Os sumários da discórdia
3) o ministério quer que registar um sumário no final de cada aula passe a ser um dever dos professores, consagrado no documento que enquadra a profissão;Público
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Escrever sumários não é tão fácil como parece. Raramente escrevo o sumário no início e muito menos no fim da aula. Dantes, quando o fazíamos num livro de ponto, não falhava, em 30 segundos escrevia o sumário, logo no início da aula, mas agora que o fazemos numa plataforma online que nos obriga a entrar na plataforma, escrever o nome e password, e depois abrir o email para ir buscar o código de verificação de segurança em computadores do século passado que levam 5 minutos inteiros a iniciar e outros tantos a aceder à plataforma e depois ao email, não é possível. É um imenso tempo perdido e, na maioria dos casos, os alunos da maioria das turmas, não estando a ser orientados por 2 minutos que sejam, começam logo a esparvoar.
É claro que nem falo da quantidade de vezes em que não há internet ou há mas a plataforma onde se escrevem os sumários está inacessível, às vezes por 3 dias a fio. Os computadores são do século passado, avariam-se e há um professor apenas para arranjá-los a todos, depois seu horário lectivo.
Quando toca à saída não fico no intervalo a escrever sumários. Talvez o ministro esteja esquecido que durante os intervalos não estamos ao serviço desde que Crato mandou contabilizar o nosso tempo de trabalho em minutos para nos retirar os intervalos do horário de trabalho e contabilizar esse tempo em aulas, para nos obrigar a trabalhar mais pelo mesmo preço e poder despedir milhares de professores - assim que toca para a saída da aula pára o relógio do nosso trabalho e só retoma quando toca à entrada e voltamos a uma outra aula. Assim como assim, já gasto vários minutos do meu intervalo porque quando toca para sair, os alunos levam tempo a arrumar as coisas e a sair e é preciso desligar o projector, apagar o quadro, deixar as janelas fechadas, etc. Às vezes ainda vêm tirar dúvidas.
Quando acontece o tempo a seguir ao da aula ser de DT, então, sento-me diante do PC da sala de DTs e escrevo os sumários do dia mais algum atrasado do dia anterior ou da semana anterior assim - isto, se não tiver EE à minha espera, porque se tiver não os deixo à espera para ir escrever sumários ou se tiver outro assunto urgente da DT, como resolver algum conflito ou ter que ir falar com alguém sobre qualquer assunto importante para algum aluno. E claro que muitas vezes não há um PC disponível porque há 4 computadores para 30 DT.
E pode parecer que ter de escrever o sumário até ao fim do mês é um pedido razoável, mas há inúmeras situações em que não é possível: estarmos a dois ou três dias do fim do mês a a plataforma deixar de funcionar; escrever o sumário da última semana do mês, na semana seguinte -que já é outro mês- por qualquer razão: a pessoa fica doente de repente, uma semana de baixa, por exemplo e entretanto mudou o mês e tem dois dias de sumários atrasados. Então isso é razão para nos roubarem o salário? O trabalho com os alunos e para os alunos é prioritário à burocracia de escrever sumários.
Quando a escola tinha funcionários, os funcionários do bloco, que sabiam antecipadamente se o professor estava em visita de estudo ou num evento de escola com os alunos, etc. estavam ali a vigiar a entrada das turmas para as aulas até todos os professores entrarem e marcavam falta aos professores que faltavam. Mas como o governo, na senda dos anteriores, quer que a educação, à semelhança da saúde, pague os calotes dos banqueiros e os empregos a amigos e afins, quer que as escolas trabalhem sem funcionários, sem professores e quer que os professores ponham a burocracia à frente do trabalho pedagógico.
A questão é: temos falta de professores, ninguém quer esta carreira que é mal paga, sobrecarregada com tarefas burocráticas e exigências que não correspondem ao trabalho de professor (ser médico, psicólogo, assistente social, secretário, arquivador, funcionário do INE e sei lá mais o quê), constantemente vilipendiada pelas associações de pais, governantes e afins e o ME acha de valor ameaçar que nos tira o salário por causa da porcaria dos sumários.
Quer saber quantos professores estão a dar aulas? Mande os caciques das cunhas que andam a arrastar o rabo pelos ministérios e poder local fazer de nossos controladores ao modo soviético. E de cada vez que um professor se atrasar num sumário mande-os dar-nos uma sova, mandar-nos para a prisão. Vergastadas ou execuções como o Irão. É o mínimo para este crime de atrasar-se a escrever os sumários.
É assim que se perde o respeito pelos governantes.
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