Estou de acordo com a maioria do que a ministra da educação da Estónia diz, mas não com tudo. Nomeadamente a questão das redes sociais. Ela compara o tempo em que era miúda na URSS e tentava ultrapassar as proibições do regime, só que estas duas realidades não são comparáveis, porque a URSS censurava tudo o que vinha do Ocidente, era uma censura política, o que é diferente de censurar aplicações que causam vício, perda de memória, problemas de saúde, o atrofio do pensamento numa altura em que está em formação. é o mesmo que dizer que não se deve proibir o álcool, a cocaína, o tabaco, o vício da pronografia, etc., às crianças por causa da liberdade. E fala em culpa, quando isto não tem que ver com culpa.
Ela diz que tem que tirar-se os políticos da sala de aula, mas passa o tempo a dizer que impuseram uma política de todos ensinarem com IA... mais à frente diz que a formação inicial, para o desenvolvimento cognitivo e crítico profundos tem que fazer-se com caneta e papel... muita contradição.
Receita para sucesso da Estónia: jardins-de-infância até aos sete anos e “políticos longe da sala de aula”
Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.

Kristina Kallas, ministra da Educação na Estónia esteve esta semana em Portugal
Receita para sucesso da Estónia: jardins-de-infância até aos sete anos e “políticos longe da sala de aula”
Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.
Kristina Kallas, ministra da Educação na Estónia esteve esta semana em Portugal
Rui Gaudêncio
Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.
Se tivesse de escolher a peça mais importante na construção do sucesso escolar escolheria o jardim-de-infância. Mas nunca há só um factor. Há o contexto histórico do país. Há a forma como um professor é visto. A ministra da Educação da Estónia diz que tudo começa a correr mal quando os políticos se intrometem demasiado no trabalho dos professores.
Nos últimos anos, a Estónia chegou ao topo do PISA, o grande estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que compara as competências dos alunos de 15 anos. A Matemática e a Ciências é o país da Europa com melhores resultados (e um dos melhores do mundo, competindo com Singapura, Japão ou Coreia do Sul, por exemplo).
É também pioneiro, desde há muito, no processo de digitalização das escolas, que começou ainda nos anos de 1990. E está a lançar uma estratégia nacional para a Inteligência Artificial (IA) no ensino secundário. Todos os professores, em todas as escolas, receberam formação nos últimos meses. Kristina Kallas esteve em Portugal esta semana, para participar no Oeiras Education Forum. Afirma que o poder disruptivo da IA é enorme e que, se nada for feito, a próxima geração terá "menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica".
A Estónia é um país muito pequeno, com 1,3 milhões de habitantes. É esse o segredo do vosso sucesso?
Se olharmos para a Estónia apenas em termos de factos objectivos, todos nos dizem que este país não poderia ter um sistema educativo de primeira classe a nível mundial, porque é demasiado pequeno, o que significa que provavelmente não tem muito dinheiro.
Para além do mais, tem uma língua estranhíssima, que mais ninguém fala, à excepção de um milhão de pessoas — porque nem sequer os 1,3 milhões de habitantes da Estónia falam todos esta língua [há uma comunidade russa importante]. Se olharmos para Singapura, que tem [mais de] 5 milhões de habitantes, o seu sistema educativo é em inglês, o que significa que podem contratar professores talentosos de todo o mundo.
E, no entanto, estamos lá. Penso que há algo muito importante (e cabe aos portugueses decidirem se isso é relevante ou não para eles) que é a mentalidade em relação à educação. Na Estónia as pessoas sabem que a educação é um trabalho árduo, é suposto ser difícil, é suposto haver um currículo muito exigente. Professores, alunos, pais, todos estão preparados para o facto de requerer esforço.
Na sua apresentação [no Oeiras Education Forum, na quarta-feira] disse que no final do século XIX eram uma das regiões mais letradas da Europa, 95% da população sabia ler. Em Portugal nos anos de 1920 tínhamos 60% de analfabetos. Isto faz toda a diferença, não?
