February 27, 2026

Pessoas

 

Por vezes o destino parece sair do seu caminho e desviar-se para ir ao encontro de certas pessoas e puxá-las para outro cenário completamente diferente daquele que representavam. Pessoas que se reinventam e reencarnam noutra personagem, despem uma pele e vestem outra que também lhes assenta como se o destino as tivesse marcado para qualquer coisa desde o início. Fascinante.


Ryuichi Kihara, do par Riku Miura e Ryuichi Kihara (carinhosamente conhecido como «Rikuryu»), o par de patinadores que electrizou a multidão ao conquistar a primeira medalha de ouro olímpica do Japão na modalidade, no dia 16 de Fevereiro, em Milão-Cotina, é um caso desses. 

A sua apresentação sob pressão extrema foi o culminar de uma jornada improvável. No entanto, essa conquista histórica talvez nunca tivesse acontecido sem um encontro casual sete anos antes. 

Uma conversa recente em Nagoya revelou o início improvável da sua carreira. Enquanto treinava para uma competição neste Inverno, Kihara apontou para o alojamento ao lado da pista de gelo onde já tinha trabalhado como estagiário e disse: «Eu costumava trabalhar aqui na recepção».

Essa história começa em 2019 quando Kihara estava à beira de desistir completamente do desporto. Duas vezes participante olímpico nos Jogos de Sochi 2014 e PyeongChang 2018, Kihara sofria de uma lesão no ombro e concussões.

Na primavera de 2019, ele e Miu Suzaki dissolveram a sua parceria. Ele voltou para a sua casa na província de Aichi e começou a trabalhar a tempo parcial na Howa Sports and Culture, a pista onde treinava quando era criança. Aos 26 anos, enquanto os seus amigos da mesma idade iniciavam as suas carreiras, Kihara estava convencido de que a sua tinha acabado.

«Não sou feito para as duplas. Vou tentar participar nos Jogos do Japão na categoria individual e depois talvez me aposente.» Yusuke Iioka, 34, que trabalhava para a empresa que opera a pista, lembra-se da entrevista de emprego desajeitada de Kihara: “Parecia que ele sentia uma sensação de inferioridade por ter feito apenas patinagem”.

As funções de Kihara incluíam distribuir patins alugados, monitorar o gelo e trabalhar no turno da noite nas instalações do alojamento. Quando crianças pequenas chegavam à pista, ele ajoelhava-se, diminuindo a sua altura de 1,75 m, para falar com elas ao nível dos olhos.

Não recebia tratamento especial por ter participado duas vezes dos Jogos Olímpicos e o seu salário por hora era o mesmo de um estudante universitário. Uma experiência humilhante que tinha um lado positivo. Os patinadores mais jovens tratavam-no como sempre, sem cerimónias e «ele conseguia conversar com eles sem fingimento e então, durante aquele período difícil, não esteve sozinho»  lembrou Iioka.

Em Junho daquele ano, a Federação Japonesa de Patinagem realizou uma selecção de duplas na antiga universidade de Kihara, a Universidade Chukyo. Yoshiko Kobayashi, 70, directora da federação, pediu a Kihara: «Não há remuneração, mas por favor, venha ajudar-nos».Kihara concordou.

Naquele dia, após cerca de três horas a ajudar os outros, Kihara estava pronto para voltar para casa. Quando estava mesmo a sair, alguém veio a correr atrás dele. Era o treinador Bruno Marcotte, 51 anos: «Ryuichi, calce os seus patins. Porque não tenta patinar com a Riku uma hora?»

Marcotte, um canadiano que há muito ajuda a desenvolver duplas japonesas, estava a treinar Miura e o seu então parceiro, que também estava a treinar na pista naquele dia. A futura parceria deles era incerta, o que levou Marcotte a abordar Kihara. Ele concordou.

No gelo, o momento decisivo aconteceu durante um levantamento com torção. Quando Kihara lançou Miura no ar, o corpo dela subiu tão alto que Marcotte exclamou instintivamente: Oh my God!

Os poucos dirigentes da federação que assistiam ficaram sem palavras.

«É assim que se sente quando se é atingido por um raio», recordou Kihara mais tarde. Foi o momento em que o seu coração voltou a ser atraído para o gelo.

«Ele redescobriu o seu amor pela patinagem naquele dia», disse Marcotte.

Um mês depois, Kihara e Miura, cuja parceria anterior havia terminado, voltaram a patinar juntos. Kihara ficou maravilhado com a confiança de Miura, lembrou Iioka: «Para a mulher, ser lançada ao ar é assustador. Há sempre um momento em que o corpo fica tenso, o que altera o peso. Mas Riku não tinha nada disso.»

Em Agosto, a nova dupla foi anunciada formalmente. Mudaram-se para o Canadá para treinar com Marcotte e começaram a sua ascensão meteórica ao topo do desporto.

A dupla rapidamente se tornou uma força dominante, conquistando um sétimo lugar inovador nos Jogos Olímpicos de Pequim de 2022 — o melhor resultado para qualquer dupla japonesa — e, em seguida, vencendo os Campeonatos Mundiais em 2023 e 2025. Chegaram a Milão Cortina como os principais candidatos ao ouro.

Apesar da preparação, um desastre aconteceu no programa curto em 15 de Fevereiro. Um erro que eles disseram nunca ocorrer nos treinos fez com que Kihara  falhasse um levantamento, deixando-os num distante quinto lugar.

Kihara não conseguiu esconder sua consternação com o resultado e a sua expressão estava sombria na área de entrevistas com a imprensa. Miura, no entanto, permaneceu calma e resoluta: «Cometemos um erro hoje, então temos que recomeçar. Se acreditarmos que podemos fazer isso, podemos.» Virou-se para Kihara, que estava à sua esquerda, e disse encorajadoramente: «Vamos concentrar-nos novamente, está bem?» Kihara prometeu voltar no dia seguinte com melhor disposição. 

«Amanhã, prometo que estaremos de volta aqui (na área de entrevistas) a conversar como o habitual ‘Rikuryu’. Por favor, esperem por nós», disse ele aos repórteres.

Precisando de uma performance impecável para chegar ao pódio, a 16 de Fevereiro, executaram todos os elementos com força e precisão. A sua velocidade característica nunca vacilou e tiveram o seu melhor desempenho quando mais importava.

Quando a sua apresentação terminou, os dois caíram de joelhos no gelo e se abraçaram. Enquanto Kihara, de 33 anos, chorava, aparentemente aliviado do peso das expectativas. A sua pontuação foi um novo recorde mundial de 158,13 pontos no programa longo. 

«Ser capaz de recuperar do erro de ontem e mostrar a força que construímos todo este tempo, é isso que me deixa mais feliz», disse Miura. Kihara, que nunca esqueceu o dia que mudou a sua vida, costuma dizer: «Sou muito grato às pessoas que me deram essa oportunidade».

Segurando a medalha de ouro, expressou a recompensa final por essa segunda chance: «Estou muito feliz por não ter desistido».

(Este artigo foi compilado a partir de matérias escritas por Kai Uchida e Hiroki Tohda - The Asaha Shimbun)


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