June 11, 2026

Uma viagem à cidade dividida

 



Ronald Reagan em Berlim

O Presidente e a Cidade Dividida

Por Jens Schöne
[…]


Reagan e os seus conselheiros tinham reconhecido que ele possuía uma importante fragilidade enquanto candidato e que essa teria de ser resolvida antes de avançar para uma nova candidatura presidencial: a sua falta de experiência em política externa. 

No plano interno, o seu mandato como governador tinha-lhe conferido credenciais suficientes, mas, em matéria de política externa, era praticamente desconhecido. 

Por essa razão, foram planeadas duas viagens em 1978, cada uma com vários dias de duração: uma ao Leste Asiático (Japão, Taiwan e Hong Kong), na primavera, e outra à Europa, no final do ano. O principal objetivo destas deslocações não era adquirir conhecimentos detalhados sobre os países e locais visitados, mas antes enviar um sinal aos potenciais eleitores. Jimmy Carter tinha demonstrado a sua aptidão para a política externa em Berlim, com grande impacto público, e agora Reagan deveria seguir-lhe o exemplo.

Depois da Grã-Bretanha e da França, a República Federal da Alemanha foi a última etapa da digressão europeia de Reagan. A 30 de novembro, reuniu-se com o chanceler Helmut Schmidt. Em seguida, encontrou-se com o líder da oposição, Helmut Kohl, que mais tarde fez uma observação significativa sobre esse encontro:
«As nossas conversas duraram mais tempo do que o inicialmente previsto. Chamou-me a atenção que ele praticamente nada sabia sobre a Europa, mas possuía uma qualidade rara entre os políticos: a capacidade de ouvir. Estava muito interessado na questão da divisão da Alemanha.»
Seguiram-se outras conversações, incluindo uma com o presidente da câmara governante de Berlim Ocidental, Dietrich Stobbe, que se encontrava na capital federal, Bona, na qualidade de presidente interino do Bundesrat. Nessa mesma noite, Reagan, a sua mulher Nancy e os seus acompanhantes voaram para o aeroporto de Tempelhof, em Berlim, instalaram-se no Hotel Kempinski, na Kurfürstendamm, e prepararam-se para o dia intenso que os esperava.

A viagem de Reagan não passou despercebida em Berlim Oriental. Mais de uma semana antes do seu início, já era tema de documentos ultrassecretos do Ministério para a Segurança do Estado (MfS). Neles, para além da visita a Bona (e do voo subsequente para Munique), registavam-se também os restantes planos de viagem de Reagan:
«Além disso, este cidadão dos EUA visitará WB [Berlim Ocidental] em 01.12.78.»
Os serviços secretos consideravam-se preparados e pretendiam não deixar nada ao acaso — o que torna ainda mais surpreendente o que viria a acontecer.

A sexta-feira, 1 de dezembro de 1978, começou chuvosa. Dietrich Stobbe, que entretanto regressara de Bona à cidade dividida, convidou Ronald e Nancy Reagan, bem como vários dos seus acompanhantes (incluindo os conselheiros mais próximos de Reagan, Richard Allen e Peter Hannaford), para uma visita privada de autocarro pela cidade. Por volta das 10h30 da manhã, o grupo chegou ao Checkpoint Charlie, a passagem fronteiriça no centro da cidade, exatamente como John F. Kennedy fizera quinze anos antes. Olhares vigilantes observavam os seus movimentos a partir do lado oriental da cidade:
«Ao mesmo tempo, cerca de 10 civis chegaram noutro autocarro […]. Uma mulher e um homem foram filmados pela equipa de câmara acima mencionada sob a placa do sector e mesmo em frente ao edifício do posto de controlo.»
Embora as identidades dessas pessoas não sejam explicitamente mencionadas, os serviços de segurança sabiam perfeitamente com quem estavam a lidar.

