A punição dos prevaricadores tem que ver com o facto de sermos uma sociedade de seres humanos livres onde cada um tem direito a construir o seu projecto de vida, dentro dos limites da lei.
Para que tal seja possível é necessário que a sociedade seja justa e se oriente para a justiça. Numa sociedade onde não há justiça não é possível garantir a liberdade fundamental sem a qual não é possível construirmos um projecto de vida, a não ser por acaso e sorte.
A justiça retributiva, aplicada pelo sistema judiciário, aplica penas de punição adequadas aos crimes cometidos e o seu objectivo é a justiça e não o condenado perceber a pena ou estar com remorso. O remorso conta a seu favor como factor atenuante da culpa mas não justifica o crime ou a sua desculpação sem mais, pois isso seria uma escolha racional de injustiçar as suas vítimas, o que põe em causa o próprio conceito de sociedade democrática, justa, de seres humanos considerados livres.
Isto vem a próximo de o MP e muita gente considerar que, como Salgado está doente e talvez não se lembre dos crimes, não vale a pena prendê-lo e basta a condenação moral. Este é o mesmo argumento que, pela Europa fora, tem sido usado para deixar em liberdade milhares de violadores islamitas. Os juízes dizem que eles não percebem que têm culpa porque na cultura deles as mulheres não valem nada e podem ser usadas sexualmente como objectos sem autonomia moral.
É com este argumento que se impõe a injustiça e a privação de liberdade a centenas de milhar de raparigas de vítimas de violação. Não apenas têm a vida estragada, a humilhação pública em tribunal (hoje-em-dia com imagens divulgadas desse acontecimento a perseguirem-nas para o resto da vida) como também a cumplicidade do sistema judiciário com os criminosos. Sempre com os argumento que vêem de culturas 'com valores diferentes' e que as razões que apresentam são tão miseráveis que devem ter alguma deficiência mental.
A pena não existe para o criminoso perceber, ou para termos pena dele, mas para que a justiça se cumpra. Ora, não é possível cumprir-se a justiça se damos prioridade ao conforto do criminoso e aceitamos a injustiça a que se condena a vítima. Todos vemos e percebemos, em cada caso que é uma injustiça e, a cada injustiça, perdemos mais um pouco a confiança na instituição responsável por assegurar a nossa liberdade, da qual depende a nossa vida.
Aqui na Europa construímos, a custo, uma sociedade orientada para a justiça, baseada no valor da liberdade de cada ser humano. Que haja culturas teocráticas ou de ditadura militar, etc., onde as pessoas não têm direito a voz própria nem a um projecto de vida próprio, pois pertencem -literalmente- a um chefe, a uma cúpula religiosa, a um ditador, que têm sobre eles poder de vida e de morte e que fomentam a injustiça para reinarem pelo medo e pela opressão, não deve afectar-nos. Quer dizer, não podemos deixar que estas culturas e os homens particulares que para aqui vêm imigrados dessas culturas, infectar-nos com esse vírus de morte e decadência.
Porém, os líderes desta Europa estão tomados pela ideologia de culturas onde não há liberdade, nem justiça, nem vida e estão, há umas dezenas de anos, a destruir as bases da nossa sociedade, que tanto custou a construir e está longe de estar conseguida.
Deixar criminosos sem punição não é compaixão, é legitimação da desresponsabilização individual. Salgado foi julgado pelos crimes que cometeu e não pela doença que tem. Condená-lo apenas moralmente e não, de facto, a uma pena jurídica, é uma injustiça que se faz a toda a sociedade que pagou e continua a pagar pelos seus crimes. Ele foi sempre um criminoso sem remorso. Nunca admitiu que tinha culpa, nunca teve compaixão pelas pessoas a quem tudo roubou. Se ele não sabe porque está na cadeia, digam-lhe de cada vez que perguntar. Não há nisto nenhum crueldade. Há justiça.
Deixar criminosos sem punição promove a injustiça, logo, corrompe, aos poucos, o direito de liberdade individual que está na base das nossas democracias, logo, regride-nos a uma fase anterior de sociedade, onde não havia justiça, havia privilégio.
Olhe-se para o que se passa nos EUA onde os prevaricadores são postos em liberdade e onde criminosos ocupam os mais altos cargos do país. O que está a acontecer àquela sociedade? A justiça regrediu a concessão de privilégios. Uma regressão que, em grande parte, acontece pela ausência de justiça retributiva.
Pôr na cadeia um moribundo parece-me repelente. Embora haja casos em que se desenterraram mortos para os enforcar.
ReplyDeleteEle não está moribundo, só está com a memória afectada. Alzheimer é uma doença que afecta a memória, não põe as pessoas moribundas.