Faz diferença. E faz diferença o facto de ter sido através da educação que a Estónia nasceu como nação. O sistema educativo da Estónia já existia antes da criação do Estado estónio. A educação está no centro da nossa identidade nacional. Penso que se trata de um elemento histórico único. Em segundo lugar, temos a herança da ocupação soviética. A União Soviética era um lugar horrível, mas as mulheres podiam trabalhar porque havia uma instituição onde as crianças ficavam durante o dia. Após a independência da Estónia [em 1991], herdámos um sistema de cuidados infantis e construímos [por cima disso] uma instituição educativa para crianças desde a mais tenra idade. A partir de um ano e meio de idade as crianças frequentam o pré-escolar. Oito horas por dia, cinco dias por semana.
Oito horas por dia?
Sim. Hoje, pais e mães deixam os filhos no jardim-de-infância e vão trabalhar. Depois do trabalho, vão buscá-los. Os jardins-de-infância têm professores licenciados e têm currículos definidos que não se centram na aprendizagem académica, mas nas competências socioemocionais, nas competências de auto-regulação. E isso é essencial para dar oportunidades iguais de aprendizagem a todas as crianças.
Porque as crianças vêm de meios socioeconómicos e culturais muito diferentes, têm posições de partida muito diferentes. Os jardins-de-infância são os locais onde nos certificamos de que todas as crianças têm o mesmo, onde nivelamos as crianças. Não em termos de [aprendizagens de] Matemática e Leitura, mas de auto-regulação.
A criança consegue compreender as instruções que o adulto está a dar? A criança consegue concentrar-se durante pelo menos 20 minutos? Consegue ter uma conversa com um adulto? Perguntar, responder? Brincar em grupo? Se sim, significa que as competências socioemocionais estão presentes. E também as competências físicas, motoras, o desenho, o recorte, a colagem, a compreensão das cores, todo este tipo de coisas que são essenciais, são as bases para a aprendizagem académica.
Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.
Mas na Estónia, quando saem do jardim-de-infância com sete anos [em Portugal o pré-escolar vai dos três até aos cinco anos e a idade de entrada normal no 1.º ano é seis anos], a maior parte das crianças já sabe ler, não é verdade?
Não. Podem saber ler, mas não é isso que se espera. Espera-se que conheçam o alfabeto. Devem conhecer os sons e ser capazes de dizer os sons. De dizer isto é um "S", e um "T"... de ler duas letras juntas, "VA", etc... Devem conhecer os números.
Quando chegam à escola, no 1.º ano, a aprendizagem da leitura é muito rápida. Após os primeiros dois meses, basicamente já todos têm de ler. É como um acelerador. E a razão para isso é que o jardim-de-infância os preparou para a aprendizagem. Quando o meu primeiro filho foi para a escola, aprendeu a ler no primeiro mês. No segundo mês a professora deu um livro e disse que ele o tinha de ler em casa. E eu pensei: "Meu Deus, isto é muito rápido." Mas foi o que ele fez. Quer dizer, tive de me sentar um pouco com ele e forçar. Mas leu.
Se tivesse de escolher um único factor para que os alunos da Estónia se saiam tão bem quando comparados com os de outros países, o pré-escolar seria o principal?
Não acho que seja só uma coisa. Já falámos da [nossa] história da educação. E há muitos outros aspectos, como a autonomia das escolas. Mas se quiserem que escolha um, escolho o jardim-de-infância. Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.
Em todo o mundo os alunos fazem esses testes aos 15 anos. Em alguns países as crianças já andam na escola há 10 anos, porque entraram aos cinco anos de idade no 1.º ano; noutros há nove, porque entraram aos seis; e no caso da Estónia, levam apenas oito anos de escola e estão a ter os melhores resultados. Portanto, não se trata de quão cedo se começa a aprendizagem académica, mas sim de como se está preparado para isso.
Costumo fazer esta brincadeira: sabem quais são os elementos que testam se a criança está pronta para ir para a escola? Nalguns países dizem que é quando sabem quanto é cinco mais cinco. E eu digo: "Estão preparados para a escola se conseguem explicar que horas são, se conhecem o relógio, em que estação do ano estão, como se vestir e como ir de casa para a escola e voltar sozinho." Na Estónia as crianças vão à escola sozinhas, não se espera que sejam os pais a conduzi-las.
Mas não quando têm um ano e meio, presumo.
