July 08, 2026

Exames - tudo parece amador e imprudente




Muitas empresas metidas no processo, sendo a principal uma micro-startup. Vão sendo chamadas empresas para corrigir erros de outras que foram chamadas anteriormente, que não foram capazes de lidar com o volume gargantuesco da missão. Como é possível garantir sigilo e rigor no meio desta confusão? Há muita coisa a corrigir neste processo. Muita mesmo. E convinha que isso fosse feito por alguém competente e interessado na qualidade da escola pública.


Plataforma de classificação dos exames foi escolhida em 2017: programadores “eram excepcionais e muito rápidos”

O nome Blat foi revelado pelo ministro. Foi quem fez uma das plataformas que têm dado problemas. Ex-presidente do Iave explica porque a escolheu em 2017. Lista de clientes retirada do site da empresa.

"Se nos dissessem que iríamos nascer num quarto da casa dos pais dos nossos fundadores, a trabalhar remotamente, e hoje em dia teríamos o nosso próprio estúdio, com uma equipa que duplicaria a cada ano e mais de 50 clientes, não teríamos acreditado. Mas reza a história que foi exactamente isso que aconteceu." Assim começava até esta terça-feira à tarde a apresentação da Blat Studio, no seu site. Trata-se de uma empresa que tem como propósito "reinventar as bases do marketing digital", que explicava que tem entre os seus clientes partidos políticos (PS e PSD), empresas como a Navigator ou o Santander, universidades, Parlamento Europeu e também o Instituto de Avaliação Educativa (Iave) — organismo que deu lugar no ano passado ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Edqua), que coordena os exames nacionais. Ao final da tarde, esta informação tinha sido retirada do site.

A Blat foi uma de várias empresas que desenvolveram soluções ou forneceram serviços para a digitalização da classificação das provas do ensino básico e secundário — de que tanto se tem falado nas últimas semanas. Tal como o PÚBLICO noticiou no sábado, só desde 2023 foram publicados no Portal Base (que agrega informação sobre contratos públicos) 16 contratos relacionados com a avaliação digital, no valor de mais de sete milhões de euros, a que se soma mais um, publicado nesta segunda-feira, de 1,3 milhões.

Com a estreia, este ano, da classificação digital das provas do secundário, que também contam para o acesso ao ensino superior, e as falhas sucessivas que marcaram o início da classificação (que devia ter começado a 23 de Junho), o tema ganhou relevância. Mas o ministério de Fernando Alexandre foi sempre recusando responder às perguntas sobre que entidades estavam envolvidas no novo sistema e quais as falhas em concreto que levaram àquilo que tem sido descrito como "o caos nos exames".

E assim foi, até esta segunda-feira. Numa visita ao centro de digitalização, para a qual foram convidados jornalistas, o ministro Fernando Alexandre e o secretário de Estado Adjunto e da Educação Alexandre Homem Cristo explicaram, finalmente, que nos últimos dias se registaram problemas em duas plataformas distintas: uma do próprio Eduqa; e outra, desenvolvida por uma empresa que colabora com o ministério "desde 2018".

A primeira plataforma é aquela que "recebe" as provas já digitalizadas, sendo estas "partidas" item a item (resposta a resposta). Esses itens são depois "carregados" para uma outra plataforma, na qual são distribuídos pelos professores classificadores e classificados.

Na plataforma que o ministério diz ser do Eduqa, houve "questões", como "provas mal digitalizadas". Na segunda, externa, houve “questões de programação”, acrescentaram ministro e secretário de Estado, quando questionados sobre os erros que continuavam a ser reportados, 13 dias passados desde o início do período de classificação das provas. Depois de alguma insistência, o ministro disse que a empresa que desenvolveu a segunda plataforma se chamava Blat. O secretário de Estado acrescentou: "Blat Studios. Acho que é assim o nome, pelo menos do ponto de vista formal dos seus registos."

Uma micro-empresa.

