January 26, 2026

Jean-François Millet - 'Des glaneuses' (1857)

 

Em português, "As Respigadoras". As respigadoras eram camponesas pobres que iam ao restolho que ficava no chão no fim da ceifa, apanhar, uma a uma, as espigas que tinham ficado no chão. Poucas, como se vê pelas suas mãos, mas melhor que nada. 

Millet põem-nas em primeiro plano para mostrar a realidade de uma vida curvada, a apanhar os restos. Atrás delas vê-se a colheita do proprietário. São molhos e molhos de trigo altíssimos numa enorme abundância, guardados por um capataz montado a cavalo. As Respigadoras não olham para trás, não invejam, não se revoltam. Fazem o que têm de fazer pela sobrevivência.


Esta pintura é de 1857. Depois da Revolução que aboliu a Monarquia houve várias revoluções, umas para a reinstalar e outras para manter a República. O ano de 1857 é uma época em que os conservadores conseguiram impor algumas políticas do Antigo Regime, nomeadamente na educação, na economia, na limitação do direito ao voto. É uma época de grande pobreza, nomeadamente entre os camponeses que uns poucos anos mais à frente hão-de emigrar para as cidades que se industrializam para tentar uma vida melhor. Repare-se como o chão que estas camponesas respigam é já quase só terra.

Um estudo de Millet para a obra - Louvre

Neste estudo que Millet fez para a obra  as camponesas estão ainda mais dobradas, curvadas sob o peso de uma vida dura, de migalhas. 

Vamos a caminho de passarem dois séculos sobre esta época e voltámos à situação de enormes desigualdades sociais. Já não da mesma maneira, é certo, porque temos apoios a quem vive na pobreza, inimagináveis em 1857, mas estamos a recuar e não a avançar enquanto sociedades democráticas que têm esse objectivo de justiça social.

Procuro informação significativa que explique a situação económica a que chegámos mas não encontro. Vivemos num tempo em que gastamos mais mais dinheiro na saúde, mas a saúde está pior. Gastamos mais dinheiro nos serviços e os serviços estão piores. Todo o dinheiro é para pagar dívidas e não sobra nada para investir. Pelo contrário, dizem-nos que temos de desinvestir para pagar a dívida por causa dos mercados, essas entidades abstractas a quem pedimos dinheiro, não para investir e melhorar o país, mas para pagar os juros do empréstimo.

À medida que a classe média desaparece, cresce o número de milionários (no nosso país) e de bilionários no mundo. 

Voltámos ao tempo da respiga e dizem-nos que temos de nos conformar com a curvatura das costas, que é mesmo assim, isso de nenhum governo querer resolver o problema da economia e da abissal injustiça social. Só que não tem de ser assim como era em 1857, onde um pequeno número de pessoas acumula espigas como um doente mental e a maioria vive de migalhas.

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