Oh, não. Temos dois currículos separados no jardim-de-infância, um que vai do ano e meio aos quatro, e depois dos cinco aos sete anos. Estou a falar dos mais velhos. E se a criança é capaz de fazer tudo isso, significa que é capaz de aprender, porque há auto-regulação, há autoconsciência.
Há também uma grande diferença na forma como as escolas são geridas quando se compara Portugal e a Estónia. Na Estónia, as escolas podem contratar professores directamente. Podem despedir os professores se não estiverem satisfeitos com eles. Em Portugal, o sistema é centralizado. Qual é a importância de as escolas escolherem os seus próprios professores?
Bem, como ministra da Estónia digo: é importante que os directores das escolas tenham o direito de tomar decisões. Mas outros sistemas que são muito centralizados, como Singapura, funcionam muito bem. Acredito firmemente que o que importa é a autonomia que o professor tem na sala de aula para tomar decisões sobre a disciplina, as questões didácticas, as abordagens metodológicas. E até que ponto os professores da escola trabalham em equipa e existe um ambiente de trabalho colegial. Estas coisas são, por vezes, mais importantes do que o salário ou [o sistema de] contratação.
Muitos professores dizem que é impossível ter verdadeira autonomia quando os alunos têm tantos exames nacionais e tanta matéria que precisa ser ensinada...
Autonomia não significa que não se tenha de ensinar o que está no currículo. É sobre como se conduz o processo de aprendizagem, a forma como ensina, que ferramentas se utilizam. Esta liberdade é essencial, incluindo a forma como se disciplinam os miúdos. Não estou a falar de castigos corporais, mas se estamos a ensinar alguma coisa e precisamos de uma grande concentração na sala de aula e há dois miúdos que, naquele momento, por qualquer razão, estão a perturbar a aula, é preciso pedir a essas duas crianças que saiam, mandá-las para a biblioteca da escola, pedir ao bibliotecário da escola que trabalhe com elas, para que nos possamos concentrar no resto da turma e, mais tarde temos de trabalhar com essas duas crianças separadamente. Em muitos países os professores não estão autorizados a fazer isso. Na Estónia, têm total autonomia.
O ministério não tem de regulamentar nada relativamente às práticas de ensino e de aprendizagem. Os professores aprendem pedagogia, psicologia do desenvolvimento, psicologia cognitiva, didáctica... e depois pomo-los numa sala de aula e prescrevemos-lhes rigorosamente o que podem fazer e o que não podem fazer? Não faz sentido.
A Estónia também costuma ser apontada como um país onde há menos desigualdade de desempenhos escolares relacionadas com o contexto socioeconómico das crianças.
Infelizmente, estão a aumentar. Antigamente, éramos um país onde não havia segregação residencial, ricos e os pobres viviam no mesmo bairro. E como os alunos frequentam as escolas da sua zona [de residência] não havia diferenças. Mas nos últimos anos temos vindo a ver uma segregação residencial cada vez maior. Uma coisa que estamos a tentar combater é que as escolas possam ter o direito de seleccionar crianças. Todas as crianças têm de ter acesso aos melhores professores e à mesma aprendizagem.
Estão a lançar um programa chamado AI Leap, para colocar a Inteligência Artificial (IA) ao serviço das escolas. Sei que está no início ainda. Mas o que está a mudar?
Bem, penso que a IA é um enorme factor de perturbação na educação. E é um risco para a educação. E se continuarmos a fazer o mesmo que temos vindo a fazer há 200 anos, o risco é que a nossa próxima geração seja cognitivamente mais desqualificada. Terão menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica, porque estarão a deixar que a IA o faça por eles. É um enorme risco para a educação.
Na Estónia não queremos que a próxima geração tenha menos capacidades cognitivas. Queremos que tenham mais capacidades cognitivas, que sejam pensadores muito mais capazes. Porque a tecnologia obriga-nos a ser pensadores muito mais profundos, muito mais sistemáticos, capazes de analisar a informação muito rapidamente, de dar sentido à informação, de ligar as coisas, de pensar isto está certo, isto não está certo, isto é um facto, isto não é um facto. Caso contrário, a tecnologia assume o controlo.
