As greves no setor público são de outra natureza. Quando os trabalhadores da administração e empresas públicas fazem greve, não prejudicam os detentores do capital. Ao invés, espatifam os bens públicos que o Estado fornece à população. Demoram os já excruciantemente lentos licenciamentos, processos de decisão, investigações judiciais, os julgamentos, as consultas nos centros de saúde e nos hospitais, a emissão de documentos, a resolução de situações com as Finanças ou Segurança Social. E um longo etc. Os serviços públicos prestados à população são interrompidos, numa bola de neve que cria problemas aos trabalhadores do setor privado, às famílias, e às empresas que são indiretamente afetadas por atrasos ou faltas dos trabalhadores.
Tudo isto é tanto mais indecoroso quanto as greves da função pública e nas empresas públicas afetam sobretudo a população mais pobre. Quem tem seguro de saúde e vai aos consultórios e hospitais privados não é afetado pelas greves do SNS, sejam de médicos, de enfermeiros ou de auxiliares. As famílias que conseguem pagar educação privada têm os filhos sempre com aulas, não expostos às ideias muito originais em se tratando de greves dos sindicatos dos professores. Também não se veem obrigados a faltar ao trabalho – e perder rendimento – para tomar conta dos petizes que afinal estão em casa e não na escola a aprender a fórmula resolvente. Quem se transporta de carro pode desesperar umas horas no trânsito, mas os trabalhadores que usam os transportes públicos apinhados e escassos são os mais castigados pelas greves nos comboios, metro, barcos ou autocarros públicos
Maria João Marques in https://www.publico.pt/
********
Há amplas evidências das condições de trabalho e salários precários das pessoas trabalhadoras da FP que têm levado as pessoas a desaparecer desses serviços e a ir para o privado ou a fugir do país, mas isso ainda não chega porque o objectivo é privatizar tudo, pois como diz a articulista, nos privados não há cá direitos de trabalhadores. Amochas ou vais para o desemprego, de maneira que a elite não tem que ver nem saber da miséria alheia que fica escondida de todos como se não existisse.
Há umas semanas fui a uma festa e às tantas, em conversa com um casal que conheci lá, ouvi-os contar como despediram uma funcionária -eles têm um negócio- porque ela ia ser operada e teve o descaramento de dizer que ia tirar as férias a seguir à operação para poder recuperar totalmente. Ora, isso punha-a fora do serviço um mês e meio (três semanas de recuperação + férias) de maneira que lhe disseram, 'vai e não voltes.' É isso que esta jornalista defende: não há cá greves em defesa dos direitos dos trabalhadores. Trumpize-se o país: não queres ganhar mal e trabalhar por três? Vai-te embora.
Estas pessoas que escrevem nos jornais e têm influência, podiam usá-la para defender a solução dos problemas -as escola continuam sem professores, os hospitais sem médicos e enfermeiros- mas em vez disso preferem escolher um sector da sociedade e demonizá-lo.
Na opinião desta jornalista as greves só existem para os sindicalistas se afirmarem e as pessoas que fazem greve são todas burras ao serviço de sindicatos.
E alega que as greves prejudicam os pobres. O que prejudica os pobres é serem pobres.
Só um pobre, diz ela, é que vai a um hospital público ou frequenta uma escola pública. Veja-se como sem querer revela a miséria em que estão os serviços públicos e porque ninguém quer ir para lá trabalhar, mas a sua conclusão é: reduza-se essa gente à insignificância. Porém, ao mesmo tempo, querem uma sociedade avançada como a finlandesa ou a dinamarquesa.
No comments:
Post a Comment