August 22, 2026

A propósito de descobrir erros nos juízos


De férias, lembrei-me de escrever não sobre os políticos, mas sobre alguns erros que cometemos a avaliar os políticos.
O primeiro é a confusão entre correlação e causalidade. (...)
Como aquilo que avaliamos politicamente é resultado de múltiplas variáveis, o risco de encontrar correlações e de as confundir com causalidades é grande. 
Isso mesmo também se manifesta noutro erro comum identificado pela psicologia social: o erro fundamental de atribuição. Ao avaliarmos uma determinada situação tendemos a sobrestimar o impacto individual face ao contexto. Queremos atribuir uma face a tudo, identificando o sucesso ou insucesso com os líderes políticos ou empresariais desse tempo quando podem ter sido sobretudo as circunstâncias desse tempo a determinar esses sucessos e insucessos.
Outro erro comum é ignorar probabilidades, fascinados pelas circunstâncias especiais de certos casos concretos. Uma das formas deste erro é o que se designa por negligência da taxa-base. O Miguel é um leitor ávido de Aristóteles. É mais provável que ele seja um professor do ensino secundário ou um filósofo? Quase todos dirão a segunda, mas a primeira é estatisticamente bem mais provável: em Portugal o número de professores do secundário é muito maior do que o de filósofos.

Miguel Poiares Maduro, Como avaliar políticos (Expresso - excertos)
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Fui dar com este artigo sobre "erros que cometemos a avaliar os políticos." Fala de 3 erros: confundir correlação e causalidade; o erro de atribuição; e o erro de ignorar probabilidades por negligência da taxa-base
Embora o erro de atribuição tenha muito que se lhe diga posto nestes termos em que o autor o põe (logo a começar pela fundamentação na psicologia social), o que me despertou mais a atenção foi o 3º erro, ignorar probabilidades por negligência da taxa-base, que me parece ter ele próprio um erro de atribuição, embora inverso.

O autor dá este exemplo: 
O Miguel é um leitor ávido de Aristóteles. É mais provável que ele seja um professor do ensino secundário ou um filósofo? Quase todos dirão a segunda, mas a primeira é estatisticamente bem mais provável: em Portugal o número de professores do secundário é muito maior do que o de filósofos.
Ao ler o exemplo, perguntei-me, 'mas porque é que ele não disse, «É mais provável que ele seja um professor de filosofia ou um filósofo?» e, em vez disso, disse, «um professor do ensino secundário?» 

Resposta óbvia: ele atribui aos professores de filosofia do ensino universitário o título de filósofos. Mas porquê? Por causa do contexto académico. No entanto, se as probabilidades de um professor do ensino secundário ser um filósofo são muitíssimo baixas, as de um professor universitário o ser não são assim muito melhores. 
O autor do artigo assume que o contexto, neste caso a universidade, faz deles filósofos. Portanto, parece-me um erro de atribuição inverso (o contexto e não o indivíduo é que motivaram a atribuição) baseado num preconceito positivo, infundado, acerca dos professores universitários (talvez por ele próprio ser um professor universitário?).
O preconceito é óbvio. 
Vejamos: um professor de literatura universitário não é necessariamente um escritor/autor de literatura, apesar de a estudar e escrever artigos sobre ela. Um professor de história não é necessariamente um historiador, apesar de a estudar e escrever artigos sobre ela.
Se se tira um curso de psicologia é-se psicólogo, se se tira um curso de sociologia é-se sociólogo, se se tira um curso de medicina é-se médico, etc. Nestes cursos, com a licenciatura, fica-se pronto para a prática da ciência em questão e daí a atribuição do título. 
Porém, nas ciências humanas, ao contrário das ciências sociais e das ciências da natureza, o estudo não chega para que alguém seja um autor. É preciso mais: é preciso criar uma obra.
É verdade que nos dias que correm há esse hábito de as pessoas chamarem filósofo a qualquer um que ensine filosofia numa universidade ou que tenha escrito um livro de auto-ajuda e, desde logo, a si mesmos, mas a maioria, nem sequer pensadores são. São divulgadores, às vezes, meros repetidores do pensamento de outrem. O que não tem mal algum, estão a ensiná-lo, mas isso não é ser filósofo.
Savater, que é um pensador com obra publicada de relevo na área da ética, sobretudo para jovens, de cada vez que o apresentam como filósofo, corrige e diz, 'não sou um filósofo'. 
Ser filósofo é extraordinariamente difícil e nem sequer falo dos grandes filósofos que criaram filosofias que alteraram as estruturas com que se pensa e age no mundo e cujo pensamento ainda hoje é fresco e válido em muitas áreas, como Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, etc., mas até de grandes pensadores influentes como Sartre. É tão difícil o pensamento filosófico que houve e há muito poucos filósofos na história da humanidade, apesar de muita gente escrever sobre filosofia.
Também há muita gente a escrever textos poéticos mas, em meu entender, são poucos os poetas - apesar de serem em número muito maior do que o dos filósofos.
Mas nessa atribuição -ser filósofo-, como em outras coisas, guio-me muito pelos grandes filósofos e por isso, talvez tenha a fasquia muito alta, imitando nisso Savater. 
Achei piada, descobrir um erro de atribuição na descrição de um erro de probabilidade, baseado num preconceito positivo infundado (do qual beneficio, inversamente, indirectamente, constantemente 🙂)

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