Esta é a base fundamental da nossa abordagem à IA na escola. Ainda não sabemos exactamente qual é a melhor forma de utilizar a IA. Mas assinámos um acordo de cooperação com a OpenAI sobre o ChatGPT. Desenvolvemos com os nossos cientistas uma versão educativa específica do ChatGPT para as escolas da Estónia. Trata-se de uma plataforma de aprendizagem específica, parece um ChatGPT normal, mas é pensada para contexto educativo, e formámos os professores. Fomos a todas escolas secundárias (156) e todos os professores dessas escolas, 5000, receberam formação desde Agosto. Demos-lhes as licenças, têm estado a usar, a experimentar... Afirmam que os ajuda muito a poupar tempo na preparação das aulas e eu acredito nisso.
E os alunos?
Os alunos estão a receber formação desde Fevereiro. E os professores integrarão esta IA passo a passo no processo de aprendizagem, não importa se ensinam desporto, música, matemática, estónio ou inglês... Em todas as disciplinas, temos de mudar a forma como ensinamos.
O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática, com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.
Acredita que os alunos utilizarão este ChatGPT e não os outros?
Não se trata do que os alunos utilizam ou não utilizam, trata-se da forma como os professores integram este ChatGPT nas tarefas. Temos de confiar que os professores sabem o que estão a fazer. Não estamos a dizer-lhes como usar, quando usar, quando não usar. Damos-lhes formação, damos-lhes formação ética e muitas outras competências, damos-lhes a ferramenta e eles tomarão decisões sobre o processo de aprendizagem.
Mas diz-se que devemos reduzir o uso de ecrãs e as escolas vão passar a usar mais ecrãs?
As crianças precisam de menos tempo de ecrã depois da escola porque, caso contrário, não dormem o suficiente, não praticam desporto o suficiente. Não se trata das quatro ou cinco horas por dia que passam na escola. Trata-se do resto das 12 horas em que não estão na escola.
Mas, uma vez mais, o professor é o responsável pela aprendizagem das crianças, certo? Ele concebe o processo de aprendizagem, sabe como é que as crianças estão a aprender quando o dispositivo está à sua frente e como é que as crianças estão a aprender quando há papel e caneta e como é que estão a aprender quando há trabalho de equipa, porque estes processos de aprendizagem são diferentes. Os professores sabem disso. Sabem que se quisermos realmente desenvolver a memória profunda, usamos papel e caneta. A aprendizagem profunda inicial da memorização não acontece no ecrã. Os professores sabem-no porque lhes damos formação neste domínio.
Na Suécia a discussão actual é que precisam de voltar ao papel e à canetaporque as escolas utilizaram demasiado materiais digitais e não resultou.
Não tenho a certeza de que seja culpa dos ecrãs. Acabei de ler um relatório da OCDE sobre a Suécia e um dos aspectos apontados é o problema da indisciplina e das distracções que ocorrem durante as aulas. Nalguns casos pode ser por causa da tecnologia, ou porque se exagera no uso da tecnologia, mas no essencial a culpa não é dos ecrãs.
Cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabem o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?
Um segundo aspecto é que colocar uma criança em frente ao ecrã não é ensinar. E a OCDE disse claramente que, no caso da Suécia, os professores precisam de receber mais formação.
Uma terceira coisa, e não estou a falar da Suécia neste momento, mas em muitos casos, o que começa a correr mal na educação é quando os políticos começam a dizer aos professores como devem ensinar. É nessa altura que as coisas começam a correr mal. Por isso, se os políticos começarem a dizer aos professores, usem ecrãs, aqui está o vosso ecrã, são obrigados a usá-lo, é aí que as coisas começam a correr mal.
É preciso manter os políticos longe da sala de aula. O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática.
Com exames?
Com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.
Uma última pergunta. O Parlamento Europeu tem vindo a apelar aos Estados-membros para que proíbam as redes sociais aos menores de 16 anos. E vários [incluindo Portugal] vão fazê-lo. A Estónia já disse que não o fará. Porquê?
