September 25, 2023

Ao KGB da ortografia

 

Anda por aí muita gente numa verdadeira caça ao erro em jornais, blogues e redes sociais. De cada vez que encontram um erro exultam quais KGBs que apanharam um espião mal camuflado. Vai logo para o Gulag do KGB do pequeno erro. Se o zek em questão é um professor, então, cantam o Exsultate, jubilate.

Uma pessoa que escreve muito, quer dizer, milhares de palavras por dia, comete erros. Alguns erros serão mesmo de não saber como se escreve a palavra, outros terão uma fonte mais obscura. Por exemplo, há uns anos, em que andava torturada pela ideia de que devia agir numa determinada situação, escrevi num texto de blog, aja, em vez de haja. Um internauta chamou-me a atenção e percebi logo a natureza freudiana desse lapso. Porém, nem sempre percebo a causa dos erros. Há tempos, aqui no blog, escrevi mais que uma vez, concelho em vez de conselho. Quantas vezes escrevo por ano o termo conselho em conselho de turma, conselho de encarregados de educação, etc.? Milhares. Começo logo no início do ano a fazer actas desses conselhos e a enviar emails aos EE a falar dos conselhos de turma. Porque é que naquele dia escrevi daquela maneira? Não sei, não faço ideia. 

Um dia, há uns anos, fui para as aulas -ainda conhecia mal os alunos- e certas palavras saíam-me com um 'l' no meio: 'atraslo', 'caslo', 'factlo' e outras do género. Quando disse a primeira, os miúdos riram, mas à medida que dizia outra e mais outra, olhavam para mim com um ar de espanto e eu estava a fazer um esforço consciente de não cometer esse erro e as palavras saiam-me assim. Porquê? Não sei...

Mas voltando aos KGBs da ortografia. A questão é que muitos desses caçadores de erros ortográficos cometem erros de pensamento e nem se dão conta (e alguns bem grosseiros e evidentes), mas uma pessoa no seu convívio com eles, não vai a correr apontá-los todos como se estivesse numa aula onde é preciso não deixar passar nenhum ou fosse um KGB do pensamento - enfim, a não ser que usem o seu mau pensar para nos atacar, pois aí temos que mostrar o erro ou que estejamos a discutir ideias.

A esses caçadores de erros ortográficos que em vez de chamar a atenção dos outros quando cometem um erro ortográfico, atiram logo a pessoa para o grau zero da humanidade, desejo-lhes uma vida menos mesquinha e estreitinha.


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