tinha dado muitos erros no ano anterior na fase de piloto, não é ser reaccionário: é proteger a confiança das famílias nas instituições. Os “teóricos”, neste debate, são apenas os adultos na sala, a lembrar que construir uma casa pelo telhado, por muito que as telhas tenham ecrãs tácteis, continua a ser uma péssima ideia. A verdadeira modernização não se decreta por vaidade política; constrói-se com segurança, método e, acima de tudo, competência.

Público

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