Porque acho que os miúdos não são culpados. Estamos a castigar as crianças por algo que nós, adultos, fazemos. Devemos começar a regular as grandes corporações e a sua responsabilidade no que diz respeito aos conteúdos que disponibilizam, aos vícios que promovem através dos algoritmos. Se o Parlamento Europeu entrar em guerra contra estas grandes empresas, estarei na linha da frente. Temos de ser muito severos e trabalhar em conjunto, em vez de punir as crianças, porque as redes sociais, sim, têm impactos negativos, mas há tantas coisas que ligam as crianças através das redes sociais.
A experiência australiana traz-nos sinais de alerta. Apesar da proibição, 70% das crianças ainda estão no Facebook, no TikTok e em todo o lado. Começaram a utilizar formas alternativas. Sabe: cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabe o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: "Como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?" Com a proibição das redes sociais às crianças, é com essa mentalidade que vão crescer, como enganar o sistema.
Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.
Se tivesse de escolher a peça mais importante na construção do sucesso escolar escolheria o jardim-de-infância. Mas nunca há só um factor. Há o contexto histórico do país. Há a forma como um professor é visto. A ministra da Educação da Estónia diz que tudo começa a correr mal quando os políticos se intrometem demasiado no trabalho dos professores.
Nos últimos anos, a Estónia chegou ao topo do PISA, o grande estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que compara as competências dos alunos de 15 anos. A Matemática e a Ciências é o país da Europa com melhores resultados (e um dos melhores do mundo, competindo com Singapura, Japão ou Coreia do Sul, por exemplo).
É também pioneiro, desde há muito, no processo de digitalização das escolas, que começou ainda nos anos de 1990. E está a lançar uma estratégia nacional para a Inteligência Artificial (IA) no ensino secundário. Todos os professores, em todas as escolas, receberam formação nos últimos meses. Kristina Kallas esteve em Portugal esta semana, para participar no Oeiras Education Forum. Afirma que o poder disruptivo da IA é enorme e que, se nada for feito, a próxima geração terá "menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica".
A Estónia é um país muito pequeno, com 1,3 milhões de habitantes. É esse o segredo do vosso sucesso?
Se olharmos para a Estónia apenas em termos de factos objectivos, todos nos dizem que este país não poderia ter um sistema educativo de primeira classe a nível mundial, porque é demasiado pequeno, o que significa que provavelmente não tem muito dinheiro.
Para além do mais, tem uma língua estranhíssima, que mais ninguém fala, à excepção de um milhão de pessoas — porque nem sequer os 1,3 milhões de habitantes da Estónia falam todos esta língua [há uma comunidade russa importante]. Se olharmos para Singapura, que tem [mais de] 5 milhões de habitantes, o seu sistema educativo é em inglês, o que significa que podem contratar professores talentosos de todo o mundo.
E, no entanto, estamos lá. Penso que há algo muito importante (e cabe aos portugueses decidirem se isso é relevante ou não para eles) que é a mentalidade em relação à educação. Na Estónia as pessoas sabem que a educação é um trabalho árduo, é suposto ser difícil, é suposto haver um currículo muito exigente. Professores, alunos, pais, todos estão preparados para o facto de requerer esforço.
Na sua apresentação [no Oeiras Education Forum, na quarta-feira] disse que no final do século XIX eram uma das regiões mais letradas da Europa, 95% da população sabia ler. Em Portugal nos anos de 1920 tínhamos 60% de analfabetos. Isto faz toda a diferença, não?
Faz diferença. E faz diferença o facto de ter sido através da educação que a Estónia nasceu como nação. O sistema educativo da Estónia já existia antes da criação do Estado estónio. A educação está no centro da nossa identidade nacional. Penso que se trata de um elemento histórico único. Em segundo lugar, temos a herança da ocupação soviética. A União Soviética era um lugar horrível, mas as mulheres podiam trabalhar porque havia uma instituição onde as crianças ficavam durante o dia. Após a independência da Estónia [em 1991], herdámos um sistema de cuidados infantis e construímos [por cima disso] uma instituição educativa para crianças desde a mais tenra idade. A partir de um ano e meio de idade as crianças frequentam o pré-escolar. Oito horas por dia, cinco dias por semana.
Oito horas por dia?