Outra paragem foi feita no lado ocidental da Porta de Brandemburgo. Kennedy também ali estivera e, menos de uma década após essa primeira visita, Reagan proferiria precisamente nesse local o seu discurso mais famoso. 

Segundo recordaram os seus acompanhantes, Reagan ficou profundamente impressionado pela visão do Muro e manifestou a esperança de que tivesse de existir uma forma de o derrubar. Por volta do meio-dia, o grupo chegou ao quartel-general norte-americano em Dahlem, onde almoçou com militares. Na breve intervenção que fez, Reagan voltou a deixar clara a sua posição:
«Espero que nunca pensem nele [o Muro] como algo permanente.»
Segundo os seus acompanhantes, Reagan ficou profundamente impressionado pela visão do Muro.

O espetacular itinerário da tarde só pode ser reconstruído com a ajuda dos testemunhos que sobreviveram, nomeadamente os de Allen e Hannaford. Embora o MfS mantivesse Reagan sob vigilância, certamente não contava com uma possibilidade: a de ele entrar em Berlim Oriental. É provável que Reagan tenha manifestado esse desejo de forma espontânea no quartel-general norte-americano, decidindo depois agir em conformidade. 

Acompanhado pelos seus dois conselheiros e respectivas esposas, partiu para o lado oriental da cidade em dois automóveis conduzidos por motoristas fardados, mas as agências de segurança não lhes prestaram mais atenção. Os documentos de arquivo até agora encontrados apenas registam a passagem da fronteira. Às 14h22, Reagan atravessou o Checkpoint Charlie e, às 15h18, regressou a Berlim Ocidental, «sem incidentes».

Se acreditarmos nos relatos dos seus acompanhantes, a visita teve um impacto duradouro sobre ele. Os testemunhos que sobreviveram são contraditórios e, em alguns pontos, pouco convincentes, mas os elementos essenciais são claros: o grupo percorreu uma paisagem urbana sombria, cheia de terrenos vazios e ruínas da Segunda Guerra Mundial, até chegar à Alexanderplatz. Ali visitaram lojas de uns armazéns, onde os americanos ficaram impressionados com a escassez da oferta de produtos. Enquanto as mulheres permaneceram na loja, os homens dirigiram-se à praça e observaram um homem a ser revistado e assediado por polícias fortemente armados, aparentemente sem qualquer motivo. Segundo os dois conselheiros, esta cena ficou profundamente gravada na memória de Reagan e reforçou o seu compromisso anti-comunista. Mais tarde, referiu-se a ela várias vezes.

Depois de regressar a Berlim Ocidental, Reagan tinha ainda um último compromisso nesse dia: uma visita à editora Axel Springer. Também aí existia uma recordação vívida da divisão da cidade e das suas consequências por vezes bárbaras. A sede da empresa, situada praticamente junto ao Muro, dava para o local onde Peter Fechter, de 18 anos, tinha sido abatido por guardas fronteiriços da Alemanha Oriental, em Agosto de 1962. Peter tentava atravessar a faixa da morte que separava as duas partes da cidade quando foi atingido por vários disparos. Acabou por morrer lentamente, em público, esvaindo-se em sangue enquanto lançava apelos desesperados por ajuda.

Este episódio foi relatado a Reagan ao final da tarde de 1 de dezembro de 1978 e deixou nele uma profunda impressão.

[…] Reagan podia sentir-se satisfeito; a sua visita a Berlim tinha sido proveitosa. Quando regressou muitos anos mais tarde, fê-lo em circunstâncias muito diferentes e com consequências de grande alcance.

Jens Schöne, Ronald Reagan in Berlin. The President and the Divided City, Berlim, 2026. Publicação conjunta da Fundação Arquivos Ernst Reuter e do Comissário de Berlim para a Reavaliação da Ditadura do SED.

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Para ler na íntegra pode fazer-se o download gratuito aqui: https://bebra-wissenschaft.de/vzgesamt/titel/ronald-reagan-in-berlin-2.html

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