DeleteNão querendo polemizar indefinidamente no seu "estabelecimento", também não queria deixar de (continuar a) discordar de um ou outro ponto: a comparação da condenação / cumprimento da pena de Ricardo Salgado e de violadores islâmicos / José Sócrates parece-me deslocada: tanto os violadores como José Sócrates estão na plena possa das suas faculdades: devem ser levados a julgamento e condenados, se for o caso. O mesmo deveria ter acontecido com Ricardo Salgado: julgá-lo pelo que alegadamente fez, condená-lo - ou não - em conformidade. A grande falha da justiça portuguesa não está na não-prisão de um homem que deverá ter uma vaga ideia - se é que tem de todo - de onde está e porque está. A grande falha é a incapacidade de julgar pessoas em tempo útil e colocá-los na cadeia (se consideradas culpadas) em tempo útil.Parece-me que o descrédito da justiça está aí, e não não na não-prisão de RS. Não colocar o RS na cadeia pode (e sublinho o 'pode?) ser considerado um acto de compaixão, de inutilidade dos efeitos práticos ou, no limite, de poupança para o Estado, que não tem de suportar os custos de um homem que requererá cuidados especiais (a menos que se considere que não deverá ter, porque não merecerá ter). No caso de José Sócrates o escândalo é maior: o Estado não consegue julgar a pessoa em tempo útil, pessoa essa que vai vendo os casos contra ele prescrever. Faria Ricardo Salgado o mesmo se estivesse saudável mentalmente? Seguramente que sim. Só que não está...
ReplyDeleteNão comparei Salgado com violadores islâmicos, o que comparei foi o tipo de argumentos que se usa para desculpar os criminosos e que atravessa vários tipos de crimes, mas que tem um único efeito que é o de injustiçar as vítimas e degradar a democracia. Muitas vezes nem sequer acusam as pessoas porque elas vêm a público dizer, 'desculpem qualquer coisinha'.
DeleteNão é verdade que Salgado tenha sido acusado e julgado sem faculdades mentais. Ele estava plenamente consciente do que tinha feito e defendeu-se em vários locais. A certa altura os advogados dele começaram a dizer que ele tinha indícios de Alzheimer, mas mesmo então, ainda ele era visto e fotografado a andar sozinho pelas ruas da Grécia e da Suiça, às compras. Salgado foi julgado e condenado. Ele tem milhares de vítimas às suas costas e a justiça não deve injustiçar essas pessoas por compaixão com o criminoso. Ele foi julgado pelos crimes que cometeu e não pelo esquecimento deles.
A justiça levar demasiado tempo é outra questão, importante, mas diferente desta. "na não-prisão de RS. Não colocar o RS na cadeia pode (e sublinho o 'pode?) ser considerado um acto de compaixão, de inutilidade dos efeitos práticos ou, no limite, de poupança para o Estado" - a minha compaixão vai para as vítimas dos seus crimes, sabe-se lá quantas estarão com Alzheimer e sem dinheiro para serem cuidadas; quantas ficaram com as vidas prejudicadas ou cortadas, quantos passaram de uma situação de desafogo económico para uma situação de pobreza e de começo, ou fim, de vida, miserável, por causa dos crimes dele.
De resto, o meu texto é sobre a punição da justiça retributiva ser essencial para termos um Estado de Direito que garante as nossas liberdades fundamentais. E não vejo nenhuma argumento contra. Salgado não é um argumento contra. Pelo contrário. A não punição de pessoas como ele põe em causa as nossas liberdades fundamentais.
Ainda esta semana tivémos buscas nos edifícios do PS - todos os anos há buscas em sedes de partidos, de dirigentes autárquicos e centrais, banqueiros, administradores... é a ausência de justiça retributiva que motiva todos esses corruptos.
"afecta a memória, não põe as pessoas moribundas." Sim, não é moribundas, é mortas. Sem memória não existem mais.
ReplyDeleteVocê é especialista em dizer o que eu não disse e que nem se infere do que disse para depois me acusar do que não disse. Na lógica material chama-se a isso a falácia do espantalho. Tenho um aluno que só fala assim a tentar por na boca dos outros o que não disseram para depois os atacar disso que não disseram.
Delete"para depois me acusar do que não disse" Eu não acuso ninguém, limito-me a, por vezes, discordar.
ReplyDeletePeço desculpa se nem sempre concordo consigo.
Discordar é apresentar razões contrárias, não mandar bocas, chamar repugnante, etc.
DeleteNesta tem toda a razão. Ou quase.
DeleteComo se põe uma pessoa com Alzheimer numa cadeia? Põe-se numa cela e deixa-se apodrecer? Ou coloca-se na mesma cela um enfermeiro (24 horas por dia) para suprir as suas necessidades? A alimentação através de um tubo naso-gástrico como se fará nas condições de uma cela?
ReplyDeleteComo se prende um doente mental do género de transtornos de personalidade ou esquizofrenia ou psicopatia?
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