A discussão sobre a inteligência artificial no ensino reabre o debate sobre o apoio escolar privado e as disparidades de acesso à aprendizagem.a propósito da recente polémica em torno do anunciado tutor de inteligência artificial (IA) para o ensino. Sabe-se ainda pouco sobre o projeto e é claro que será recomendável ensaiá-lo numa prova de conceito, experimentá-lo num projeto-piloto e avaliá-lo antes de o estender a toda a comunidade escolar.
Não se trata, evidentemente, de substituir os professores nem o seu papel crucial no ensino e no apoio aos estudantes. A IA deve apenas complementar essa função, sobretudo para quem está desamparado em casa e sem apoio familiar direto. É claro que nada será simples, sabendo-se que a informação imprecisa está ainda entre os maiores riscos dos sistemas avançados do IA. Ainda assim vale a pena tentar este uso da tecnologia para um bom propósito: o de ajudar aqueles que não podem pagar explicações privadas, oferecendo-lhes apoio até de forma personalizada.
Recordei, aliás, ao ler algumas das reações negativas imediatas contra o tutor de IA, outras muito semelhantes que testemunhei em diferentes ocasiões contra projetos mais disruptivos de modernização. Não me esqueço do que se disse aquando do anúncio do Cartão de Cidadão: que vinha aí o "Big Brother", que podíamos até ser clonados, que era de todo uma promessa falsa e um projeto impossível.
Maria Manuel Leitão Marques in dn.pt
*******
Maria Manuel Leitão Marques é uma euro-deputada da área da Economia, mas como é sabido toda a gente fala de educação como se fosse especialista.
O argumento dela para defender o tutor de IA é a necessidade dos alunos terem explicações fora da escola e os mais desfavorecidos não terem dinheiro para pagá-las. Acho este argumento fantástico: então agora, um sistema de explicadores privados já faz parte do projecto da escola pública?
Diz que o projecto não se destina a substituir professores, mas é mesmo disso que se trata: não havendo vontade política de investir na escola pública para captar jovens para a profissão e sabendo-se que a falta de professores se vai agravar ainda mais, dá-se a cada aluno um substituto de professor.
Quando havia professores em abundância nas escolas os alunos não precisavam de explicadores privados - nós próprios fazíamos esse serviço, os apoios estavam no nosso horário lectivo. Eram muito eficazes. Nuno Crato foi quem acabou com isso para mandar 30 mil professores embora e poupar dinheiro. Agora não há professores para leccionar as aulas quanto mais para apoios/explicações. Assumam, em vez de virem com falsos argumentos sobre os tutores de IA serem bons para os alunos. Não são.
O tutor de IA não é um substituo de professor. Uma coisa é usar-se a IA para projectos orientados por professores, o que já se faz e há-de fazer-se muito mais no futuro. É excelente, mas outra coisa diferente é usar um tutor de IA para aprender conteúdos ou para lhe fazer os trabalhos escolares.
Não sei se esta deputada já ouviu falar de Marco Buscaglia, um colaborador do Chicago Sun Times que escreveu um artigo com uma lista de livros de leituras de Verão, onde apenas 5 existem. Quando os leitores começaram a interrogar o jornal sobre aqueles livros inexistentes, Marco Buscaglia confessou que pede ao seu tutor de IA para lhe escrever os artigos para o jornal. Disse que costuma ir verificar se as informações da IA são correctas (cof, cof...) mas daquela vez se tinha esquecido.
A qualidade do conhecimento académico tem vindo a decair. Dantes íamos consultar enciclopédias e dicionários escritos por estudiosos nas áreas, depois veio o google e passámos a ir ao google e à Wikipédia onde escreve qualquer pessoa, mas ainda assim, tem controladores humanos que verificam as informações e conhecimentos que lá aparecem. Agora vai-se à opinião média do indivíduo médio do planeta - que como se sabe tem imensa credibilidade. Há um par de semanas o Grok de Musk respondeu a uma pergunta sobre o Holocausto dizendo que a sua realidade era polémica.
Uma coisa é um adulto, já formado e com conhecimentos usar a IA para buscar informações e ter espírito crítico para avaliar o que lê, outra coisa são crianças em processo de desenvolvimento das estruturas do próprio conhecimento, completamente vulneráveis, usarem tutores de IA.
O outro argumento da deputada a favor dos tutores de IA é o de serem "projectos disjuntivos de modernização" (algo que não se dá ao trabalho de explicar e deixa assim para parecer que é algo muito à frente) de maneira que quem adverte contra os perigos do seu uso é não-moderno ou atrasado - é o que deixa subentendido.
Finalmente dá como exemplo de "projecto disjuntivo de modernidade" que teve críticas, o caso do Cartão de Cidadão que muito diziam que era o Big Brother. Pasmo que esta política euro-deputada não perceba que é exactamente isso. Desde que temos o CC com dados biométricos que as autoridades, dentro e fora do país, sabem tudo a nosso respeito e se quiserem usam-no como ferramenta de controlo, como aliás já se faz na China de modo agressivo. Sim, é um meio de segurança e um instrumento muito eficaz e facilitador, burocraticamente falando, mas tem esse lado de intrusão na esfera da nossa privacidade. É tão eficaz que a deputada nem se apercebe disso.
Ora, o tutor de IA, não tem os benefícios de segurança ou de desburocratizarão do CC e tem os malefícios de ser um meio de informação não credível e manipulador de crianças e jovens em idades vulneráveis, intelectual e psicologicamente.
No comments:
Post a Comment