A primeira adjudicação é de 2017: segundo o Portal Base, o ajuste directo, no valor de 30.375 euros, foi assinado com a então Blatstudio — MAF Serviços, Lda. Objecto do contrato: "Construção do módulo de classificação de provas práticas e upgrade à classificação de respostas e administração do SCOI (Sistema de Classificação Online do Iave)". O primeiro teste-piloto da plataforma aconteceu em 2018, com uma amostra de provas de aferição feitas digitalmente por alunos do 8.º ano, recorda ao PÚBLICO Helder Sousa, ex-presidente do Iave, que saiu em 2019 do instituto. "Correu bem, o sistema foi muito apreciado pelos professores, foi sendo actualizado e chegou a ter uma versão 4."

"O SCOI era uma plataforma exclusivamente para classificação" de provas feitas pelos alunos digitalmente, continua Helder Sousa, que o PÚBLICO contactou com o objectivo de perceber, desde logo, se se trata da mesma plataforma em uso este ano.

O ex-presidente do Iave diz que, em rigor, não sabe, uma vez que há muito deixou o Iave. Além de que essa plataforma foi pensada para a classificação de provas digitais, e as do secundário são respondidas em papel e só posteriormente digitalizadas. "Mas a plataforma de classificação disponibiliza imagens das respostas, por isso deve aceitar imagens provindas quer de uma plataforma digital de testes, realizados nesse formato, ou de uma fonte que gere imagens digitalizadas a partir do papel."

Certo é que o ex-dirigente defende a escolha que o Iave fez na altura: "[A Blat] era uma micro-empresa, uma startup, com pessoas com muita qualidade, com programadores excepcionais, muito bons, muito rápidos e com grande capacidade de resposta." Além disso, prestavam serviços a um preço abaixo do praticado a nível internacional.

O SCOI previa uma série de funcionalidades, como saber em tempo real a percentagem de itens classificados, ou permitir que os supervisores dos classificadores pudessem comunicar com cada professor do seu grupo, como se lê no contrato então assinado pelo IAVE.

O sistema foi testado noutros projectos e teve sempre bom feedback de todos os envolvidos, diz Helder Sousa. "Os professores classificadores reduziram bastante o seu tempo de trabalho, não precisavam andar a preencher folhas Excel, os itens podiam ser reclassificados por outros professores e se houvesse uma grande disparidade de resultados podia entrar um terceiro professor. Uma vez classificados os itens desapareciam da área do professor, mas no dia seguinte podiam aparecer mais para classificar, os professores sabiam que tinham de ir monitorizando a sua área. É um pouco como um médico nas urgências — se está de serviço, pode ser chamado", explica. (não, não é. Um médico na urgência, quando chega a hora de sair, sai e não lhe enviam doentes para casa. Também não tem prazo fixo para entregar o serviço, digamos assim, tanto pode levar um dia a tratar um doente como dez e o doente até pode falecer. Depende do doente e da sua doença. Um classificador, supondo que trabalha das 9 da manhã até às 6 da tarde, quando sai do trabalho, não sabe que lhe enviaram mais mais 80 testes para classificar, dentro do prazo fixo de entrega, que não é alargado por causa desse acréscimo de trabalho. Logo, o ME dá como certo que o professor se mantém 24 horas por dia ao serviço, 7 dias por semana, não vá caírem mais umas dezenas de testes na véspera de ter de os entregar, avaliados e classificados)

"Há enormes vantagens no sistema de avaliação digital", defende. "Obviamente que é lamentável o que está a acontecer este ano, mas também acredito que são erros de crescimento e que vão servir para aprender e melhorar no futuro", diz Helder Sousa.
Salão de cabeleireiro e design gráfico

A Blatstudio — MAF Serviços, de 2017, que aparece como tendo um código de actividade económica que inclui áreas tão diversas como “salões de cabeleireiro, instituto de beleza e estética, serviços de design gráfico, edição de SIM,branding, desenvolvimento de produto” é a Blat Creative Powerhouse, Lda, com quem o Iave assinou, a 13 de Abril de 2023, um novo contrato para "actualização do sistema de classificação online do Iave — SCOI"? Nem a Blat Studio, nem o ministério deram respostas. Os números de identificação fiscal de uma e de outra empresa não são iguais.

