Criar caminhos reais para raparigas nas ciências
João Baracho
A recente aprovação, em Conselho de Ministros, do Programa Nacional das Raparigas nas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), com um investimento de 13,25 milhões de euros, representa um passo decisivo para enfrentar uma desigualdade persistente em Portugal. Num país onde apenas uma em cada quatro especialistas em Tecnologias de Informação e Comunicação é mulher e onde só três em cada dez diplomados em áreas STEM são do sexo feminino, esta iniciativa deixa claro que a igualdade de género na ciência e na tecnologia deixou de ser apenas um ideal e passou a ser um compromisso político concreto.
Fixar como meta alcançar 30% de mulheres especialistas em TIC até 2030 é mais do que um objetivo estatístico. É um sinal de responsabilidade pública e de visão estratégica. A transformação digital que o país ambiciona não será plenamente alcançada se continuar a excluir - de forma estrutural - metade do talento disponível. A igualdade de género nas STEM não é apenas uma questão de justiça social; é uma condição essencial para a inovação, a competitividade e o desenvolvimento sustentável.
Contudo, políticas públicas só produzem impacto real quando se traduzem em experiências concretas na vida das pessoas. É aqui que o papel das organizações da sociedade civil se torna determinante. O CDI Portugal tem-se afirmado, ao longo dos últimos 13 anos, como um agente de mudança, promovendo a inclusão digital e a inovação social através da tecnologia. O nosso trabalho parte de uma convicção simples: a tecnologia só cumpre o seu potencial transformador quando é acessível, significativa e ligada aos problemas reais das comunidades.
Programas como os Centros de Cidadania Digital e o Apps for Good demonstram isso mesmo. Ao colocar jovens - desde o 5.º ao 12.º ano - a usar a tecnologia para responder a desafios sociais, ambientais ou comunitários, estamos a criar contextos de aprendizagem que quebram estereótipos e ampliam horizontes. Não se trata apenas de ensinar programação ou competências técnicas, mas de mostrar que a tecnologia pode ser uma ferramenta de cidadania, impacto social e mudança.
Os resultados são claros. Em onze anos de Apps for Good em Portugal, 41% dos mais de 31.500 alunos participantes foram raparigas; em oito anos, 47% dos participantes dos Centros de Cidadania Digital são mulheres. Só em 2025, os projetos do CDI Portugal impactaram mais de 12.300 pessoas, das quais cerca de 5500 são do género feminino. Estes números mostram que, quando as oportunidades são desenhadas de forma inclusiva, as raparigas participam, permanecem e destacam-se. Mostram também que o problema não está na falta de interesse ou capacidade, mas nas barreiras culturais, educativas e sociais que continuam a afastá-las destas áreas.Assinalar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (neste dia 11 de fevereiro), é, por isso, um convite à ação. Um convite para alinhar políticas públicas, escolas, organizações e empresas na criação de percursos consistentes, contínuos e inclusivos. Só assim garantiremos que mais raparigas não apenas escolhem as STEM, mas encontram nelas um espaço onde podem crescer, liderar e transformar o futuro digital de Portugal.
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