Sim. Hoje, pais e mães deixam os filhos no jardim-de-infância e vão trabalhar. Depois do trabalho, vão buscá-los. Os jardins-de-infância têm professores licenciados e têm currículos definidos que não se centram na aprendizagem académica, mas nas competências socioemocionais, nas competências de auto-regulação. E isso é essencial para dar oportunidades iguais de aprendizagem a todas as crianças.
Porque as crianças vêm de meios socioeconómicos e culturais muito diferentes, têm posições de partida muito diferentes. Os jardins-de-infância são os locais onde nos certificamos de que todas as crianças têm o mesmo, onde nivelamos as crianças. Não em termos de [aprendizagens de] Matemática e Leitura, mas de auto-regulação.
A criança consegue compreender as instruções que o adulto está a dar? A criança consegue concentrar-se durante pelo menos 20 minutos? Consegue ter uma conversa com um adulto? Perguntar, responder? Brincar em grupo? Se sim, significa que as competências socioemocionais estão presentes. E também as competências físicas, motoras, o desenho, o recorte, a colagem, a compreensão das cores, todo este tipo de coisas que são essenciais, são as bases para a aprendizagem académica.
Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.
Mas na Estónia, quando saem do jardim-de-infância com sete anos [em Portugal o pré-escolar vai dos três até aos cinco anos e a idade de entrada normal no 1.º ano é seis anos], a maior parte das crianças já sabe ler, não é verdade?
Não. Podem saber ler, mas não é isso que se espera. Espera-se que conheçam o alfabeto. Devem conhecer os sons e ser capazes de dizer os sons. De dizer isto é um "S", e um "T"... de ler duas letras juntas, "VA", etc... Devem conhecer os números.
Quando chegam à escola, no 1.º ano, a aprendizagem da leitura é muito rápida. Após os primeiros dois meses, basicamente já todos têm de ler. É como um acelerador. E a razão para isso é que o jardim-de-infância os preparou para a aprendizagem. Quando o meu primeiro filho foi para a escola, aprendeu a ler no primeiro mês. No segundo mês a professora deu um livro e disse que ele o tinha de ler em casa. E eu pensei: "Meu Deus, isto é muito rápido." Mas foi o que ele fez. Quer dizer, tive de me sentar um pouco com ele e forçar. Mas leu.
Se tivesse de escolher um único factor para que os alunos da Estónia se saiam tão bem quando comparados com os de outros países, o pré-escolar seria o principal?
Não acho que seja só uma coisa. Já falámos da [nossa] história da educação. E há muitos outros aspectos, como a autonomia das escolas. Mas se quiserem que escolha um, escolho o jardim-de-infância. Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.
Em todo o mundo os alunos fazem esses testes aos 15 anos. Em alguns países as crianças já andam na escola há 10 anos, porque entraram aos cinco anos de idade no 1.º ano; noutros há nove, porque entraram aos seis; e no caso da Estónia, levam apenas oito anos de escola e estão a ter os melhores resultados. Portanto, não se trata de quão cedo se começa a aprendizagem académica, mas sim de como se está preparado para isso.
Costumo fazer esta brincadeira: sabem quais são os elementos que testam se a criança está pronta para ir para a escola? Nalguns países dizem que é quando sabem quanto é cinco mais cinco. E eu digo: "Estão preparados para a escola se conseguem explicar que horas são, se conhecem o relógio, em que estação do ano estão, como se vestir e como ir de casa para a escola e voltar sozinho." Na Estónia as crianças vão à escola sozinhas, não se espera que sejam os pais a conduzi-las.
Mas não quando têm um ano e meio, presumo.
Oh, não. Temos dois currículos separados no jardim-de-infância, um que vai do ano e meio aos quatro, e depois dos cinco aos sete anos. Estou a falar dos mais velhos. E se a criança é capaz de fazer tudo isso, significa que é capaz de aprender, porque há auto-regulação, há autoconsciência.
Há também uma grande diferença na forma como as escolas são geridas quando se compara Portugal e a Estónia. Na Estónia, as escolas podem contratar professores directamente. Podem despedir os professores se não estiverem satisfeitos com eles. Em Portugal, o sistema é centralizado. Qual é a importância de as escolas escolherem os seus próprios professores?
