December 19, 2025

Uma analogia com a educação - e não é boa

 



Podemos fazer uma analogia entre o treino incorrecto da voz e suas consequências, de que Jessye Norman, uma soprano operática formidável aqui fala, com o treino da mente, na educação escolar - de um modo inverso.

Se tentamos treinar tarde demais os processos linguísticos e cognitivos, muitos deles já atrofiaram. Se as ligações neuronais não foram feitas na devida altura, as redes neuronais já podaram esses neurónios que em tempos procuravam fazer ligações a outros neurónios e às redes.

A pobreza de linguagem com que os alunos chegam agora ao secundário impede a aprendizagem de muitos conteúdos formais e informais. São lacunas, não de informação, mas de formação de processos internos.

A pobreza de linguagem não se refere apenas a falta de vocabulário. Refere-se a pobreza na construção frásica, nos tempos verbais (afecta a compreensão das nuances das, e entre, possibilidades teóricas condicionais), nos elementos de ligação lógica (afecta a capacidade de acompanhar um raciocínio longo e complexo com várias premissas lógicas encadeadas) e nos vários constituintes do pensamento: discorrer, inferir, imaginar, especular, argumentar, negar... tudo isso implica um desenvolvimento de linguagem que a maioria dos alunos já não traz como bagagem de ferramentas de trabalho que lhes permita expandir o pensamento.

Repare-se neste diálogo entre dois rapazes açorianos. Vemos perfeitamente que não são estúpidos. Um deles fala da inutilidade da educação escolar para a sua vida futura de pescador - o que é falso, mas vê-se que ele não tem linguagem [mental] para compreender ou, sequer, aprender, uma educação formal académica. Não foi desenvolvida.



Quanto menos os alunos aprendem mais folhas nos obrigam a preencher (aí umas sessenta perguntas por cada aluno que tem negativa em testes) para parecer que fazem alguma coisa e ninguém reparar que não investem nos agentes de mudança que são os professores e os técnicos especialistas.

A incompetência de ministro atrás de ministro e de seus pedagogos da moda trouxe-nos aqui e ainda nos vai levar para um maior desastre. As coisas ainda estão longe do pior porque o desastre que são as políticas do ensino básico só agora estão a chegar ao secundário. 

Claro que o ministro não quer alunos a fazer exames para que tudo fique à mostra. Pelos vistos não basta os testes dos exames sempre os mesmos, de ano para ano, para os alunos chegarem lá já a saber o que dizer e fazer.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Ouvi dizer que este ministro quer pôr a carreira de professor com seis anos em cada escalão, em vez dos quatro que agora temos. E que tudo o que tem que ver com a educação vai passar a ser decidido e gerido por um organismo semi-independente do ministério e que as nomeações para esse organismo são políticas.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

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