A crença num Deus (ou muitos) responde à pergunta: existem seres sobrenaturais e, existindo, será que um deles (ou vários) tem poder para ter criado o que existe? E quando morrer tenho acesso a esse nível de realidade sobrenatural? A crença num Deus (ou muitos) faz parte da procura de sentido para a existência e para a morte. É um projecto existencial. A crença num Deus (ou muitos) não obriga a nenhum culto, a nenhuma ordenação, a nenhuma obediência, a nenhum código moral específico, a nenhuma escatologia. Estas 'obrigações' já pertencem às religiões organizadas que pretendem sistematizar e manipular o projecto existencial das pessoas a partir da sua crença num ser (ou vários) sobrenatural.
A religião responde à pergunta: que tipo de sociedade queremos quando acreditamos em seres sobrenaturais poderosos e qual o lugar dos humanos nessa sociedade. A religião é um projecto ideológico e político de ordenação e controlo dos seres humanos por um grupo de homens que se intitulam os guardadores das palavras do(s) ser sobrenatural e conhecedores das suas intenções e se arrogam o direito de proclamar os sacrifícios devidos a esse ser sobrenatural.
Os primitivos, vendo o poder da Natureza, contra o qual quase não tinham defesa, divinizaram-no: o Sol, a luz e as trevas, as estrelas, o mar, o vulcão, o nascimento e a morte, a Primavera, etc. Mais tarde, deram nomes a essas realidades divinizadas e alargaram-nas a quase todas as áreas da esfera humana: o deus do vinho, do amor, da matemática, o deus com cabeça de cão, de gato, o deus das colheitas, etc. Seguidamente escolheram um desses seres sobrenaturais para ser o chefe dos outros, tendo mais poder que os outros: Ahura Mazda, Zeus, Rá, Júpiter, etc. Depois exageraram até ao absoluto o poder do ser sobrenatural e criaram os deuses únicos. De cada vez que se construiu um novo patamar neste zigurate, os anteriores, que o sustentaram, tornaram-se irrelevantes e até ridículos - quem hoje levaria a sério que se mudasse a organização social ou se praticassem sacrifícios para obedecer a um capricho de Poseidon ou de Aries? No entanto, continua a usar-se a crença num ser sobrenatural para exigir a mudança da organização social e para exigir sacrifícios a alguns humanos em benefícios de outros. Então, como outrora, no tempo do deus Sol, de Zeus ou de Rá, continua a haver sacrificados, embora já sem sangue, na maioria dos casos. e quem são os sacrificados? As mulheres (e as raparigas), as crianças e os seres humanos de raças e credos diferentes. Todas as religiões pedem o sacrifício destes no altar da ideologia religiosa, às mãos dos seus auto-proclamados guardadores dos segredos.
As religiões são a maior fonte de ódio entre os seres humanos e o maior projecto humano de discriminação. Muitas religiões são imorais, como diz esta comentadora. Praticam e pregam o ódio, a misoginia, o racismo, a intolerância, em suma, o sacrifício dos outros no altar do poder de uns poucos.
Quando lemos os textos das religiões, quando sabemos a origem da sua teologia e das suas «obrigações», para não falar dos seus 'santos', nada daquilo faz sentido fora de uma lógica de poder político. Um dia, quando se ultrapassar esta sociedade patriarcal vamos olhar para estes deuses e para as suas histórias e 'deveres' da mesma maneira que olhamos agora para a história de Rá ou de Zeus.
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