July 15, 2026

Temos que separar a arte do artista. E ainda, a mentalidade de vítima

 

Em 1985, numa entrevista à revista Jet, Miles Davis disse que 

"se alguém me dissesse que só me restava uma hora de vida, passá-la-ia a estrangular um homem branco. Fá-lo-ia bem e devagar.»

Quando lhe pediram para explicar o porquê o que ele disse é o que aqui se ouve: já esteve em muitas situações embaraçosas por ser negro e quando entra no restaurante sente-se afectado e procura uma saída. Isto é o que chamo mentalidade de vítima. 

Não que seja mentira o racismo e que ele o tenha sentido e que vivia no meio de gente que o sentiu e viveu na pele, mas se pusermos as coisas em perspectiva, a quantidade de mulheres que desde o início dos tempos é vítima de sexismo (que é equivalente ao racismo em termos de atitude), agressão, violência, humilhação e discriminação, esclavagismo, interdição de falar, de ser dona do seu próprio corpo, de viver, não tem comparação. Qual é mulher que dentro e fora de restaurantes, na rua e em qualquer lado em que não esteja no meio de muita gente, não observa as saídas possíveis? Quantas vezes todas as mulheres têm que improvisar estratégias face a certos homens imediatamente sentidos como um perigo? É uma situação comum e não esporádica.

No entanto, não vejo as mulheres em geral, nem aquelas em particular que foram vítimas de violações e tortura, odiarem os homens e andarem por aí a dizer que o que mais queriam era matar um homem. Em geral o que querem é que eles se afastem e as deixem em paz. 

Miles Davis fala como se só ele e os negros tivessem problemas de traumas de racismo, discriminação ou violência. Ele nem tem a noção de que essa violência de querer matar um branco mostra a razão pela qual as mulheres precisam de estratégias na presença de muitos homens. Só tem noção de si como vítima e nenhuma noção dos outros que também são vítimas. Só ele sofre. 

Esta mentalidade de vítima com desejo de vingança sem propriamente razões a não ser um sentimento de raiva pela discriminação, percebe-se numa fase adolescente da vida, mas num adulto é uma incapacidade. Ele é um homem perigoso e violento que se vê como uma vítima. 

Esta mentalidade de ter direito a privilégios de violência ou de pedidos de desculpa do mundo por sofrer é causa de grandes problemas que impedem soluções. Admiro todos aqueles que ultrapassaram essa mentalidade-prisão e têm outra maneira de se construir e vêem os racistas, não como uma ofensa a si mesmos mas como uma incapacidade ou deficiência dessas pessoas. É um problema para resolver e não um agravo a precisar de assassinatos.

É por isto que temos que separar a arte dos artistas. Adoro o Miles Davis músico, mas como homem é limitado e perigoso. Há milhões de pessoas como ele, presas à ideia de que o mundo lhes deve, que só eles sofrem e que isso lhes dá o direito de violência sobre os outros.


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