July 17, 2026

A transmissão dos grandes épicos gregos

 

Os gregos estão chateados com o filme de Nolan. 

Confesso que ainda não o vi e, se por um lado tenho vontade de o ver (as críticas ao filme são díspares em extremo) por outro, talvez não. O filme foi filmado para ser visto em imax. Quantas salas têm esse tipo de projector? Li em revistas especializadas que ver um filme desses numa sala com um projector digital normal chega a cortar 40% da imagem.

Porém, não é por isso que os gregos estão chateados. 

A Grécia concedeu um subsídio de 6,5 milhões de euros à produção do filme para filmarem em todo o Peloponeso. O Ministério da Cultura grego esteve por trás desta iniciativa. 

A Odisseia é o épico nacional dos gregos. É um dos dois textos fundadores da cultura grega e ocidental. Pois, em todo o elenco importante — Odisseu, Penélope, Telémaco, Helena, Menelau, Agamenon, Atena, Calipso, os pretendentes, Eumeu, Sinon, Tirésias — não há, nem um único grego. Aliás, nem em mais nenhum papel com nome nos créditos.

Sim, a Odisseia já é universal. Mas é grega. Não é americana. A sua mentalidade não é americana.

Durante as filmagens, escritores gregos e cipriotas enviaram cartas abertas à produção com uma única mensagem: Ainda aqui estamos. Somos um povo vivo cuja história nunca deixou de ser escrita.

Conta-se que Nolan quis um filme inclusivo e que por isso, apesar da Odisseia ser um épico grego com 2600 anos em forma escrita, tem representantes de cada minoria: trans, negros, asiáticos, etc. Mas nenhum grego. Nem um.

Foi uma produção de 250 milhões de euros que se utilizou da Grécia, do seu mito e do seu dinheiro. No entanto, não encontrou nenhum espaço para os gregos. Seja o que for isso, não é inclusão. 

Parece ter sido um exercício feito para irritar uma certa direita extremista. Isso, a ser verdade, não torna o filme melhor.

Se Nolan não teve intenção de ser fiel ao espírito e à letra da obra, o que é legítimo, não devia ter-lhe chamado pelo nome que Homero e os gregos lhe deram, A Odisseia. Devia ter encontrado um nome qualquer mais pessoal que não induzisse em erro os espectadores. É que as audiências de hoje, pouco ou nada lêem e muito menos estas obras fundadoras da nossa cultura que deixaram de ser abordadas por influência da educação de esquerda que renega a história do Ocidente e, por isso, não têm termo de comparação e, ao ver o filme, A Odisseia, acreditam estar a ver a verdade da obra. 

Portanto, talvez fosse melhor ficar com as imagens do livro como diz Frederico Lourenço. Acabei há um mês o livro na tradução portuguesa de Frederico Lourenço que fui comparando com a tradução inglesa de Emily Wilson, a primeira mulher a traduzi-la. (há diferenças, sim)

Entretanto, fica aqui um pequeno vídeo que mostra o modo como a Odisseia e a Ilíada eram divulgadas e passavam de geração em geração até chegarem à escrita.

2 comments:

  1. Bom, acabou de me explicar o.motivo por que não verei o filme. Já lá vão mais de 35 anos que passei muito mal numa aula de Cultura Grega, a ser questionado sobre o escudo de Aquiles. O problema é que tinha ido namorar e não tinha lido devidamente o excerto indicado.
    Bom, feito o desabafo, quer a 'Ilíada' quer a 'Odisseia' não têm nada de woke; pelo contrário. São obras datadas num determinado sentido, mas, por outro, está lá tudo o que define o ser humano: amor, ódio, honra, vingança, etc., etc.
    O que disse lembra termos uma Branca de Neve negra.

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    1. Tenho que ver o filme para ajuizar se esse factor quebra a imersão na verosimilhança da obra.

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