Bem, como ministra da Estónia digo: é importante que os directores das escolas tenham o direito de tomar decisões. Mas outros sistemas que são muito centralizados, como Singapura, funcionam muito bem. Acredito firmemente que o que importa é a autonomia que o professor tem na sala de aula para tomar decisões sobre a disciplina, as questões didácticas, as abordagens metodológicas. E até que ponto os professores da escola trabalham em equipa e existe um ambiente de trabalho colegial. Estas coisas são, por vezes, mais importantes do que o salário ou [o sistema de] contratação.
Muitos professores dizem que é impossível ter verdadeira autonomia quando os alunos têm tantos exames nacionais e tanta matéria que precisa ser ensinada...
Autonomia não significa que não se tenha de ensinar o que está no currículo. É sobre como se conduz o processo de aprendizagem, a forma como ensina, que ferramentas se utilizam. Esta liberdade é essencial, incluindo a forma como se disciplinam os miúdos. Não estou a falar de castigos corporais, mas se estamos a ensinar alguma coisa e precisamos de uma grande concentração na sala de aula e há dois miúdos que, naquele momento, por qualquer razão, estão a perturbar a aula, é preciso pedir a essas duas crianças que saiam, mandá-las para a biblioteca da escola, pedir ao bibliotecário da escola que trabalhe com elas, para que nos possamos concentrar no resto da turma e, mais tarde temos de trabalhar com essas duas crianças separadamente. Em muitos países os professores não estão autorizados a fazer isso. Na Estónia, têm total autonomia.
O ministério não tem de regulamentar nada relativamente às práticas de ensino e de aprendizagem. Os professores aprendem pedagogia, psicologia do desenvolvimento, psicologia cognitiva, didáctica... e depois pomo-los numa sala de aula e prescrevemos-lhes rigorosamente o que podem fazer e o que não podem fazer? Não faz sentido.
A Estónia também costuma ser apontada como um país onde há menos desigualdade de desempenhos escolares relacionadas com o contexto socioeconómico das crianças.
Infelizmente, estão a aumentar. Antigamente, éramos um país onde não havia segregação residencial, ricos e os pobres viviam no mesmo bairro. E como os alunos frequentam as escolas da sua zona [de residência] não havia diferenças. Mas nos últimos anos temos vindo a ver uma segregação residencial cada vez maior. Uma coisa que estamos a tentar combater é que as escolas possam ter o direito de seleccionar crianças. Todas as crianças têm de ter acesso aos melhores professores e à mesma aprendizagem.
Estão a lançar um programa chamado AI Leap, para colocar a Inteligência Artificial (IA) ao serviço das escolas. Sei que está no início ainda. Mas o que está a mudar?
Bem, penso que a IA é um enorme factor de perturbação na educação. E é um risco para a educação. E se continuarmos a fazer o mesmo que temos vindo a fazer há 200 anos, o risco é que a nossa próxima geração seja cognitivamente mais desqualificada. Terão menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica, porque estarão a deixar que a IA o faça por eles. É um enorme risco para a educação.
Na Estónia não queremos que a próxima geração tenha menos capacidades cognitivas. Queremos que tenham mais capacidades cognitivas, que sejam pensadores muito mais capazes. Porque a tecnologia obriga-nos a ser pensadores muito mais profundos, muito mais sistemáticos, capazes de analisar a informação muito rapidamente, de dar sentido à informação, de ligar as coisas, de pensar isto está certo, isto não está certo, isto é um facto, isto não é um facto. Caso contrário, a tecnologia assume o controlo.
Esta é a base fundamental da nossa abordagem à IA na escola. Ainda não sabemos exactamente qual é a melhor forma de utilizar a IA. Mas assinámos um acordo de cooperação com a OpenAI sobre o ChatGPT. Desenvolvemos com os nossos cientistas uma versão educativa específica do ChatGPT para as escolas da Estónia. Trata-se de uma plataforma de aprendizagem específica, parece um ChatGPT normal, mas é pensada para contexto educativo, e formámos os professores. Fomos a todas escolas secundárias (156) e todos os professores dessas escolas, 5000, receberam formação desde Agosto. Demos-lhes as licenças, têm estado a usar, a experimentar... Afirmam que os ajuda muito a poupar tempo na preparação das aulas e eu acredito nisso.
E os alunos?
