O Concierto de Aranjuez para guitarra é uma experiência da vida do maestro Rodrigo. Joaquín Rodrigo ficou cego aos três anos de idade. Estudou música e conheceu em Paris a sua futura mulher, Victoria Kamhi, uma pianista. Perderam o filho à nascença e a sua mulher ficou muito doente. Nessa altura, numa inspiração sublime pergunta (com a sua guitarra) a Deus (a orquestra) porque é que o filho morreu, porquê tanta dor. A orquestra responde-lhe. O concerto é um diálogo entre um homem e o seu Deus.
Se fecharmos os olhos ouvimos a Espanha de Sevilha ao Alhambra.
Ana Vidovic, uma guitarrista clássica extraordinária
Concierto de Aranjuez (Adagio) 1939 - Joaquin Rodrigo
Em tudo correndo bem escutarei esse concerto na Gulbenkian. Espero que com a cortina aberta, a ver os pássaros e as árvores, a imaginar-me a fazer a mesma pergunta de Joaquin Rodrigo.
ReplyDeleteHá muitos anos passou na RTP (penso eu de que...) um documentário muito interessante sobre a vida dele, ainda com ele.
Já fui católica, por educação, e acreditava em Deus, mas nunca vi Deus como um consolo. Aquela cena da confissão estragou-me completamente a religião - desde o 1º dia que senti aquilo como um abuso e uma violação de intimidade e tinha uma repugnância revoltada por aquilo, mesmo antes de saber o que eram essas coisas.
DeleteDeus era mais um ditador caprichoso e cruel com poderes mágicos e a minha relação com Deus era comercial, de troca de favores por auto-castigos.
Não me lembro de alguma vez ter feito perguntas a Deus. Nunca senti que fosse uma entidade que pudesse perceber alguma coisa dos problemas que me afligiam.
Também hei-de ir ver esse concerto.
Num certo sentido, estou em crer que escolher Deus como interlocutor é como escolher qualquer outra pessoa das nossas relações. É preciso descortinarmos algumas características no "outro" para que ele seja merecedor da nossa partilha de problemas.
DeletePode sempre argumentar-se que Deus não existe (e então não vale a pena a conversa) ou que Deus não responde. Santo Agostinho achava que a forma como Deus lhe respondia se evidenciava nas mudanças que ele imprimia à vida na sequência dos "diálogos" que mantinham.
Passei por momentos difíceis na vida e nunca achei que Deus me iria resolver o que quer que seja. A minha esperança era de poder encontrar força ou discernimento nas conversas que mantinha com Ele. Nunca contei que ele me resolvesse problemas; não está - diria eu - na sua (Dele) descrição de funções.
Percebo isso que me diz, da relação comercial. Penso que a Igreja Católica tem muita responsabilidade nisso. Mas também há uma idade para tudo. Assim se queira ter uma idade para tudo.
Mesmo quando acreditava na Sua existência, na realidade não acreditava. Deus era uma espécie de indivíduo tóxico que está sempre a tentar pôr-nos para baixo.
DeleteSanto Agostinho passou de um extremo ao outro e depois passou o resto da vida a justificar a traição a Platão que foi essa conversão 😁