August 21, 2026

De facto, porque é que vestiram a mulher de bróculo?

 

Como diz um comentador do vídeo, isto acontece muito neste ópera. E este cenário pavoroso que nada tem que ver com a magia infantil desta ópera? Também acontece muito estas produções modernas que tratam o público como atrasados mentais. Pensam que não podem representar as óperas no contexto da sua época e ter de as transportar para ideias e contextos contemporâneos. Isto irrita porque muitas vezes estraga a experiência da ópera e afecta negativamente o canto.


Não me esqueço de uma Lucia di Lammermoor que fui ver ao São Carlos há um par de anos em que puseram a Lucia a cantar a ária mais difícil e mais importante da peça dentro de um automóvel mini em palco, toda apertada e vestida com um fato de treino de licra que vincava todos os refegos da senhora. Ele tinha dificuldade em cantar ali toda a apertada e a visão desde a plateia era uma falta de respeito para com ela. A encenação era toda absurda como esta aqui onde puseram a Rainha da Noite vestida de bróculo num cenário horroroso. Para quê?

Há uma versão do Tannhäuser no YouTube que só pode ser ouvida e não vista. O encenador pôs a ópera a passar-se na Alemanha nazi com os cantores vestidos com uniformes das SS... Quer dizer, Wagner morreu no século XIX, antes dos nazis. A ópera é passada no tempo dos cavaleiros medievais e Tannhäuser é um cavaleiro preso na gruta de Vénus com as suas ninfas, sirenes e bacantes em orgias a desejar a salvação. Apaixona-se, vai em peregrinação religiosa, depois volta para Vénus... enfim, que tem isto que ver com os nazis? Nada. É uma ópera baseada na poesia trovadoresca medieval misturada com mitologia e toda a atmosfera musical da ópera é um vaivém entre a fantasia erótica e o amor cristão. Estas parvoíces estragam-me a experiência da ópera e acabo a ouvi-la de olhos fechados para que a irritação não estrague a experiência. Lembro-me de ver há um par de anos um Trovador, em Lisboa, que começava com o tenor todo nu de costas para o público, de pé dentro de uma bacia, com uma mulher a lavar-lhe o rabo... uma coisa de mau gosto e sem nenhuma relevância para a ópera.

Aqui fica uma versão do Tannhäuser sem brócolos nem nazis, legendado em português e superiormente cantado. Com Johan Botha, um dos melhores tenores wagnerianos contemporâneos (morreu no ano anterior a esta gravação com um cancro). Tive a sorte de o ouvir cantar esta mesma ópera há uma quinzena de anos aqui em Lisboa, uns poucos anos antes desta performance. Electrizante e absolutamente inesquecível.


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