Os alunos estão a receber formação desde Fevereiro. E os professores integrarão esta IA passo a passo no processo de aprendizagem, não importa se ensinam desporto, música, matemática, estónio ou inglês... Em todas as disciplinas, temos de mudar a forma como ensinamos.
O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática, com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.
Acredita que os alunos utilizarão este ChatGPT e não os outros?
Não se trata do que os alunos utilizam ou não utilizam, trata-se da forma como os professores integram este ChatGPT nas tarefas. Temos de confiar que os professores sabem o que estão a fazer. Não estamos a dizer-lhes como usar, quando usar, quando não usar. Damos-lhes formação, damos-lhes formação ética e muitas outras competências, damos-lhes a ferramenta e eles tomarão decisões sobre o processo de aprendizagem.
Mas diz-se que devemos reduzir o uso de ecrãs e as escolas vão passar a usar mais ecrãs?
As crianças precisam de menos tempo de ecrã depois da escola porque, caso contrário, não dormem o suficiente, não praticam desporto o suficiente. Não se trata das quatro ou cinco horas por dia que passam na escola. Trata-se do resto das 12 horas em que não estão na escola.
Mas, uma vez mais, o professor é o responsável pela aprendizagem das crianças, certo? Ele concebe o processo de aprendizagem, sabe como é que as crianças estão a aprender quando o dispositivo está à sua frente e como é que as crianças estão a aprender quando há papel e caneta e como é que estão a aprender quando há trabalho de equipa, porque estes processos de aprendizagem são diferentes. Os professores sabem disso. Sabem que se quisermos realmente desenvolver a memória profunda, usamos papel e caneta. A aprendizagem profunda inicial da memorização não acontece no ecrã. Os professores sabem-no porque lhes damos formação neste domínio.
Na Suécia a discussão actual é que precisam de voltar ao papel e à canetaporque as escolas utilizaram demasiado materiais digitais e não resultou.
Não tenho a certeza de que seja culpa dos ecrãs. Acabei de ler um relatório da OCDE sobre a Suécia e um dos aspectos apontados é o problema da indisciplina e das distracções que ocorrem durante as aulas. Nalguns casos pode ser por causa da tecnologia, ou porque se exagera no uso da tecnologia, mas no essencial a culpa não é dos ecrãs.
Cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabem o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?
Um segundo aspecto é que colocar uma criança em frente ao ecrã não é ensinar. E a OCDE disse claramente que, no caso da Suécia, os professores precisam de receber mais formação.
Uma terceira coisa, e não estou a falar da Suécia neste momento, mas em muitos casos, o que começa a correr mal na educação é quando os políticos começam a dizer aos professores como devem ensinar. É nessa altura que as coisas começam a correr mal. Por isso, se os políticos começarem a dizer aos professores, usem ecrãs, aqui está o vosso ecrã, são obrigados a usá-lo, é aí que as coisas começam a correr mal.
É preciso manter os políticos longe da sala de aula. O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática.
Com exames?
Com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.
Uma última pergunta. O Parlamento Europeu tem vindo a apelar aos Estados-membros para que proíbam as redes sociais aos menores de 16 anos. E vários [incluindo Portugal] vão fazê-lo. A Estónia já disse que não o fará. Porquê?
Porque acho que os miúdos não são culpados. Estamos a castigar as crianças por algo que nós, adultos, fazemos. Devemos começar a regular as grandes corporações e a sua responsabilidade no que diz respeito aos conteúdos que disponibilizam, aos vícios que promovem através dos algoritmos. Se o Parlamento Europeu entrar em guerra contra estas grandes empresas, estarei na linha da frente. Temos de ser muito severos e trabalhar em conjunto, em vez de punir as crianças, porque as redes sociais, sim, têm impactos negativos, mas há tantas coisas que ligam as crianças através das redes sociais.
A experiência australiana traz-nos sinais de alerta. Apesar da proibição, 70% das crianças ainda estão no Facebook, no TikTok e em todo o lado. Começaram a utilizar formas alternativas. Sabe: cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabe o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: "Como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?" Com a proibição das redes sociais às crianças, é com essa mentalidade que vão crescer, como enganar o sistema.
No comments:
Post a Comment