July 23, 2026

Há muitas pessoas nas escolas a fazer muito bom trabalho completamente subvalorizado

 

Nos últimos anos temos tido na escola um colega como Coordenador do Projecto Cultural de Escola que fez um trabalho excelente, não apenas na qualidade, mas também na quantidade de oportunidades que criou para alunos e professores poderem identificar-se com iniciativas e colaborar activamente. Estou a falar de todas os meses haver várias iniciativas, que iam desde exposições temáticas, a apresentação de trabalhos audiovisuais de alunos, comemoração de datas, sejam políticas como o 25 de Abril ou natalícias ou do nascimento de um escritor, um poeta, um pintor, palestras, saraus de música... um constante aproveitamento da energia criativa dos alunos e dos professores que, mesmo não estando directamente envolvidos nos projectos, era impossível não vê-los e ser tocado por eles. Todas as semanas recebíamos uma newsletter com as novidades - o que se estava a fazer, o que estava programado, onde podíamos colaborar com as turmas, etc.

O colega em questão, um professor do grupo de artes com uma licenciatura e um doutoramento da ESBAL, escolhia um tema para orientar as acções do Projecto Cultura em cada ano. No ano do Camões foi o Camões, claro. Houve um ano, por exemplo, em que o tema era conhecer Portugal e organizou visitas a vários lugares e os alunos que iam faziam documentários em vídeo sobre os lugares, a sua história, a arte, os costumes, etc., que depois apresentavam na escola. Acho que foi nesse ano que organizou, em conjunto com uma outra colega que tem um Clube de Cinema, um ciclo sobre realizadores. Essa iniciativa foi acompanhada por uma exposição espectacular à volta desses filmes, num átrio da escola por onde todos passamos. Isto tudo sem orçamento. É ele quem pede a colaboradores para participarem graciosamente e arranja parcerias e por vezes são os pais que também investem. Um trabalho gigantesco. 

Este ano vai sair desse trabalho e a escola anda à procura de outro professor que queira assumir o lugar. Foi assim que soube, pelo anúncio do cargo estar vago, que aquele cargo tem apenas 2 horas de redução no horário. Quando li nem queria acreditar. Pensava que o colega tinha o horário todo ou pelo menos dois terços do horário. Na quarta-feira passada encontrei-o na vigilância de exames e perguntei-lhe se era mesmo verdade que só tinha duas horas para aquele trabalho. Ele confirmou, disse-me que tinha 8 turmas (!) já com a redução de duas horas e que é uma definição do ME. 

Ok, está explicado porque é que, em geral, os professores que ocupavam este cargo anteriormente faziam uma iniciativa por período ou assim. Como é possível ter 8 turmas e sobrar energia para um cargo destes...? Só a escrever a newsletter gasta as duas horas. Eu não era capaz. Acho que vai ser difícil arranjar um substituto e muito menos do mesmo nível. Quem é que espera este sacrifício dos professores?

Há muitas pessoas nas escolas a fazer muito bom trabalho completamente subvalorizado ou até desvalorizado e faz-me pena o desaproveitamento das pessoas. É só isto que queria partilhar.


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