A Blat Creative Powerhouse, Lda detém hoje a Blat Studio. Com sede em Lisboa, nasceu há seis anos, tem actividade económica nas áreas do "design, comunicação (gestão de redes sociais), desenvolvimento de actividades tecnológicas, produção áudio, produção vídeo, consultoria (em comunicação e desenvolvimento)". Emprega 14 pessoas. O valor do contrato com o Iave em 2023, por ajuste directo, e já com Luís Santos como presidente, é de 19.080 euros.

​Explicava o caderno de encargos de 2023: "Considerando a massificação da classificação das provas de aferição a realizar em 2023 e o piloto das provas finais é fundamental fazer uma actualização geral do SCOI a ser implementada em Abril de 2023."

"Revisão e actualização da utilização de certificados de segurança; ligação da autenticação à plataforma de classificação e supervisão do IAVE; ligação ao autenticação.gov", eram alguns dos requisitos técnicos a actualizar ou a acrescentar.
8 milhões de euros em três anos

A digitalização da avaliação externa foi uma das reformas previstas no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (2021). Em 2023, quando João Costa era ministro da Educação, foram pela primeira vez realizadas provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos em formato digital.

Em 2024, as provas finais do 9.º ano — ​que, ao contrário das de aferição, valem 30% da nota final da disciplina — deveriam ter sido feitas também em formato digital. Mas o novo Governo decidiu adiar, por entender que não estavam reunidas as condições para que fossem feitas nesse formato. Em 2025, avançaram as provas digitais no 9.º e as provas Moda (que vieram substituir as de aferição) também digitais. Em 2026 avançou a classificação digital de 350 mil provas de mais de 160 mil alunos do 11.º e 12.º anos.

De 2023 até agora, o Iave assinou 17 contratos directamente ligados à avaliação externa, para serviços de consultadoria técnico-pedagógica; plataformas; serviços cloud; equipamentos digitalizadores, no montante de 8,4 milhões de euros (a que se soma ainda o IVA). O maior foi assinado com a empresa Axianseu II Digital Consulting SA, que pertence ao grupo francês Vinci, para que seja desenvolvida uma Plataforma de Gestão do Processo de Aplicação das Provas de Avaliação Externa do Ensino Básico e Secundário, chamada GAEBS, que deverá "substituir todas as plataformas de gestão das provas de avaliação externa actualmente existentes". Tem um valor de perto de 1,5 milhões de euros.

O mais recente foi publicado nesta segunda-feira, no valor de quase 1,3 milhões de euros. Após um concurso internacional foi adjudicado à FSAS Technologies S.L. — Portugal (empresa da multinacional japonesa Fujitsu) serviços que incluem uma "solução de segurança" que deve garantir "o sigilo total relativo às provas e restantes processos e documentos conexos" relacionados com a desmaterialização da avaliação externa.

Helder Sousa mantém-se um defensor da digitalização. Mas nota que uma coisa é classificar digitalmente provas que foram respondidas também digitalmente pelos alunos (era essa a ideia do SCOI); e outra é classificar digitalmente provas que foram feitas em papel. "Digitalizar milhares de provas em papel é kafkiano e aumenta a margem de erro. Mas acredito que se vai resolver. Foi boa a decisão do ministro anunciar ontem [segunda-feira] que os alunos poderão no final consultar as suas provas, é importante a transparência. E não vejo nenhuma razão para que haja alarme social. Se for preciso ajustar dois ou três dias o concurso nacional de acesso ao ensino superior para garantir que tudo está bem, não vejo drama nenhum."

Nem o ministério, nem o Eduqa, nem a Blat responderam às perguntas enviadas por escrito pelo PÚBLICO.

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